Cristão ministro, ministro cristão

Testemunho de Bagão Félix nas Jornadas da Comunicação Social Política: ciência ou arte de governar; orientação administrativa de um governo; princípios directores da acção de um governo; arte de dirigir as relações de um Estado com outro; conjunto dos princípios e dos objectivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de actividades em determinado domínio. O ex-ministro Bagão Félix apresentou hoje em Fátima um testemunho sobre “Fazer política”, na segunda conferência das Jornadas da Comunicação Social. Apresentando uma visão intimista e pessoal dos 3 anos que passou como ministro, nos quais se cruzaram ambições, fracassos ou incompreensões, Bagão Félix afirmou que “a experiência como político é uma coisa que varia, quotidianamente, entre a euforia e o desejo de sair no minuto seguinte”. Definindo-se como um “cristão ministro, mas não um ministro cristão”, Bagão Félix começou por assegurar que muitas vezes ouviu “apartes” na Assembleia da República relacionados com a condição de católico praticante. Nesse sentido, apontou que vivemos num “Estado laico, não confessional”, mas deixou um alerta contra “a religião de Estado, o ateísmo humanitário”. “A laicidade do Estado não é laicidade da sociedade, não há confusão entre os dois. Isso subverte o princípio da subsidiariedade”, advertiu. Na mesma linha, declarou que o princípio da subsidiariedade é difícil de aplicar em Portugal “porque temos uma noção de que o Estado resolve tudo”. Sobre a sua experiência de cristão na política, o ex-ministro referiu que “ao entrar no ministério não deixava em casa a minha condição de católico, os princípios pelos quais me procuro reger. Acredito que me influenciaram no melhor dos sentidos”. “Todo o trabalho vale a pena quando é feito com amor e isso é assim dentro de mim porque eu acredito em Jesus Cristo”, prosseguiu. Dos principais conceitos da Doutrina Social da Igreja aplicados, Bagão Félix destacou a “cultura do próximo”, centrada “na procura do bem comum, que é uma noção muito intuitiva”. “A política nem sempre é o bem da maioria, o bem comum é para todos os homens e para o homem todo”, acrescentou. Sobre a participação dos católicos, mostrou-se convicto de que “nenhum partido tem o monopólio dos cristãos” e lamentou que não haja mais “pessoas de bem na política”. “Os chefes são líderes através do exemplo, não do poder. A política está a afastar as pessoas de bem por défice de exemplo”, afirmou. Batalha de valores Considerando que em Portugal se vive uma “batalha de valores” que exige, dos cristãos, compromisso na luta, Bagão Félix apontou o dedo “à ditadura do ter sobre o ser”. Numa intervenção pontuada por vários lamentos sobre as avaliações feitas à sua actuação (classificando como “ignóbil ataque” as críticas relacionadas com o último Orçamento de Estado), o antigo ministro afirma que “a política está sempre ao lado dos vencedores, é muito pouco sensível ao fracasso das pessoas concretas”. “É perigoso ter uma visão abstraccionista da pessoa, das crianças, dos idosos, da família”, alertou, após avisar que “a estatística é das coisas mais perigosas na política, porque só diz meia verdade e esconde meia mentira”. “Não vale a pena fingir. Quanto mais se quer agradar genericamente, mais se engana profundamente”, assegura. Bagão Félix identificou “adversários poderosos na política”, destacando “a nossa idiossincrasia, como povo, relativamente ao respeito pelas normas”. Dentro da referida batalha de valores entrou no discurso o possível referendo sobre o aborto, que foi classificado como “referendo ‘do dia seguinte’”. “Há-de haver referendos até ganharem os que defendem a liberalização do aborto. E se fosse ao contrário, que se diria dos cristãos como cidadãos, eleitores e contribuintes?”, perguntou Bagão Félix. Que política? “É fundamental fazer política com ética, somar valores com saberes”. Esta foi a fórmula apresentada pelo antigo ministro da Segurança Social e das Finanças. Defendendo que temos em Portugal “excelentes técnicos aos quais falta alma”, Bagão Félix explicou em tom de brincadeira que “a diferença entre a Arca de Noé e o Titanic é que a Arca de Noé foi feita por amadores…”. Nesse sentido, assegurou que preferiria políticos com “persistência, sentido humanista e solidariedade”. Admitindo que é difícil “conciliar a ética da convicção com a ética da responsabilidade”, o ex-ministro diz que a política exige regras elementares, nem sempre praticadas. “A política deve ter uma opção geracional, que não se esgote na ilusão do imediato. Deve existir coragem de decidir e de emendar quando se erra, percebendo que a política é expressão de limitação, de serviço, de verdade, de austeridade comportamental”, assinalou. “O trabalho do político não é uma maratona, é uma estafeta. Deve-se concentrar na solução dos problemas, sabendo que os recursos são escassos e não são auto-renováveis”, prosseguiu. Ditadura da omissão Relativamente ao trabalho dos Media, Bagão Félix apontou que “a pior censura que existe hoje é ‘a omissão da notícia’, que transforma o país num cenário de cépticos e de cínicos”. “Esse não é o país real”, alertou. Criticando a orientação que seguem os Meios de Comunicação Social e a “falsa neutralidade” que se vive no país, o ex-ministro frisou que “tenho mais voz como benfiquista do que como católico, não posso falar de coisas boas que ninguém noticia”. “A política é centrífuga, só aparece quem rouba, quem não cumpre a promessa, quem é corrupto”, lamenta.

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