{"id":9378,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/evangelizacao-pode-ser-elemento-decisivo-na-construcao-da-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"evangelizacao-pode-ser-elemento-decisivo-na-construcao-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/evangelizacao-pode-ser-elemento-decisivo-na-construcao-da-paz\/","title":{"rendered":"Evangeliza\u00e7\u00e3o pode ser elemento decisivo na constru\u00e7\u00e3o da paz"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo no Dia Mundial da Paz <!--more--> 1. Iniciamos hoje o novo ano de 2005, o quinto do terceiro mil\u00e9nio. Durante ele celebrar-se-\u00e1 em Lisboa o Congresso Internacional da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, que procura um novo ardor e caminhos novos para o an\u00fancio de Jesus Cristo e do Seu Evangelho no mundo contempor\u00e2neo. \u00c9 tamb\u00e9m, por determina\u00e7\u00e3o do Santo Padre, o Dia Mundial da Paz. Na sua Mensagem para este dia, o Papa apresenta-nos a paz como obra de amor e de triunfo do bem, partindo da afirma\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo, na Carta aos Romanos: \u201cN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem\u201d (Rom. 12,21). Estas circunst\u00e2ncias sugerem que vos fale hoje da necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre o an\u00fancio do Evangelho e a constru\u00e7\u00e3o da paz.  Ao falar de paz n\u00e3o refiro apenas a aus\u00eancia de guerra, mas sim o esfor\u00e7o positivo de edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade digna do homem, segundo o desejo de Deus. Desde que Paulo VI afirmou que \u201co desenvolvimento \u00e9 o novo nome da paz\u201d, o conceito de paz na linguagem dos Pont\u00edfices inclui a problem\u00e1tica da justi\u00e7a, da responsabilidade de todos para com todos, num mundo globalizado e interdependente, concebido como \u00fanica fam\u00edlia humana, o destino universal dos bens, incluindo os benef\u00edcios da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, o sublinhar da import\u00e2ncia do \u201cbem comum\u201d sobre os interesses particulares e particularistas, na consci\u00eancia de que o \u201cbem comum\u201d tem, cada vez mais, uma dimens\u00e3o global e universal. A paz \u00e9 o an\u00fancio da esperan\u00e7a para quantos lutam por um mundo novo, mais justo e fraterno.  Neste contexto o an\u00fancio do Evangelho tem de ter a for\u00e7a de um testemunho vivido e n\u00e3o apenas a proclama\u00e7\u00e3o de uma doutrina acreditada. Todos aqueles e aquelas que impulsionados pelo amor procuram superar os males e os desvios do nosso mundo, merecem verdadeiramente o t\u00edtulo de \u201cconstrutores da paz\u201d. Jesus Cristo e o Seu Evangelho projectam continuamente os crist\u00e3os para essa luta sem tr\u00e9guas para construir um mundo melhor.  2. O cristianismo surge na hist\u00f3ria como um dinamismo de paz. Gl\u00f3ria a Deus nas alturas e paz na terra para os homens, \u00e9 a express\u00e3o exultante da alegria dos pastores de Bel\u00e9m. Cristo tinha sido anunciado como o \u201cPr\u00edncipe da Paz\u201d e o \u201creino messi\u00e2nico\u201d anunciado pelos Profetas, \u00e9 de tal modo perfeito e ideal, que pertence j\u00e1 \u00e0 ordem da perfei\u00e7\u00e3o definitiva.  A evangeliza\u00e7\u00e3o pode tornar-se elemento decisivo na constru\u00e7\u00e3o da paz, antes de mais porque anuncia claramente que a paz \u00e9 um dom de Deus, como \u00e9 afirmado no texto do Livro dos N\u00fameros que acab\u00e1mos de escutar: \u201co Senhor volte para ti os Seus olhos e te conceda a paz\u201d. Ao proclamarmos que a paz \u00e9 um dom de Deus, isso n\u00e3o nos desresponsabiliza na constru\u00e7\u00e3o da paz. \u00c9 apenas a certeza de que a paz \u00e9 querida por Deus, \u00e9 o Seu objectivo para a humanidade, e que acompanhar\u00e1 com a Sua gra\u00e7a todos os construtores da paz.  