{"id":983,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/cristianismo-e-cultura\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"cristianismo-e-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cristianismo-e-cultura\/","title":{"rendered":"Cristianismo e cultura"},"content":{"rendered":"<p>Guilherme d\u2019Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura    <!--more--> \u201c\u2026alguma coisa oscilaria na habitual monotonia da minha inf\u00e2ncia.\u201d Ruy Belo, \u201cToda a Terra\u201d.  O Conc\u00edlio Vaticano II deu um sinal, ao atribuir especial import\u00e2ncia ao tema da cultura \u2013 tradicionalmente inc\u00f3modo, sobretudo tendo em considera\u00e7\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es, muitas vezes de perplexidade e incompreens\u00e3o, entre a intelectualidade e a Igreja. \u201cA cultura, por dimanar imediatamente da natureza racional e social do homem, precisa sempre de uma justa liberdade para se desenvolver e de uma leg\u00edtima autonomia de ac\u00e7\u00e3o, em conformidade com os seus pr\u00f3prios princ\u00edpios de actuar com autonomia\u201d \u2013 afirma a Constitui\u00e7\u00e3o Pastoral \u201cGaudium et Spes\u201d. E continua: \u201cTem, por conseguinte, direito a ser respeitada e goza de uma certa inviolabilidade, com a condi\u00e7\u00e3o, evidentemente, de salvaguardar os direitos da pessoa e da sociedade particular ou universal, dentro dos limites do bem comum\u201d (n\u00ba 59). No fundo, a justa liberdade, a leg\u00edtima autonomia e a dignidade humana \u00e9 que est\u00e3o em causa. \u201cPerfeito \u00e9 n\u00e3o quebrar\/ A imagin\u00e1ria linha\u201d (Sophia). A exig\u00eancia de compreens\u00e3o dos sinais dos tempos obriga a um esfor\u00e7o especial de entendimento dos elos que se estabelecem entre o mundo crist\u00e3o e o mundo moderno. A incerteza e a procura de verdade suscitam a necessidade de trilharmos caminhos dif\u00edceis e arriscados, por entre d\u00favidas e o erros \u2013 em vez da tenta\u00e7\u00e3o do conformismo e das verdades supostamente adquiridas, que ignoram as diferen\u00e7as e a compreens\u00e3o dos outros\u2026 Quando, no final, dos anos quarenta, Eduardo Louren\u00e7o elevou a bandeira da \u201cHeterodoxia\u201d, f\u00ea-lo em nome da autonomia do esp\u00edrito e da procura inconformista da verdade.   A \u201cheterodoxia \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que o real n\u00e3o \u00e9 apenas a cabe\u00e7a mordendo sem hesita\u00e7\u00f5es, nem a cauda devorada sem resist\u00eancia, mas o inteiro movimento de morder e ser mordido, a paix\u00e3o circular da vida em si mesma\u201d. E que seria a \u201cheterodoxia\u201d, sen\u00e3o a \u201cconsci\u00eancia absoluta da pluralidade hist\u00f3rica das ortodoxias, que a diversidade dos povos, das na\u00e7\u00f5es e dos homens suscita continuamente\u201d? E assim, culturalmente, o Absoluto tem de ser visto como luta. \u201cN\u00e3o penseis que vim trazer a paz \u00e0 terra; n\u00e3o vim trazer a paz mas a espada; vim separar o filho de seu pai; a filha de sua m\u00e3e; a nora de sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem ser\u00e3o os seus familiares\u201d (Mt. X, 34-36). E na Raz\u00e3o, do mesmo modo, coexiste \u201craz\u00e3o e irraz\u00e3o\u201d, d\u00favida e paradoxo. Sempre a agonia e a luta. Este \u00e9 o mundo da cultura \u2013 mundo de diversidade e de contradi\u00e7\u00e3o. Estas s\u00e3o as resist\u00eancias. Como diria Miguel de Unamuno, a pessoa humana \u00e9 uma realidade dividida e o cristianismo uma unidade ag\u00f3nica. \u201cA d\u00favida, mais a pascaliana do que a cartesiana ou d\u00favida met\u00f3dica, a d\u00favida da vida \u2013 vida \u00e9 luta -, e n\u00e3o o caminho \u2013 m\u00e9todo \u00e9 caminho -, sup\u00f5e a dualidade do combate\u201d. E G. K. Chesterton leva-nos a ver o mundo \u00e0s avessa, para melhor descobrirmos a verdade \u2013uma vez que \u201cas pessoas deste mundo n\u00e3o conhecem a fundo o mundo que habitam e, por essa raz\u00e3o, acreditam cegamente, em meia d\u00fazia de m\u00e1ximas c\u00ednicas que est\u00e3o longe de ser express\u00e3o da verdade\u201d. Eis porque \u00e9 importante essa luta do cristianismo e o permanente lan\u00e7amento da semente da verdade, com todas as consequ\u00eancias incertas, que obrigam a ter em considera\u00e7\u00e3o \u201cos direitos da pessoa e da sociedade particular ou universal\u201d. A hist\u00f3ria \u00e9 essa caminhada incessante, rumo \u00e0 encruzilhada das m\u00faltiplas formas de procurar a verdade.   Ant\u00f3nio Al\u00e7ada Baptista, na senda peregrina do nosso Fern\u00e3o Mendes Pinto, costuma recordar uma dedicat\u00f3ria de Bernanos: \u201ctudo o que h\u00e1 de bom na hist\u00f3ria do mundo foi feito pelo misterioso acordo entre a humildade e a ardente paci\u00eancia do homem com a doce piedade de Deus\u201d. Isto, contra os poderes institu\u00eddos, contra a omnisci\u00eancia dos Doutores e contra a incur\u00e1vel frivolidade das pessoas s\u00e9rias\u2026 E Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa lembra Nuno de Bragan\u00e7a quando este dizia acreditar em que, \u201cpara alimentarmos o medo, n\u00e3o h\u00e1 como fingirmos que n\u00e3o o temos\u201d. Afinal, \u201cmetemos medo \u00e0 crian\u00e7a para a meter na ordem do medo e ainda mais ao adolescente quando ele come\u00e7a a nos meter medo\u2026\u201d Temos de entender que estamos perante n\u00f3s mesmos e o mist\u00e9rio da Ressurrei\u00e7\u00e3o, como encruzilhada fundamental da cultura humana \u2013 entre a Gra\u00e7a e a d\u00favida, no combate fundamental. \u201cMas as coisas t\u00eam m\u00e1scaras \u2013 diz-nos ainda Sophia \u2013 e v\u00e9us com que me enganam, e, quando eu um momento espantada me esque\u00e7o, a for\u00e7a perversa das coisas ata-me os bra\u00e7os e atira-me, prisioneira de ningu\u00e9m mas s\u00f3 de la\u00e7os, para o vazio horror das voltas do caminho\u201d (Coral, 1950). Quantas vezes n\u00e3o temos a tenta\u00e7\u00e3o de considerar como certo um sentido, quando, de facto, somos levados pelo conhecimento e pela busca da verdade, a deix\u00e1-lo ou a p\u00f4-lo sob o crit\u00e9rio cr\u00edtico? Pluralismo n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de relativismo. Os sentidos cruzam-se, encontram-se e separam-se. E a f\u00e9 fica ou desvanece-se \u2013 persiste ou esvai-se. Mas, mais importante do que toda a az\u00e1fama \u00e9 a procura do sentido pr\u00f3prio e ecum\u00e9nico da vida ou do aprofundamento religioso, para o qual o di\u00e1logo \u00e9 insubstitu\u00edvel. Como no caminho de Ema\u00fas.  Guilherme d\u2019Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme d\u2019Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[144,154,168,172],"class_list":["post-983","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-braga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=983"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/983\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}