Compêndio do Catecismo da Igreja Católica apresentado no Vaticano
Após uma caminhada relativamente breve, se tivermos em conta o tempo de vida habitual dos Catecismos na história da Igreja, chega hoje ao mundo católico o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, síntese da grande obra de 1992 patrocinada por João Paulo II. O documento já foi apresentado por alguns como uma lista dos “interditos” da Igreja Católica, centrando o olhar sobre a parte moral e esquecendo a parte doutrinal. A caça ao “erro” e às “contradições” marcou a análise de um documento que merece melhor abordagem. O Catecismo e a sua síntese são, na sua essência, instrumentos para todas as idades e todas as pessoas interessadas em perceber “a doutrina cristã sobre a fé e a moral”, numa apresentação que se procura adaptar à vida actual dos cristãos. Não pode, por isso, chocar que se reafirmem os princípios fundamentais da Igreja sobre o aborto, eutanásia, homossexualidade, a guerra, a família e o matrimónio, por exemplo. Bento XVI explica que o Compêndio não é uma obra autónoma, “pois não pretende, de modo nenhum, substituir o Catecismo da Igreja Católica”. Pelo contrário, remete continuamente para ele, quer mediante a indicação, ponto por ponto, dos números a que se refere, quer através da contínua referência à estrutura, ao desenvolvimento e aos seus conteúdos. Como o Catecismo, também o Compêndio se divide em quatro partes, de acordo com as leis fundamentais da vida em Cristo. A primeira parte, intitulada “A profissão da fé”, é uma síntese da fé professada pela Igreja Católica, retirada do Símbolo Apostólico ilustrado com o Símbolo Niceno-Constantinopolitano (217 perguntas). A segunda parte, intitulada “A celebração do mistério cristão”, apresenta os elementos essenciais da celebração sacramental e litúrgica (perguntas 218 a 356). A terceira parte, intitulada “A vida em Cristo”, chama a atenção o empenho que os baptizados têm de manifestar nas suas atitudes e nas suas opções éticas de fidelidade à fé professada e celebrada (357-533). A quarta parte, intitulada “A oração cristã”, apresenta uma síntese vida de oração (534-598). O Compêndio começa com o Motu Proprio promulgado por Bento XVI para a aprovação e publicação do mesmo, e com uma breve introdução do então Cardeal Joseph Ratzinger, datada do último domingo de Ramos (20 de Março de 2005), a quem João Paulo II tinha confiado, em 2003, a presidência da comissão de redacção (ver notícias relacionadas). O livro inclui um duplo apêndice, no qual se apresentam as “Orações Comuns” (desde o sinal da Cruz até ao acto de contrição) e “Fórmulas da doutrina católica” (os sete dons do Espírito Santo, as obras de misericórdia, as bem-aventuranças, etc.), também em Latim. O Papa pede que sejam aprendidas nessa língua para “ajudar à sua recitação comum” por fiéis de todo o mundo. A publicação é da responsabilidade da Livraria Editora do Vaticano e da editorial San Paolo. As traduções para outras línguas serão coordenadas pelas Conferências Episcopais. Na obra são incluídas 14 imagens, de obras primas da arte cristã de todos os tempos, para ilustrar o início de cada parte ou secção. “As imagens sagradas, com a sua beleza, são também anúncio evangélica e expressam o esplendor da verdade católica”, justifica o Papa. O índice que permite ao leitor encontrar a resposta que procura vai desde a palavra aborto à entrada YHWH. Conteúdos essenciais Não há, um novo Catecismo, mas uma síntese do mesmo, numa linguagem dialogante, alimentada pelas 598 perguntas e respostas sintéticas. A intenção é que qualquer pessoa possa consultar, rapidamente, os conteúdos essenciais da fé católica no volume (para já apenas em italiano) de duzentas páginas. O Catecismo de Wojtyla promulgado em 1992 não foi mudado nem nada lhe foi acrescentado, após uma vida de sucesso, com mais de 8 milhões de cópias vendidas e 60 línguas. Bento XVI explicou hoje que o surgimento do Compêndio foi justificado pela “cada vez mais ampla e insistente exigência de um catecismo em síntese, breve, que apresentasse todos e só os elementos essenciais fundamentas da fé e da moral católica, formulados de forma simples, acessível a todos, clara e sintética”. O Papa apresentou o “Compêndio” como “um