{"id":94472,"date":"2018-01-31T16:47:52","date_gmt":"2018-01-31T16:47:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=94472"},"modified":"2018-02-14T09:09:14","modified_gmt":"2018-02-14T09:09:14","slug":"a-atitude-tem-de-ser-a-do-encontro-da-escuta-do-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-atitude-tem-de-ser-a-do-encontro-da-escuta-do-dialogo\/","title":{"rendered":"\u00abA atitude tem de ser a do encontro, da escuta, do di\u00e1logo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista ao\u00a0cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_93523\" aria-describedby=\"caption-attachment-93523\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-93523 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/DSC_2099_01-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/DSC_2099_01-300x201.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/DSC_2099_01-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/DSC_2099_01-1024x685.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/DSC_2099_01-1080x722.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-93523\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto: Samuel Mendon\u00e7a\/Folha do Domingo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura (Santa S\u00e9), aborda em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, os desafios que se colocam \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica na sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, a arte ou a ci\u00eancia. Uma proposta de di\u00e1logo que n\u00e3o ignora as quest\u00f5es e as dificuldades que se colocam, perante desenvolvimentos que amea\u00e7am a pr\u00f3pria figura humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Oct\u00e1vio Carmo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Tem proposto uma revaloriza\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo como atitude da Igreja Cat\u00f3lica perante a sociedade, a cultura. Historicamente, houve a tend\u00eancia de pensar que bastaria \u201cfalar a\u201d e n\u00e3o tanto \u201cfalar com\u201d? Qu\u00e3o importante \u00e9 escutar o outro?<\/em><\/p>\n<p><em>Cardeal Gianfranco Ravasi<\/em> (GR) \u2013 A perspetiva fundamental com que proponho a minha pr\u00f3pria atividade, que \u00e9 a perspetiva geral em que se movimentam o Papa Francisco e a Igreja, neste per\u00edodo, \u00e9 precisamente o do di\u00e1logo, na sua forma mais genu\u00edna. \u00c9 o cruzamento entre dois discursos, que, no entanto, devem ser profundos. Tem de haver dois interlocutores.<\/p>\n<p>Temos de reconhecer imediatamente que estamos num mundo que tem outro \u2018logos\u2019, que tem outro discurso, outra vis\u00e3o. H\u00e1 certamente elementos negativos e temos consci\u00eancia disso, n\u00f3s e eles tamb\u00e9m, muitas vezes. Por outro lado, como diziam os Padres da Igreja, h\u00e1 as \u201csementes do Verbo\u2019, isto \u00e9, de uma revela\u00e7\u00e3o que \u00e9 secreta, misteriosa, que passa atrav\u00e9s das consci\u00eancias e prop\u00f5e valores.<\/p>\n<p>A Igreja deve estar consciente da sua riqueza, n\u00e3o s\u00f3 teol\u00f3gica mas tamb\u00e9m cultural \u2013 pensemos em tudo o que produziu ao longo de 20 s\u00e9culos de hist\u00f3ria da arte, da filosofia, da literatura, a influ\u00eancia que teve no Ocidente, onde o grande c\u00f3dice foi sempre a B\u00edblia -, consci\u00eancia de si mesma, da sua identidade. E tem tamb\u00e9m de reconhecer, no seio de todas estas revolu\u00e7\u00f5es que aconteceram &#8211; desde a Coperniciana, passando pela revolu\u00e7\u00e3o ilumin\u00edstica-social, Marx, o liberalismo, a psican\u00e1lise, at\u00e9 outras revolu\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em curso, como a da inform\u00e1tica \u2013, que tem de estar presente e dialogar. Deve encontrar-se com este mundo, porque vive dentro dele.<\/p>\n<p>Jesus quando dialogou com Nicodemos, durante a noite, disse que Deus enviou o seu Filho n\u00e3o para condenar o mundo, mas para o salvar. No fim, a abordagem, a atitude tem de ser a do encontro, da escuta, do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Esta atitude implica um certo desconforto, uma tens\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o caminho mais f\u00e1cil\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>GR<\/em> \u2013 Esse \u00e9 um elemento que \u00e9 preciso sublinhar, precisamente. Dialogar n\u00e3o \u00e9 um \u2018bonismo\u2019, dizer que todas as realidades s\u00e3o iguais &#8211; Bento XVI chamava-lhe relativismo, subjetivismo dir\u00edamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 procurar, o mais poss\u00edvel, confrontar-se, com seriedade, em volta de alguns temas, n\u00e3o s\u00f3 teoricamente mas tamb\u00e9m em concreto. Pensemos em todos os problemas que dizem respeito \u00e0s migra\u00e7\u00f5es, estas desloca\u00e7\u00f5es em massa de popula\u00e7\u00f5es de um horizonte para o outro, com interce\u00e7\u00f5es de culturas, de religi\u00f5es, com as tens\u00f5es que se criam. Tamb\u00e9m neste tema muito escaldante, a Igreja tem de entrar com a sua for\u00e7a, que \u00e9 uma for\u00e7a espiritual, humana e tamb\u00e9m cultural, impedindo que haja derivas.<\/p>\n<p>Derivas da parte de quem perde a sua pr\u00f3pria identidade, ficando numa esp\u00e9cie de n\u00e9voa, de neblina, de nuvem, em que somos todos iguais &#8211; o que \u00e9 imposs\u00edvel, por exemplo, com uma presen\u00e7a do Isl\u00e3o, que \u00e9 muito marcada.