{"id":966,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/santidade-e-popularidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"santidade-e-popularidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santidade-e-popularidade\/","title":{"rendered":"Santidade e popularidade"},"content":{"rendered":"<p>De norte a sul do pa\u00eds, muitas localidades celebraram a festa de Santo Ant\u00f3nio. O \u00abdoutor evang\u00e9lico\u00bb \u00e9 recordado de m\u00faltiplas formas <!--more--> Santo Ant\u00f3nio, o santo mais popular do catolicismo, depois, talvez, de S. Francisco. Ainda me recordo das hist\u00f3rias que uma das minhas tias, a minha tia &#8216;dos Anjos&#8217; (era assim que n\u00f3s diz\u00edamos abreviando Maria dos Anjos), hist\u00f3rias singelas que enchiam de emo\u00e7\u00e3o a imagina\u00e7\u00e3o e a fantasia popular, hist\u00f3rias, decalcadas ali\u00e1s nos ap\u00f3crifos da inf\u00e2ncia de Jesus, que nos mostravam a santidade extraordin\u00e1ria de Ant\u00f3nio, simultaneamente santo e traquina, como todas as crian\u00e7as. E eu pr\u00f3prio, muito traquina tamb\u00e9m, quando ia guardar os cerrados de trigo, quantas vezes desejava ser como o menino Santo Ant\u00f3nio, que dizia aos p\u00e1ssaros para n\u00e3o comerem do seu quintal, e eles lhe obedeciam!&#8230; Para as raparigas em idade de casar, Santo Ant\u00f3nio era o casamenteiro, e faziam-lhe novenas para que ele lhes deparasse o namorado t\u00e3o desejado; faziam-se responsos, para encontrar coisas desaparecidas, para lhe pedir a intercess\u00e3o em causas perdidas!&#8230;  Mais tarde, questionei-me sobre a raz\u00e3o de tanta popularidade, e ent\u00e3o deste grande santo, que \u00e9 de Lisboa, para os portugueses, e de P\u00e1dua, para o resto do mundo, &#8216;Il Santo&#8217;, diz-se em P\u00e1dua, recolhi algumas li\u00e7\u00f5es. A primeira li\u00e7\u00e3o, \u00e9 a da leitura atenta do Evangelho como alimento da intelig\u00eancia e fortaleza da vontade. Santo Ant\u00f3nio \u00e9 conhecido como o &#8216;Doutor evang\u00e9lico&#8217;, porque nele encontrava a raz\u00e3o da sua prega\u00e7\u00e3o. E do Evangelho ele colhia o essencial, ou seja, o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o, porque o Evangelho como texto \u00e9 o reflexo da Palavra que se fez carne, que se fez Menino. Por isso \u00e9 que Santo Ant\u00f3nio \u00e9 representado com um livro no bra\u00e7o (o livro dos evangelhos) sobre o qual est\u00e1 sentado o Menino Jesus. \u00c9 toda a espiritualidade da Incarna\u00e7\u00e3o, da divina humanidade do Verbo Incarnado, do Natal, t\u00e3o franciscana, t\u00e3o antiga e t\u00e3o actual. S. Francisco percebeu bem o que se passava na alma e no cora\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f3nio, ao ponto de o encarregar da forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica dos primeiros frades, e enviou-o tamb\u00e9m a anunciar o Evangelho para o sul Fran\u00e7a, onde dominava a seita dos c\u00e1taros e dos albigenses, maniqueus que negavam o valor e o sentido da incarna\u00e7\u00e3o, que diabolizavam tudo o que tivesse a ver com a mat\u00e9ria, com o corpo, com a sexualidade, e por isso defendiam que o \u00fanico caminho da perfei\u00e7\u00e3o era a absoluta conten\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es da carne, pois tudo era mau, tudo era pecado.  