Mas \u00e9 na proclama\u00e7\u00e3o da centralidade do amor na concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da vida e da hist\u00f3ria, que esta rela\u00e7\u00e3o entre dom de Deus e esfor\u00e7o humano na constru\u00e7\u00e3o da paz se torna clara. Quando Jo\u00e3o Paulo II nos afirma que \u201ca paz \u00e9 um bem a ser promovido com o bem\u201d, \u00e9 principalmente ao amor que se refere. Escutemo-lo na sua Mensagem para este dia: \u201cVisto nas suas componentes mais profundas, o mal \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um tr\u00e1gico esquivar-se \u00e0s exig\u00eancias do amor. O bem moral, pelo contr\u00e1rio, nasce do amor, manifesta-se como amor e \u00e9 orientado ao amor. Este argumento \u00e9 particularmente evidente para o crist\u00e3o, pois sabe que a participa\u00e7\u00e3o no \u00fanico Corpo m\u00edstico de Cristo coloca-o em particular rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente com o Senhor, mas tamb\u00e9m com os irm\u00e3os. A l\u00f3gica do amor crist\u00e3o, que no Evangelho constitui o cora\u00e7\u00e3o palpitante do bem moral, conduz, se levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, at\u00e9 ao amor pelos inimigos: \u00abSe o teu inimigo tem fome, d\u00e1-lhe de comer; se tem sede, d\u00e1-lhe de beber\u00bb (Rom. 12,20)\u201d  3. Relacionar a evangeliza\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o da paz \u00e9 afirmar que esta \u00e9 um fruto de civiliza\u00e7\u00e3o, que comunica um ideal e uma ordem de valores que exprimem o que desejamos para cada homem e para a comunidade humana. Uma cultura mecanicista e pragm\u00e1tica, que busca resultados, corrige desvios e equaciona problemas; que n\u00e3o tenha uma vis\u00e3o generosa da liberdade como capacidade de conceber e de se comprometer em ideais positivos, n\u00e3o \u00e9 uma cultura de paz. O ideal crist\u00e3o constitui um elemento decisivo de civiliza\u00e7\u00e3o que converge facilmente com todos os valores positivos e generosos contidos noutras religi\u00f5es e culturas, constituindo aquilo a que o Papa j\u00e1 chamou \u201ca gram\u00e1tica da lei moral universal\u201d. Escutemo-lo ainda na Mensagem deste ano: \u201cPara orientar o seu pr\u00f3prio caminho entre as solicita\u00e7\u00f5es opostas do bem e do mal, a fam\u00edlia humana tem urgente necessidade de valer-se do patrim\u00f3nio comum de valores morais que o mesmo Deus lhe deu. Por isso, a quantos est\u00e3o decididos a vencer o mal com o bem, S\u00e3o Paulo convida a cultivar atitudes nobres e desinteressadas de generosidade e de paz (cf. Rom. 12,17-21)\u201d.  A paz sup\u00f5e uma cultura que se afirma dinamicamente na educa\u00e7\u00e3o e na forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias. Referindo-se ao erradicar de todas as formas de viol\u00eancia, diz ainda o Papa: \u201cPor isso torna-se indispens\u00e1vel promover uma grande obra educadora das consci\u00eancias que forme a todos, sobretudo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, para o bem, abrindo-lhes o horizonte do humanismo integral e solid\u00e1rio que a Igreja indica e deseja. Sobre estas bases, \u00e9 poss\u00edvel criar uma ordem social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica que tenham em conta a dignidade, a liberdade e os direitos fundamentais de cada pessoa\u201d.  Evangelizar para a paz \u00e9 ser coerente com a convic\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 uma cultura de paz inspirar\u00e1 os caminhos para o progresso da humanidade. \u00c9 aceitar propor, continuamente, em pleno processo de muta\u00e7\u00e3o cultural, a verdade e a beleza das perspectivas crist\u00e3s sobre a dignidade do homem e do seu futuro colectivo. \u00c9 encontrar o alicerce s\u00f3lido de uma esperan\u00e7a que n\u00e3o sossobra, porque acreditamos que, com a for\u00e7a do Esp\u00edrito de Deus, a paz triunfar\u00e1.  4. Evangelizar para a paz \u00e9 conhecer e incluir claramente no nosso discurso sobre os problemas e caminhos da sociedade a doutrina social da Igreja. Ela est\u00e1 de tal maneira ancorada no Evangelho que os crist\u00e3os, na sua participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor, n\u00e3o a podem desconhecer.  