{"id":9756,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/por-um-choque-civico\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"por-um-choque-civico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/por-um-choque-civico\/","title":{"rendered":"Por um choque c\u00edvico"},"content":{"rendered":"<p>Herm\u00ednio Rico SJ, Director da revista Brot\u00e9ria \u2013 Cristianismo e Cultura <!--more--> \u201cO primeiro dever dos crist\u00e3os \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel. Que ningu\u00e9m se esconda por detr\u00e1s de desculpas habituais\u201d. \u00c9 assim que o Conselho permanente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, no seu Comunicado de 14 de Dezembro de 2004, sublinha a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fugir \u00e0 escolha pol\u00edtica, mesmo \u201cna certeza de que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es perfeitas, nem definitivas\u201d. Por isso \u00e9 que se trata duma escolha, dum exerc\u00edcio de prefer\u00eancia reflectida.  O objectivo \u2013 a promo\u00e7\u00e3o do maior bem comum numa sociedade justa e fraterna \u2013 envolve sempre muitos n\u00edveis de complexidade, justificando que diferentes op\u00e7\u00f5es finais possam ser identicamente leg\u00edtimas, desde que movidas por discer-nimentos de igual honestidade crist\u00e3. As diverg\u00eancias vir\u00e3o de diferentes hierar-quiza\u00e7\u00f5es dos valores em jogo ou pondera\u00e7\u00f5es distintas dos crit\u00e9rios de julgamento. Quais devem ser, ent\u00e3o, os crit\u00e9rios para realizar este discernimento? O mesmo comunicado apresenta-os duma forma gen\u00e9rica: \u201ctemos todos o dever de nos esclarecermos crite-riosamente, passando para al\u00e9m do discurso eleitoralista e apreciando as solu\u00e7\u00f5es objectivas que nos s\u00e3o propostas para o Governo da Na\u00e7\u00e3o. Para tal, importa avaliar da sua justi\u00e7a, da sua viabilidade, da sua conson\u00e2ncia com os princ\u00edpios da dignidade humana, do respeito pela vida, da dimens\u00e3o social que todas as pol\u00edticas devem ter. Para os crist\u00e3os, o crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 o Evangelho e a doutrina social da Igreja.\u201d O novo Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja resume o seu objectivo orientador na f\u00f3rmula: \u201cum humanismo integral e solid\u00e1rio\u201d. Por um lado, reafirma a centralidade dada \u00e0 pessoa humana, ser sempre social, com direito a um desenvolvimento integral em todas as dimens\u00f5es do seu viver (econ\u00f3mica, social, familiar, cultural e espiritual). Por outro, junta-lhe as exig\u00eancias da justi\u00e7a e da solidariedade, que se concretizam na aten\u00e7\u00e3o primordial que deve ser prestada aos interesses dos mais desfavo-recidos. Um humanismo que promova a dignidade de toda a pessoa e da pessoa toda. Temos, assim, o crit\u00e9rio fundamental para avaliar cada proposta pol\u00edtica: como \u00e9 que ela defende e promove o bem integral das pessoas, em especial os interesses daquelas que est\u00e3o, na nossa sociedade, mais desprotegidas? No nosso est\u00e1dio de desenvolvimento, as limita\u00e7\u00f5es econ\u00f3mico-financeiras globais s\u00e3o ainda determinantes para a condi\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a em que vive uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o: aus\u00eancia de emprego, impossibilidade de satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas e de acesso a servi\u00e7os sociais com prontid\u00e3o e qualidade, falta de horizontes de desenvolvimento pessoal. Em nome dos muitos ainda exclu\u00eddos, \u00e9 preciso produzir mais riqueza, aproveitar muito melhor a que j\u00e1 produzimos e distribu\u00ed-la de modo mais equitativo, dando prefer\u00eancia a quem mais precisa. No entanto, tem-se tornado evidente ultimamente que muitos dos obst\u00e1culos a um maior sucesso econ\u00f3mico da nossa sociedade, condi\u00e7\u00e3o para uma maior justi\u00e7a social, dependem directamente de h\u00e1bitos culturais e sociais de car\u00e1cter individualista e ego\u00edsta que, al\u00e9m de pouco honestos, s\u00e3o duplamente injustos: n\u00e3o s\u00f3 excluem \u00e0 partida os mais desprotegidos que, por serem por defini\u00e7\u00e3o exclu\u00eddos, n\u00e3o podem lan\u00e7ar m\u00e3o dos mesmos expedientes, como, ao diminu\u00edrem e desviarem o que devia enriquecer o bem comum, prejudicam quem mais dependente est\u00e1 do apoio da sociedade.  