{"id":99398,"date":"2018-03-14T16:52:56","date_gmt":"2018-03-14T16:52:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=99398"},"modified":"2018-03-14T16:53:37","modified_gmt":"2018-03-14T16:53:37","slug":"papa-francisco-cinco-anos-de-revolucao-da-ternura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/papa-francisco-cinco-anos-de-revolucao-da-ternura\/","title":{"rendered":"Papa Francisco: Cinco anos de \u00abRevolu\u00e7\u00e3o da ternura\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Ant\u00f3nio Manuel Martins<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Cinco anos passaram desde que o ent\u00e3o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, \u00abvindo do fim do mundo\u00bb, foi escolhido para bispo de Roma pelos seus irm\u00e3os cardeais. Um novo estilo, pr\u00f3ximo, afetivo, encarnado, atento \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cada pessoa e de cada situa\u00e7\u00e3o marca o minist\u00e9rio de Pedro na Igreja contempor\u00e2nea. Come\u00e7ou, ent\u00e3o, nesse final de um dia chuvoso, em 13 de mar\u00e7o de 2013, a \u00abrevolu\u00e7\u00e3o da ternura\u00bb que est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Desafiando rotinas instaladas, situa\u00e7\u00f5es acomodadas, in\u00e9rcias e fadigas pastorais, o Papa Francisco introduziu, na vida da Igreja, a din\u00e2mica do \u00eaxodo, o deixar de estar centrada em si mesma para arriscar ser \u00abhospital de campanha\u00bb, cuidando das feridas da humanidade concreta, exposta \u00e0s tormentas do mundo que avan\u00e7a por entre promessas e crises. Esse propor que a Igreja seja a \u00abcasa aberta do Pai\u00bb a todos.<\/p>\n<p>O inesperado da surpresa aconteceu. Reafirma-se, sem hesita\u00e7\u00e3o, a heran\u00e7a conciliar. Intensifica-se e operacionaliza-se a via de uma aut\u00eantica sinodalidade. Convoca-se o sentir do Povo de Deus no seu conjunto como sujeito crente, como aconteceu na prepara\u00e7\u00e3o dos dois S\u00ednodos sobre a fam\u00edlia com uma pr\u00e9via e ampla consulta aos fi\u00e9is. H\u00e1 uma sensibilidade teol\u00f3gica e uma pr\u00e1tica de governo a que n\u00e3o est\u00e1vamos habituados.<\/p>\n<p>Francisco p\u00f5e em processo, a n\u00edvel de toda a Igreja, uma din\u00e2mica sinodal de Povo de Deus a caminho, por entre tens\u00f5es e consensos, na procura de um sincero discernimento \u00e0 vontade de Deus no concreto da hist\u00f3ria que avan\u00e7a.<\/p>\n<p>Outra nota de continuidade com o Conc\u00edlio \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que a Igreja est\u00e1 ao servi\u00e7o da humanidade, porque est\u00e1 ao servi\u00e7o do Filho de Deus feito carne. Porque em sua carne o Verbo de Deus encontra-se com a carne de cada pessoa concreta, e n\u00e3o h\u00e1 nada de humano que n\u00e3o seja por Ele assumido para ser redimido, como diziam os Padres da Igreja. A centralidade do humano significa a centralidade e a essencialidade do Evangelho. Como afirma o Papa Francisco, em sua program\u00e1tica exorta\u00e7\u00e3o A alegria do Evangelho, \u00abo Evangelho convida-nos a abra\u00e7ar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presen\u00e7a f\u00edsica que interpela, com os seus sofrimentos e reivindica\u00e7\u00f5es, com a sua alegria contagiosa permanecendo a seu lado\u00bb (EV 88). Porque \u00e9 na carne de Cristo que come\u00e7a a \u00abrevolu\u00e7\u00e3o da ternura\u00bb. A \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o da qual o Papa quer ser protagonista e que a todos nos convoca.