Igreja promove I Jornadas da Pastoral da Cultura Fátima recebe, entre hoje e amanhã, as I Jornadas da Pastoral da Cultura, sobre o tema “O entretenimento: valores e contradições”. Cerca de uma dezena de especialistas foram chamados a oferecer o seu contributo sobre esta temática que a vida contemporânea vem revelando como determinante. D. Manuel Clemente, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, refere à ECCLESIA que esta iniciativa “é uma responsabilidade, porque nós como Igreja agimos para que o Evangelho seja uma realidade na vida das pessoas”. Hoje, com a crescente importância do entretenimento na vida dessas mesmas pessoas, uma reflexão pastoral afigurava-se como indispensável. O Bispo auxiliar de Lisboa admite que “a vida, a festa, o tempo livre são realidades maiores que nós precisamos de considerar”. “Temos uma doutrina no que diz respeito à prática sacramental, à acção socio-caritativa, sobre a vida profissional, mas sobre o entretenimento não há muita reflexão feita nem proposta”, admite. A intenção, a partir destas Jornadas, é motivar as pessoas da Igreja a olharem para uma realidade “que não era considerada”. “O Evangelho tem de incidir nesta área cada vez mais alargada da vida das pessoas”, insiste o prelado. Apesar desta “ausência”, o presidente da Comissão episcopal para a cultura lembra que muitas são já as comunidades cristãs que oferecem soluções e propostas “ao nível dos tempos livres, ao longo do ano, e do tempo das férias, como acções de voluntariado”. Para D. Manuel Clemente, é importante que o entretenimento seja uma “escolha” e não se transforme em “consumo”, para que possa ser um espaço de realização. “O entretenimento pode ser fruto do envolvimento pessoal e criativo de cada um”, precisa. Demonizar é um erro O Pe. Tolentino Mendonça, director do Secretariado Nacional da Cultura, considera um erro a tentativa de “demonizar” o entretenimento, frisando que hoje é necessário que a Igreja “tenha uma palavra sobre a cultura, pensando a pastoral em termos culturais”. “O entretenimento dá-nos o sorriso de Deus e é uma das dimensões fundamentais da vida, porque, a par do trabalho, da construção exterior do mundo, há esta dimensão de vida interior”, explica. Considerando que esta realidade continua a ter aspectos muito positivos, com dinamismos de “construção humana”, Tolentino Mendonça não deixa de apontar o dedo às “contradições” que marcam o entretenimento, sobretudo a sua dimensão “pré-fabricada, enlatada”. “É preciso que não haja atropelos da vida interior, mas um reforço das dimensões principais da vida”, esclarece, lamentando que a ocupação dos tempos de lazer seja cada vez menos fruto de uma escolha pessoal. Falando numa “ditadura” do entretenimento, o padre poeta convida as pessoas a “discernir aquilo que nos é oferecido, porque os modelos dominantes são vazios, em termos humanos, porque não dão tempo à pessoa para desenvolver o seu sentido crítico”. Nesse sentido, estas Jornadas podem oferecer “uma reflexão à margem da grande ambiguidade que o entretenimento contém”. Este responsável assinala que, na Igreja Católica, há uma rede, que é necessário consolidar, de iniciativas locais, paroquiais, regionais e diocesanas “que, estando muito mais próximas das pessoas, não impõem um modelo dominante, mas cimentam a criatividade de pequenas associações e grupos”. “Hoje vivemos um drama muito grande, que é o da eliminação da cultura popular, substituída por uma cultura suburbana, muito desenraizada, na qual há poucas expressões que traduzam a alma das pessoas”, alerta.