Santo Ant\u00f3nio  proclamava a santidade do matrim\u00f3nio, que n\u00e3o havia apenas um caminho para a santidade, mas muitos caminhos, e que tanto podiam ser santos os frades e os monges como os solteiros e os casados, porque o matrim\u00f3nio \u00e9 caminho de santidade, a sexualidade \u00e9 caminho de santidade, tudo pode ser caminho de santidade, desde que vivido no Senhor, e por isso ele aconselhava os jovens crist\u00e3os que se n\u00e3o sentissem chamados para a vida religiosa, que casassem no Senhor e que vivessem na santidade, porque o casamento no Senhor \u00e9 uma coisa sagrada. Foi nesta \u00e9poca que a Igreja proclamou solenemente a sacramentalidade do matrim\u00f3nio, justamente para responder, entre tantas coisas, \u00e0 heresia c\u00e1tara. E foi assim que Santo Ant\u00f3nio entrou no imagin\u00e1rio popular como o Santo Casamenteiro. Ainda hoje h\u00e1 os &#8216;noivos de Santo Ant\u00f3nio&#8217;, embora muitos n\u00e3o saibam a raz\u00e3o, sobretudo aqueles que v\u00e3o casar pelo civil&#8230;, mas enfim, a quest\u00e3o l\u00e1 est\u00e1 como mem\u00f3ria que seria necess\u00e1rio reavivar. Esta caracter\u00edstica incarnacional da espiritualidade de Santo Ant\u00f3nio assumiu uma configura\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica. Nesse tempo, em Li\u00e8ge, por influ\u00eancia de umas senhoras piedosas, come\u00e7ou a espalhar-se a devo\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo Sacramento, movimento que colheu a enorme simpatia de S. Francisco, que, ao que me parece, l\u00e1 foi pessoalmente, em peregrina\u00e7\u00e3o, porque ele sentia que essa era a sua grande intui\u00e7\u00e3o: que o evangelho da incarna\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente evangelho eucar\u00edstico. Foi um movimento fecund\u00edssimo de renova\u00e7\u00e3o espiritual, que levou o Papa Urbano IV a estender esta devo\u00e7\u00e3o a toda a Igreja, com a Festa do Corpus Christi, que ainda hoje, tantos s\u00e9culos depois, continua a celebrar-se. Os autores espirituais do s\u00e9c. XIX consideravam o mesmo mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o sob outra perspectiva: a do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, do Cora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstico de Jesus. Para Jo\u00e3o do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, ao longo da hist\u00f3ria da Igreja, a espiritualidade teria evolu\u00eddo, sempre na contempla\u00e7\u00e3o do mesmo mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o, mas a partir de pontos de vista diferentes. Assim, na antiguidade, era a figura do Bom Pastor; a partir do s\u00e9c. IV, a Cruz; na Idade M\u00e9dia, como acab\u00e1mos de ver, a Eucaristia; e na modernidade, o Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, o Cora\u00e7\u00e3o trespassado, que se d\u00e1 em \u00eaxtase de amor, que cura o cora\u00e7\u00e3o do homem ferido pelo pecado. O Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 a express\u00e3o perfeita que integra o Bom Pastor, a Cruz, a Eucaristia, e este seria ent\u00e3o, diz o P. Dehon, o grande dom de Deus para os tempos modernos, influenciados por uma outra heresia anti-incarnacional, o jansenismo. Como seria bom que se recordasse a quem o festeja, com sardinhas, com arraiais, com marchas, com as noivas de Santo Ant\u00f3nio, com responsos, ou outras formas mais ou menos marginais ou mesmo heterodoxas, as raz\u00f5es da popularidade de Santo Ant\u00f3nio. A sua popularidade \u00e9 a santidade; o seu segredo \u00e9 levar no bra\u00e7o e sobretudo no Cora\u00e7\u00e3o, o Evangelho da Incarna\u00e7\u00e3o, a m\u00edstica e a espiritualidade do Cora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstico de Jesus. A recente enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II poderia ser para todos um bom meio de ir al\u00e9m de Santo Ant\u00f3nio, para onde aponta a sua simp\u00e1tica e traquina figura. <i>Jos\u00e9 Jacinto Ferreira de Farias, scj<\/i> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De norte a sul do pa\u00eds, muitas localidades celebraram a festa de Santo Ant\u00f3nio. 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