{"id":9647,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/os-40-anos-do-decreto-conciliar-unitatis-redintegratio\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"os-40-anos-do-decreto-conciliar-unitatis-redintegratio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-40-anos-do-decreto-conciliar-unitatis-redintegratio\/","title":{"rendered":"Os 40 anos do decreto conciliar \u00abUnitatis redintegratio\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Na Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os <!--more--> \u201cO ecumenismo \u00e9 uma atitude da mente e do cora\u00e7\u00e3o que nos move a olhar os nossos irm\u00e3os crist\u00e3os separados com respeito, compreens\u00e3o e esperan\u00e7a.  Com respeito porque os reconhecemos como irm\u00e3os em Cristo e os olhamos como amigos, mais do que como opositores; com compreens\u00e3o, porque procuramos as verdades divinas que possu\u00edmos em comum, ainda que reconhe\u00e7amos honestamente as diferen\u00e7as na f\u00e9 que existe entre n\u00f3s; com esperan\u00e7a, que nos far\u00e1 crescer juntos num mais perfeito conhecimento e amor de Deus e de Cristo&#8230;\u201d  (C. Meyer) Desde os primeiros s\u00e9culos que existiram divis\u00f5es no seio da igreja, mais ou menos dolorosas, que foram crescendo com o decorrer do tempo. No s\u00e9culo XIX come\u00e7aram a aparecer alguns sinais de mudan\u00e7a desta situa\u00e7\u00e3o, principalmente ao n\u00edvel da Igreja ortodoxa e das igrejas sa\u00eddas da reforma, com a aproxima\u00e7\u00e3o entre os diversos patriarcados e a cria\u00e7\u00e3o de estruturas que congregassem as in\u00fameras confiss\u00f5es em que estas se tinham multiplicado. Contudo, s\u00f3 no s\u00e9culo XX \u00e9 que se pode falar do in\u00edcio de um verdadeiro movimento ecum\u00e9nico.  Algumas datas s\u00e3o significativas em todo este processo. Em 1900 realizou-se, em Nova York, uma Confer\u00eancia Ecum\u00e9nica Mission\u00e1ria para estudo de um plano de expans\u00e3o mission\u00e1ria que abarcasse toda a terra, a que se seguiu, em 1910, em Edimburgo, uma nova assembleia, que estar\u00e1 na origem de dois movimentos ecum\u00e9nicos, \u2018Vida e ac\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018F\u00e9 e constitui\u00e7\u00e3o\u2019 (estes dois movimentos estar\u00e3o na base do futuro Conselho Mundial das Igrejas). De referir, em ambiente cat\u00f3lico, as conversa\u00e7\u00f5es de Malines, entre anglicanos e cat\u00f3licos, apadrinhadas pelo Cardeal Mercier (1921-25) que deram bons frutos no primeiro quartel deste s\u00e9culo. Em 1933, o Pe. Couturier, retomando uma iniciativa anglicana, lan\u00e7a o \u2018Oitav\u00e1rio de Ora\u00e7\u00e3o para a Unidade dos Crist\u00e3os\u2019. Em 1948, em Amesterd\u00e3o, cria-se o \u2018Conselho Mundial das Igrejas\u2019 que re\u00fane um grande n\u00famero de igrejas protestantes \u00e0s quais se une, em 1954, uma grande parte das igrejas ortodoxas. A partir da Confer\u00eancia de Oxford, em 1937, o termo ecum\u00e9nico designa com clareza as rela\u00e7\u00f5es amistosas entre as diferentes igrejas com o desejo expresso de realizar a uni\u00e3o e de estreitar a comunh\u00e3o entre todos os crentes em Jesus Cristo. Contributo importante para este movimento foi, em 1962, o Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II. Para este Conc\u00edlio Jo\u00e3o XXIII convidou observadores n\u00e3o-cat\u00f3licos, de v\u00e1rias igrejas e comunidades eclesiais, que foram crescendo em n\u00famero ao longo das v\u00e1rias sess\u00f5es. Em 1964, j\u00e1 sob o pontificado de Paulo VI, o Conc\u00edlio publica o decreto Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo, documento que recentemente celebrou o seu quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio, com um Congresso Internacional sobre \u00abO decreto sobre o ecumenismo do Conc\u00edlio Vaticano II, quarenta anos depois\u00bb, que decorreu entre os dias 11 a 13 de Novembro de 2004, em Rocca di Papa (localidade pr\u00f3xima a Roma), onde se fez um balan\u00e7o de quatro d\u00e9cadas de di\u00e1logo ecum\u00e9nico.  