H\u00e1, \u00e9 certo, uma gradualidade na sua aplica\u00e7\u00e3o concreta; as solu\u00e7\u00f5es ideais n\u00e3o se conseguem rapidamente. Mas nunca podemos esquecer ou abandonar, na nossa luta, o ideal das solu\u00e7\u00f5es para que Jesus Cristo nos encaminha.  Cito, apenas, uma caracter\u00edstica exigente e apaixonante desta vis\u00e3o nobre da constru\u00e7\u00e3o da cidade dos homens: a interdepend\u00eancia universal de todos os problemas, solu\u00e7\u00f5es e objectivos. Nenhum pa\u00eds resolve os seus problemas fechando-se sobre si mesmo. Cito ainda o Santo Padre: \u201cO facto de pertencer \u00e0 fam\u00edlia humana confere a cada pessoa uma esp\u00e9cie de cidadania mundial, tornando-a titular de direitos e de deveres, visto que os homens est\u00e3o unidos por uma comunh\u00e3o de origem e de supremo destino. Basta que uma crian\u00e7a seja concebida para que se torne titular de direitos, mere\u00e7a aten\u00e7\u00e3o e cuidados e algu\u00e9m tenha o dever de lhos providenciar. A condena\u00e7\u00e3o do racismo, a tutela das minorias, a assist\u00eancia aos pr\u00f3fugos e refugiados, a mobiliza\u00e7\u00e3o da solidariedade internacional em favor de todos os necessitados n\u00e3o passam de aplica\u00e7\u00f5es coerentes do princ\u00edpio da cidadania mundial\u201d.  \u00c9 importante que, em momentos como os que estamos a viver, de an\u00e1lise colectiva dos novos caminhos de futuro, sejam equacionadas com clareza as interdepend\u00eancias dos nossos problemas com os caminhos dos outros povos. S\u00f3 isso dar\u00e1 verdadeiro horizonte \u00e0s solu\u00e7\u00f5es propostas, mitigar\u00e1 particularismos e utopias, dar\u00e1 solidez e realismo aos objectivos a prosseguir.  5. A constru\u00e7\u00e3o da paz envia os crist\u00e3os para o meio da sociedade, a anunciarem o Evangelho da Paz. E neste Ano da Eucaristia, o seu ponto de partida \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da Ceia do Senhor, como diz o Santo Padre na Carta Apost\u00f3lica \u201cFica connosco Senhor\u201d: \u201cEucaristia n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o de comunh\u00e3o apenas na vida da Igreja; \u00e9 tamb\u00e9m projecto de solidariedade em prol da humanidade inteira. A Igreja renova continuamente, na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, a sua consci\u00eancia de ser \u00absinal e instrumento\u00bb n\u00e3o s\u00f3 da \u00edntima uni\u00e3o com Deus mas tamb\u00e9m da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u201d.  \u201cH\u00e1 ainda um ponto para o qual queria chamar a aten\u00e7\u00e3o, porque sobre ele se joga, em medida not\u00e1vel, a autenticidade da participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia, celebrada na comunidade: \u00e9 o impulso que esta a\u00ed recebe para um compromisso real na edifica\u00e7\u00e3o duma sociedade mais equitativa e fraterna. Na Eucaristia, o nosso Deus manifestou a forma extrema do amor, invertendo todos os crit\u00e9rios de dom\u00ednio que muitas vezes regem as rela\u00e7\u00f5es humanas e afirmando de modo radical o crit\u00e9rio do servi\u00e7o: \u00abSe algu\u00e9m quiser ser o primeiro, h\u00e1-de ser o \u00faltimo de todos e o servo de todos\u201d.  \u201cPor que n\u00e3o fazer ent\u00e3o deste Ano da Eucaristia um per\u00edodo em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com operosidade fraterna, ao encontro de alguma das muitas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milh\u00f5es de seres humanos, penso nas doen\u00e7as que flagelam os pa\u00edses em vias de desenvolvimento, na solid\u00e3o dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas desgra\u00e7as dos imigrantes. Trata-se de males que afligem, embora em medida diversa, tamb\u00e9m as regi\u00f5es mais opulentas. N\u00e3o podemos iludir-nos: pelo amor m\u00fatuo e, em particular, pela solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros disc\u00edpulos de Cristo\u201d.  Oeiras, 1 de Janeiro de 2005, <i> \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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