Médicos de Leste desesperam pela equivalência para o exercício da sua profissão em Portugal Um conjunto de médicos provenientes de países de Leste foi desafiado a lutarem pelo sonho de conseguirem exercer a sua profissão no nosso país, mas a realidade está a deixar muitos deles à beira do desespero. O Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) deu um primeiro passo e estabeleceu um protocolo com a Fundação Calouste Gulbenkian que permite a estes médicos efectuarem um estágio profissional e os exames que lhes permitam obter a equivalência para o exercício da profissão em Portugal. Rosário Farmhouse, directora do JRS em Portugal, fala de uma ano sofrido. “O protocolo tem corrido muito bem, mas a integração dos médicos que foram conseguindo as equivalências não foi tão fácil como julgávamos todos”, refere à Agência ECCLESIA. “Nenhum deles chegou ao nosso país como estudante, mas como trabalhadores. Nós desafiamo-los a deixar o trabalho que tinham e criaram-se expectativas que depois não se concretizam”, lamenta Rosário Farmhouse. Os médicos que aderem ao projecto têm um curso de português, inscrevem-se na faculdade após o reconhecimento dos documentos e fazem o referido estágio (de 4 a 6 meses). No final do estágio são confrontados com o exame de estado, seguindo depois para uma ano e meio de medicina tutelada. Para o protocolo de 3 anos com a Gulbenkian estão inscritos 120 médicos, dos quais 36 já começaram o processo em 2002/2003. O insucesso na altura dos exames preocupa seriamente a directora do JRS. “Apenas 18 passaram nos exames e alguns deles ainda aguardam resposta da Ordem dos Médicos porque acabaram já em Julho. Eu vejo que são pessoas que estudam imenso e vêem o sonho desfeito, pelo que estão muito deprimidas”, revela. “Neste momento temos alguns poucos colocados nos Açores, em Lamego, em Beja, Elvas, Torres Vedras e Alcanena, onde fazem mais falta”, conclui Rosário Farmhouse. UM ESTADO MAIS ATENTO A directora do JRS retomou ainda algumas das preocupações apresentadas ontem na reunião de todas as organizações católicas ligadas à imigração. Rosário Farmhouse falou de estudantes entregues À sua própria sorte e incapazes de obterem sucesso escolar por factores como a solidão, as dificuldades e o abandono a que são votados. “Os estudantes também criaram grandes expectativas, mas depois acham-se sós. Eles chegam sem sequer terem a língua bem sabida e há grandes dificuldades na integração escolar. Muitas vezes têm de ir arranjar emprego e deixam mesmo os estudos”. Os protocolos assinados com outras nações muitas vezes não são cumpridos e Rosário Farmhouse pede ao Estado português que “analise seriamente se há ou não condições para que os estudantes sobrevivam no nosso país, porque após a sua chegada a responsabilidade também é nossa”. Na área da saúde a situação é semelhante, prossegue. “Há protocolos em que o país de origem se compromete com o tratamento médico, mas não com o acompanhamento social. Assim as pessoas ficam abandonadas, especialmente os pais que vêm acompanhar os seus filhos”, assegura. “O nosso Estado tem de olhar melhor para estes casos e pensar melhor nos futuros acordos que venha a realizar, para perceber se o país de origem das pessoas tem ou não capacidade de as ajudar cá”, insiste Rosário Farmhouse.
