{"id":9964,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-pascoa-da-eucaristia\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-pascoa-da-eucaristia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-pascoa-da-eucaristia\/","title":{"rendered":"\u00abA P\u00e1scoa da Eucaristia\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Nota Pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa para a Quaresma  <!--more--> Introdu\u00e7\u00e3o 1. Aproxima-se a Quaresma de 2005, que \u00e9, na realidade, o in\u00edcio da celebra\u00e7\u00e3o anual da P\u00e1scoa, e esta \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da vitalidade e da coer\u00eancia da Igreja. H\u00e1 muitas raz\u00f5es para que a P\u00e1scoa deste ano seja especial: o Ano da Eucaristia, a prepara\u00e7\u00e3o do Congresso Internacional da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, o desafio, cada vez mais exigente, a que os crist\u00e3os d\u00eaem testemunho da sua f\u00e9 no seio da sociedade em que est\u00e3o inseridos, mostrando que a f\u00e9 em Jesus Cristo fundamenta a esperan\u00e7a e define crit\u00e9rios e ordens de valores na constru\u00e7\u00e3o da cidade. O t\u00edtulo desta \u201cNota Pastoral\u201d \u00e9, de certo modo, pleon\u00e1stico. De facto a Eucaristia \u00e9 sempre a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa pelas comunidades crist\u00e3s, ao ritmo semanal e anual, e desde a P\u00e1scoa de Jesus Cristo, em mem\u00f3ria da qual a Igreja celebra a P\u00e1scoa, esta \u00e9 profundamente eucar\u00edstica, porque momento de oferta sacrificial e de louvor, e constr\u00f3i a Igreja como mist\u00e9rio de comunh\u00e3o, anunciada e significada no sinal do banquete e da frac\u00e7\u00e3o do P\u00e3o. \u00c9 esta dimens\u00e3o eucar\u00edstica de toda a oferta e louvor crist\u00e3os, que engloba toda a vida, que o Ano da Eucaristia vem acentuar. Foi nessa perspectiva que o Santo Padre proclamou o \u201cAno da Eucaristia\u201d: \u201cN\u00e3o pe\u00e7o para se interromperem os caminhos pastorais que as diversas Igrejas est\u00e3o a fazer, mas para neles dar relevo \u00e0 dimens\u00e3o eucar\u00edstica pr\u00f3pria de toda a vida crist\u00e3\u201d . A descoberta e valoriza\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o eucar\u00edstica, deve exprimir-se em todas as express\u00f5es da vida crist\u00e3: a qualidade lit\u00fargica das celebra\u00e7\u00f5es, o ardor da evangeliza\u00e7\u00e3o, a generosidade moral que nos leva a exprimir nos comportamentos a novidade surpreendente da P\u00e1scoa, o sentido profundo da constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria que marca e inspira a maneira de os crist\u00e3os estarem no mundo e se comprometerem na constru\u00e7\u00e3o da sociedade. N\u00e3o poderei desenvolver todos estes aspectos, no espa\u00e7o necessariamente reduzido de uma \u201cNota Pastoral\u201d. Fique claro que o facto de n\u00e3o os referir n\u00e3o pode ser interpretado como se os considerasse menos importantes. Terei oportunidade, sobretudo nas \u201cCatequeses Quaresmais\u201d que, como vem sendo h\u00e1bito, proferirei na S\u00e9 Patriarcal todos os domingos da Quaresma, de aprofundar algumas dessas dimens\u00f5es. Aqui, na coer\u00eancia com a prepara\u00e7\u00e3o da Igreja de Lisboa para a \u201cMiss\u00e3o na Cidade\u201d, acentuarei, de modo especial, a dimens\u00e3o eucar\u00edstica da presen\u00e7a da Igreja na sociedade e do testemunho que os crist\u00e3os a\u00ed s\u00e3o chamados a dar, em todas as suas lutas por um mundo melhor, da luz e da esperan\u00e7a que para eles brilha na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Situar-me-ei no \u00e2mbito daquilo a que poder\u00edamos chamar uma \u201ccultura da Eucaristia\u201d.  