{"id":9820,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-justica-e-a-promocao-da-verdade-e-do-bem\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-justica-e-a-promocao-da-verdade-e-do-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-justica-e-a-promocao-da-verdade-e-do-bem\/","title":{"rendered":"A Justi\u00e7a \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o da Verdade e do Bem"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa de Abertura do Ano Judicial <!--more--> 1. Nesta celebra\u00e7\u00e3o, promovida por um grupo de crist\u00e3os por ocasi\u00e3o da Solene Abertura do Ano Judicial, a que tenho o gosto de presidir, sa\u00fado com respeito todos aqueles e aquelas que, no nosso Pa\u00eds, trabalham para a administra\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. O Senhor Ministro da Justi\u00e7a; o Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, este ano ausente, por motivos de sa\u00fade \u2013 t\u00ea-lo-emos especialmente presente na nossa ora\u00e7\u00e3o; os Presidentes dos outros Tribunais Supremos; o Senhor Procurador-Geral da Rep\u00fablica; o Senhor Baston\u00e1rio da Ordem dos Advogados, para quem invocaremos luz e for\u00e7a neste in\u00edcio da sua miss\u00e3o; e todos os outros intervenientes na administra\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. Para todos iremos pedir a Deus as luzes do Esp\u00edrito para o discernimento da Verdade, a dedica\u00e7\u00e3o para lutar, sem descanso, por uma sociedade mais justa, a humildade que ajudar\u00e1 a consciencializar os limites de todos os ju\u00edzos humanos. Neste ano em que a Cidade de Lisboa acolhe a terceira sess\u00e3o do Congresso Internacional da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, em que a Igreja, em di\u00e1logo com a sociedade, prop\u00f5e Jesus Cristo e o Seu Evangelho como refer\u00eancias absolutas para a luz que conduz todo o esfor\u00e7o pela implementa\u00e7\u00e3o na sociedade, de tudo o que \u00e9 bom e justo, achei oportuno falar-vos, hoje, das rela\u00e7\u00f5es entre o Evangelho e a Justi\u00e7a. Ao faz\u00ea-lo, tenho consci\u00eancia de que uso a palavra Justi\u00e7a como um valor global basilar para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade digna do homem e do seu mist\u00e9rio. A Justi\u00e7a \u00e9, a\u00ed, um dinamismo muito pr\u00f3ximo da verdade, da generosidade, da harmonia e da paz. Numa sociedade secularizada, em que est\u00e1 constitucionalmente afirmada a laicidade do Estado que, ali\u00e1s, a Igreja respeita, desde que o Estado n\u00e3o se confunda com a sociedade, n\u00e3o pode estar nas minhas inten\u00e7\u00f5es qualquer tentativa ou sugest\u00e3o de \u201csacralizar\u201d a administra\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, tendo, embora, duas convic\u00e7\u00f5es complementares: que para quem acolhe o Evangelho e a luz de Cristo, isso n\u00e3o \u00e9 indiferente na busca da verdade e do bem e a de que todos aqueles que procuram verdadeiramente a Justi\u00e7a, acabam por convergir com Jesus Cristo e o Seu Evangelho, mesmo sem o saberem. \u00c9 que todos n\u00f3s que temos uma miss\u00e3o a cumprir, devemos sempre aliar a compet\u00eancia com a consci\u00eancia, os dois pilares de um discernimento justo. E se a f\u00e9 pode, aparentemente, nada acrescentar \u00e0 compet\u00eancia, ela ilumina a consci\u00eancia de forma libertadora.  2. A Leitura da Carta do Ap\u00f3stolo Paulo aos Romanos que foi lida, situa o contexto desta ilumina\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia na aplica\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a que \u00e9 apresentada como a busca do bem, o triunfo do bem sobre o mal, o que aproxima a Justi\u00e7a da verdade, do amor fraterno e, por conseguinte, da busca da harmonia e da paz. Diz o Ap\u00f3stolo: \u201cN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem\u201d (Rom. 12,21), depois de ter afirmado como projecto de vida para a comunidade crist\u00e3: \u201cDetestai o mal e aderi ao bem\u201d (Rom. 12,9), o que mostra que a administra\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a s\u00f3 encontra o contexto favor\u00e1vel numa sociedade que aprecia e busca a Justi\u00e7a, o que sup\u00f5e um quadro de valores e um modelo de sociedade. S\u00f3 podem administrar bem a Justi\u00e7a os promotores da Justi\u00e7a, os que sabem que o mal nas nossas sociedades n\u00e3o se pode vencer com o mal. O Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II partiu, precisamente, deste texto da Carta aos