{"id":8915,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/brasil-encruzilhada-de-religioes\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"brasil-encruzilhada-de-religioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/brasil-encruzilhada-de-religioes\/","title":{"rendered":"Brasil: encruzilhada de religi\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>A missa que se celebra no princ\u00edpio de Dezembro numa igreja da Ba\u00eda homenageia simultaneamente Santa B\u00e1rbara e Ians\u00e3. Entre o Natal e os Reis, no Norte, no Nordeste, em Minas Gerais ou em S. Paulo, folias que misturam elementos crist\u00e3os, africanos e ind\u00edgenas conferem uma anima\u00e7\u00e3o especial \u00e0 adora\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio. Na passagem do ano, praticamente por todo o litoral, gentes de todas as ra\u00e7as e credos v\u00e3o \u00e0 praia prestar homenagem a Iemanj\u00e1. O Brasil \u00e9 assim mesmo. Um cadinho cultural em que tamb\u00e9m as religi\u00f5es se cruzam e se enriquecem.  4 de Dezembro. Salvador faz festa a Santa B\u00e1rbara. As homenagens iniciam-se com uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, no centro hist\u00f3rico da capital da Ba\u00eda. Na igreja cheia, os fi\u00e9is cantam e dan\u00e7am ao som do atabaque e agog\u00f4, instrumentos t\u00edpicos da cultura negra e tamb\u00e9m utilizados inicialmente no candombl\u00e9, religi\u00e3o afro-brasileira que cultua os orix\u00e1s \u2013 deuses das na\u00e7\u00f5es africanas de l\u00edngua ioruba, etnia origin\u00e1ria do territ\u00f3rio dos actuais Togo, Benim e, sobretudo, Nig\u00e9ria \u2013, dotados de sentimentos humanos, como ci\u00fame e vaidade.  E n\u00e3o s\u00e3o apenas os cat\u00f3licos a venerarem a santa. Fi\u00e9is, sacerdotes e sacerdotisas do candombl\u00e9 tamb\u00e9m participam na cerim\u00f3nia, que invade as ruas da cidade em forma de prociss\u00e3o. \u00c9 que, para o candombl\u00e9, Santa B\u00e1rbara representa Ians\u00e3, um dos orix\u00e1s do pante\u00e3o africano, senhora dos raios, dos ventos e trov\u00f5es.  Esse encontro de religi\u00f5es acontece tamb\u00e9m noutra esfera. Na pr\u00f3pria Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, constru\u00edda h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos por escravos africanos que fundaram uma fraternidade hom\u00f3nima, est\u00e1 enterrado o primeiro babalorix\u00e1 (sacerdote do candombl\u00e9) da Ba\u00eda. Nos altares barrocos, Santa B\u00e1rbara divide o espa\u00e7o com outros santos, todos negros: Benedito, Ant\u00f3nio de Carteger\u00f3, Martinho de Porres, Ifig\u00e9nia, Bakhita e outros. Dia 31 de Dezembro. Outro momento importante de manifesta\u00e7\u00e3o religiosa toma conta do Brasil, sobretudo das cidades do litoral. Na passagem do ano, a popula\u00e7\u00e3o em geral, cat\u00f3licos e n\u00e3o cat\u00f3licos, presta homenagem a Iemanj\u00e1, cujo nome deriva de Yeye oman ej\u00e1 \u2013 \u00abM\u00e3e cujos filhos s\u00e3o peixes\u00bb, em ioruba.  <i>Brasileira, \u00edndia e africana<\/i> \u00abIemanj\u00e1 \u00e9 uma deusa abrasileirada, o resultado da miscigena\u00e7\u00e3o de elementos europeus, ind\u00edgenas e africanos\u00bb, diz a pesquisadora em tradi\u00e7\u00f5es culturais Rosane Volpatto. Explica que os grandes seios de Iemanj\u00e1 se devem \u00e0 origem africana. Os cabelos longos e lisos prendem-se \u00e0 sua linhagem amer\u00edndia e \u00e9 uma homenagem \u00e0 Iara dos Tupi-Guarani. No Sul e Sudeste do Brasil, \u00e9 homenageada no dia 31 Dezembro; na Ba\u00eda e noutros estados do Nordeste, no dia 2 de Fevereiro. As oferendas tamb\u00e9m diferem, mas a maioria delas consiste em pequenos presentes, como pentes, velas, sabonetes, espelhos, flores. Na celebra\u00e7\u00e3o do solst\u00edcio de Ver\u00e3o, os seus filhos devotos v\u00e3o \u00e0s praias, vestidos de branco, e entregam ao mar barcos carregados de flores e presentes. Muitos agentes de pastoral consideram certas devo\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas religiosas afro-brasileiras ou de origem ind\u00edgena como comportamentos desviantes, deturpa\u00e7\u00f5es da f\u00e9 ou sinais de ignor\u00e2ncia religiosa. N\u00e3o \u00e9 raro que padres e bispos acusem publicamente as pessoas ligadas, por exemplo, ao candombl\u00e9 de viverem um sincretismo \u2013 a associa\u00e7\u00e3o de duas religi\u00f5es num \u00fanico culto, com as suas simbologias e doutrinas mescladas.  O candombl\u00e9 chegou ao Brasil no s\u00e9culo XVI, com o tr\u00e1fico de escravos negros da \u00c1frica ocidental. Sofreu grande repress\u00e3o dos portugueses, que o consideravam feiti\u00e7aria. Para sobreviverem \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es, os adeptos passaram a associar os orix\u00e1s aos santos cat\u00f3licos. Por exemplo, Iemanj\u00e1 \u00e9 associada a Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o; Ox\u00f3ssi a S\u00e3o Sebasti\u00e3o; Ogum a S\u00e3o Jorge; Xang\u00f4 a S\u00e3o Pedro.  <i>O mapa das religi\u00f5es<\/i> A partir de pesquisas em todo o territ\u00f3rio nacional, Roger Bastide, um dos grandes estudiosos do assunto, fez uma esp\u00e9cie de mapa das religi\u00f5es africanas no Brasil. De acordo com o mapa, todo o Norte do pa\u00eds, da Amaz\u00f3nia \u00e0 fronteira com Pernambuco, foi marcado pela influ\u00eancia ind\u00edgena. Isso \u00e9 ainda evidente na \u00abpajelan\u00e7a\u00bb do Par\u00e1 e da Amaz\u00f3nia, no \u00abencantamento\u00bb do Piau\u00ed e no \u00abcatimb\u00f3\u00bb das demais regi\u00f5es. No meio dessa grande \u00e1rea de influ\u00eancia ind\u00edgena, criou-se uma esp\u00e9cie de ilha onde os africanos conseguiram marcar presen\u00e7a. \u00c9 sobretudo em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o que escravos origin\u00e1rios do Daom\u00e9 deixaram tra\u00e7os das suas religi\u00f5es no \u00abtambor de mina\u00bb. \u00abNo resto do Nordeste foi muito marcante a contribui\u00e7\u00e3o dos Ioruba, povo de origem (sobretudo) nigeriana que conseguiu reconstruir no cativeiro toda a estrutura religiosa tradicional. \u00c9 o que ficou no \u201cxang\u00f4\u201d de Pernambuco, Alagoas e Sergipe e no \u201ccandombl\u00e9\u201d da Ba\u00eda\u00bb, explica o padre e mission\u00e1rio comboniano Heitor Frisotti, que estudou a fundo a rela\u00e7\u00e3o entre o candombl\u00e9 e o cristianismo. No Rio de Janeiro, at\u00e9 ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX, houve influ\u00eancia de duas na\u00e7\u00f5es: a Ioruba, que cultuava os orix\u00e1s, e a Banta, cujo culto \u00e9 conhecido sob o nome de \u00abcabula\u00bb. A \u00abmacumba\u00bb surgiu da introdu\u00e7\u00e3o de determinados orix\u00e1s