Uma vis\u00e3o cristoc\u00eantrica da Hist\u00f3ria 2. Um aspecto fundamental da cultura \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de um sentido da hist\u00f3ria. Esse sentido enquadra e inspira op\u00e7\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es, de pessoas e de institui\u00e7\u00f5es, na busca da valoriza\u00e7\u00e3o da pessoa humana e do progresso da sociedade. H\u00e1 respostas a quest\u00f5es fundamentais \u2013 para onde caminha a humanidade, em que consiste a plena realiza\u00e7\u00e3o da pessoa humana, quais s\u00e3o as exig\u00eancias da liberdade e da fraternidade, como se garante a justi\u00e7a e se caminha para a paz \u2013 a que s\u00f3 a cultura pode dar resposta. E os crist\u00e3os n\u00e3o descobrir\u00e3o esse \u201csentido da hist\u00f3ria\u201d se, em cada Eucaristia n\u00e3o reviverem esse acontecimento decisivo para a hist\u00f3ria da humanidade, que foi Jesus Cristo e a sua P\u00e1scoa. Escreveu o Santo Padre: \u201cCristo est\u00e1 no centro n\u00e3o s\u00f3 da hist\u00f3ria da Igreja, mas tamb\u00e9m da hist\u00f3ria da Humanidade. Tudo \u00e9 recapitulado n\u2019Ele (Efs. 1,10; Col. 1,15-20)\u2026 Cristo \u00e9 o fim da hist\u00f3ria humana, o ponto para onde tendem os desejos da hist\u00f3ria e da civiliza\u00e7\u00e3o, o centro do g\u00e9nero humano, a alegria de todos os cora\u00e7\u00f5es e a plenitude das suas aspira\u00e7\u00f5es\u201d . Esta vis\u00e3o cristoc\u00eantrica e eucar\u00edstica da hist\u00f3ria n\u00e3o retira nada ao realismo e \u00e0 complexidade da realidade humana contempor\u00e2nea. D\u00e1-lhe um sentido de profundidade radical, porque os crist\u00e3os aprendem na Eucaristia que n\u00e3o se pode desligar a constru\u00e7\u00e3o da sociedade presente da cidade definitiva, a \u201cJerusal\u00e9m Celeste\u201d, em que brilhar\u00e1 a plena e definitiva dimens\u00e3o do triunfo pascal de Jesus Cristo. A liberdade torna-se for\u00e7a de generosidade e de criatividade, o amor aparece como a \u00fanica atitude que pode construir a fraternidade, a justi\u00e7a, a afirma\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel da dignidade de cada pessoa. De cada Eucaristia os crist\u00e3os partem com um entusiasmo renovado para lutar por um mundo novo e aprendem a oferecer, na pr\u00f3xima celebra\u00e7\u00e3o, as suas lutas e esfor\u00e7os, as suas esperan\u00e7as e utopias, a sua coragem para dar as m\u00e3os a todos os que buscam o bem, e a\u00ed encontram for\u00e7a para as dificuldades, hesita\u00e7\u00f5es e fragilidades. A constru\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor s\u00f3 pode partir da Eucaristia. Nela encontramos Cristo vivo e sentimos que Ele assume e faz suas todas as lutas da humanidade.  