Incluem-se aqui comportamentos e pr\u00e1ticas como: a falta duma \u00e9tica e exig\u00eancia no trabalho (com a consequente baixa de produtividade), a desonestidade fiscal generalizada tida como normal, o recurso sistem\u00e1tico a pequenas influ\u00eancias, as t\u00edpicas \u201ccunhas\u201d, e a pequena e grande corrup\u00e7\u00e3o, a busca sistem\u00e1tica do aproveitamento imediato em detrimento da aposta no longo prazo sustent\u00e1vel, etc., at\u00e9 chegar \u00e0 falta de pontualidade que tanto prejudica a efici\u00eancia. Ao mesmo tempo, tem crescido a capacidade de interesses corporativos manipularem ou bloquearem reformas para seu pr\u00f3prio ganho.  O desinteresse pelo bem comum, substitu\u00eddo pelo ego\u00edsmo seja individualista seja corporativista, tem crescido numa cultura que cada vez reivindica mais direitos e se esquece dos deveres e responsabilidades. Por imperativos tamb\u00e9m de justi\u00e7a, e em nome dos exclu\u00eddos, daqueles que n\u00e3o t\u00eam ao seu alcance os meios pelos quais muito se tem jogado a progress\u00e3o econ\u00f3mica e social das classes mais beneficiadas, \u00e9 urgente um \u201cchoque c\u00edvico\u201d \u2013 uma mudan\u00e7a de h\u00e1bitos no sentido da exig\u00eancia e do rigor. Mais do que promessas de atraente facilidade mas de viabilidade d\u00fabia, o que se deve valorizar \u00e9 a vontade e a coragem para dirigir a sociedade pelos caminhos da responsabiliza\u00e7\u00e3o, do empenho, da determina\u00e7\u00e3o e do sacrif\u00edcio dos interesses pr\u00f3prios imediatos a favor dum bem comum duradouro mais justo e solid\u00e1rio. Mas este crit\u00e9rio de julgamento n\u00e3o pode ser apenas passivo. Como diz o comunicado citado acima, ao dever de escolher as propostas que suscitam mais esperan\u00e7a tem que estar associado o empenho em contribuir para a sua implementa\u00e7\u00e3o: \u201cvotar \u00e9 escolher caminhos e escolher \u00e9 comprometer-se generosamente na sua concretiza\u00e7\u00e3o.\u201d As ra\u00edzes culturais, de mentalidade e de maus h\u00e1bitos socialmente pouco sancionados que est\u00e3o na origem de muitos dos problemas que agora politicamente \u00e9 preciso enfrentar concernem \u00e0 pr\u00e1tica dos pol\u00edticos, certamente, mas responsabilizam igualmente toda a sociedade. O dever de n\u00e3o se esconder na escolha prolonga-se no dever de participar, de se envolver. Para al\u00e9m de ser dif\u00edcil e complicado, pode revelar-se tamb\u00e9m algo inc\u00f3modo. Ali\u00e1s, provavelmente, s\u00f3 escolher\u00e1 duma forma recta quem avalia a situa\u00e7\u00e3o e as propostas dispon\u00edveis a partir duma atitude pessoal de disponibilidade para o comprometimento com a constru\u00e7\u00e3o do bem comum, quem \u00e9 capaz de se colocar fora do c\u00edrculo restrito dos interesses pessoais e do seu grupo social e olha para a realidade pela perspectiva do mais pobre, daquele que est\u00e1 exclu\u00eddo, que ningu\u00e9m protege e corre o risco de ser apenas a v\u00edtima, directa ou indirecta, do \u201cprogresso\u201d de alguns.  Herm\u00ednio Rico SJ, Director da revista Brot\u00e9ria \u2013 Cristianismo e Cultura <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herm\u00ednio Rico SJ, Director da revista Brot\u00e9ria \u2013 Cristianismo e Cultura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[147,314],"class_list":["post-9756","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9756"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9756\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}