e ritos iorubas na \u00abcabula\u00bb. De acordo com a explica\u00e7\u00e3o do padre Frisotti, a religi\u00e3o banta n\u00e3o era muito estruturada: n\u00e3o tinha uma classe sacerdotal forte, como a dos Iorubas, nem cerim\u00f3nias ricas como o candombl\u00e9. Por isso, a macumba adaptou-se com maior facilidade \u00e0 estrutura urbana da grande cidade. Hoje est\u00e1 mais presente no Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A grande cidade produziu tamb\u00e9m outra religi\u00e3o, a \u00abumbanda\u00bb, verdadeira s\u00edntese brasileira de quase todas as express\u00f5es religiosas populares produzidas at\u00e9 hoje, do catolicismo popular ao espiritismo kardecista, do candombl\u00e9 \u00e0 macumba. Une, pois, o elemento europeu, o ind\u00edgena e o africano.  <i>Amar Deus e os orix\u00e1s<\/i> O facto \u00e9 que a maioria dos brasileiros, criados no mundo do sincretismo religioso e cultural, n\u00e3o deixa de acender as suas velas para algum anjo-da-guarda e, ao mesmo tempo, procurar a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s na pajelan\u00e7a, na macumba, na umbanda e no candombl\u00e9. De acordo com dados do Censo 2000, os cat\u00f3licos brasileiros s\u00e3o 73,8 por cento dos habitantes. Os praticantes das religi\u00f5es afro-brasileiras ficam-se pelos 3,5 por cento. Embora tenham aumentado desde o censo de 1991, quando representavam apenas 0,4 por cento (cerca de 650 mil pessoas).  O professor Reginaldo Prandi, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), acredita que o censo fornece dados subestimados, porque muitos, oficialmente, se dizem cat\u00f3licos e n\u00e3o se comportam como tal. Al\u00e9m do mais, a Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Tradi\u00e7\u00e3o e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab) calcula que esse n\u00famero deve ser muito superior, pois parte dos frequentadores dos cerca de 20 mil terreiros do pa\u00eds ainda prefere declarar-se cat\u00f3lica, por causa da longa hist\u00f3ria de persegui\u00e7\u00f5es e discrimina\u00e7\u00f5es. \u00abO povo n\u00e3o quer saber se \u00e9 coisa da Igreja Cat\u00f3lica ou do candombl\u00e9 ou de outra religi\u00e3o. Ele est\u00e1 preocupado \u00e9 com o seu bem-estar e a sua sa\u00fade espiritual\u00bb, diz o mission\u00e1rio comboniano Fid\u00e8le Katsan. Natural do Congo, o padre Fid\u00e8le \u00e9 coordenador da pastoral afro da arquidiocese de Salvador.  O padre Fid\u00e8le e outros agentes pastorais da mais africana das capitais brasileiras afirmam que o povo-de-santo (como s\u00e3o chamados os adeptos do candombl\u00e9) reivindica o direito de pedir o baptismo cat\u00f3lico e mandar rezar missas. Dizem que assim aprenderam com seus pais, que costumam levar os filhos \u00e0 igreja e ao terreiro. O povo do candombl\u00e9 ama a Deus, os orix\u00e1s e a Igreja.   <i>Di\u00e1logo com os terreiros<\/i> A pastoral afro, em Salvador e no resto do pa\u00eds, procura aproximar mais os valores da cultura negra \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas. \u00abQuando realizamos celebra\u00e7\u00f5es, h\u00e1 quem diga que estamos levando o candombl\u00e9 para dentro da igreja. Por isso, \u00e9 preciso todo um trabalho de consciencializa\u00e7\u00e3o, porque o povo foi educado a ver o candombl\u00e9 como algo do Diabo. E isso por culpa de