Mas h\u00e1 outras vis\u00f5es da Hist\u00f3ria 3. N\u00f3s os cat\u00f3licos n\u00e3o podemos exigir que este sentido cristoc\u00eantrico e eucar\u00edstico da hist\u00f3ria humana seja seguido por todos os homens. H\u00e1 outras culturas a inspirar o sentido da actividade humana. As principais, porque mais numerosas, que hoje influenciam a constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, s\u00e3o as que enra\u00edzam noutras grandes religi\u00f5es, em que a unidade entre a vis\u00e3o religiosa e o sentido \u00e9tico de toda a exist\u00eancia humana s\u00e3o expl\u00edcitas. Embora reconhecendo o seu peso de influ\u00eancia no momento presente da vida da humanidade, n\u00e3o as referirei agora explicitamente, porque elas n\u00e3o s\u00e3o a alternativa principal \u00e0 vis\u00e3o crist\u00e3 da sociedade, no contexto cultural do Ocidente em que nos situamos. Aqui, a vis\u00e3o do mundo que se contrap\u00f5e a uma cultura de matriz crist\u00e3, em que a f\u00e9 em Jesus Cristo, revitalizada continuamente na Eucaristia, \u00e9 fonte inspiradora do sentido de toda a vida humana, s\u00e3o os diversos racionalismos naturalistas, baseados na exclusividade da raz\u00e3o como fonte da verdade, no car\u00e1cter absoluto da liberdade individual, considerada como fonte principal do sentido \u00e9tico e da moralidade, e os pragmatismos de uma sociedade materialista, em que s\u00f3 tem valor o que \u00e9 \u00fatil, rent\u00e1vel, ou d\u00e1 prazer. A conviv\u00eancia dos crist\u00e3os com estas vis\u00f5es naturalistas e racionalistas da hist\u00f3ria, pode fazer-se ao n\u00edvel do debate das ideias, mas sobretudo na coer\u00eancia dos crist\u00e3os com Jesus Cristo em Quem acreditam e com a Eucaristia que celebram. S\u00f3 esse compromisso real na vida concreta, \u00e9 verdadeiramente fecundo na transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. N\u00e3o est\u00e1 garantido que todos os cat\u00f3licos transponham para a vida e d\u00eaem densidade hist\u00f3rica \u00e0 f\u00e9 que celebram. A tenta\u00e7\u00e3o de reagir no mundo com crit\u00e9rios mundanos e reservar a dimens\u00e3o religiosa para uma esfera \u00edntima e interior, \u00e9 grande e express\u00e3o importante de infidelidade. Separar a f\u00e9 da vida concreta n\u00e3o \u00e9 bom, nem para a f\u00e9, nem para a vida, pois \u00e9 exactamente a Vida verdadeira que celebram na Ceia do Senhor. Esta perspectiva naturalista da hist\u00f3ria, de tend\u00eancia racionalista e naturalista, convergiu na vis\u00e3o laicista da sociedade, que relega a f\u00e9 para a esfera da privacidade individual, negando-lhe qualquer influ\u00eancia na inspira\u00e7\u00e3o \u00e9tica da hist\u00f3ria. Esta vis\u00e3o do mundo e do homem exprimiu-se, ao n\u00edvel do pensamento, em correntes filos\u00f3ficas, foi protagonizada socialmente por organiza\u00e7\u00f5es, e dilui-se, hoje, na concep\u00e7\u00e3o individualista da verdade e da liberdade. O mist\u00e9rio da P\u00e1scoa, celebrado na Eucaristia, p\u00f5e o crist\u00e3o continuamente em confronto com o car\u00e1cter inelut\u00e1vel da Senhoria de Cristo ressuscitado como centro da hist\u00f3ria humana.  A ma\u00e7onaria e a defini\u00e7\u00e3o do sentido da Hist\u00f3ria 4. Entre as organiza\u00e7\u00f5es que protagonizaram esta vis\u00e3o imanente e laicista da hist\u00f3ria, avulta a import\u00e2ncia da Ma\u00e7onaria que, a partir de meados do s\u00e9culo XVII, fez sentir a sua influ\u00eancia em todas as grandes correntes de pensamento e nas principais altera\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas. N\u00e3o a referiria explicitamente, se um recente acontecimento n\u00e3o a tivesse trazido para as primeiras p\u00e1ginas das not\u00edcias e tivesse criado, em muitos cat\u00f3licos, interroga\u00e7\u00f5es e perplexidade. De facto, as cerim\u00f3nias f\u00fanebres de uma importante personalidade do Estado e membro destacado da