{"id":9258,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/como-nos-chegaram-os-relatos-do-natal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"como-nos-chegaram-os-relatos-do-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/como-nos-chegaram-os-relatos-do-natal\/","title":{"rendered":"Como nos chegaram os relatos do Natal?"},"content":{"rendered":"<p>A aproxima\u00e7\u00e3o do Natal \u00e9 sempre uma ocasi\u00e3o para voltar a olhar os textos que narram o Nascimento e a Inf\u00e2ncia de Jesus, os chamados Evangelhos da Inf\u00e2ncia (Mt 1-2 e Lc 1-2). Essa leitura move a nossa piedade mas tamb\u00e9m a nossa investiga\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, uma e outra andam unidas e complementam-se. Uma das quest\u00f5es que se colocam \u00e9 a escassez de dados: porque sabemos t\u00e3o pouco sobre o Nascimento e a Inf\u00e2ncia de Jesus? Outra \u00e9 a dispers\u00e3o dos dados: porque Mateus e Lucas parecem n\u00e3o coincidir em nada excepto na concep\u00e7\u00e3o virginal e no lugar do nascimento?  A resposta \u00e0 primeira pergunta pode residir na humildade de Jesus, no seu ocultamento volunt\u00e1rio. Os Evangelhos foram escritos por disc\u00edpulos directos ou indirectos do Senhor que s\u00f3 O conheceram depois que Se come\u00e7ou a mostrar publicamente como Mestre, e Jesus tomou como norma de conduta s\u00f3 falar daquilo que necessitavam aqueles que O escutavam e n\u00e3o de Si pr\u00f3prio. Por exemplo, nunca nas suas par\u00e1bolas, que referem praticamente todas as profiss\u00f5es da \u00e9poca, surge um artes\u00e3o (tektos).  A resposta \u00e0 segunda \u00e9 mais complexa. Era natural que os disc\u00edpulos, tal como n\u00f3s, tivessem interesse em saber mais. Mas o pr\u00f3prio clima em que se desenvolveu a Igreja n\u00e3o permitia muitos vagares para uma investiga\u00e7\u00e3o. Mateus e Lucas, no entanto, parecem ter tido acesso a dados que os outros n\u00e3o possu\u00edam, e isso por raz\u00f5es diferentes, da\u00ed provavelmente a dispers\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que nos transmitiram. Mateus era um publicano, profiss\u00e3o socialmente conotada com o pecado. Mas s\u00f3 no seu Evangelho \u00e9 que somos informados do facto. Lucas e Marcos, parecem querer salvar o seu bom nome ao design\u00e1-lo como Levi (cf. Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). Mateus n\u00e3o s\u00f3 descreve o epis\u00f3dio da sua voca\u00e7\u00e3o com o nome por que seria conhecido (cf. Mt 9,9-13), como se denomina assim \u2013 \u00abMateus, o publicano\u00bb \u2013 na lista dos Doze escolhidos para ap\u00f3stolos (cf. Mt 10,3). At\u00e9 aqui a humildade do evangelista. Mas Marcos deixa cair que o tal Levi era filho de Alfeu (cf. Mc 2,14). Alfeu \u00e9 tamb\u00e9m o nome do pai de outro dos ap\u00f3stolos: Tiago Menor (cf. Mt 10,3), que, segundo Paulo \u00e9 \u00abirm\u00e3o do Senhor\u00bb (cf. Ga 1,19), isto \u00e9, provavelmente primo de Jesus, uma vez que Alfeu n\u00e3o \u00e9 o pai de Jesus. Esta proximidade familiar de Mateus pode ter facilitado alguma informa\u00e7\u00e3o, mesmo que escassa sobretudo sobre Jos\u00e9, o esposo de Maria, M\u00e3e de Jesus (cf. Mt 1,16). De facto, em Mateus (cf. Mt 1-2) \u00e9 sempre Jos\u00e9 o protagonista: \u00e9 dele a genealogia, \u00e9 ele quem hesita sobre o que fazer perante a gravidez de Maria, a ele que um Anjo aparece em v\u00e1rios sonhos dando indica\u00e7\u00f5es que cumpre com prontid\u00e3o e sempre ele quem decide sobre a morada habitual do Filho de Deus na Palestina: Nazar\u00e9. A raz\u00e3o do conhecimento de Mateus poderia ser, portanto, o seu parentesco com Jos\u00e9.  