{"id":92203,"date":"2018-01-18T18:15:45","date_gmt":"2018-01-18T18:15:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=92203"},"modified":"2018-01-19T10:19:25","modified_gmt":"2018-01-19T10:19:25","slug":"turismo-e-os-sem-abrigo-o-que-vemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/turismo-e-os-sem-abrigo-o-que-vemos\/","title":{"rendered":"Turismo e os Sem-abrigo: o que vemos?"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o de Conselho de Ministros de junho de 2017, que aprova a <em>Estrat\u00e9gia Nacional para a Integra\u00e7\u00e3o das Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Sem-Abrigo<\/em> para o per\u00edodo <em>2017-2023<\/em> representou um passo em frente na consolida\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e na efetiva\u00e7\u00e3o da dignidade humana. Este instrumento legislativo preconiza uma Vis\u00e3o que ambiciona \u00abconsolidar uma abordagem estrat\u00e9gica e hol\u00edstica de preven\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o, centrada nas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, por forma a que ningu\u00e9m tenha de permanecer na rua por aus\u00eancia de alternativas\u00bb. (N.\u00ba 1). Por \u00abpessoa em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo\u00bb compreende-se algu\u00e9m que se encontre: \u00ab(i) sem teto, vivendo no espa\u00e7o p\u00fablico, alojada em abrigo de emerg\u00eancia ou com paradeiro em local prec\u00e1rio; ou (ii) sem casa, encontrando-se em alojamento tempor\u00e1rio destinado para o efeito.\u00bb (N.\u00ba 3). O Plano de A\u00e7\u00e3o 2017-2018, aprovado em novembro pp., pretende abarcar cerca de quatro mil sem-abrigo e tentar\u00e1 erradicar esta triste realidade at\u00e9 2023.<\/p>\n<p>Acontece que o turismo de massa que tem vindo a tomar conta das grandes cidades fez aumentar a procura de espa\u00e7os dispon\u00edveis, para al\u00e9m dos hot\u00e9is convencionais. Muitos propriet\u00e1rios t\u00eam vindo a transformar as suas casas em alojamentos tempor\u00e1rios para beneficiar do muito apetec\u00edvel retorno financeiro imediato. Esta press\u00e3o urban\u00edstica tem sido respons\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 por muitos despejos encapotados de fam\u00edlias menos protegidas, como tamb\u00e9m pelo despovoamento do centro hist\u00f3rico. Todavia, um fen\u00f3meno menos vis\u00edvel e conhecido \u00e9 o do progressivo despejo de pessoas idosas\/reformadas, em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, dos quartos das hospedarias de baixo custo nos quais habitavam h\u00e1 muitos anos. Por falta de meios para alugar um apartamento e arcarem com as despesas da sua manuten\u00e7\u00e3o, haviam-se refugiado em tempos nestas hospedarias fazendo delas a sua habita\u00e7\u00e3o permanente. Ora, uma vez despejados e sem meios pr\u00f3prios de subsist\u00eancia nem alternativas vi\u00e1veis de aluguer, resta-lhes a precariedade da rua. Esta come\u00e7a a ser uma realidade emergente em determinadas zonas hist\u00f3ricas das cidades, especialmente de Lisboa e Porto.<\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno invis\u00edvel e silencioso, em curso no interior das nossas cidades, pode j\u00e1 n\u00e3o nos afetar: quantos de n\u00f3s conseguem carregar consigo, por umas horas que seja, a imagem de um rosto que pede comida ou procura abrigo na via p\u00fablica? Para tornar toler\u00e1vel o intoler\u00e1vel, n\u00e3o s\u00e3o raras as vezes em que \u2018neutralizamos\u2019 ou \u2018naturalizamos\u2019 essa imagem-rosto, desencadeando um mecanismo seletivo de \u2018apagamento\u2019 inconsciente desse mesmo rosto, de anestesia da sensibilidade e de turva\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o. A aliena\u00e7\u00e3o parece ser o pre\u00e7o a pagar pelo apaziguamento do esp\u00edrito&#8230; N\u00e3o nos referimos ao apagamento da dimens\u00e3o f\u00edsica da pessoa no campo de vis\u00e3o de cada um, mas a uma pr\u00e1tica de indiferen\u00e7a, porventura resultante das diferen\u00e7as sociais interiorizadas, geradoras de imagens desvalorizadas como s\u00e3o as dos sem-abrigo. O pior \u00e9 que este mecanismo pode n\u00e3o ser consciente: constitui, n\u00e3o raras vezes, uma fuga \u00e0 dor alheia e poupa-nos ao nosso pr\u00f3prio sofrimento. Todos percebemos ou deixamos de perceber, de acordo com os limites e press\u00f5es psicol\u00f3gicas, sociais e culturais. A sensibilidade enquadra-se numa din\u00e2mica que est\u00e1 longe de ser apenas cognitiva: \u00e9 tamb\u00e9m e, sobretudo, emotiva, psicol\u00f3gica, simb\u00f3lica e valorativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92268,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[187,189,206,320],"class_list":["post-92203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-do-porto","tag-direitos-humanos","tag-familia","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92203"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92203\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}