Entre o Natal e as raízes da Lusitânia

Em 2006, celebra-se o centenário do nascimento de Fernando Lopes Graça e o Coro Voces Caelestes interpreta a «Primeira Cantata do Natal» deste compositor português conhecido além fronteiras. A Agência ECCLESIA entrevistou o maestro do coro, Sérgio Fontão Agência ECCLESIA (AE) – Como surgiu a ideia de o coro Voces Caelestes interpretar a «Primeira Cantata do Natal» do maestro Fernando Lopes Graça? Sérgio Fontão (SF) – Fernando Lopes Graça é uma figura importantíssima da cultura portuguesa do século XX. E entre as muitas actividades que teve, recolheu – durante vários anos – música tradicional portuguesa. Uma boa parte da obra de Fernando Lopes Graça tem uma influência muito grande da música recolhida ao longo dos anos. Há peças instrumentais deste compositor que acusam essa influência. No caso da música coral, Fernando Lopes Graça produziu um número elevadíssimo de obras com base nessas recolhas que efectuou. Neste ano – comemora-se o centenário do nascimento de Fernando Lopes Graça – é fundamental que a obra deste compositor seja ouvida e cantada. É uma forma de homenagearmos um grande compositor português. AE – «A Primeira Cantata do Natal» está incluída nesse grupo? SF – São 19 canções tradicionais portuguesas alusivas ao Natal, Janeiras e Reis que Lopes Graça recolheu e depois harmonizou para coro à capela (sem acompanhamento instrumental). AE – Destes 19 cantos existe algum que sobressai ao ouvido? SF – Cada um deles tem a sua especificidade e importância. É uma música que está muito próxima das pessoas, não direi da geração mais recente, mas da geração anterior. Este património da canção tradicional – com a alteração das condições de vida e a crescente urbanização da sociedade – ficou um pouco perdido no tempo. Para as gerações mais antigas é uma oportunidade de recordar algumas canções conhecidas. Mãos de génio na composição AE – Canções tratadas pela mão deste génio… SF – É verdade. Lopes Graça valorizou o património popular – já de si é riquíssimo – mas ao trabalhar sobre esse material deu-lhe outro valor. AE – Cantos dos quatro cantos do país, incluindo as ilhas? SF – Não inclui cantos tradicionais das ilhas. Há canções populares das Beiras, do Alentejo e Douro. Lopes Graça e as pessoas que o acompanharam, nomeadamente Michel Giacometti, – etnomusicólogo que trabalhou muitos anos em Portugal – fizeram gravações de pessoas a cantar no meio rural. Com base nessa recolha – bastante exaustiva – Lopes Graça construiu parte substancial da sua obra. AE – Para além desta vertente tradicional, notamos também laivos de música de intervenção. O «Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal» é um exemplo? SF – A obra de Lopes Graça é riquíssima a todos os níveis e com uma dimensão enorme. Nesse conjunto temos obras muito distintas umas das outras. Nalgumas inspirou-se na música tradicional mas noutras bebeu noutras áreas. Ele é conhecido por ter uma intervenção cívica bastante activa e participou nos debates que preocuparam os intelectuais portugueses da sua época. Um «presencista» pouco acarinhado AE – Foi um «presencista» – desde a primeira hora? SF – É uma das vertentes da sua vida esta pertença ao grupo da Presença. Uma parte substancial da sua obra é reveladora dessa necessidade e urgência que ele tinha em intervir na sociedade. Um homem bastante activo que sofreu com isso. A sua carreira poderia ter sido mais acarinhada se as circunstâncias fossem outras. Lopes Graça acabou por ser proibido de dar aulas no ensino oficial e no particular, mais tarde. Não chegou a usufruir de bolsas para estudar no estrangeiro. Teve dificuldades na vida que uma pessoa com o seu estatuto intelectual normalmente não teria. AE – Um intelectual que subiu várias vezes ao pódio para receber prémios? SF – Como grande compositor que foi – independentemente das dificuldades que encontrou – foi agraciado e recompensado pelo seu magnífico trabalho. Recebeu quatro prémios do Círculo de Cultura Musical e, em 1980, foi condecorado pelo Presidente da República. No estrangeiro também recebeu algumas condecorações. AE – Um ano depois, em 1981, o governo húngaro convida-o para as comemorações do centenário do nascimento de Béla Bartók? SF – À semelhança de Lopes Graça, Béla Bartók foi um compositor que investigou e trabalhou sobre a música tradicional húngara. Há um paralelismo entre o trabalho dos dois compositores. O ser convidado pelo governo húngaro para esta ocasião demonstra o seu valor… AE – Mesmo além – fronteiras? SF – Um valor reconhecido internacionalmente. Divulgador da música tradicional portuguesa AE – Conhecido lá fora com o telurismo português. Fez mesmo uma composição musical de um poema de Miguel Torga «História Trágico – Marítima» SF – Como homem culto teve sempre uma relação muito próxima com a literatura portuguesa. Várias das suas obras foram construídas com base em textos de escritores portugueses: Miguel Torga, Camões, Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade. AE – Lopes Graça recorda as raízes desta «Lusitânia» SF – Sem dúvida. Trata-se de não esquecer a nossa memória. É uma oportunidade dourada de retomar o contacto com essa música valorizada por um compositor genial. AE – Michel Giacometti foi o parceiro ideal das caminhadas históricas? SF – Eles complementavam-se nessa recolha. Depois voltaram a alguns sítios e mostraram os arranjos musicais feitos por Lopes Graça. Manancial inesgotável AE – Uma dupla que deixou saudades? SF – A música tradicional portuguesa merecia mais atenção. Temos alguns compositores que fizeram arranjos de músicas populares mas não com a dimensão da obra de Lopes Graça. Este tipo de música é um manancial inesgotável. AE – Lopes Graça nasceu com a música no sangue? SF – Na sua adolescência, em Tomar, Lopes Graça acompanhava as sessões de cinema ao Piano. Nessa época, Lopes Graça tocava arranjos feitos por si de obras de outros compositores, inclusivamente estrangeiros. Dados biográficos de Fernando Lopes Graça Fernando Lopes Graça foi um dos mais notáveis compositores e musicólogos contemporâneos. Nasceu a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. Estudou em Coimbra, no Conservatório Nacional. As “Variações Sobre um Tema Popular Português”, para Piano são a sua primeira obra, datada de 1929. Membro da «Presença» – Revista literária fundada, dirigida e editada por Branquinho da Fonseca – desde a primeira hora colabora na revista até que em 1936 parte para Paris onde frequenta na Sorbonne a cadeira de Musicologia. Regressado a Portugal, em 1939, inicia um trabalho musical assente sobre elementos harmónicos, melódicos e rítmicos do folclore português. Em 1942 fundou uma organização de concertos de música moderna e em 1951 lançou a revista Gazeta Musical. Compôs música dramática, orquestral, concertante, de câmara, para piano, canções e coros, tendo obtido o Prémio de Composição do Círculo de Cultura Musical em 1940, 1942, 1944 e 1952. Inspirou-se largamente na música folclórica portuguesa. A sua obra de maior envergadura é o Requiem (para cinco solistas vocais, coro misto e grande orquestra), concluído em 1979 e estreado em Lisboa no ano de 1981. Crítico e publicista, publicou diversas obras, entre as quais Introdução à Música Moderna, 1942, Bases Teóricas da Música, 1944, Viana da Mota, 1949, e A Canção Popular Portuguesa, 1953.

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