{"id":984,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-evangelho-na-producao-cultural-presenca-e-ausencia-do-especifico-cristao-na-cultura-actual\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-evangelho-na-producao-cultural-presenca-e-ausencia-do-especifico-cristao-na-cultura-actual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-evangelho-na-producao-cultural-presenca-e-ausencia-do-especifico-cristao-na-cultura-actual\/","title":{"rendered":"O Evangelho na produ\u00e7\u00e3o cultural &#8211; presen\u00e7a e aus\u00eancia do espec\u00edfico crist\u00e3o na cultura actual"},"content":{"rendered":"<p>Manuel Linda, Director do Centro Cat\u00f3lico da Cultura\/Vila Real <!--more--> Nunca foi nem ser\u00e1 poss\u00edvel inventariar a quantidade de realiza\u00e7\u00f5es culturais especificamente crist\u00e3s nem discernir aquelas que foram influenciadas pela mundivid\u00eancia evang\u00e9lica, mesmo que disso se n\u00e3o apercebam ou digam expressamente rejeitar. Seja como for, estaremos de acordo em dois dados: que a Pessoa e a Mensagem de Jesus Cristo continuam a colocar-se \u00e0 base de alguma \u2013 e, por vezes, muito boa &#8211; produ\u00e7\u00e3o cultural e art\u00edstica; mas, tamb\u00e9m, que esse pensamento e arte raramente conseguem ultrapassar o c\u00edrculo intra-eclesial, mormente a liturgia. Dito em termos simples: n\u00e3o desapareceu completamente a tradicional rela\u00e7\u00e3o triangular entre o cristianismo, o alto pensamento e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, mas, no nosso tempo, esse dado foi relegado para o campo das sub-culturas e, por isso, quase nunca influi verdadeiramente na grande cultura dominante nem assume um papel preponderante. O laicismo teimoso e ran\u00e7oso que recusa que a refer\u00eancia \u00e0 f\u00e9 d\u00ea entrada na futura Constitui\u00e7\u00e3o Europeia \u00e9 prova disso mesmo. \t O cristianismo e a cultura Ora, a interliga\u00e7\u00e3o entre Mensagem crist\u00e3, cultura e arte \u00e9 absolutamente essencial, fundante e insepar\u00e1vel. N\u00e3o, obviamente, porque a f\u00e9 reclame para si o estatuto de Escola ou corrente ideol\u00f3gica. Mas sim porque o mist\u00e9rio insond\u00e1vel de Deus \u00e9 t\u00e3o profundo, t\u00e3o alto e t\u00e3o comprometedor que sup\u00f5e e carece de todas as linguagens, mormente daquelas que traduzem o humano mais elevado. A melhor \u2013 porventura a \u00fanica! &#8211; resposta ao Deus que nos toca com a sua luz inebriante s\u00f3 pode ser a que encontraram os contemplativos e os m\u00edsticos: abrir-se, demorar-se a contemplar, saborear e sentir como que a necessidade f\u00edsica de exprimir em palavras de sabedoria a absoluta beleza divina que nos provoca. E essa palavra de sabedoria pode usar todos e n\u00e3o precisa de recusar nenhum dos meios poss\u00edveis, de acordo com a sensibilidade de quem se exprime: pode ir da pura filosofia \u00e0 m\u00fasica, da literatura \u00e0 arquitectura, do cinema ao nov\u00edssimo design das p\u00e1ginas Web. Se isso n\u00e3o oferece contesta\u00e7\u00f5es, porque motivo \u00e9 que a Igreja n\u00e3o repensa mais a sua actua\u00e7\u00e3o em termos de cultura e arte e porque \u00e9 que as massas s\u00e3o t\u00e3o pouco tocadas pelo referencial crist\u00e3o? Que faltar\u00e1 \u00e0 ac\u00e7\u00e3o eclesial para que seja aceite e integrada na cultura dominante, a ponto de a fermentar, a transformar e a humanizar? Porque \u00e9 que os intelectuais crentes pressentiram t\u00e3o agudamente e o Magist\u00e9rio tanto recomenda a \u00abevangeliza\u00e7\u00e3o da cultura\u00bb? A resposta simples e convicta pode ser simplesmente esta: porque nesta nossa \u00e9poca de forte muta\u00e7\u00e3o cultural, uma parte significativa do Primeiro Mundo perdeu a mem\u00f3ria das suas ra\u00edzes crentes e n\u00e3o busca o sentido da sua vida na proposta do Evangelho e na especificidade da f\u00e9 crist\u00e3. Ora, ao verificar isto, o que