<\/p>\n<p>Portanto, chegar com uma identidade pr\u00f3pria, mas n\u00e3o se deixar tentar pelo fundamentalismo, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o do Isl\u00e3o: pensemos em todos os populismos europeus, que se est\u00e3o a criar, com formas verdadeiramente racistas. Como tal, ainda que citem o Evangelho, Jesus Cristo, s\u00e3o anticrist\u00e3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Nestas derivas, h\u00e1 quest\u00f5es ligadas \u00e0 tecnologia, ao desenvolvimento cient\u00edfico. Tivemos recentemente not\u00edcia da clonagem de macacos, na China, por exemplo. \u00c9 poss\u00edvel que a Igreja n\u00e3o seja vista neste debate como um discurso do passado e tenha algo a dizer sobre o futuro?<\/em><\/p>\n<p><em>GR<\/em> \u2013 Acima de tudo, \u00e9 preciso esperar que tamb\u00e9m os cientistas \u2013 diria antes, os t\u00e9cnicos, que nem sempre se podem considerar cientistas, porque estes t\u00eam uma vis\u00e3o mais completa, mais universal, mais humana \u2013 tenham em considera\u00e7\u00e3o o aspeto global da pessoa, n\u00e3o apenas o cen\u00e1rio mundial, mas o seu fundamento. N\u00e3o basta responder \u00e0 pergunta \u201ccomo \u00e9 que isto acontece?\u201d, \u00e9 preciso questionar: \u201cporque \u00e9 que eu fa\u00e7o isto?\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, a Igreja n\u00e3o pode, com base em receios, pronunciar s\u00f3 julgamentos negativos. Tem, necessariamente de entrar em confronto e colocar os problemas que nascem, com respeito pela investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, a gen\u00e9tica, o ADN, as interven\u00e7\u00f5es sobre o ADN. H\u00e1 elementos altamente positivos, para a cura de doen\u00e7as, mas ao mesmo tempo colocam-se quest\u00f5es, porque se podem querer criar modelos antropol\u00f3gicos diferentes, uma figura diferente de homem e mulher.<\/p>\n<p>Outro exemplo: as neuroci\u00eancias. Interv\u00e9m-se no c\u00e9rebro, para regular as fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, mas \u00e9 preciso saber como se considera, depois, o \u201ceu\u201d da pessoa, quando se interv\u00e9m no sistema neurol\u00f3gico. Qual \u00e9 a responsabilidade de algu\u00e9m, quando se modificam componentes do c\u00e9rebro? O que significa a liberdade, a vontade, em \u00faltima an\u00e1lise a alma de uma pessoa?<\/p>\n<p>Terceiro exemplo: a intelig\u00eancia artificial. Est\u00e3o a ser criadas, cada vez mais, m\u00e1quinas pensantes, m\u00e1quinas dotadas de uma autonomia moral\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 J\u00e1 se fala em consci\u00eancia artificial\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>GR<\/em> \u2013 Consci\u00eancia, sim. Chega-se ao ponto, que considero absurdo, de se introduzir na Europa o conceito de personalidade eletr\u00f3nica. Estamos perante algo, em si, muito positivo, para o desenvolvimento social, t\u00e9cnico, da produ\u00e7\u00e3o. Mas implica igualmente o surgimento de interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando, no \u00faltimo ver\u00e3o, em Menlo Park, na sede do Facebook, dois computadores programados para falar entre si, em ingl\u00eas, come\u00e7aram a falar outra l\u00edngua, que os programadores n\u00e3o percebiam\u2026 N\u00e3o \u00e9 nada dram\u00e1tico, mas quando come\u00e7arem a realizar a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o no protocolo, \u00e0 partida, porque est\u00e3o dotados de autonomia, a\u00ed chegar\u00e3o os problemas.<\/p>\n<p>Temos de estar presentes, sem demonizar, porque h\u00e1 dados positivos, mas fazendo notar a nossa defesa da figura humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O discurso teol\u00f3gico ainda \u00e9 relevante, face a estas quest\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p><em>GR<\/em> \u2013 Eu diria que o discurso teol\u00f3gico deve integrar em si os resultados da ci\u00eancia. Como se fazia a filosofia, a teologia medieval, porque havia uma vis\u00e3o da cultura muito menos sectorial, menos dividida do que hoje.<\/p>\n<p>Recorde-se Stephen Gould, cientista norte-americano, ateu, que f\u00f3rmula o princ\u00edpio designado como \u2018NOMA\u2019, \u2018Non-overlapping magisteria\u2019 (magist\u00e9rios que n\u00e3o se sobrep\u00f5em). Ele dizia que a ci\u00eancia tem o seu magist\u00e9rio, o seu ensinamento; a teologia, a filosofia, a est\u00e9tica t\u00eam um outro magist\u00e9rio que \u00e9 paralelo, n\u00e3o se podem sobrepor.<\/p>\n<p>Neste caso, para explicar a pessoa humana n\u00e3o basta o n\u00edvel cient\u00edfico, s\u00e3o precisos mais magist\u00e9rios. Gould dizia que n\u00e3o se sobrepunham, eram independentes, n\u00e3o-conflituais, mas eu diria que isto n\u00e3o \u00e9 completamente verdade. O sujeito \u00e9 sempre o mesmo e o objeto \u00e9 o mesmo, pelo que acontecem fen\u00f3menos em que [os magist\u00e9rios] se enredam, confrontos entre a teologia e a ci\u00eancia. E essa \u00e9 a miss\u00e3o de uma teologia consciente dos seus valores e tamb\u00e9m do contributo da ci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao\u00a0cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontif\u00edcio da Cultura<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":94598,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[120,131,203,258,274,297],"class_list":["post-94472","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-bento-xvi","tag-clonagem","tag-europa","tag-migracoes","tag-papa-francisco","tag-santa-se"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94472"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94472\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}