Ma\u00e7onaria, realizadas nos espa\u00e7os da Bas\u00edlica da Estrela, foram ocasi\u00e3o dessa confus\u00e3o, n\u00e3o tanto por o \u201cdep\u00f3sito\u201d do defunto se ter feito numa das capelas mortu\u00e1rias da Bas\u00edlica, em princ\u00edpio abertas a quantos respeitosamente as procuram, mas porque o Gr\u00e3o-Mestre da Ma\u00e7onaria, com o nosso desconhecimento, convocou para um \u201critual ma\u00e7\u00f3nico\u201d, em honra do defunto, a realizar num espa\u00e7o da Bas\u00edlica. Esta iniciativa, que considero imprudente e indevida, provocou indigna\u00e7\u00e3o em muitos cat\u00f3licos, que incessantemente t\u00eam pedido um esclarecimento da Hierarquia da Igreja. \u00c9 uma longa e atribulada hist\u00f3ria a das rela\u00e7\u00f5es da Ma\u00e7onaria com a Igreja durante os \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos, expressa em ataques, anti-clericalismo, rejei\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o misteriosa da f\u00e9 e da verdade revelada, a que a Igreja respondeu com v\u00e1rias condena\u00e7\u00f5es, com penas de excomunh\u00e3o para os cat\u00f3licos que aderissem \u00e0 Ma\u00e7onaria. \u00c9 um processo que tem de ser situado nas grandes transforma\u00e7\u00f5es culturais e s\u00f3cio-pol\u00edticas desse per\u00edodo, em que elementos como a compreens\u00e3o da natureza e legitimidade do poder pol\u00edtico, a promo\u00e7\u00e3o e defesa da liberdade individual, os processos revolucion\u00e1rios em cadeia e a \u201cquest\u00e3o romana\u201d que p\u00f4s fim ao poder temporal dos Papas, foram pontos quentes a alimentar um conflito. Conceitos, ent\u00e3o pol\u00e9micos, como o da liberdade de consci\u00eancia e de toler\u00e2ncia, s\u00e3o hoje aceites pela pr\u00f3pria Igreja, no quadro de sociedades democr\u00e1ticas e pluralistas. A verdadeira reac\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o do mundo veiculada pela Ma\u00e7onaria, t\u00eam os cat\u00f3licos de encontr\u00e1-la na profundidade da sua f\u00e9, sobretudo quando a celebram na Eucaristia, como inspiradora da vida e da hist\u00f3ria, fonte de sentido e fundamento de uma ordem moral. Sem essa coer\u00eancia de profundidade, cair\u00e3o em rejei\u00e7\u00f5es e an\u00e1temas, pelo menos desenquadrados da actual maneira de conceber a miss\u00e3o da Igreja no mundo.  5. A quest\u00e3o crucial, sobre a qual os cat\u00f3licos t\u00eam o direito de esperar uma resposta do seu Bispo, \u00e9 esta: a f\u00e9 cat\u00f3lica e a vis\u00e3o do mundo que ela inspira, s\u00e3o compat\u00edveis com a Ma\u00e7onaria e a sua vis\u00e3o de Deus, com o fundamento de verdade e de moralidade e o sentido da hist\u00f3ria que veicula? E a resposta \u00e9 negativa. Um cat\u00f3lico, consciente da sua f\u00e9 e que celebra a Eucaristia n\u00e3o pode ser ma\u00e7\u00e3o. E se o for convictamente, n\u00e3o pode celebrar a Eucaristia. E a incompatibilidade reside nas vis\u00f5es inconcili\u00e1veis do sentido do homem e da hist\u00f3ria. A Ma\u00e7onaria sempre afirmou, e continua a afirmar, a prioridade absoluta da raz\u00e3o natural como fundamento da verdade, da moralidade e da pr\u00f3pria cren\u00e7a em Deus. A Ma\u00e7onaria n\u00e3o \u00e9 um ate\u00edsmo, pois admite um \u201cdeus da raz\u00e3o\u201d. Exclui qualquer revela\u00e7\u00e3o sobrenatural, fonte de verdades superiores ao homem, porque t\u00eam a sua fonte em Deus, n\u00e3o aceitando a objectividade da verdade que a revela\u00e7\u00e3o nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada raz\u00e3o individual pode chegar, fundamentando a\u00ed o seu conceito de toler\u00e2ncia. A Igreja tamb\u00e9m aceita a toler\u00e2ncia, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas e n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 objectividade da verdade. Esta atitude perante Deus e perante a verdade gera uma \u201csabedoria\u201d global, ou seja, uma vis\u00e3o coerente da realidade, que \u00e9 incompat\u00edvel com a vis\u00e3o do homem e da sociedade que brotam da f\u00e9 crist\u00e3, que sup\u00f5e a inter-ac\u00e7\u00e3o de Deus e do homem, no di\u00e1logo fecundo e apaixonante da natureza e da gra\u00e7a. A Igreja tem o dever de orientar os cat\u00f3licos e \u00e9 a eles que digo que a nossa f\u00e9 e o sentido da vida que ela inspira \u00e9 incompat\u00edvel com o quadro gn\u00f3stico de sentido veiculado pela Ma\u00e7onaria.  6. Haver\u00e1, ainda hoje, uma luta entre a Ma\u00e7onaria e a Igreja? N\u00e3o nos termos em que se p\u00f4s no passado, embora n\u00e3o devamos ser ing\u00e9nuos: a Ma\u00e7onaria, sobretudo em algumas das suas \u201cobedi\u00eancias\u201d, lutar\u00e1 sempre contra valores inspiradores da sociedade que tenham a sua origem na dimens\u00e3o sobrenatural da nossa f\u00e9. Sempre que isso acontecer, demos testemunho da esperan\u00e7a que est\u00e1 em n\u00f3s (1Pet. 3,15). A express\u00e3o de uma vis\u00e3o laicista da sociedade assenta tamb\u00e9m sobre a falta de coer\u00eancia dos crist\u00e3os com as implica\u00e7\u00f5es sociais da f\u00e9 que professam e da Eucaristia que celebram.   Na Eucaristia descobre-se que s\u00f3 o amor transformar\u00e1 a Hist\u00f3ria 7. Esta \u00e9 a novidade decisiva que define o sentido novo da constru\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria: em cada Eucaristia, atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 o Amor divino, n\u00f3s mergulhamos na mais radical experi\u00eancia de amor que aconteceu desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo. A partir dela, n\u00f3s mergulhamos na realidade do mundo, dinamizados por esta certeza: s\u00f3 o amor transformar\u00e1 positivamente a Hist\u00f3ria. Escutemos o Santo Padre: \u201cA Eucaristia n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o de comunh\u00e3o apenas na vida da Igreja; \u00e9 tamb\u00e9m projecto de solidariedade em prol da humanidade inteira\u2026 O crist\u00e3o, que participa na Eucaristia, dela aprende a tornar-se promotor de comunh\u00e3o, de paz, de solidariedade, em todas as circunst\u00e2ncias da vida. A imagem lacerada do nosso mundo, que come\u00e7ou o novo mil\u00e9nio com o espectro do terrorismo e a trag\u00e9dia da guerra, desafia ainda mais fortemente os crist\u00e3os a viverem a Eucaristia como uma grande escola de paz, onde se formem homens e mulheres que, a v\u00e1rios n\u00edveis de responsabilidade na vida social, cultural, pol\u00edtica, se fazem tecedores de di\u00e1logo e de comunh\u00e3o\u201d . O Santo Padre real\u00e7a esta rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre a celebra\u00e7\u00e3o e a revolu\u00e7\u00e3o do amor, sobretudo no compromisso com os mais pobres. Escutemo-lo ainda: \u201cH\u00e1 ainda um ponto para o qual queria chamar a aten\u00e7\u00e3o, porque sobre ele se joga, em medida not\u00e1vel, a autenticidade da participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia celebrada na comunidade: \u00e9 o impulso que esta