{"id":9234,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/opiniao-publica-foi-enganada-sobre-a-clonagem\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"opiniao-publica-foi-enganada-sobre-a-clonagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/opiniao-publica-foi-enganada-sobre-a-clonagem\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o p\u00fablica foi enganada sobre a clonagem"},"content":{"rendered":"<p>Walter Osswald, Director do Instituto de Bio\u00e9tica da UCP e antigo respons\u00e1vel pelo Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida, comenta para a Ag\u00eancia ECCLESIA os desafios levantados pelos \u00faltimos avan\u00e7os da gen\u00e9tica e da bio\u00e9tica  <!--more--> <i>Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 As preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas s\u00e3o um obst\u00e1culo para o progresso cient\u00edfico? Walter Osswald \u2013<\/i> Eu penso que elas n\u00e3o s\u00e3o um trav\u00e3o, mas um est\u00edmulo para esse mesmo progresso. Quando se fala de preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas n\u00e3o se fala de preconceitos \u00e9ticos ou de press\u00f5es que nada t\u00eam a ver com a \u00e9tica: o que na realidade acontece \u00e9 a tentativa de avaliar as coisas \u00e0 luz daquilo que \u00e9 bom para a dignidade humana. A ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 amoral, n\u00e3o encontra a sua justifica\u00e7\u00e3o unicamente no avan\u00e7o do conhecimento, mas no avan\u00e7o do conhecimento que ajude a humanidade. Quando ela for nesse sentido, \u00e9 evidente que a \u00e9tica n\u00e3o ser\u00e1 nenhum trav\u00e3o. A \u00e9tica s\u00f3 far\u00e1 trav\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia m\u00e1, como por exemplo a que se destine a estudar venenos mais activos ou que se dedique \u00e0 sua difus\u00e3o, estudando maneiras de os utilizar em processos de guerra. Eu diria que \u00e9 exactamente a \u00e9tica que faz com que n\u00e3o haja estes avan\u00e7os.  <i>AE \u2013 H\u00e1, contudo, muita discord\u00e2ncia no que diz respeito a definir o que \u00e9 a boa ou a m\u00e1 ci\u00eancia? WO \u2013<\/i> Isso \u00e9 normal num debate que se quer vivo, respeitoso e verdadeiro numa sociedade democr\u00e1tica. N\u00e3o h\u00e1 mal nenhum que haja muita gente que discorde, o que \u00e9 preciso \u00e9 encontrar argumentos para demonstrar a inanidade de algumas posi\u00e7\u00f5es. Por exemplo, quando na Inglaterra se autorizou a produ\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es para os utilizar como objectos de investiga\u00e7\u00e3o, e sublinho como objectos, isso naturalmente criou uma censura de muitos outros pa\u00edses.  A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que foram muito poucos os casos em que realmente se recorreu a essa licen\u00e7a \u2013 porque uma coisa \u00e9 a lei, outra \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o e a autoriza\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o dos embri\u00f5es. Aquilo que se avan\u00e7ou e se publicou \u00e9 praticamente nada, pelo que \u00e9 poss\u00edvel dizer que esta foi uma medida reclamada por raz\u00f5es de natureza pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, n\u00e3o por raz\u00f5es cient\u00edficas. O pouco que foi feito n\u00e3o conduziu a lado nenhum: sacrificou-se um princ\u00edpio sem que a experi\u00eancia tivesse vindo coroar de \u00eaxito esse sacrif\u00edcio.  <i>AE \u2013 No ano de 2004 apareceu em Portugal o parecer do CNECV sobre a \u201cProcria\u00e7\u00e3o Medicamente Assistida\u201d que foi muito criticado e acusado de ser tribut\u00e1rio da vis\u00e3o Cat\u00f3lica. Concorda? WO \u2013<\/i> Antes de mais, \u00e9 preciso perceber que o parecer do CNECV vem de um \u00f3rg\u00e3o independente que n\u00e3o est\u00e1 ligado a nenhuma confiss\u00e3o religiosa ou a uma organiza\u00e7\u00e3o governativa, pelo que me parece despropositado fazer essas cr\u00edticas. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conclus\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es, o parecer \u00e9 equilibrado, entre as v\u00e1rias correntes. Ele n\u00e3o alinha por nenhum dos pontos mais extremos, fica num meio que n\u00e3o ser\u00e1 sempre virtuoso, mas que se pode considerar racional e razo\u00e1vel. As derroga\u00e7\u00f5es existentes no texto permitem, contudo, temer que a excep\u00e7\u00e3o se torne a regra. Essas excep\u00e7\u00f5es s\u00e3o contr\u00e1rias ao corpo do texto, abrindo uma porta que pode p\u00f4r em causa o sentido muito positivo da afirma\u00e7\u00e3o que as precedem.  <i>AE \u2013 A investiga\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas estaminais embrion\u00e1rias, a clonagem, a cria\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es para fins de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica t\u00eam ou n\u00e3o potencialidades que est\u00e3o a ser travadas por quest\u00f5es \u00e9ticas? WO \u2013<\/i> O mal \u00e9 que as coisas n\u00e3o sejam explicadas em pormenor e as pessoas sejam chamadas a tomar atitudes e decis\u00f5es sem estarem informadas.  Veja-se, por exemplo, a quest\u00e3o da clonagem reprodutiva ou terap\u00eautica: d\u00e1 a ideia de que se est\u00e1 a falar de duas coisas diferentes e que se pode dizer \u201cn\u00e3o\u201d a isto e \u201csim\u201d \u00e0quilo. Na realidade, a clonagem \u00e9 sempre clonagem e n\u00e3o h\u00e1 nenhumas diferen\u00e7as na metodologia, quer os fins sejam reprodutivos, quer tenham o objectivo de fazer investiga\u00e7\u00e3o. O ju\u00edzo \u00e9tico dever\u00e1 ser sobre a clonagem em si e n\u00e3o sobre os objectivos, porque os fins n\u00e3o certificam os meios. A opini\u00e3o p\u00fablica foi enganada, porque j\u00e1 h\u00e1 interesses comerciais muito grandes que andam \u00e0 volta disto e que vieram lan\u00e7ar a ideia de que a dita clonagem terap\u00eautica iria gerar a cura da doen\u00e7a de Parkinson, Alzheimer e por a\u00ed fora.  <i>AE \u2013 N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel chegar a essas curas? WO &#8211;<\/i> Criaram-se expectativas nesse sentido, o que \u00e9 deplor\u00e1vel, que s\u00e3o desmentidas constantemente. Mesmo os mais extremos defensores apontam para 2015\/2020 e andam-se a enganar as pessoas com hist\u00f3rias de clonagem terap\u00eautica que eventualmente curar\u00e3o &#8211; o eventualmente diz-se sempre em letra muito pequenina \u2013 uma s\u00e9rie de doen\u00e7as impressionantes da humanidade. \u00c9 evidente que eu percebo que as pessoas digam: \u2018n\u00e3o ser\u00e1 muito correcto clonar embri\u00f5es, mas do outro lado est\u00e3o coisas t\u00e3o boas&#8230;\u2019. Isto tem sido o que eu chamo de \u201chiperboliza\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas estaminais\u201d, porque na realidade o que se pode dizer, do ponto de vista cient\u00edfico, \u00e9 que as descobertas s\u00e3o muito interessantes e \u00e9 preciso apurar potencialidades das c\u00e9lulas estaminais adultas. Nada est\u00e1 provado.  <i>AE \u2013 Nada confirma a necessidade de recorrer a estes m\u00e9todos? WO \u2013 <\/i>Do ponto de vista \u00e9tico, posso dizer que n\u00e3o vejo qualquer necessidade de recorrer \u00e0 clonagem. \u00c9 absurdo estarmos empenhados em dizer que precisamos de permitir a experimenta\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas estaminais, porque muitas delas est\u00e3o patenteadas por empresas farmac\u00eauticas e de biotecnologia que querem fazer neg\u00f3cio.  Cientificamente n\u00e3o se justifica e eticamente seria muito incorrecto proceder \u00e0 clonagem de seres vivos capazes de desenvolver e reproduzir uma pessoa da esp\u00e9cie humana. Mesmo no caso dos embri\u00f5es exce-dent\u00e1rios, para fazer linhas de c\u00e9lulas estaminais, se estas tiverem a capacidade de se \u201cimortalizar\u201d em cultura, como se diz, os que existem se calhar j\u00e1 chegam&#8230; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walter Osswald, Director do Instituto de Bio\u00e9tica da UCP e antigo respons\u00e1vel pelo Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida, comenta para a Ag\u00eancia ECCLESIA os desafios levantados pelos \u00faltimos avan\u00e7os da gen\u00e9tica e da bio\u00e9tica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[131,201,321],"class_list":["post-9234","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-clonagem","tag-etica","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9234\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}