{"id":9099,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-nascimento-de-jesus-segundo-os-evangelhos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-nascimento-de-jesus-segundo-os-evangelhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-nascimento-de-jesus-segundo-os-evangelhos\/","title":{"rendered":"O nascimento de Jesus segundo os Evangelhos"},"content":{"rendered":"<p>Todos os anos, ao celebrarmos o Natal de Jesus, nos encontramos com figuras e factos que evocam a mem\u00f3ria desse Natal de h\u00e1 dois mil anos. Vivemos de mem\u00f3rias e somos uma mem\u00f3ria viva. N\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria sem mem\u00f3ria nem mem\u00f3ria sem hist\u00f3ria. Ao lermos o Evangelho de S. Mateus, nos dois primeiros cap\u00edtulos, cheios de encanto e significado, passam por n\u00f3s os reis magos, a estrela, o encontro dos magos com Herodes, a adora\u00e7\u00e3o do Menino, a fuga para o Egipto, o massacre dos inocentes, o regresso do Egipto e a vinda para Nazar\u00e9, dois anos e tal depois de se refugiarem no Egipto. Por\u00e9m, ao lermos o Evangelho de S. Lucas, tamb\u00e9m nos dois primeiros cap\u00edtulos, deparamos com figuras e factos completamente distintos dos de S. Mateus: o an\u00fancio do nascimento de S. Jo\u00e3o Baptista a seu pai Zacarias, o an\u00fancio do nascimento e Jesus a sua m\u00e3e, atrav\u00e9s do arcanjo S. Gabriel, a visita de Maria a Santa Isabel, o nascimento e circuncis\u00e3o de Jesus no Templo de Jerusal\u00e9m, juntamente com Sime\u00e3o e Ana, o regresso da Sagrada Fam\u00edlia a Nazar\u00e9, apenas uns quinze dias depois do nascimento, e, finalmente, o encontro de Jesus no Templo. A apresenta\u00e7\u00e3o destas figuras e factos tem um objectivo: fazer com que o leitor perceba que as figuras e factos narrados em S. Mateus n\u00e3o s\u00e3o os mesmos que em S. Lucas. De comum, os dois evangelistas s\u00f3 t\u00eam a concei\u00e7\u00e3o virginal de Jesus e o nascimento em Bel\u00e9m. N\u00e3o seria mais normal que ambos apresentassem as mesmas figuras e factos? N\u00e3o podemos, de modo algum, estabelecer uma concord\u00e2ncia entre os dois evangelistas, pois o concordismo b\u00edblico \u00e9 mau conselheiro. Assim sendo, temos de concluir que o evangelista S. Mateus n\u00e3o conhecia S. Lucas e vice versa. Por outro lado, partindo do princ\u00edpio que S. Marcos foi o primeiro a escrever um Evangelho, onde n\u00e3o aparece o \u201cevangelho da inf\u00e2ncia\u201d, significa que nas primeiras comunidades crist\u00e3s o problema n\u00e3o era abordado. S. Paulo \u00e9 o primeiro a escrever, cerca de quinze anos antes de S. Marcos, e deixa-nos apenas dois breves apontamentos sobre o nascimento de Jesus. Na carta aos Romanos 1,3 escreve que Jesus \u201cnasceu da descend\u00eancia de David segundo a carne, constitu\u00eddo Filho de Deus em poder, segundo o Esp\u00edrito santificador pela ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos\u201d, e na carta aos G\u00e1latas 4,4 escreve que \u201cDeus enviou o seu filho, nascido de uma mulher, nascido sob o dom\u00ednio da Lei, a fim de recebermos a adop\u00e7\u00e3o de filhos\u201d. Para S. Paulo s\u00f3 interessava a pessoa de Jesus como Salvador, mas nascido de uma mulher, sob o dom\u00ednio da Lei, para acentuar que Jesus n\u00e3o \u00e9 nenhum her\u00f3i divino (aner theos), que caiu do c\u00e9u, rodeado de esplendor e mist\u00e9rio. Ele \u00e9 filho de uma mulher judia que vive na economia da \u201cLei de Mois\u00e9s\u201d e veio \u00e0 terra para estabelecer a \u201ceconomia do Esp\u00edrito\u201d