Pequena hist\u00f3ria do decreto Com o in\u00edcio dos trabalhos conciliares, todas as comiss\u00f5es que o tinham preparado deixaram de existir. A excep\u00e7\u00e3o, expressamente querida pelo Papa Jo\u00e3o XXIII, \u00e9 a do chamado \u2018Secretariado Romano para a unidade\u2019, como sinal claro de uma vontade decidida em que o clima e a preocupa\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica estivessem presentes na aula conciliar. Na primeira sess\u00e3o s\u00e3o oferecidos dois textos sobre ecumenismo: um elaborado pela Comiss\u00e3o teol\u00f3gica e pensado como parte da constitui\u00e7\u00e3o \u2018De Ecclesia\u2019, e um outro preparado pela Comiss\u00e3o das Igrejas orientais, intitulado \u2018Ut omnes unum sint\u2019. Um terceiro seria elaborado pelo \u2018Secretariado para a unidade\u2019, sem ser apresentado nesta sess\u00e3o. Durante a segunda sess\u00e3o, os padres trabalham sobre um novo texto, que inclu\u00eda os tr\u00eas textos referidos anteriormente, com cinco cap\u00edtulos: os tr\u00eas primeiros estritamente ecum\u00e9nicos, o quarto com refer\u00eancias aos n\u00e3o crist\u00e3os, e o \u00faltimo cap\u00edtulo consagrado \u00e0 liberdade religiosa. Rapidamente se imp\u00f5e a opini\u00e3o de que estes dois \u00faltimos constitu\u00edam documentos distintos, como veio a acontecer, constituindo os primeiros a base de trabalho do futuro decreto ecum\u00e9nico. Na terceira sess\u00e3o o texto \u00e9 corrigido, tendo por base as modifica\u00e7\u00f5es propostas, e \u00e9 aprovado em 21 de Novembro de 1964 com 2137 \u2018placet\u2019 e 11 \u2018non placet\u2019, sendo promulgado nesse mesmo dia pelo Papa Paulo VI.  O significado ecum\u00e9nico do decreto conciliar manifesta-se de muitos modos. \u00c9, antes de mais, significativo a mudan\u00e7a operada logo no seu primeiro cap\u00edtulo: n\u00e3o trata este texto dos princ\u00edpios de um ecumenismo cat\u00f3lico, mas sim dos \u2018princ\u00edpios cat\u00f3licos do ecumenismo\u2019, reconhecendo-se assim um \u00fanico movimento ecum\u00e9nico, e n\u00e3o um movimento ecum\u00e9nico cat\u00f3lico. Destes princ\u00edpios alguns podem ser destacados: uma concep\u00e7\u00e3o de Igreja din\u00e2mica, que tem a sua origem no mist\u00e9rio trinit\u00e1rio e se desenvolve na hist\u00f3ria, que \u2018subsiste\u2019 na Igreja cat\u00f3lica mas n\u00e3o se esgota nesta; o car\u00e1cter escatol\u00f3gico desta Igreja peregrina, que permite falar na provisoriedade e de uma Igreja \u2018semper reformanda\u2019; deixa-se de falar de um \u2018simples retorno\u2019, como meta do ecumenismo, e deseja-se uma plena comunh\u00e3o que seja na f\u00e9, nos sacramentos, e no minist\u00e9rio eclesi\u00e1stico; o di\u00e1logo aparece como atitude e como m\u00e9todo de aproxima\u00e7\u00e3o; \u00e9 afirmado o princ\u00edpio da \u2018hierarquia das verdades\u2019 como algo a ter em conta na ultrapassagem de muitas das quest\u00f5es doutrinais que subsistem, recordando que o fundamento da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 cristol\u00f3gico e trinit\u00e1rio. O Conc\u00edlio p\u00f4de assumir o movimento ecum\u00e9nico sem