texto autorizado, seguro e completo a respeito dos aspectos essenciais da fé da Igreja”, referindo que o mesmo está em “plena harmonia” como o Catecismo aprovado por João Paulo II. O Compêndio retoma o modelo de perguntas/respostas, de forma a tornar mais acessíveis os conteúdos do Catecismo de 1992, mas o Papa deixou claro que “não se trata de um novo Catecismo, mas do Compêndio que espelha fielmente o Catecismo da Igreja Católica”. Este permanece como “fonte da qual se deve partir para compreender melhor o próprio Compêndio, ou seja, o modelo para o qual olhar incessantemente de forma a reencontrar a exposição harmoniosa e autêntica da fé e da moral católica”. Destinado a “toda a Igreja”, o Papa disse que o mesmo de dirige ainda a “todas as pessoas de boa vontade, que desejam conhecer as riquezas insondáveis do mistério salvífico de Jesus Cristo”. A apresentação do Compêndio foi feita numa cerimónia litúrgica, na Sala Clementina do Vaticano. O Papa entregou onze exemplares do Compêndio a representantes das várias categorias do povo de Deus: um Cardeal, um Bispo, um padre, um diácono, um religioso, uma religiosa, uma família, dois jovens, duas crianças, três catequistas e um agente pastoral. Bento XVI fez a história do documento, lembrando que passaram pouco mais de dois anos o pedido do seu predecessor, João Paulo II, de preparar tal Compêndio – confiando esse encargo a uma comissão especial. O Papa classificou este percurso como “dois anos de trabalho intenso e profícuo”, sublinhando o envolvimento de todos os Cardeais e presidentes das Conferências Episcopais. Dans son introduction à l’ouvrage rédigée le 20 mars, avant la mort de Jean Paul II, le cardinal Ratzinger souligne que le document a recueilli un avis favorable de “la majorité absolue” des évêques consultés. Mandamentos
O capítulo que levantou mais reacções, desde a apresentação do Compêndio, foi o comentário aos 10 Mandamentos. Na parte intitulada “A Vida em Cristo” percorre-se, um a um, os Mandamentos do Decálogo, chamando os católicos a comportamentos e escolhas éticas que devem ser seguidas. Desde a proibição da “idolatria, agnosticismo e ateísmo prático” à exigência de reconhecimento civil do Domingo como dia festivo, chega-se ao mandamento de “honrar pai e mãe”, no qual se defende a família como “célula originária da sociedade humana” e que o Estado deve “respeitar, proteger e favorecer a verdadeira natureza do casamento”. O quinto mandamento “Não matar” assinala a proibição do aborto, do suicídio e da eutanásia, exige a protecção do embrião e contempla a desobediência civil quando as leis se opõem à ordem moral. Considera ainda imoral a fecundação artificial, recorda que os católicos divorciados e que se voltaram a casar não podem receber a comunhão, reconhece o direito à legítima defesa e sublinha que na sociedade actual a pena de morte não faz sentido, sublinhando que “os casos de absoluta necessidade da pena de morte são muito raros, mesmo praticamente inexistentes”. Sobre o uso da força militar, o Compêndio recorda que é justificado, hoje em dia, na presença de certas condições: “certeza de um dano rápido, duradouro e grave; ineficácia de qualquer alternativa pacífica; fundadas possibilidades de sucesso; ausência de males maiores, tendo em conta a actual potência dos meios de destruição”. O texto afirma, peremptoriamente, que a paz no mundo “requer equidade na distribuição dos bens das pessoas, a livre comunicação entre seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos”. No sexto mandamento, “não cometer adultério”, exorta-se os fiéis a evitar “adultério, masturbação, fornicação, pornografia, prostituição, violação e actos homossexuais”. O Compêndio refere que o inferno é uma condenação para os que escolheram o mal livremente e que o juízo final terá lugar no fim do mundo, algo que só Deus sabe quando terá lugar. A respeito do axioma “fora da Igreja não há salvação”, o texto precisa que a salvação vem de Cristo e que não podem ser salvos aqueles que, conhecendo-o, não perseveram. Notícias relacionadas • Introdução ao Compêndio do Catecismo da Igreja Católica • Aprovação e publicação do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica • Compêndio do Catecismo: uma longa caminhada
