{"id":9294,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/noite-de-natal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"noite-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/noite-de-natal\/","title":{"rendered":"Noite de Natal"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo, na \u00abmissa do galo\u00bb <!--more--> \u201cNo nascimento de Jesus, Deus entra na Hist\u00f3ria dos Homens\u201d 1. As filosofias, o pensamento e a arte, toda a cultura como quadro interpretativo da exist\u00eancia, sempre perceberam que a salva\u00e7\u00e3o do homem, isto \u00e9, a sua liberta\u00e7\u00e3o para uma realiza\u00e7\u00e3o plena, acontecem na hist\u00f3ria, est\u00e3o ligadas \u00e0 sua hist\u00f3ria. N\u00e3o podia ser de outra maneira, pois a pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u00e9 constru\u00edda pelo homem, tecida longamente por todas as express\u00f5es da sua liberdade e da sua criatividade e a rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus sempre foi uma das inspira\u00e7\u00f5es do agir humano e, por isso, da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e a Palavra de Deus e a f\u00e9 dos homens tornaram-se luz interpretativa da exist\u00eancia colectiva dos povos. Para n\u00f3s crist\u00e3os \u00e9 imposs\u00edvel desligar a nossa salva\u00e7\u00e3o, ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s e connosco, da hist\u00f3ria onde ela acontece, a hist\u00f3ria da nossa salva\u00e7\u00e3o.  Os nossos irm\u00e3os do Antigo Testamento j\u00e1 tinham uma consci\u00eancia viva da rela\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus com a hist\u00f3ria. Quando a Palavra era dita por Deus ao Seu Povo e por este escutada, ela tornava-se acontecimento e para quantos quisessem, no presente ou no futuro, captar o sentido profundo desses acontecimentos, tinham de escutar de novo essa Palavra que os gerara, pois s\u00f3 ela encerrava o segredo do seu mist\u00e9rio. A pr\u00f3pria esperan\u00e7a messi\u00e2nica era sempre situada no \u00e2mago da hist\u00f3ria presente e futura do Povo de Israel. Ele herdar\u00e1 o trono real de David, implantar\u00e1 a justi\u00e7a e construir\u00e1 a paz definitiva. Era imposs\u00edvel alimentar a esperan\u00e7a messi\u00e2nica sem esperar um futuro diferente para o Povo, finalmente assente no direito, na justi\u00e7a e na paz. Mas o nascimento de Jesus ultrapassou todas as expectativas da esperan\u00e7a messi\u00e2nica: com Ele \u00e9 o pr\u00f3prio Deus que entra na hist\u00f3ria. O nascimento de Jesus \u00e9 um momento decisivo na constru\u00e7\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade. H\u00e1 um per\u00edodo antes de Cristo e um outro, intrinsecamente diferente, depois de Cristo. Com a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria, em Jesus Cristo, a ac\u00e7\u00e3o de Deus j\u00e1 n\u00e3o inspira apenas a hist\u00f3ria sagrada do Povo eleito, mas a hist\u00f3ria de toda a humanidade. O autor sagrado foi ajudado, nesse alargamento do horizonte da rela\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o de Deus com a hist\u00f3ria da humanidade pelo facto de Jesus ter nascido num tempo em que Israel fazia parte do Imp\u00e9rio Romano, que simboliza toda a terra. S\u00e3o Lucas faz quest\u00e3o em relacionar o nascimento de Jesus com um grande acontecimento do Imp\u00e9rio: o primeiro recenseamento universal ordenado por C\u00e9sar Augusto: \u201cNaqueles dias, saiu um decreto de C\u00e9sar Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da S\u00edria\u201d. Depois de identificar, hiperbolicamente, o Imp\u00e9rio Romano com toda a terra, os par\u00e2metros hist\u00f3ricos para o nascimento de Jesus vai S\u00e3o Lucas busc\u00e1-los \u00e0 hist\u00f3ria do Imp\u00e9rio Romano e n\u00e3o apenas \u00e0 do Povo de Israel. N\u00e3o deixa de ser simbolicamente significativo que os \u201cpequenos acontecimentos\u201d que ditaram os pormenores do nascimento de Jesus, sejam provocados por \u201cgrandes acontecimentos\u201d da hist\u00f3ria da humanidade. Ele, realiza\u00e7\u00e3o definitiva da promessa da salva\u00e7\u00e3o para todos os homens, nasce num momento em que o Imperador quer saber quantos s\u00e3o esses homens e que Jesus tenha, porventura, sido contado como apenas mais um dessa multid\u00e3o imensa de seres humanos, cuja conta exacta s\u00f3 Deus conhece. Ele \u00e9 recenseado, com Maria e Jos\u00e9, por um Imperador que queria contar os habitantes da terra, mas s\u00f3 Ele sabe o n\u00famero dessa \u201cmultid\u00e3o imensa que ningu\u00e9m pode contar\u201d, mas que Ele conhece, um a um, porque nasceu e h\u00e1-de morrer e ressuscitar, para que tenham a vida.  