Sempre Totus tuus, escreveu João Paulo II continua a comunicar por escrito e manifestou a intenção de levar a sua missão como Papa até ao fim. O porta-voz do Vaticano revelou que, após a operação, João Paulo II escreveu num bilhete “eu sou sempre Totus tuus(todo teu)”, o lema do seu Pontificado, que figura nas armas pontifícias e remete para a sua devoção a Nossa Senhora. “Que é que me fizeram?”, escreveu ainda. Joaquín Navarro-Valls disse que este foi o primeiro gesto do Papa assim que saiu da sala de operações, ainda a sob o efeito da anestesia. Enquanto o Papa está doente, a gestão dos assuntos correntes do Vaticano e da Cúria fica a cargo do Cardeal Angelo Sodano. Vários especialistas em Direito Canónico foram unânimes em afirmar que mesmo a partir de um hospital, é possível a quem governa a Igreja exprimir a sua vontade, dar ordens e disposições. A traqueotomia impedirá o Papa de falar nos próximos dias, mas os mesmos especialistas consideram que é possível exercer o Governo da Igreja, manifestando a vontade por gestos e por escrito. O Código de Direito Canónico não prevê explicitamente situações de incapacidade prolongada, mas tem uma lei fundamental para a chamada “vagatura ou total impedimento da Sé romana” (cân. 335): “nada se inove no governo da Igreja Universal”. Em caso de “impedimento total”, é ao Cardeal Camerlengo –actualmente o espanhol D. Martinez Somalo – que compete a gestão dos assuntos correntes, mas nenhuma das decisões que competem ao Papa pode ser tomada. O estado de saúde do Papa tem dado azo, ao longo dos anos, a diversas especulações desde que, no atentado de 13 de Maio de 1981, foi atingido por uma bala. Esta é a décima vez que João Paulo II passa por um hospital, durante o seu Pontificado, embora em Julho de 1993 e Agosto de 1996 se tenha tratado de curtas passagens para ser submetido a uma TAC. As vozes que consideram o Papa incapaz de governar a Igreja aproveitaram as suas últimas dificuldades físicas para sugerir que a renúncia estaria próxima, mas essa ideia nunca pareceu fazer parte dos planos de João Paulo II. No ano 2002 encontramos uma onda de rumores semelhante, relativamente à eventual renúncia do Papa, embora haja várias pequenas réplicas ao longo dos anos. Nessa altura, especulou-se que João Paulo II iria aproveitar uma viagem à sua Polónia natal para anunciar a sua retirada para um mosteiro de clausura. No decorrer dessa viagem, contudo, o que se ouviu foi o Papa a rezar à Virgem de Kalwaria, pedindo “as forças do corpo e do espírito para que possa cumprir até ao fim a missão que me foi confiada pelo Ressuscitado”. Pouco depois, no Vaticano, João Paulo II lembrava que “Cristo não desceu da cruz”. A questão da renúncia dos Papas tem um precedente na história, com a abdicação de Celestino V, em 1294, após 5 meses de pontificado. Este acontecimento, em condições políticas muito difíceis, fez com que se aprofundasse a legislação em torno das modalidades de renúncia à Sé de Pedro. Actualmente, ela está prevista no Código de Direito Canónico (cân. 332, parágrafo 2), sob condições muito estritas: “se acontecer que o Romano Pontífice renuncie ao cargo, para a validade requer-se que a renúncia seja feita livremente, e devidamente manifestada, mas não que seja aceite por alguém”.
