{"id":9241,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/pensar-o-natal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"pensar-o-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pensar-o-natal\/","title":{"rendered":"Pensar o Natal"},"content":{"rendered":"<p>Pela Comunidade de Acolhimento Jo\u00e3o XXIII <!--more--> SENTIR A DOR DOS POBRES \u201cPobres, sempre os tereis convosco\u201d (Jo 12, 8). Quem disse isto, h\u00e1 2000 anos atr\u00e1s, sabia do que falava. Jesus Cristo conhecia demasiado bem o cora\u00e7\u00e3o humano para arriscar a frase. No entanto, Jesus n\u00e3o disse que a pobreza era uma inevitabilidade. Bastaria que fosse diferente o tal cora\u00e7\u00e3o humano. Hoje, mais do que nunca, a pobreza n\u00e3o tem raz\u00e3o de ser. Nunca o mundo esteve mais capaz de combater a que existe, nem mais apto a prevenir a que h\u00e1-de vir. Por isso, s\u00f3 a distrac\u00e7\u00e3o comodista evita que nos interroguemos com Jo\u00e3o Paulo II: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados m\u00e9dicos mais elementares, quem n\u00e3o tenha uma casa onde abrigar-se? (NMI 50). Apesar da riqueza dispon\u00edvel, talvez estejamos no tempo da Hist\u00f3ria que mais pobres gera. E todos sabemos como se fabrica a pobreza. Coimbra. Esta cidade que se quer culta, esta cidade de classe m\u00e9dia, farta e segura, raz\u00f5es tem, de sobra, para saber eliminar a pobreza. Coimbra, doa a quem doer, n\u00e3o s\u00f3 tem muitos pobres, como os esconde, decididamente. Fazendo justi\u00e7a a todas aquelas e a todos aqueles que, na Igreja e fora dela, dedicam as suas vidas ao servi\u00e7o dos pobres, n\u00e3o podemos deixar de nos interrogar. 40.000 crian\u00e7as vivem, em Portugal, na mais extrema das pobrezas. Quantas dessas crian\u00e7as moram em Coimbra? A resposta \u00e9: n\u00e3o sabemos. A cidade tem v\u00e1rias dezenas de sem-abrigo. Quantos s\u00e3o? N\u00e3o sabemos. N\u00e3o sabem os t\u00e9cnicos que com eles trabalham. N\u00e3o h\u00e1 estudos globais, nem estat\u00edsticas comparadas, nem trabalho coordenado. H\u00e1 tentativas, pequenos passos e muita vontade de acertar por parte dos poucos samaritanos que se disp\u00f5em a parar nas margens da cidade. O certo \u00e9 que Coimbra vive como se os seus pobres n\u00e3o existissem. Quando n\u00e3o os pode encurralar em guettos f\u00edsicos \u2013 o Ingote, a Rosa \u2013 empurra-os para guettos simb\u00f3licos, escondendo-os e escondendo-se deles, fingindo que os vapores do perfume, a roupa de marca e os sorrisos de pl\u00e1stico para a imprensa cor-de-rosa h\u00e3o-de apagar o cheiro, a imagem e a dor dos imigrantes sem pap\u00e9is, dos velhos sem dinheiro, sem companhia e sem sa\u00fade, dos ciganos olhados de soslaio, ou dos sem-abrigo-e-sem-horizontes. E os crist\u00e3os de Coimbra sabem? N\u00e3o, n\u00e3o sabemos. Descansamos as nossas vagas inquieta\u00e7\u00f5es nos ombros dos Vicentinos, dos Grupos S\u00f3cio-Caritativos, das Criaditas dos Pobres. Os miser\u00e1veis mais problem\u00e1ticos entregamo-los \u00e0 Caritas, \u00e0 Abra\u00e7o, \u00e0 AMI, etc, etc. Os mais perigosos est\u00e3o bem entregues aos t\u00e9cnicos e \u00e0s pol\u00edcias (porque, para o nosso olhar normal, ser toxicodependente, prostituta ou portador de SIDA n\u00e3o \u00e9 fruto da pobreza, \u00e9 CULPA!). Deste modo descansa o Povo de Deus. Assim dorme em paz, como se n\u00e3o fosse \u201cchegada a hora de despertar porque a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima\u201d (Rom 13, 11). Assim celebra, pacificado, a Eucaristia Dominical. Assim atravessa o Advento, ignorando o apelo \u00e0 convers\u00e3o que Jo\u00e3o Baptista continua a clamar no deserto: \u201dPreparai os caminhos do Senhor\u201d (Lc 3, 4). Assim se comove com o Natal do Menino Deus, que veio para que \u201ctodos tivessem a vida e a tivessem em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10, 10). Assim se aproxima da P\u00e1scoa. Assim percorre o ano todo, vibrando, aqui e al\u00e9m, com uma desgra\u00e7a ou outra, acontecida longe, no mundo. \u00c9 porque somos uma Comunidade Crist\u00e3 que nos d\u00f3i mais esta realidade. Porque fazemos parte desta doce inoper\u00e2ncia, desta confort\u00e1vel demiss\u00e3o. N\u00e3o desconhecemos, contudo, os limites do problema. Sabemos que a resolu\u00e7\u00e3o do mesmo n\u00e3o se confina ao adro das Igrejas, nem ao \u00edntimo das consci\u00eancias. Com o mesmo vigor denunciamos a sociedade civil, aquela que se baba nas p\u00e1ginas de jet-set das nossas revistas e jornais, aquela outra que \u201capenas\u201d cuida de si e dos seus, nunca se dignando baixar os olhos para a pobreza que resta. Esta sociedade civil confortada e pr\u00f3spera, em Coimbra e no resto do pa\u00eds, \u00e9 o terreno em que germina o pecado da recusa em aceitar todo o outro como pessoa e da nega\u00e7\u00e3o do bem comum, materializado na fuga aos impostos, na explora\u00e7\u00e3o do trabalho prec\u00e1rio ou na mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza e dos seus dons. Todos n\u00f3s, uns e outros, crentes ou n\u00e3o, somos respons\u00e1veis pelas l\u00e1grimas dos pobres. Nas nossas m\u00e3os est\u00e1 o poder de mudar o rumo das coisas, o poder de corrigir as iniquidades do sistema econ\u00f3mico que consentimos, as injusti\u00e7as da Sociedade que constru\u00edmos. S\u00f3 que nada faremos enquanto andarmos distra\u00eddos com ora\u00e7\u00f5es ego\u00edstas, com Natais comerciais, com cristianismos te\u00f3ricos, com evangelhos de papel. O contributo desta Comunidade, aflita com as suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, vai no sentido de ajudar a reflectir o sentido profundo do Natal: a partilha de humanidade que Deus quis fazer, tornando-se pessoa, pobre entre os pobres. Coimbra, Natal de 2004 Comunidade de Acolhimento Jo\u00e3o XXIII  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela Comunidade de Acolhimento Jo\u00e3o XXIII<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[100,154,174,237,238,267,275,325],"class_list":["post-9241","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-advento","tag-crianca","tag-diocese-de-coimbra","tag-joao-paulo-ii","tag-joao-xxiii","tag-natal","tag-pascoa","tag-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9241\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}