Quanto a Lucas o caso \u00e9 diferente. N\u00e3o era disc\u00edpulo directo do Mestre; provinha do mundo pag\u00e3o helenista. Ele pr\u00f3prio declara (cf. Lc 1,1-4) que se serviu das testemunhas oculares e daqueles que se ocuparam de conservar a mem\u00f3ria dos relatos que circulavam sobre Jesus. A sua tarefa foi a de compilar e de ordenar \u00e0 maneira grega, o material recebido. Mas como \u00e9 que ele o recebeu? De quem? Quem eram essas testemunhas e esses \u00abservos da palavra\u00bb (cf. Lc 1,2) a que se refere no Pr\u00f3logo? Lucas acompanha Paulo na sua viagem fat\u00eddica a Jerusal\u00e9m na qual este \u00e9 preso no pr\u00f3prio Templo e depois arrebatado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o judaica para ficar custodiado em pris\u00e3o romana, em Cesareia Mar\u00edtima (cf. Act 21ss). Durante a pris\u00e3o de Paulo Lucas pode ter contactado com uma comunidade crist\u00e3 que era a primog\u00eanita, a primeira sobre quem tinha descido o Esp\u00edrito Santo (cf. Act 1-2), e onde se conservavam muitas recorda\u00e7\u00f5es de vinte e cinco ou trinta anos atr\u00e1s. Encontrava-se depauperada pela dispers\u00e3o dos ap\u00f3stolos pela geografia do Imp\u00e9rio mas possu\u00eda o imenso tesouro de toda a mem\u00f3ria. Entre as j\u00f3ias desse patrim\u00f3nio espiritual deviam constar relatos que se prendiam com as recorda\u00e7\u00f5es de Maria (cf. Lc 2,19.51). Ela \u00e9 descrita em Jerusal\u00e9m na altura do Pentecostes (cf. Act 1,14). De facto, a narra\u00e7\u00e3o de Lucas est\u00e1 centrado em Jerusal\u00e9m; a sua perspectiva \u00e9 jerusolimitana desde o an\u00fancio a Zacarias no Templo (cf. Lc 1,5ss) at\u00e9 ao reencontro do Menino nesse mesmo Templo (cf. Lc 2,40ss). N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil conjecturar que parte dos relatos proviessem de pessoas que viviam na cidade na altura dos acontecimentos (cf. Lc 2,38) ou nas montanhas da Judeia que a circundam (cf. Lc 1,65), e que se viessem a cristalizar posteriormente em escritos que formam essa manta de retalhos que \u00e9 o Evangelho da Inf\u00e2ncia de Lucas. O evangelista s\u00f3 teve que \u00abcoser\u00bb as v\u00e1rias pe\u00e7as com pequenos acrescentos da sua autoria que deram unidade ao conjunto. Em resumo, Lucas teve acesso a uma informa\u00e7\u00e3o por uma casualidade derivada de acompanhar Paulo: permanecer em Jerusal\u00e9m. Ao mesmo tempo, ele \u00e9 consciente do valor de tudo aquilo que podia recolher ali para aqueles que n\u00e3o tinham visto nem convivido com Jesus e eram, como ele, crist\u00e3os convertidos do paganismo hel\u00e9nico.  Ao constatar a dispers\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o sobre o Natal e a sua origem apercebemo-nos de que se trata de um enriquecimento uma vez que, vinda de fontes t\u00e3o d\u00edspares ela aumenta a nossa percep\u00e7\u00e3o dos acontecimentos natal\u00edcios. Deus conduziu as coisas assim tamb\u00e9m para nosso proveito.  <i>Pe. Jos\u00e9 Miguel Ferreira Martins<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aproxima\u00e7\u00e3o do Natal \u00e9 sempre uma ocasi\u00e3o para voltar a olhar os textos que narram o Nascimento e a Inf\u00e2ncia de Jesus, os chamados Evangelhos da Inf\u00e2ncia (Mt 1-2 e Lc 1-2). Essa leitura move a nossa piedade mas tamb\u00e9m a nossa investiga\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, uma e outra andam unidas e complementam-se. 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