{"id":99719,"date":"2018-03-19T11:05:04","date_gmt":"2018-03-19T11:05:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=99719"},"modified":"2018-03-19T11:05:04","modified_gmt":"2018-03-19T11:05:04","slug":"preencher-a-vida-com-espacos-vazios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/preencher-a-vida-com-espacos-vazios\/","title":{"rendered":"Preencher a vida com espa\u00e7os vazios"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Autor<\/a><\/em><!--more--><\/p>\n<p>Na quaresma os altares despem das flores, a liturgia dos aleluias, as vestes de cor p\u00farpura, procurando um ambiente mais reflexivo. No fundo s\u00e3o espa\u00e7os vazios para nos ajudar a (re)pensar na vida.<\/p>\n<p>Nos prim\u00f3rdios da humanidade, o saber transmitia-se atrav\u00e9s da palavra falada. Depois, com a escrita foi poss\u00edvel armazenar mais o conhecimento, mas s\u00f3 alguns tinham acesso a ele. A raz\u00e3o era simples, as letras estavam dispostas umas a seguir \u00e0s outras, sem espa\u00e7os a dividir as palavras. Assim, apenas os escribas conseguiam ler se o fizessem em voz alta.<\/p>\n<p>O que tornou a leitura acess\u00edvel \u00e0 pessoa comum, como tu e eu, foi a introdu\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os vazios.<\/p>\n<p>Depois, embora ainda se escrevam par\u00e1grafos em livros que ocupam uma p\u00e1gina inteira, se houver par\u00e1grafos mais curtos e espa\u00e7ados, n\u00e3o s\u00f3 a leitura fica mais leve, como aumenta a nossa capacidade de reter o que lemos e distinguir o contexto essencial da mensagem. V\u00ea o que acontece com a expans\u00e3o de artigos em blogs.<\/p>\n<p>Ainda, quando queremos arrumar uma mesa de trabalho, arm\u00e1rio, ou alguma divis\u00e3o em casa, se o esfor\u00e7o servir para eliminar objectos e deixar o espa\u00e7o mais vazio, fica a sensa\u00e7\u00e3o de arruma\u00e7\u00e3o e simplicidade. Lembro-me de um grande amigo que tinha o quarto cheio de espa\u00e7os vazios e que isso dava-me a sensa\u00e7\u00e3o de ter o quarto sempre arrumado. Era uma sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel &#8211; confesso &#8211; e o inverso da que encontrava quando pensava, ou entrava, no meu quarto. Ali\u00e1s, periodicamente, \u201carrumar o quarto\u201d era para mim sin\u00f3nimo de \u201cesvaziar o quarto.\u201d<\/p>\n<p>A um dado momento comecei a pensar no valor que os espa\u00e7os vazios t\u00eam na nossa evolu\u00e7\u00e3o cultural e, nesse sentido, talvez mere\u00e7a a pena explorar o valor e significado de preencher a nossa vida com espa\u00e7os vazios. O vazio n\u00e3o exprime neste caso uma falta, perda, negatividade, mas o essencial, um ganho em espa\u00e7o e simplicidade. Ali\u00e1s, comecemos por este \u00faltimo aspecto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Simplicidade<\/h3>\n<p>O espa\u00e7o vazio expressa o desejo de uma vida mais simples. Quanto mais coisas temos para fazer, maior \u00e9 a probabilidade de se sobreporem, consumir o tempo que temos e o que n\u00e3o temos, e tornar, assim, a nossa vida bem mais complicada do que desejamos.<\/p>\n<p>Ter espa\u00e7os vazios em que nada se faz, ou produz, pode trazer alguma simplicidade \u00e0 nossa vida e quem sabe que criatividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Momento presente<\/h3>\n<p>O espa\u00e7o vazio pode levar-nos a desfrutar do momento presente que \u00e9, na pr\u00e1tica, tudo o que realmente temos. O passado j\u00e1 foi e o futuro nada \u00e9 enquanto n\u00e3o se tornar presente. Por isso, tudo o que temos \u00e9, de facto, o presente.<\/p>\n<p>Viver os espa\u00e7os vazios sem pensar no que vem a seguir, nem preocupado com o que veio j\u00e1, \u00e9 uma forma de valorizar o pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Relacionalidade<\/h3>\n<p>Se est\u00e1s sempre ocupado e preocupado com alguma coisa, torna-se muito dif\u00edcil cuidar bem dos relacionamentos. E o que \u00e9 da nossa vida sem eles? Pouco. Muito pouco porque somos seres relacionais. A relacionalidade define-nos como seres humanos.<\/p>\n<p>Assim, criar espa\u00e7os vazios torna-se a possibilidade dada aos outros de poderem entrar em rela\u00e7\u00e3o connosco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Pausa<\/h3>\n<p>Se todos os espa\u00e7os est\u00e3o preenchidos, vive-se num reboli\u00e7o do qual \u00e9 dif\u00edcil sair. Um cont\u00ednuo que nos prende a aten\u00e7\u00e3o, traz stress, cansa e gradualmente come\u00e7amos a sentir o peso de uma vida excessivamente activa. Sem nos darmos conta, corremos o risco de n\u00e3o saborear a beleza de que toda a vida \u00e9 um dom.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o vazio pode servir como uma pausa na nossa vida em que n\u00e3o se faz nada. Sim, nada. Mas esse nada pausado \u00e9 activo. Por exemplo, uma pausa para desfrutar de um contacto maior com o mundo natural e humano que desenrola a sua hist\u00f3ria \u00e0 nossa volta e nos convida a participar nela. Experimenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92442,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-99719","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99719\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}