Após uma época de certa crise da teologia, antevejo, neste início de milénio, momento fecundo na produção teológica, até por necessidade de responder aos desafios hodiernos, com radicalidade evangélica. O papel da teologia como releitura permanente das verdades perenes da fé, segundo as expressões multiculturais, à luz dos sinais dos tempos e em resposta aberta aos anseios espirituais de cada hora da história, é sempre de exigente liberdade e criativa fidelidade. O serviço da teologia às comunidades cristãs é de ousadia de quem escuta o Espírito Santo e de firmeza crítica perante os ventos agitados de uma certa confusão mental, patente em alguns produtos culturais passageiros, mas momentaneamente potentes. A Tradição obedece à exigência de fidelidade ao acontecimento irrepetível da Revelação e à exigência de progresso, derivada das riquezas de Cristo presente na Igreja. Não tem nada de imobilismo funda-mentalista, que coisifica o conteúdo da fé, nem de tradicionalismo que absolutiza as formas ou muito menos de integrismo. Não sendo espiritualista e por isso encar-nando, não se subjuga a nenhuma cultura, a nenhuma forma política, a nenhuma língua. A reflexão cristã vai descobrindo novos aspectos, novos detalhes, novas relações com outras realidades, com outras ideias, com outros problemas. Daí surgem derivações, consequências mais largas e inovadoras. A revelação de Deus ao sujeitar-se à linguagem humana adquiriu toda a sua potencialidade e aceitou toda a sua pobreza, todas as virtualidades e limites da humanidade. Se esta linguagem é veraz, como a Palavra de Deus, dá-nos a conhecer a realidade objectiva, mas a sua plenitude restará velada em virtude da dita pobreza. Por isso existe uma gradualidade de desenvolvimento do conhecimento. O depósito das verdades reveladas não aumenta com a história, mas enquanto entendido por nós é sujeito ao progresso, porque se descobrem modos de formular as verdades, de as compreender mais plenamente, de modo gradual, como é próprio do conhecimento humano. O mistério da salvação, manifestado em revelação, não é confinado ao passado. Faz-se presente em cada tempo da Igreja: portanto, renova-se a experiência, a consciência, a inteligência. O mistério não cresce, cresce é o entendimento que dele obtém a Igreja. Assim podemos entrar no mistério, que se desdobra e entra-nos na vida e envolve-nos. A maior inteligência conse-guida, através do estudo e da prática, torna-se componente de nova experiência, que por sua vez influencia nova compreensão. O Mistério torna-se presente de muitas formas: nos sacramentos, na palavra, em toda a vida cristã. Também pela proclamação dos bispos, que com autoridade anunciam, explicam e realizam o mistério. Não automaticamente, mas se estudam, se expe-rienciam na vida, se usam a inteligência. Conjugar inteligência e amor à Igreja, sapiência e contemplação é hoje essencial para os teólogos. Uma teologia especulativa sem contemplação pode cair no positi-vismo, ser reduzida a uma colecção de dados, aparecer como um jogo intelectual. Ter no serviço pastoral de Sucessor de Pedro um dos grandes teólogos do século XX é momento oportuno para não temer o desenvolvimento criativo do lugar da teologia e dos teólogos na vida da Igreja. Com certeza que manter na unidade da fé implicou ao Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé chamar a atenção para visões próprias que corriam o risco de criar divisionismo insanável e perturbar a serenidade inquieta da fé. Mas até o peso desse encargo preparou o actual Bispo de Roma para levar por diante dimensões inovadoras e rigorosas, com uma autoridade indiscutível e encetar passos reformadores firmes que melhor que outros domina e conhece. D. Carlos A. Moreira Azevedo