Romanos, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, no primeiro dia do Ano de 2005. No seu discurso a palavra paz engloba, necessariamente a Justi\u00e7a. Diz ele: \u201ca perspectiva delineada pelo grande Ap\u00f3stolo p\u00f5e em evid\u00eancia uma verdade fundamental: a paz \u00e9 o resultado de uma longa e \u00e1rdua batalha, vencida quando o mal \u00e9 derrotado pelo bem\u201d.  3. \u00c9 nesta defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 mal e do que \u00e9 bem que Cristo e o Seu Evangelho s\u00e3o luz a orientar as consci\u00eancias. No contexto das nossas sociedades, o mal e o bem, quer pessoal, quer social, s\u00e3o definidos pela Lei, o que traz uma densidade acrescida \u00e0 fun\u00e7\u00e3o legislativa. A dignidade de uma sociedade depende, em grande parte, da justeza das suas leis. Mas fica sempre em aberto a interroga\u00e7\u00e3o: em que medida a consci\u00eancia pode influenciar a interpreta\u00e7\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o da Lei, para nunca nos afastarmos da Justi\u00e7a e, por conseguinte, do bem. Permiti que vos cite toda uma p\u00e1gina da j\u00e1 referida Mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial da Paz: \u201cDesde as origens, a humanidade conheceu a tr\u00e1gica experi\u00eancia do mal e procurou encontrar as suas ra\u00edzes e explicar-lhe as causas. O mal n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a an\u00f3nima que age no mundo devido a mecanismos deterministas e impessoais. O mal passa atrav\u00e9s da liberdade humana. No centro do drama do mal e constantemente relacionado com ele est\u00e1 precisamente esta faculdade que distingue o homem dos demais seres vivos sobre a terra. O mal tem sempre um rosto e um nome: o rosto e o nome de homens e mulheres que o escolhem livremente. A Sagrada Escritura ensina que, nos in\u00edcios da hist\u00f3ria, Ad\u00e3o e Eva se revoltaram contra Deus e que Abel foi morto pelo irm\u00e3o Caim (cf. Gen. 3,4). Foram as primeiras escolha erradas, \u00e0s quais se seguiram tantas outras ao longo dos s\u00e9culos. Cada uma delas traz em si uma essencial conota\u00e7\u00e3o moral, que implica concretas responsabilidades por parte do sujeito e p\u00f5e em quest\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es fundamentais da pessoa com Deus, com as outras pessoas e com a cria\u00e7\u00e3o. Visto nas suas componentes mais profundas, o mal \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um tr\u00e1gico esquivar-se \u00e0s exig\u00eancias do amor. O bem moral, pelo contr\u00e1rio, nasce do amor, manifesta-se como amor e \u00e9 orientado ao amor. Este argumento \u00e9 particularmente evidente para o crist\u00e3o, pois sabe que a participa\u00e7\u00e3o no \u00fanico Corpo m\u00edstico de Cristo coloca-o em particular rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente com o Senhor, mas tamb\u00e9m com os irm\u00e3os. A l\u00f3gica do amor crist\u00e3o, que no Evangelho constitui o cora\u00e7\u00e3o palpitante do bem moral, conduz, se levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, at\u00e9 ao amor pelos inimigos: \u00abSe o teu inimigo tem fome, d\u00e1-lhe de comer; se tem sede, d\u00e1-lhe de beber\u00bb (Rom. 12,20)\u201d.  4. Finalmente, na par\u00e1bola evang\u00e9lica, a Justi\u00e7a \u00e9 relacionada com o amor fraterno, em todas as circunst\u00e2ncias. E \u00e9-nos lan\u00e7ada a pergunta: Quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo? Mas, no contexto da par\u00e1bola, a pergunta pode ser formulada de outra maneira: quem \u00e9 que aquele infeliz, atacado pelos salteadores, sentiu como seu pr\u00f3ximo? N\u00e3o podemos deixar de dar forma actual a esta pergunta de todos os tempos: quem \u00e9 que as v\u00edtimas inocentes do mal dos outros, os que praticaram o mal e merecem ser tratados com Justi\u00e7a e dignidade, sentem ser o seu pr\u00f3ximo? Em todas as circunst\u00e2ncias \u00e9 poss\u00edvel estabelecer um di\u00e1logo entre pessoas, que fa\u00e7a sobressair a verdade da Justi\u00e7a e aproxime os homens como irm\u00e3os.  S\u00e9 Patriarcal, 27 de Janeiro de 2005, \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa de Abertura do Ano Judicial<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,165,237,268],"class_list":["post-9820","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-dia-mundial-da-paz","tag-joao-paulo-ii","tag-nova-evangelizacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9820"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9820\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}