n\u00f3s, cat\u00f3licos\u00bb, diz o mission\u00e1rio. Quando se fala de sincretismo, a experi\u00eancia m\u00edstica do padre franc\u00eas Fran\u00e7ois de l\u2019Espinay (1918-1985) n\u00e3o pode deixar de ser lembrada. De 1974 at\u00e9 \u00e0 sua morte, aprofundou o caminho de solidariedade e di\u00e1logo com os fi\u00e9is dos terreiros em Salvador. Dizia: \u00abO filho do candombl\u00e9 pode, ao mesmo tempo e sinceramente, pertencer ao candombl\u00e9 e \u00e0 Igreja. S\u00e3o dois momentos da sua vida, dois meios de express\u00e3o religiosa. Isso pode tornar-se um problema se a gente se fecha exclusivamente dentro do pensamento ocidental.\u00bb Para L\u2019Espinay, \u00abas pessoas do candombl\u00e9 n\u00e3o misturam absolutamente os ritos. Candombl\u00e9 \u00e9 candombl\u00e9; Igreja \u00e9 Igreja. A prova disso est\u00e1 em que, se a gente perguntar a uma filha-de-santo como \u00e9 que faz para saudar Oxal\u00e1 e o Senhor do Bonfim, ela responder\u00e1, sem hesitar: \u00abPara o Senhor do Bonfim, eu fa\u00e7o o sinal da cruz; para Oxal\u00e1, o dobale (prostra\u00e7\u00e3o ritual).\u00bb  <i>O ecumenismo da pobreza<\/i> Na mesma linha de actua\u00e7\u00e3o trabalha o te\u00f3logo da liberta\u00e7\u00e3o e monge beneditino Marcelo Barros, que lembra os valores defendidos pelo Conc\u00edlio Vaticano II em rela\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo com as outras religi\u00f5es.  \u00abDe acordo com o Conc\u00edlio Vaticano II, o ecumenismo \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o da Igreja, porque a divis\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria ao projecto de Deus. Por sua hist\u00f3ria, compreendia-se o ecumenismo como sendo o movimento pela unidade das igrejas. As outras tradi\u00e7\u00f5es eram respeitadas, mas n\u00e3o se procurava o que hoje, na Am\u00e9rica Latina, chamamos de \u201cmacroecumenismo\u201d.\u00bb  Barros lembra as palavras e o exemplo de D. H\u00e9lder C\u00e2mara, com quem trabalhou como assessor para assuntos ecum\u00e9nicos na arquidiocese de Recife, nos anos 60 e 70: \u00abPara D. H\u00e9lder, a coisa mais pecaminosa \u00e9 a mis\u00e9ria e a mais ecum\u00e9nica \u00e9 a luta para que todos possam viver. Dizia: \u201cA pobreza \u00e9 ecum\u00e9nica. N\u00e3o distingue cat\u00f3lico e protestante, crist\u00e3o e n\u00e3o crist\u00e3o\u201d.\u00bb Considerada uma das figuras mais importantes da hist\u00f3ria recente da Igreja no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, D. H\u00e9lder, que faleceu em Agosto de 1999, via os l\u00edderes do candombl\u00e9 entre os mais marginalizados pela sociedade e pela Igreja. Costumava dizer que a Igreja tinha uma d\u00edvida hist\u00f3rica para com as comunidades negras. \u00abFomos c\u00famplices do colonialismo que escravizou os seus corpos e, pior ainda, perseguiu o seu esp\u00edrito. Os padres, sem conhecer suficientemente, julgaram a religi\u00e3o dos negros como demon\u00edaca e perseguiram-na. Hoje, temos obriga\u00e7\u00e3o de testemunhar a presen\u00e7a de Deus junto dos pobres, n\u00e3o s\u00f3 no plano individual mas tamb\u00e9m nas suas comunidades e suas express\u00f5es religiosas.