Primeiro balanço do Sínodo deixa de fora questão do celibato sacerdotal

«Viri probati» não são solução para a crise vocacional. Situação dos divorciados que voltaram a casar continua em debate A discussão em torno do celibato obrigatório para os sacerdotes, na Igreja latina, e da possibilidade de ordenação de homens casados não deverá gerar nenhuma proposta específica do Sínodo dos Bispos. A assembleia sinodal considera que os “viri probati” (“homens testados” – expressão que designa homens de confiança casados, de comprovada fé e virtude) não são solução para a crise vocacional e procura, agora, saber “como responder ao urgente dever de oferecer o dom eucarístico de forma regular a todos os fiéis, mesmo nos países de missão e com falta de sacerdotes?”. O documento que recolhe as cerca de 230 intervenções dos padres sinodais nos primeiros 9 dias de trabalho, a “relatio post disceptationem” não alude a nenhuma das tomadas de posição sobre o celibato sacerdotal, tema presente ao longo de várias das Congregações Gerais. O Cardeal Francis Arinze, um dos três presidentes delegados do Sínodo, disse hoje aos jornalistas que a falta de padres no mundo “não é um problema, mas um sintoma”, dado que o verdadeiro problema é a “crise da fé” que atinge, em particular, a Europa. “O sacerdote é o fruto da comunidade, é o barómetro da sua fé”, sustentou o prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, na segunda conferência de imprensa desde o início do Sínodo. Também o Cardeal Juan Sandoval Iñiguez, Arcebispo de Guadalajara e presidente delegado do Sínodo, considera que a crise de vocações “é um efeito e não a causa”, apontando o dedo a fenómenos como a secularização, “que fecha a janela ao infinito e se concentra neste mundo, como se fosse o destino final do homem”. Neste contexto, o Cardeal mexicano defende que o recurso aos “viri probati” não representa uma solução, mas “um problema”, dando como exemplo a situação que se vive nas Igrejas Orientais ligadas a Roma “que têm padres casados, mas que sofrem, apesar disso, de crise de vocações”. “Muitas vezes, de facto, os padres casados não têm tempo para estudar, têm cuidar da família, divorciam-se e ficam com a responsabilidade de sustentar mulher e filhos”, relata. Um testemunho directo sobre esta matéria veio de D. Sofron Stefan Mudry, da Ucrânia, vice-presidente da comissão para a informação do Sínodo. Para o Bispo emérito de Ivano-Frankivsk, diocese com 360 padres casados (em 400), a situação “é muito difícil”. “Há problemas sociais e humanos na vida destes sacerdotes que não acontecem no Ocidente, onde se exige o celibato para o ministério sacerdotal”, esclareceu. Ao longo dos últimos dias, de facto, tinham sido várias as manifestações contra as “falsas expectativas” geradas em torno da possibilidade de serem ordenados homens casados. O documento agora apresentado altera mesmo a linguagem relativa às assembleias litúrgicas dominicais não presididas por sacerdotes: em vez de celebrações “na ausência de sacerdote” fala-se em celebrações nas comunidades “em espera de sacerdote”. Vários intervenientes, entre os quais o Bispo português D. Albino Cleto, pediram mesmo uma distinção mais clara no ordenamento litúrgico das celebrações presididas por um sacerdote e as que não o são, por forma a fazer perceber que a missão do sacerdote não é substituível. Divorciados e situações irregulares Outras das questões mais “mediáticas” do Sínodo continuará na ordem do dia. Os padres sinodais são desafiados a encontrar caminhos para “promover uma pastoral de comunhão e de acolhimento para todos os que vivem numa situação que impede o acesso à reconciliação sacramental e à Eucaristia (pessoas em união de facto, divorciados recasados, baptizados casados apenas civilmente)”. Na conferência de imprensa desta tarde, o Cardeal Arinze negou que se esteja a promover uma tendência de “regularizar as situações irregulares”, numa linha contrária à pedida por João Paulo II, que exigia maior rigor aos tribunais eclesiásticos na anulação dos vínculos matrimoniais. O presidente delegado do Sínodo frisou que “quando um tribunal eclesiástico declara nulo um matrimónio, não há possibilidade de engano”, mas lembra que “A Igreja não aceita o divórcio”, convidando os fiéis a considerar a situação dos divorciados que voltaram a casar “não como lei da Igreja, mas como lei de Deus”. “É verdade que estas pessoas sofrem, mas uma coisa é ter compaixão delas, outra é dizer que podem procurar outro marido ou mulher e receber a comunhão”, esclareceu. Para o Cardeal Francis Arinze é fundamental esclarecer que “estas pessoas continuam a ser membros da Igreja, mas num estado de vida que não lhes permite aceder à comunhão, porque a sua situação não reflecte a imagem de unidade entre Crsto e a sua Igreja”. O Cardeal Sandoval Iñiguez deixou, por seu lado, votos de que “a burocracia dos tribunais eclesiásticas não seja pesada, prevendo prazos adequados que não agravem o sofrimento das pessoas”. Confrontos com a sociedade O Arcebispo John Patrick Foley, presidente da comissão para a informação do Sínodo, explicou que “entre os problemas mais graves abordados pelo Sínodo está a crescente laicização da sociedade, com o dado de haver gente que já não reza ou que reza cada vez menos”. O prelado lembrou que foram “particularmente comoventes” os testemunhos de “heroísmo e martírio por causa da fé e do amor à Eucaristia” apresentados, sobretudo, pelos participantes provenientes de países do Leste. Já o Cardeal Telesphore Placidus Toppo, Arcebispo de Ranchi (Índia) e presidente delegado do Sínodo, falou dos desafios da inculturação, assinalando que esta não é o mesmo que “desfazer a liturgia para adaptá-la aos costumes locais”. “Nas coisas essenciais devemos permanecer unidos, até porque a Igreja é universal”, acrescentou. Para o Cardeal indiano, é preciso reflectir sobre o facto de a Eucaristia se destinar “à transformação espiritual e à libertação do homem”, pelo que o aspecto essencial é encontrar, em qualquer lugar, “a celebração que congrega toda a Igreja”. D. Sandoval Iñiguez acrescentou, em conclusão, que “o mais importante é que a música, a dança, as cores, etc. ajudem à interiorização, a unir-se com o Senhor, e que a cerimónia não se torne um espectáculo para divertir e nada mais”. Notícias relacionadas • As perguntas a que o Sínodo vai responder

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