Bento XVI, 100 dias à conquista da Igreja

Pontificado de continuidade cria expectativas positivas Cumprem-se hoje 100 dias sobre a eleição de Bento XVI, a 19 de Abril, tempo mais que suficiente para que o Papa, que muitos classificavam como distante e frio, tenha sabido ganhar o carinho dos católicos. As constantes referências a João Paulo II, o seu predecessor, ajudam a criar esse clima de simpatia, reforçado pela decisão de dispensar o período de espera de 5 anos para que se iniciasse o processo de beatificação. “Be-ne-de-tto!” é o grito que mais se tem ouvido nos seus encontros com os peregrinos, seja na Praça de São Pedro, seja na região alpina do Vale de Aosta, onde passa as suas férias até amanhã. Estes dias deixaram claras as linhas mestras da acção de Bento XVI, que herda o pesado legado de João Paulo II, com os seus mais de 26 anos de pontificado. Numa atitude de continuidade, o Papa alemão tem apostado no ecumenismo, no diálogo inter-religioso e na construção da paz e da justiça como os seus principais compromissos. Paz e unidade são, sem sombra de dúvida, as duas ideias chaves deste início de magistério do Papa Ratzinger, um homem que não abandonou a sua determinação na luta contra o relativismo “de um mundo ocidental cansado da sua própria cultura” (preocupação bem visível nos constantes apelos em defesa das raízes cristãs da Europa), mas que se apresenta mais capaz de fazer sínteses do que quando desempenhava funções como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Não seria de esperar que Bento XVI mantivesse a dinâmica de Papa peregrino de João Paulo II, pelo que são previsíveis menos viagens, mas de grande valor simbólico. Outra novidade prende-se com o facto de o Papa presidir apenas as cerimónias de canonização, deixando as de beatificação para delegados, entre os quais o Cardeal português D. José Saraiva Martins. Após uma primeira paragem para retemperar forças, o Papa prepara-se para a sua primeira viagem fora da Itália, um verdadeiro banho de multidão na sua Alemanha natal, aquando da Jornada Mundial da Juventude, em Agosto próximo. Os últimos 100 dias decorreram sem grandes decisões, excepção feita à obrigatória escolha do novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pelo que cresce a expectativa sobre a primeira encíclica de Bento XVI. O “Compêndio” do Catecismo da Igreja Católica não poderia, pela sua natureza, ser esse veículo de mudança e as reformas previsíveis, neste momento, relacionam-se sobretudo com a celebração da Eucaristia, que estará no centro do Sínodo dos Bispos, em Outubro. A eventual reforma da Cúria Romana, que o Papa admitiu enquanto prefeito de um dos Dicastérios mais importantes da mesma, também tem mobilizado muitas atenções. Esta semana, Bento XVI confessou por duas vezes que ser Papa “não era fácil” e que ele próprio sofria com os problemas do mundo e da Igreja com que se depara todos os dias. Foi nestes dias, precisamente, que se deu o primeiro “incidente” diplomático, por causa das críticas do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita ao facto de Bento XVI não ter condenado os atentados de Netanya, mas a Santa Sé já garantiu que os atentados em Israel também foram condenados pelo Papa, ao contrário do que foi dito pelas autoridades de Telavive. A condenação aos vários atentados que abalam o mundo tem sido, aliás, uma das imagens de marca de Bento XVI e a frase mais marcante destes 100 dias será, provavelmente o “Parem em nome de Deus!” que dirigiu aos terroristas. O Papa apresenta-se como um homem simples, algo tímido, e de imensas qualidades humanas e intelectuais, para além da capacidade teológica – e as pessoas têm gostado do que vêem, como o próprio já percebeu. Filme dos primeiros 100 dias de pontificado 19 de Abril – O Cardeal Joseph Ratzinger é eleito como o novo Papa da Igreja Católica, assumindo o nome de Bento XVI. “Depois do grande Papa João Paulo II, os senhores Cardeais elegeram-me a mim, um simples, humilde trabalhador da vinha do Senhor”, disse o Cardeal Joseph Ratzinger nas suas primeiras palavras como Papa. 20 de Abril – Primeira mensagem do novo Papa. Bento XVI concelebra um missa solene com os Cardeais que o elegeram, em Latim, na Capela Sixtina, tendo afirmado “com força” a sua vontade de “prosseguir a obra do II Concílio do Vaticano” e de João Paulo II. Nesse mesmo dia o Papa recebe o primeiro banho de multidão, quando saiu dos muros do Vaticano para visitar, passando entre o povo, a casa na qual residia até ao início do Conclave. 