a\u00ed recebe para um compromisso real na edifica\u00e7\u00e3o duma sociedade mais equitativa e fraterna. Na Eucaristia, o nosso Deus manifestou a forma extrema do amor, invertendo todos os crit\u00e9rios de dom\u00ednio que muitas vezes regem as rela\u00e7\u00f5es humanas e afirmando de modo radical o crit\u00e9rio do servi\u00e7o: \u00abSe algu\u00e9m quiser ser o primeiro, h\u00e1-de ser o \u00faltimo de todos e o servo de todos\u00bb (Mc. 9,35). N\u00e3o \u00e9 por acaso que, no Evangelho de Jo\u00e3o, se encontra, n\u00e3o a narra\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, mas a do \u00ablava-p\u00e9s\u00bb (Jo. 13,1-20): inclinando-se para lavar os p\u00e9s dos seus disc\u00edpulos, Jesus explica de forma inequ\u00edvoca o sentido da Eucaristia. S\u00e3o Paulo, por sua vez, reafirma vigorosamente que n\u00e3o \u00e9 l\u00edcita uma celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica onde n\u00e3o resplande\u00e7a a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (1Cor. 11,17-22.27-34). Por que n\u00e3o fazer ent\u00e3o deste Ano da Eucaristia um per\u00edodo em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com operosidade fraterna, ao encontro de alguma das muitas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milh\u00f5es de seres humanos, penso nas doen\u00e7as que flagelam os pa\u00edses em vias de desenvolvimento, na solid\u00e3o dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas desgra\u00e7as dos imigrantes. Trata-se de males que afligem, embora em medida diversa, tamb\u00e9m as regi\u00f5es mais opulentas. N\u00e3o podemos iludir-nos: pelo amor m\u00fatuo e, em particular, pela solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros disc\u00edpulos de Cristo (Jo. 13,35; Mt. 25,31-46). Com base neste crit\u00e9rio, ser\u00e1 comprovada a autenticidade das nossas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas\u201d .  8. S\u00e3o muitos os pedidos de socorro e de ajuda fraterna que s\u00e3o dirigidos \u00e0 Igreja de Lisboa. Particip\u00e1mos, recentemente, na grande campanha de solidariedade em favor dos pa\u00edses do Indico, devastados pela trag\u00e9dia do sismo e do \u201cmaremoto\u201d. Isso n\u00e3o diminuir\u00e1, assim o espero, a generosidade dos fi\u00e9is, expressa na j\u00e1 tradicional \u201cRen\u00fancia Quaresmal\u201d. Tendo em conta os muitos pedidos que nos chegam, proponho que a nossa \u201cren\u00fancia\u201d se destine, este ano, a constituir um \u201cFundo Diocesano de Ajuda Inter-Eclesial\u201d, que poder\u00e1 continuar a ser alimentado por outros donativos, e onde encontraremos maneira de ir respondendo a esses pedidos de aux\u00edlio. Aperfei\u00e7oaremos, assim, a nossa capacidade de ajuda fraterna.  Que a Eucaristia seja nosso alimento e nossa for\u00e7a nesta caminhada para a P\u00e1scoa. A\u00ed aprenderemos a compreender os caminhos por onde o Esp\u00edrito nos conduz, na edifica\u00e7\u00e3o de uma humanidade renovada pelo amor.  Lisboa, 22 de Janeiro de 2005, Solenidade de S\u00e3o Vicente, Di\u00e1cono e M\u00e1rtir, Padroeiro Principal do Patriarcado de Lisboa   \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa para a Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[108,127,221,268,275,91,314],"class_list":["post-9964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-da-eucaristia","tag-catequese","tag-historia-da-igreja","tag-nova-evangelizacao","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}