{"id":9290,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/nao-havia-lugar-para-eles\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"nao-havia-lugar-para-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-havia-lugar-para-eles\/","title":{"rendered":"<i>N\u00e3o havia lugar para eles\u2026<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem do Bispo do Funchal <!--more--> Maria e Jos\u00e9, sempre atentos \u00e0s necessidades alheias, resolveram preparar e assear a gruta est\u00e1bulo, junto \u00e0 casa, como ainda hoje encontramos junto ao pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, para Jesus nascer. Foi nessa gruta propriedade da sua casa, onde era normal as m\u00e3es dar \u00e0 luz, que S\u00e3o Jos\u00e9 com os familiares preparou com todo o cuidado e adaptou a manjedoura a ber\u00e7o, de forma que Jesus nasceu num lugar digno, n\u00e3o lhe faltando roupas para enfaixar o Menino nem alimento.   Nas peregrina\u00e7\u00f5es diocesanas, atrav\u00e9s da Turquia, Egipto e Israel, tive ocasi\u00e3o de apresentar aos participantes as estalagens, tamb\u00e9m conhecidas por \u00abKh\u00e2n\u00bb, semeadas ao longo das estradas que conduzem a Meca. Algumas delas foram implantadas nos lugares b\u00edblicos onde passavam os peregrinos para Jerusal\u00e9m, Bel\u00e9m, Hebron e Bersab\u00e9. O tempo de Natal faz-nos meditar na mais c\u00e9lebre estalagem que, segundo S. Lucas, n\u00e3o recebeu Jesus e Maria: \u00abn\u00e3o havia lugar para eles na hospedaria\u00bb (Lc. 2, 7).  Jos\u00e9 de origem betlamita devia registar-se na cidade de David. Viajou com Maria sua esposa que n\u00e3o estava obrigada a recensear-se. Devido a uma gravidez j\u00e1 avan\u00e7ada, porque levou Jos\u00e9 a sua esposa, para um cidade t\u00e3o afastada, se as mulheres n\u00e3o estavam obrigadas ao recenseamento? Leiamos o texto de S\u00e3o Lucas, rigoroso nos pormenores, que recebeu da tradi\u00e7\u00e3o viva da comunidade crist\u00e3, talvez da pr\u00f3pria Virgem Maria: \u00abEnquanto estavam em Bel\u00e9m, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu \u00e0 luz o Seu Filho primog\u00e9nito\u00bb (Lc.2,6).  Jos\u00e9 e Maria j\u00e1 se encontravam em Bel\u00e9m antes do nascimento de Jesus, naturalmente numa casa pr\u00f3pria ou de familiares. A ida para Bel\u00e9m sugere que Jos\u00e9 quer estabelecer-se naquela cidade e deixar Nazar\u00e9. Habitando numa casa, que motivos tinha para escolher uma estalagem, lugar impr\u00f3prio para uma mulher dar \u00e0 luz, no meio de viandantes, animais, cargas de comerciantes? O evangelista n\u00e3o diz que Jos\u00e9 andou de casa em casa a procurar um alojamento. Isso faz parte do folclore crist\u00e3o natal\u00edcio para acentuar a pobreza de Jos\u00e9, mas que n\u00e3o o desculpa de ter sido imprudente, viajando com Maria no momento mais importante da vida da sua esposa.   <i>A impureza legal das parturientes<\/i> Para esclarecer a situa\u00e7\u00e3o precisamos de conhecer o sentido exacto da palavra hospedaria \u201cKat\u00e1lyma\u201d em grego. O substantivo tem mais de um significado. O dicion\u00e1rio c\u00e9lebre de Francisco Zorell diz que o \u00abKat\u00e1lyma\u00bb \u00e9 a casa ou parte da casa onde os peregrinos e viandantes se hospedavam. A outra tradu\u00e7\u00e3o, a preferida por v\u00e1rios tradutores da B\u00edblia, foi a de pousada, albergue, hospedaria. Ser\u00e1 de facto este termo o que melhor se adapta ao nosso texto ou o de casa ou parte da casa? Para a escolha da tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso conhecer o ambiente das casas da Palestina, com uma divis\u00e3o central onde se colocam todas as coisas necess\u00e1rias \u00e0 vida familiar, como bancos, ferramentas, cozinha, e \u00e0 noite se estendiam as esteiras para dormir no lugar preferido por cada pessoa. Para al\u00e9m desta sala comum, as casas como nos mostra a arqueologia, tinham um quarto que tanto servia para arrumos, como para h\u00f3spedes, mas, principalmente, para a esposa dar \u00e0 luz. Segundo o livro do Lev\u00edtico (15, 19-4) a mulher ao dar \u00e0 luz, devido ao derramamento de sangue, ficava impura durante 40 dias para um menino e 80 dias para uma filha. Tudo o que a parturiente tocava ficava impuro, o que tornava a pessoa isolada socialmente e diminu\u00edda perante Deus e a sociedade at\u00e9 \u00e0 data da purifica\u00e7\u00e3o.   <i>Acima de tudo a caridade <\/i> Que teria acontecido na casa de Jos\u00e9 ou dos seus familiares? Por ocasi\u00e3o do recenseamento muitos familiares e peregrinos enchiam Bel\u00e9m que pernoitavam em casa dos conhecidos e amigos, de prefer\u00eancia \u00e0 hospedaria. Maria e Jos\u00e9, sempre atentos \u00e0s necessidades alheias, para n\u00e3o incomodar as pessoas nem para as tornar impuras, resolveram preparar e assear a gruta est\u00e1bulo, junto \u00e0 casa, como ainda hoje encontramos junto ao pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, para Jesus nascer. Foi nessa gruta propriedade da sua casa, onde era normal as m\u00e3es dar \u00e0 luz, que S\u00e3o Jos\u00e9 com os familiares preparou com todo o cuidado e adaptou a manjedoura a ber\u00e7o, de forma que Jesus nasceu num lugar digno, n\u00e3o lhe faltando roupas para enfaixar o Menino nem alimento. A cena infantil de Jesus com frio e sem roupa, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o popular e n\u00e3o b\u00edblica. Na Madeira, um c\u00e2ntico muito popular diz: \u00abTamb\u00e9m diz a tal not\u00edcia\/ que a Virgem estava a chorar\/ por n\u00e3o encontrar uns paninhos\/ com que o pudesse abafar? N\u00e3o \u00e9 certa esta interpreta\u00e7\u00e3o. Diz S\u00e3o Lucas: \u00abMaria deu \u00e0 luz o seu filho primog\u00e9nito. Ela envolveu-O em panos e colocou-O numa manjedoura, porque para eles n\u00e3o havia lugar na sala da casa\u00bb (Luc, 2,7). Jos\u00e9 e Maria tiveram antes de tudo a preocupa\u00e7\u00e3o dos outros, n\u00e3o queriam incomodar nem diminuir a festa e alegria do encontro dos familiares, n\u00e3o queriam principalmente que algu\u00e9m corresse o perigo de contrair uma impureza por sua causa.  Os outros necessitavam mais de ocupar a casa, Jos\u00e9 e Maria escolheram o est\u00e1bulo, onde a simplicidade, o sil\u00eancio e o ambiente de contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio daquele Menino, desconhecido para os outros, era prefer\u00edvel \u00e0 comodidade de uma pobre casa. Quando os Magos chegaram a Bel\u00e9m, conduzidos pela estrela, diz o evangelista S\u00e3o Mateus: \u00abquando entraram na casa (oikos), viram o Menino com Maria, Sua M\u00e3e. Ajoelharam diante d\u2019Ele e prestaram-Lhe homenagem\u00bb (Mt. 2, 11).  Preferindo esta tradu\u00e7\u00e3o da palavra \u00abKatalyma\u00bb, S\u00e3o Jos\u00e9 \u00e9 apresentado com os cuidados de um verdadeiro pai de Jesus, o esposo respons\u00e1vel de Maria, que aceitou plenamente o plano de Deus na sua vida. Jesus nunca esqueceu o lugar do seu nascimento na simplicidade da gruta de Bel\u00e9m: \u00abAs raposas t\u00eam tocas e as aves do C\u00e9u t\u00eam ninhos, mas o Filho do Homem n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a\u00bb (Luc. 9,58).  A beleza de Natal continua intacta com esta tradu\u00e7\u00e3o. Jesus de facto nasceu numa gruta e foi colocado na manjedoura como grande parte dos filhos do seu povo, grutas que ainda hoje, servem de casa e ber\u00e7o a muitos meninos de Bel\u00e9m. A li\u00e7\u00e3o que nos d\u00e1 a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica, recupera a responsabilidade de S\u00e3o Jos\u00e9 e a caridade de uma fam\u00edlia unida e santa, que sabe unir o amor para com o pr\u00f3ximo ao cuidado e dedica\u00e7\u00e3o completa ao Filho de Deus.   Funchal, 25 de Dezembro de 2004.  <i>D. Teodoro de Faria, Bispo do Funchal<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem do Bispo do Funchal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,206,267],"class_list":["post-9290","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-familia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9290\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}