21 de Abril – Bento XVI confirma na presidência dos Dicastérios da Cúria Romana todos os Cardeais e Arcebispos que desempenhavam esses cargos até ao período da Sé Vacante. 22 de Abril – O Papa recebe os Cardeais presentes no Vaticano, naquela que foi a primeira audiência oficial do Pontificado. Perante estes, declara a intenção de cumprir a sua missão “com simplicidade e disponibilidade”. 23 de Abril – Jornalistas de todo o mundo são recebidos em audiência na Sala Paulo VI. Bento XVI agradeceu-lhes o trabalho desenvolvido e assegurou a sua disponibilidade para colaborar com eles durante o novo pontificado. 24 de Abril – Missa de inauguração do pontificado. “Neste momento não preciso de apresentar um programa de governo. O meu verdadeiro programa de governo é não fazer a minha vontade, não seguir as minhas próprias ideias, mas colocar-me, junto com toda a Igreja, à escuta da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me conduzir por Ele”, disse o Papa. 25 de Abril – Bento XVI recebe na Sala Clementina os representantes das Igrejas e Comunidades Cristãs, bem como de outras Religiões, que estiveram presentes na Missa de inauguração do pontificado. O novo Papa reafirmou que terá como prioridade o diálogo com todos os Cristãos e os crentes de outras Religiões. 27 de Abril – Primeira audiência geral. Bento XVI sublinha raízes cristãs da Europa e explica a escolha do seu nome: “Bento evoca a extraordinária figura de São Bento, um ponto de referência para a unidade da Europa e as irrenunciáveis raízes cristãs da sua cultura e civilização”. 1 de Maio – Recitação do Regina Caeli. Bento XVI defende direito ao trabalho e recorda “todos os povos que sofrem por causa das guerras, doenças e pobreza”, em especial o Togo. 2 de Maio – Os bispos do Sri Lanka inauguraram os encontros pessoais com Bento XVI por ocasião da sua visita “ad limina apostolorum”. 3 de Maio – O Presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi, é recebido no Vaticano. Bento XVI retribuirá a visita no dia 24 de Junho. 5 de Maio – Primeira visita a Castel Gandolfo. Bento XVI confirmou a intenção de passar na residência estival dos Papas, a 25 km de Roma. 6 de Maio – O Cardeal José Saraiva Martins informa que Bento XVI decidiu retomar a tradição de presidir só a cerimónias de Canonização. 7 de Maio – Bento XVI toma posse da Catedral do Bispo de Roma, a Basílica de São João de Latrão. “O Bispo de Roma senta-se na sua cátedra para dar testemunho de Cristo. Deste modo, a cátedra é o símbolo do poder de ensinar”, explicou. 9 de Maio – No dia que a Igreja Católica consagrava aos Meios de Comunicação Social, Bento XVI vincou a influência dos Media no mundo, tanto para “favorecer o diálogo” como para “fomentar a violência”, desafiando-os a terem um sentido de “responsabilidade”. 11 de Maio – Na audiência geral, o Papa apela aos católicos de todo o mundo para que se comprometam “na construção de uma sociedade inspirada em valores cristãos”, convidando sobretudo os leigos a actuar nos seus “respectivos meios”. Bento XVI fala em português pela primeira vez. 12 de Maio – Pela primeira vez no seu pontificado, o Papa concede uma audiência a todo o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, num total de 174 representações. Governantes, diplomatas, comunidades cristãs e homens de boa vontade foram convidados por Bento XVI a “construir uma sociedade pacífica, para vencer as tentações do conflito entre culturas, etnias ou mundos diferentes”. Na sua intervenção, o Papa apelou aos países que não têm relações diplomáticas estabelecidas com a Santa Sé para que dêem passos nesse sentido. 