\u00bb  <i>D. H\u00e9lder e o Preto Velho<\/i> O te\u00f3logo recorda que, uma vez, acompanhou o arcebispo a um bairro popular. Passando nas ruas, D. H\u00e9lder cumprimentava as pessoas e entrava em cada barraca. Chegou atrasado ao centro comunit\u00e1rio, onde as pessoas o esperavam para uma reuni\u00e3o. Numa das casas, um senhor da umbanda deu-lhe de presente uma imagem do Preto Velho (um dos esp\u00edritos da religi\u00e3o africana). D. H\u00e9lder chegou \u00e0 reuni\u00e3o, trazendo nos bra\u00e7os o Preto Velho. A quem se espantou com o atraso, explicou: \u00abEstava a encontrar-me com um irm\u00e3o, do qual s\u00e9culos me distanciaram.\u00bb Quando lhe perguntaram se o contacto do arcebispo com l\u00edderes de outras religi\u00f5es negras n\u00e3o favorecia o sincretismo e a confus\u00e3o, D. H\u00e9lder respondeu: \u00abO sincretismo existe desde que os nossos antepassados obrigaram os negros a baptizarem-se. Durante s\u00e9culos, eles foram obrigados a viver a sua f\u00e9 de modo escondido. O que eu fa\u00e7o \u00e9 reconhecer o seu direito a exercerem a sua religi\u00e3o. Sei que muitos, desde crian\u00e7as, s\u00e3o, ao mesmo tempo, cat\u00f3licos e de um culto afro. Conhecendo-os, vejo que s\u00e3o pessoas de tanta f\u00e9 e t\u00e3o dedicadas aos outros que s\u00f3 posso pensar que essa integra\u00e7\u00e3o faz bem.\u00bb  <i>Incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9<\/i> Por muito tempo, o povo do candombl\u00e9 foi alvo de persegui\u00e7\u00f5es e discrimina\u00e7\u00f5es. Nos jornais do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, que testemunham as investidas policiais contra os terreiros, aparecem as verdadeiras raz\u00f5es: o racismo e a pol\u00edtica de branqueamento das elites brasileiras. Os terreiros de candombl\u00e9 s\u00e3o considerados lugares cheios de engano e supersti\u00e7\u00e3o, coisa selvagem, de negros e mulheres, onde curandeiros exploram crendices, prometendo curas. Verdadeiros \u00abfocos de imoralidades e conflito\u00bb&#8230; Mais recentemente, tamb\u00e9m no campo da discuss\u00e3o antropol\u00f3gica o sincretismo deixa de ser directamente identificado com mistura, confus\u00e3o ou empr\u00e9stimo, e passa a ser considerado como \u00abuma realidade universal dos grupos humanos quando em contacto uns com os outros\u00bb, defende Faustino Teixeira, te\u00f3logo leigo e professor na Universidade Federal de Juiz de Fora. \u00abTrata-se da transforma\u00e7\u00e3o de elementos da identidade em raz\u00e3o do encontro com a alteridade (realidade alheia, ndR), de uma tend\u00eancia a utilizar rela\u00e7\u00f5es apreendidas no mundo do outro para ressemantizar (dar novo significado, ndR) o seu pr\u00f3prio universo\u00bb, define ele. Como Faustino e Barros, muitos outros te\u00f3logos tendem a reconhecer que o cristianismo pode receber de outras culturas e de outras religi\u00f5es elementos que iluminem sua pr\u00f3pria identidade, abrindo-se, assim, a uma recep\u00e7\u00e3o mais positiva do conceito de sincretismo e de seu significado. O te\u00f3logo M\u00e1rio de Fran\u00e7a Miranda, por exemplo, tamb\u00e9m defende esse ponto de vista: \u00abSem renunciar \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica com a identidade da experi\u00eancia salv\u00edfica crist\u00e3, podemos ver o sincretismo como parte do processo de incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9.