Celebrar o Natal ou a P\u00e1scoa, viver a nossa vida unidos a Jesus Cristo, como seus disc\u00edpulos, \u00e9 indeslig\u00e1vel da hist\u00f3ria que constru\u00edmos com todos os outros homens e mulheres, nossos irm\u00e3os. Isolar a viv\u00eancia da f\u00e9 da hist\u00f3ria \u00e9 o mesmo que deslig\u00e1-la da vida ou renunciar \u00e0 harmonia unificadora de toda a exist\u00eancia. E isolar a f\u00e9 crist\u00e3 da hist\u00f3ria \u00e9 separ\u00e1-la da vida da cidade dos homens, reduzindo-a a um espa\u00e7o intimista de outra natureza. Desde que Deus nasceu homem, em Jesus Cristo, a viv\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 uma for\u00e7a motivadora e interpretativa da hist\u00f3ria. \u00c9 esse o sentido da presen\u00e7a dos crist\u00e3os na cidade e da cont\u00ednua proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho. Como dinamismo construtor da hist\u00f3ria, a f\u00e9 em Jesus Cristo \u00e9 uma exig\u00eancia de qualidade humana na edifica\u00e7\u00e3o da cidade, porque Ele veio implantar o direito e a justi\u00e7a e tornar definitivamente poss\u00edvel a paz. No Evangelho do Reino Jesus far\u00e1 da liberdade do cora\u00e7\u00e3o e do amor fraterno os dinamismos que aproximam a hist\u00f3ria dos homens do pr\u00f3prio Reino de Deus. Este \u00e9 o sentido da presen\u00e7a dos crist\u00e3os na cidade, pois esta for\u00e7a criativa de Deus na hist\u00f3ria, s\u00e3o os crist\u00e3os que a guardam no seu cora\u00e7\u00e3o, como exig\u00eancia generosa, luz de discernimento, para a edifica\u00e7\u00e3o de um mundo novo, cada vez mais expressivo da dignidade do homem e, por isso, mais perto do pr\u00f3prio des\u00edgnio de Deus. A ac\u00e7\u00e3o evangelizadora da Igreja \u00e9 indeslig\u00e1vel desta responsabilidade dos crist\u00e3os na cidade dos homens, empenhados em todas as dimens\u00f5es da edifica\u00e7\u00e3o da cidade terrestre, com a luz e a for\u00e7a de Jesus Cristo. Na pol\u00edtica, na economia, na justi\u00e7a, na escola e na empresa, em todos os lugares e momentos onde se constr\u00f3i e se decide a vida da comunidade humana, os crist\u00e3os devem estar como crist\u00e3os, introduzindo agora na hist\u00f3ria humana a tens\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o e perfei\u00e7\u00e3o a que Jesus Cristo nos convida. Oxal\u00e1 a \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d em que estamos empenhados suscite esta consci\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os na constru\u00e7\u00e3o da cidade dos homens, edificada sobre o direito e a justi\u00e7a, repassada de amor generoso e consciente das exig\u00eancias morais que brotam da dignidade do homem, como realiza\u00e7\u00e3o da sua voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3.  Ao convocar a Igreja de Lisboa para a \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d eu convido todos os crist\u00e3os e crist\u00e3s, cada um na esfera da sua capacidade e compet\u00eancia, no lugar onde exercem a sua qualidade de cidad\u00e3os, a serem protagonistas de um mundo novo, procurando incutir na sua interven\u00e7\u00e3o e no seu trabalho, a generosidade e a qualidade que todos desejamos para a nossa sociedade. Vivemos este Natal num momento particularmente empenhativo da nossa comunidade humana. Mais uma vez vemos discutir, confrontar, procurar caminhos para Portugal, solu\u00e7\u00f5es para problemas, objectivos a atingir, modelos de desenvolvimento e de conviv\u00eancia. Que os crist\u00e3os n\u00e3o se alheiem deste momento, no exerc\u00edcio pleno das suas responsabilidades democr\u00e1ticas; lutem por objectivos e solu\u00e7\u00f5es que concretizem o ideal de sociedade em que acreditamos, que garantam os valores que defendemos e que n\u00e3o significam apenas a defesa da nossa f\u00e9, mas a defesa da dignidade da pessoa humana. Estamos a escrever mais uma p\u00e1gina da nossa hist\u00f3ria; desde que Deus entrou na hist\u00f3ria, em Jesus Cristo, Ele n\u00e3o pode ficar ausente de nenhum momento da hist\u00f3ria dos homens. E isso depende, em grande parte, da qualidade com que os crist\u00e3os se comprometem na constru\u00e7\u00e3o do futuro de todos n\u00f3s. Havemos de faz\u00ea-lo com a for\u00e7a do Esp\u00edrito que nos fortalece e ilumina, com a ousadia dos profetas, com a serenidade e o respeito dos construtores da paz. Que Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, Rainha de Portugal, nos proteja, nos ilumine e nos conduza. Ela ensina-nos a sermos fi\u00e9is ao Evangelho do Seu Filho, que hoje adoramos em Bel\u00e9m, no mist\u00e9rio do Seu nascimento. S\u00e9 Patriarcal, 24 de Dezembro de 2004  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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