A Santa Sé considera que o tráfico de mulheres e a prostituição são “um ultraje à dignidade feminina”, exigindo que a Igreja Católica assuma a defesa “dos direitos das mulheres e da sua imagem”. A posição foi assumida pelo Cardeal Stephen Fumio Hamao, presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes (CPPMI), no “I Encontro Internacional de Pastoral para a libertação das mulheres de rua”, promovido pelo Dicastério, em Roma. Os dois dias de trabalho, que hoje se encerram, são encarados pela Santa Sé como uma “oportunidade de reflexão” para todos os que trabalham em defesa das vítimas da prostituição. O encontro enquadra-se no sector específico de pastoral da mobilidade humana, que interpela a Igreja sobre a situação de todos os que passam a sua vida nas ruas. Neste contexto, o Dicastério promoveu em 2003 o I Encontro Europeu de Directores Nacionais da Pastoral da Estrada, e em 2004 o I Encontro Internacional para a Pastoral das Crianças de Rua, ambos em Roma. “Julgámos oportuno organizar este encontro com o objectivo de estudar um fenómeno que – longe de estar debelado no percurso da evolução civil – penetra ainda hoje as nossas sociedades. Falo do comércio sem escrúpulo de mulheres, as chamadas mulheres de rua”, disse o Cardeal Hamao. Este comércio é, para o presidente do CPPMI, “uma consequência primária, em grande parte, de um sistema injusto, que está na base da nossa sociedade, e que, em vários âmbitos, gera formas de exploração da mulher”. Citando o uso impróprio da imagem feminina, o interminável flagelo da prostituição, as novas formas de escravidão, ou seja, o tráfico de mulheres e a indústria do turismo sexual, o Cardeal japonês defendeu que “tudo isso constitui um ultraje à dignidade da mulher, e provoca graves violações dos mais elementares direitos humanos”. O Arcebispo Agostino Marchetto, Secretário do CPPMI, lembrou na sua intervenção que “a prostituição não significa uma escolha fácil, superficial, de prazer, mas, pelo contrário, esconde muitas vezes uma dor, uma ferida, um sofrimento com o qual conviver… para sobreviver”. “Para algumas pessoas, a prostituição é a única ‘saída’, que impede de ‘sair’, e traz consigo violência e cinismo, destruição de si e dos outros, e por vezes, até a morte. Mas na realidade, o que a mulher de rua, como todo ser humano, quer ser amada e considerada por alguém”, acrescentou. A Organização Internacional das Migrações calcula que cerca de meio milhão de mulheres, provenientes da Europa oriental, sejam escravizadas e obrigadas a prostituírem-se na Europa ocidental. A estimativa é que, somente na Tailândia, entre 150 e 200 mil mulheres estejam nessa situação, entre as quais 35 mil têm menos de 18 anos. Entre os relatores deste Congresso está também D. Oreste Benzi, responsável pela Comunidade Papa João XXIII, empenhada há muitos anos em ajudar as mulheres a se libertarem da escravidão da prostituição. “O Congresso é um passo em frente muito notável e importante: é a Igreja toda que se coloca frente ao problema desta horrível escravidão”, disse. “O tráfico de seres humanos, com especial atenção às mulheres destinadas à prostituição” é o título da intervenção que promoverá Mariette Grange, representante da Comissão Católica Internacional de Migração (www.icmc.net). Por sua parte, o sociólogo Mario Pollo apresentará uma visão de conjunto como resultado da pesquisa sobre o tema objecto do Encontro, e dará a palavra a um grupo de especialistas que em uma mesa-redonda traçarão as grandes linhas de uma pastoral específica. Um momento final de debate, propostas e comunicações precede à conclusão do Encontro.