<\/p>\n<p>A grande reforma que o Papa Francisco est\u00e1 a implementar, a n\u00edvel de toda a Igreja, mais do que a mudan\u00e7a de estruturas (necess\u00e1ria, e para alguns ainda demasiado lenta), \u00e9 a mudan\u00e7a dos cora\u00e7\u00f5es e das atitudes. A mudan\u00e7a interior que acontece na abertura pessoal ao Evangelho, numa din\u00e2mica de cont\u00ednuo discernimento. O pr\u00f3prio Papa Francisco assim o explicita: \u00abMuitos pensam que as mudan\u00e7as e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio tempo para lan\u00e7ar as bases de uma mudan\u00e7a verdadeira e eficaz. E este \u00e9 o tempo do discernimento\u00bb; \u00abO discernimento realiza-se sempre na presen\u00e7a do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres\u00bb (entrevista a Civilt\u00e0 Cattolica, em 21.09.2013). N\u00e3o compreenderemos nunca a convoca\u00e7\u00e3o ao discernimento, caso a caso, tendo em conta o concreto de cada situa\u00e7\u00e3o pessoal, prescindindo da espiritualidade inaciana do Papa Francisco. Est\u00e1 a\u00ed, creio eu, a dimens\u00e3o mais inovadora deste pontificado, que tem tamb\u00e9m criado resist\u00eancias e perplexidades.<\/p>\n<p>Numa leitura simplista, poder\u00e1 parecer-nos que o Papa Francisco procura os conflitos, sen\u00e3o mesmo os provoca. A tens\u00e3o faz parte da l\u00f3gica da pr\u00f3pria realidade e da condi\u00e7\u00e3o humana (e crist\u00e3). O modo pragm\u00e1tico, processual, aparentemente amb\u00edguo do seu governo e do seu pensamento, \u00e9 um modo deliberado de intelig\u00eancia da f\u00e9. A f\u00e9 est\u00e1 marcada por um espa\u00e7o de d\u00favida. O tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o. A unidade permanece sobre o conflito. A realidade \u00e9 mais importante do que a ideia. O todo \u00e9 superior \u00e0 parte. \u00abDevemos encaminhar processos, mais do que ocupar espa\u00e7os\u00bb, pois \u00e9 a\u00ed que Deus se encontra. Trata-se de um modo de ser fiel, no pensamento e na a\u00e7\u00e3o, \u00e0 pr\u00f3pria realidade, marcada pela ambival\u00eancia, pela tens\u00e3o, por situa\u00e7\u00f5es polares, aparentemente opostas e contradit\u00f3rias. Uns querer\u00e3o identificar a\u00ed uma leitura dial\u00e9tica de tipo hegeliano; eu prefiro dizer que se trata de uma l\u00f3gica paradoxal, enraizada no paradoxo dos paradoxos que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo (S. M\u00e1ximo o Confessor) e na mais profunda reflex\u00e3o teol\u00f3gica contempor\u00e2nea (Erich Przywara, Gaston Fessard, Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar).<\/p>\n<p>Uma palavra final: o pontificado do Papa Francisco est\u00e1 marcado, no presente, por uma densidade dram\u00e1tica. \u00c9 certo que a seu modo todos os papas do p\u00f3s-Conc\u00edlio passaram a sua prova. Mas no atual condensam-se e confrontam-se tend\u00eancias e polaridades que atravessavam, no subterr\u00e2neo, a vida da Igreja contempor\u00e2nea. Agora, nesta din\u00e2mica processual, o que se dizia nas alcovas \u00e9 dito nos telhados. Este debate, com rostos, protagonistas, ideias, tem a vantagem de uma clarifica\u00e7\u00e3o, de um sair do anonimato. Express\u00e3o da grandeza humilde do Papa Francisco \u00e9 a sua capacidade de estar continuamente em processo, de n\u00e3o ter nem um pensamento nem uma a\u00e7\u00e3o encerrados. Esse expor-se ao confronto, esse n\u00e3o sair fora da tens\u00e3o da realidade, o rever as pr\u00f3prias decis\u00f5es e n\u00e3o dar por encerrado o seu discernimento \u00e9 a maior prova de autenticidade do seu pontificado. Podemos, eventualmente, lamentar a demora nas reformas da C\u00faria, aplaudir (ou desconfiar) da sua abertura diplom\u00e1tica \u00e0 China e \u00e0 R\u00fassia, reconhecer a ousadia de ter trazido para a agenda pol\u00edtica temas inc\u00f3modos (os refugiados; os efeitos nefastos do liberalismo econ\u00f3mico; a crise ecol\u00f3gica), medir os n\u00edveis de popularidade, achar at\u00e9 que \u00abbate muito\u00bb no clero, mas estaremos ainda no perif\u00e9rico. Na pr\u00f3pria carne do Papa, que d\u00e1 o corpo ao manifesto, encarna-se, em carne viva, a pr\u00f3pria tens\u00e3o evang\u00e9lica, que \u00e9 promessa, caminho de esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m permanente combate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ant\u00f3nio Manuel Martins<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":99400,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-99398","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99398"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99398\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}