normalmente fazemos \u00e9 chorar sobre o leite derramado. \u00c9 que quase sempre somos capazes de descrever acad\u00e9mica e muito claramente a situa\u00e7\u00e3o e de enumerar as causas e as consequ\u00eancias, mas sentimos que nos faltam solu\u00e7\u00f5es para alterar este estado de coisas. Pois bem: embora fazendo profiss\u00e3o de f\u00e9 na mais completa impossibilidade de repetir solu\u00e7\u00f5es do passado, \u00e9 verdade que uma hist\u00f3ria t\u00e3o rica e t\u00e3o longa como a da Igreja lhe pode fornecer pistas. Nesta linha, seja-me permitido referir duas \u00e9pocas de tamb\u00e9m forte muta\u00e7\u00e3o cultural, embora por raz\u00f5es distintas: a cerrada rudeza das mentalidades e a falta de um modelo de organiza\u00e7\u00e3o social satisfat\u00f3rio com o desaparecimento do feudalismo moribundo, no in\u00edcio do segundo mil\u00e9nio da era crist\u00e3; e o tremendo choque dos humanismos renas-centistas que culminaram na Reforma protestante e demarcaram mentalidades t\u00e3o antag\u00f3nicas que levaram a guerras de religi\u00e3o. Quer num, quer noutro caso, a sa\u00edda foi encontrada na cultura e na arte. Quanto \u00e0 cultura, basta lembrar as Escolas conventuais e catedral\u00edcias e a consequente funda\u00e7\u00e3o das Universidades, no primeiro caso, e a implementa\u00e7\u00e3o da catequese, a difus\u00e3o de obras pela imprensa, o recurso ao teatro religioso, uma melhor forma\u00e7\u00e3o do clero, etc., no segundo. No que diz respeito \u00e0 arte, foi t\u00e3o not\u00f3ria a forma como se recorreu a ela que, entre n\u00f3s, se geraram mesmo dois estilos absolutamente demarcados e pr\u00f3prios: o rom\u00e2nico e o barroco. E, hoje, n\u00e3o seria poss\u00edvel um recurso ainda mais intenso \u00e0s m\u00faltiplas formas de comunica\u00e7\u00e3o art\u00edstica, com especial relevo para as novas linguagens derivadas do cinema, da Internet e da sempre actual literatura, ainda que, para isso, se tenha de recorrer ao patroc\u00ednio de mecenas, como aconteceu com os Pr\u00edncipes do Renascimento.  Linhas de for\u00e7a da nova cultura As novas linguagens, por\u00e9m, por si representam muito pouco. S\u00f3 se compreendem se ao servi\u00e7o de um conte\u00fado. Ent\u00e3o, \u00e9 ao conte\u00fado \u2013 \u00e2mbito espec\u00edfico da cultura \u2014 que a Igreja tem de prestar maior aten\u00e7\u00e3o. Sem preocupa\u00e7\u00f5es de exaust\u00e3o, referiria as seguintes quatro tarefas como cruciais, j\u00e1 que correspondem a outros tantos vazios da cultura de massas dominante. Em primeiro lugar, a necessidade de desmascarar, porque inexistente, o t\u00e3o seguido \u00abDeus \u00edntimo\u00bb, isto \u00e9, o deus que cada um imaginou ou fabricou para si mesmo, e que propiciou o falado retorno do religioso. Porque de fabrico pr\u00f3prio, esse deus tanto pode coincidir com as formas di\u00e1fanas da gnose da New Age, como com uma divindade violenta e sanguin\u00e1ria, t\u00e3o ao gosto dos fundamentalismos e dos terrorismos. A proposta do cristianismo s\u00f3 pode ser a do \u00abtotalmente Outro\u00bb, o Deus Pessoal revelado e manifestado por Jesus Cristo, acess\u00edvel ou imanente ao homem, mas tamb\u00e9m absolutamente transcendente. Enquanto este desmascaramento se n\u00e3o fizer, continuar-se-\u00e1 a desconfiar do cristianismo e, eventualmente, como no tempo das persegui\u00e7\u00f5es movidas pelo Imp\u00e9rio Romano, a acus\u00e1-lo de&#8230; ate\u00edsmo. Depois, \u00e9 urgent\u00edssima a procura de uma nova racionalidade que seja global e que, como tal, integre harmoniosamente o religioso, o fiducial, o \u00e9tico, o est\u00e9tico e o simb\u00f3lico. A mentalidade dominante, que remonta ao Renascimento e se encrespou no Iluminismo, \u00e9 a da procura do infinitamente pequeno, do decompor o ser em part\u00edculas m\u00ednimas. \u00c9 verdade que este m\u00e9todo, no s\u00e9culo XX, possibilitou a descoberta de muitas leis da Qu\u00edmica e da Biologia, que