em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 da Lei dos judeus. S\u00f3 a economia do Esp\u00edrito pode estabelecer a Fraternidade nova e a nova cria\u00e7\u00e3o, rompendo com todas as culturas baseadas no sangue, fam\u00edlia, p\u00e1tria, circuncis\u00e3o de Abra\u00e3o. \u00c9 natural que os crist\u00e3os, sobretudo depois da derrocada de Jerusal\u00e9m no ano 70, tenham come\u00e7ado a pensar seriamente sobre o nascimento do seu Salvador e tenham nascido muitas hist\u00f3rias divergentes. Nada do que est\u00e1 escrito nos Evangelhos \u00e9 em directo, mas em diferido. S. Mateus e S. Lucas fornecem-nos narrativas vivas e coloridas, mas todas iluminadas pelo programa narrativo da salva\u00e7\u00e3o, segundo as promessas do Antigo Testamento e respectivas profecias. S. Mateus \u00e9 bem expl\u00edcito nesse programa narrativo ao apresentar quatro encena\u00e7\u00f5es arrancadas \u00e0s Profecias: Mt 2,22: \u201cTudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho&#8230;\u201d; Mt 5: \u201cEles responderam: Em Bel\u00e9m da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta&#8230;\u201d; Mt 2, 15: \u201cAssim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta&#8230;; Mt 2, 23: \u201cAssim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas&#8230;\u201d. N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre S. Mateus e S. Lucas porque o objectivo de ambos n\u00e3o \u00e9 narrar cenas de hist\u00f3ria factual, mas cenas de hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o, a que os exegetas b\u00edblicos classificam de midrache b\u00edblico. O Antigo Testamento est\u00e1 cheio destas cenas. \u00c0 luz da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, estas cenas valem tanto como se fossem narrativas de hist\u00f3ria factual. E no meio de todas elas h\u00e1 duas comuns a ambos os evangelistas: nascimento de Jesus de uma mulher virgem e nascimento em Bel\u00e9m. \u00c9 verdade que alguns exegetas modernos, cat\u00f3licos e protestantes, colocam no mesmo p\u00e9 de hist\u00f3ria \u201cmidr\u00e1chica\u201d todas as cenas \u201cconstru\u00eddas\u201d a partir das profecias. Mas se assim for como compreender as demais cenas, ao longo da vida \u201chist\u00f3rica\u201d de Jesus, como \u00e9 o caso da prega\u00e7\u00e3o na Galileia (Mt 4, 14) e dos milagres (Mt 8, 17). No entanto, o que mais interessa nestas cenas da inf\u00e2ncia \u00e9 a realidade do seu simbolismo messi\u00e2nico. Deixemos que os nosso pres\u00e9pios contenham a estrela, magos, pastores, anjos, mas n\u00e3o fa\u00e7amos disso a centralidade da mensagem. N\u00e3o \u00e9 verdade que quando somos invadidos por sentimento de um grande amor, ou medo, ou op\u00e7\u00e3o de vida, sobretudo de ordem espiritual, dizemos: \u201cN\u00e3o tenho palavras para descrever\u201d? Foi o que aconteceu com Mateus e Lucas diante do \u201cmist\u00e9rio\u201d da incarna\u00e7\u00e3o de Jesus como Emanuel, Deus-connosco. Para serem compreendidos, apresentaram o \u201cmist\u00e9rio\u201d atrav\u00e9s de cenas catequ\u00e9ticas, criadas e constru\u00eddas de acordo com a sua mensagem de f\u00e9 em Jesus Cristo. escreveram em diferido, muitos anos depois do \u201cmist\u00e9rio\u201d da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Menino nascido em Bel\u00e9m, duma virgem m\u00e3e.  Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os anos, ao celebrarmos o Natal de Jesus, nos encontramos com figuras e factos que evocam a mem\u00f3ria desse Natal de h\u00e1 dois mil anos. 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