13 de Maio – Na memória litúrgica de Nossa Senhora de Fátima, Bento XVI anuncia o início imediato do processo de canonização de João Paulo II. “A causa para a beatificação de João Paulo II está aberta”, revelou, 42 dias depois da morte do seu predecessor. 15 de Maio – O Papa pede, na Solenidade de Pentecostes, que a Igreja se empenhe cada vez mais “na abertura das fronteiras entre os vários povos e na abolição das barreiras entre classes e raças”. 18 de Maio – Bento XVI recorda na audiência geral a figura do seu predecessor, “o inesquecível Papa João Paulo II”, que completaria 85 anos de idade. 20 de Maio – O Papa realça a “contribuição decisiva do Cristianismo” na Europa, ao receber o novo embaixador da Macedónia. 29 de Maio – Na primeira viagem do seu pontificado, à cidade italiana de Bari, Bento XVI reafirma o compromisso em favor da plena unidade dos Cristãos, “infelizmente divididos”. 30 de Maio – Bento XVI manifesta o seu apoio aos Bispos italianos na luta contra o referendo sobre a procriação assistida. O referendo viria a fracassar devido à elevada taxa de abstenção. 1 de Junho – O Papa anuncia a decisão de confiar à editora do Vaticano (Libreria Editrice Vaticana) a tutela de todos os direitos de autor e os direitos exclusivos de utilização económica dos seus escritos. 2 de Junho – Numa mensagem enviada ao colóquio “Cultura, razão e liberdade”, na sede da UNESCO, o Papa defende a “dignidade inalienável de cada ser humano, desde a sua concepção até ao fim natural”. 6 de Junho – Após a recitação do Angelus, lança um alerta à comunidade internacional para a crise que atingia a Bolívia, que considerou como uma “situação preocupante”. 9 de Junho – Bento XVI condena veementemente qualquer forma de anti-semitismo, ao receber no Vaticano uma delegação do Comité Judaico Internacional para consultas inter-religiosas (UCIC). 20 de Junho – Durante a oração do Angelus, na Praça de São Pedro, o Papa exige um maior compromisso da Igreja em favor dos Refugiados. 22 de Junho – Confirmação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, algo que acontecerá pela segunda vez na história. 24 de Junho – Primeira visita de Estado fora do Vaticano: encontro com o presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi. 27 de Junho – O Vaticano anuncia o tema escolhido pelo Papa para o 39º Dia Mundial da Paz, a celebrar em 1 de Janeiro de 2006: “Na verdade, a paz”. 28 de Junho – Aprovação e publicação do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, “síntese fiel e segura do Catecismo”. 29 de Junho – Bento XVI reafirma compromisso pela unidade dos Cristãos na Solenidade de São Pedro e São Paulo, em que impôs o pálio a 33 Arcebispos. 3 de Julho – Após a recitação do Angelus, Bento XVI pede aos países do G8 que adoptem medidas concretas para “erradicar a pobreza e ajudar a um verdadeiro desenvolvimento de África”. 4 de Julho – O Papa assegura que “a Igreja Católica fala para todos, mesmo para aqueles que a ignoram”, ao receber no Vaticano uma delegação da Diocese de Madrid. 7 de Julho – Bento XVI condena os atentados terroristas que atingiram a cidade de Londres, classificando-os como “actos bárbaros contra a humanidade”. – É apresentado no Vaticano o “Instrumento de trabalho” para o próximo Sínodo dos Bispos (2 a 23 de Outubro). 10 de Julho – “Parem, em nome de Deus!” diz o Papa, na Praça de São Pedro, a todos os terroristas. 11 de Julho – Início do período de férias na região do Vale de Aosta, nos Alpes italianos. 20 de Julho – O Papa defende por trás dos atentados terroristas como o de Londres não está “um choque de civilizações” entre o Ocidente e o mundo Islâmico. 24 de Julho – Bento XVI condena os “execráveis atentados terroristas ” que atingiram numerosos países. – O Ministério dos Negócios estrangeiros de Israel critica o Papa por “ter omitido” o atentado de Netanya, ocorrido a 12 de Julho. 25 de Julho – Num encontro com o clero do Vale de Aosta, Bento XVI revela estar a estudar a situação dos divorciados na Igreja, lembrando que estes “não estão excluídos do amor da Igreja, nem do amor de Cristo”. Aos jornalistas diz que os recentes ataques terroristas não podem ser considerados como actos dirigidos “contra o Cristianismo”.

Partilhar:
Scroll to Top