grandes dificuldades, porque apresentou a Igreja como um movimento, ou seja, como \u2018um povo de Deus a caminho\u2019 (cf. LG 2, 8-9 e 48-51; UR 2). Por outras palavras, o Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II voltou a valorizar a dimens\u00e3o escatol\u00f3gica da Igreja, demonstrando que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma realidade est\u00e1tica, mas din\u00e2mica, \u00e9 o povo de Deus em peregrina\u00e7\u00e3o entre o &#8220;j\u00e1&#8221; e o &#8220;ainda n\u00e3o&#8221;, integrando o movimento ecum\u00e9nico nesta din\u00e2mica escatol\u00f3gica. Nesta perspectiva escatol\u00f3gica e espiritual, a finalidade do ecumenismo n\u00e3o pode ser concebida como um simples regresso dos outros ao seio da Igreja Cat\u00f3lica. A finalidade da plena unidade s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s do compromisso animado pelo Esp\u00edrito de Deus e a convers\u00e3o \u00e0 \u00fanica Cabe\u00e7a da Igreja, Jesus Cristo.  Al\u00e9m disso, uma eclesiologia de \u2018comunh\u00e3o\u2019, animada pelo Esp\u00edrito que realiza a unidade, valoriza a perten\u00e7a que acontece pelo baptismo, como sacramento primordial desta \u2018comunh\u00e3o\u2019: \u00e9 este o sacramento da f\u00e9, atrav\u00e9s do qual os baptizados pertencem ao \u00fanico corpo de Cristo, que \u00e9 a Igreja. Por conseguinte, os crist\u00e3os n\u00e3o cat\u00f3licos n\u00e3o se encontram fora da \u00fanica Igreja mas, pelo contr\u00e1rio, j\u00e1 lhe pertencem de maneira fundamental (cf. LG 11 e 14; UR 22). Tendo como base o \u00fanico baptismo comum, o ecumenismo vai muito al\u00e9m da mera benevol\u00eancia e da simples amizade; n\u00e3o se trata de uma forma de diplomacia eclesial, mas possui um fundamento ontol\u00f3gico e uma profundidade ontol\u00f3gica; o ecumenismo afirma-se como um evento do Esp\u00edrito.  Nas palavras do Cardeal W. Kasper, no congresso acima referido, \u201cO Decreto constituiu um in\u00edcio. N\u00e3o obstante, teve repercuss\u00f5es vastas e importantes, tanto no interior da Igreja Cat\u00f3lica como a n\u00edvel ecum\u00e9nico em geral, e mudou profundamente a situa\u00e7\u00e3o do ecumenismo ao longo dos \u00faltimos quarenta anos. Sem d\u00favida, a UR deixou tamb\u00e9m algumas quest\u00f5es a resolver, enfrentou cr\u00edticas e conheceu ulteriores desenvolvimentos. Contudo, os problemas encontrados n\u00e3o devem levar-nos a esquecer os ricos frutos que produziu. O Decreto sobre o Ecumenismo deu in\u00edcio a um processo irrevoc\u00e1vel e irrevers\u00edvel, ao qual n\u00e3o existe uma alternativa realista. O Decreto sobre o Ecumenismo indica-nos o caminho a seguir no s\u00e9culo XXI. A vontade do Senhor consiste em empreendermos este caminho com prud\u00eancia, mas tamb\u00e9m com coragem, paci\u00eancia e sobretudo esperan\u00e7a inabal\u00e1vel. Em \u00faltima an\u00e1lise, o ecumenismo \u00e9 uma aventura do Esp\u00edrito. Por isso, concluo citando as palavras com que se encerra tamb\u00e9m este decreto:   \u2018A esperan\u00e7a n\u00e3o engana, porque o amor de Deus \u00e9 largamente difundido nos nossos cora\u00e7\u00f5es por meio do Esp\u00edrito Santo que nos foi dado\u2019 (Rm 5, 5)\u201d.  JO\u00c3O PEDRO BRITO <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[144,192,238,261,294],"class_list":["post-9647","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-concilio-vaticano-ii","tag-ecumenismo","tag-joao-xxiii","tag-missoes","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9647"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9647\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}