muito interessam \u00e0 humanidade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que a divis\u00e3o quase sempre mata o ser e que com este m\u00e9todo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descobrir um sentido para a vida do homem e para a hist\u00f3ria. Sem uma verdadeira \u00abRaz\u00e3o\u00bb, ca\u00edmos nas \u00abraz\u00f5es\u00bb e depois nas \u00absem-raz\u00f5es\u00bb e \u00absem-sentidos\u00bb. Como o nosso mundo sabe. O crist\u00e3o deve tamb\u00e9m instaurar, em cont\u00ednua perman\u00eancia, uma hermen\u00eautica do julgamento da linguagem e das mentalidades, pois, muitas vezes, estas podem esconder verdades diminu\u00eddas. Pense-se em dois exemplos. Ao acentuar-se tanto a centralidade da pessoa, vamos, sem d\u00favida, ao encontro da grande cultura, mas tamb\u00e9m podemos acabar por fazer o jogo do individualismo imperante. Ser\u00e1 que temos acentuado a fam\u00edlia, verdadeira comunidade de pessoas e sector-chave da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, com a mesma convic\u00e7\u00e3o? Creio que n\u00e3o. Por outro lado, n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3s as nossas resist\u00eancias impl\u00edcitas a tudo o que tenha a ver com \u00abqualidade de vida\u00bb. Ora, a verdade \u00e9 que a vida plena, a vida de auto-realiza\u00e7\u00e3o \u2013 se expurgada do v\u00edrus do ego\u00edsmo &#8211; faz parte da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e concede raz\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria Encarna\u00e7\u00e3o do Verbo: \u201cEu vim para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10, 10). Nesta linha, diria ainda que o cristianismo deve funcionar como sentinela perante as artimanhas da mentira institucionalizada, servida \u00e0s massas na bandeja refulgente dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Esta mentira tanto reside nas falsas vis\u00f5es da cultura dominante que reduz o homem a mero aglomerado de c\u00e9lulas biol\u00f3gicas, como na manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que cada vez mais entra no c\u00edrculo vicioso do fazer o que o povo quer para que o povo d\u00ea o voto. Esta tarefa deve ser realizada por todos os crentes, mas muito especialmente por verdadeiros \u00abcentros de desaliena\u00e7\u00e3o\u00bb que corporizem, tanto quanto poss\u00edvel, o ideal crist\u00e3o. No passado, foram os mosteiros. E no futuro? Talvez ainda tenha de passar por a\u00ed, pois n\u00e3o parece que os novos movimentos eclesiais a tenham conseguido desempenhar.  Conclus\u00e3o Enfim, com este texto outra coisa n\u00e3o pretendi que n\u00e3o fosse dizer que n\u00e3o chega limitarmo-nos a interpretar a nossa situa\u00e7\u00e3o &#8211; neste caso, se o Evangelho est\u00e1 presente ou ausente da produ\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea -, mas que importa reorient\u00e1-la e endere\u00e7\u00e1-la. E eu creio que essa reorienta\u00e7\u00e3o, depois da via da santidade, s\u00f3 pode passar pelo caminho da cultura e das artes. Ali\u00e1s, como a Igreja fez secularmente. \u00c9 que hoje, mais do que nunca, a beleza conta e a vida crente deve ser a confirma\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel juntar, em perfeita unidade, a vida boa e a vida bela. Esta \u00abvia pulchritudinis\u00bb n\u00e3o constituir\u00e1 o grande desafio para o cristianismo do terceiro mil\u00e9nio?  Manuel Linda, Dir. Centro Cat\u00f3lico da Cultura\/Vila Real <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Linda, Director do Centro Cat\u00f3lico da Cultura\/Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[127,183,206,246],"class_list":["post-984","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-catequese","tag-diocese-de-vila-real","tag-familia","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=984"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/984\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}