\u00bb  <i>Negros trocados por doces<\/i> Nos festejos de Natal, s\u00e3o comuns manifesta\u00e7\u00f5es de sincretismo, que fundem elementos do candombl\u00e9 e da cultura e religi\u00e3o ind\u00edgenas com os ritos cat\u00f3licos. A mais famosa \u00e9 a Folia de Reis, em que tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas misturadas \u00e0 europeia adquirem uma fisionomia cabocla. V\u00e3o de 23 de Dezembro a 6 de Janeiro. Quinze dias cheios, em que os foli\u00f5es n\u00e3o fazem outra coisa sen\u00e3o dan\u00e7ar, comer, beber e correr as casas onde est\u00e3o armados os pres\u00e9pios.  Esses grupos, que saem durante o ciclo natal\u00edcio para homenagear o nascimento do Menino-Deus, peregrinam de casa em casa. Onde chegam, cantam para pedir licen\u00e7a para entrar, cantam para que se abram as portas. Fazem a louva\u00e7\u00e3o dos santos, louvam as pessoas da casa, pedem as esmolas para a realiza\u00e7\u00e3o da festa, e agradecem. Geralmente as fam\u00edlias s\u00e3o generosas: oferecem comidas e bebidas. \u00c9 uma festa sempre que a folia chega \u2013 uma festa da comunidade. H\u00e1 ainda celebra\u00e7\u00f5es em que tradi\u00e7\u00f5es africanas misturadas \u00e0 europeia adquirem uma fisionomia crioula; tais como os congos e reisados, que ainda se realizam em cidades do interior. Outra manifesta\u00e7\u00e3o religiosa eivada de sincretismo \u00e9 o auto de quilombos, encena\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica feita frequentemente no Natal, em estados do Nordeste. Com dan\u00e7as e c\u00e2nticos, procura-se reconstituir os quilombos, n\u00facleos povoados por escravos fugitivos durante o s\u00e9culo XVII. S\u00e3o representadas duas guerrilhas: uma de \u00edndios, outra de negros aquilombados. Os negros, vencidos, s\u00e3o levados em folia pelas ruas, onde s\u00e3o vendidos ou trocados por rebu\u00e7ados e doces&#8230;  <i>Gloss\u00e1rio<\/i> Babalorix\u00e1: zelador dos orix\u00e1s, mais conhecido como pai-de-santo. Caboclos: Esp\u00edritos ancestrais cultuados no candombl\u00e9 e na umbanda. S\u00e3o representados, geralmente, como \u00edndios do Brasil ou de terreiros da \u00c1frica m\u00edtica. Cabula: Nome dado ao culto da na\u00e7\u00e3o banta no Rio de Janeiro. Os Bantos formam um grupo lingu\u00edstico e cultural que se estende dos Camar\u00f5es at\u00e9 ao Sul do continente africano, incluindo Angola e Congo. Congos: Manifesta\u00e7\u00e3o cultural e religiosa em homenagem a S\u00e3o Benedito, onde se encena a luta pela liberdade, tendo como personagens principais escravos e nobres do imp\u00e9rio. Filho-de-santo, povo-de-santo: Diz-se de todo aquele que \u00e9 fiel do candombl\u00e9. Iara: Deusa das \u00e1guas, segundo a mitologia do povo ind\u00edgena Tupi-Guarani Kardecismo: Filosofia religiosa que, tendo como base a manifesta\u00e7\u00e3o das almas dos mortos, tenta levar as pessoas a uma conduta mais correcta. Foi trazida da Fran\u00e7a, onde o movimento encontrou em Allan Kardec n\u00e3o s\u00f3 um seguidor apaixonado como tamb\u00e9m o principal codificador, da\u00ed o nome \u00abkardecismo\u00bb em sua homenagem.  Macumba: Religi\u00e3o que surgiu da introdu\u00e7\u00e3o de determinados orix\u00e1s e ritos iorubas na cabula. Orix\u00e1: Divindades cultuadas no candombl\u00e9; umas s\u00e3o for\u00e7as da natureza, outras s\u00e3o esp\u00edritos que retornam sob a representa\u00e7\u00e3o de animais, outras ainda s\u00e3o esp\u00edritos ancestrais. Pajelan\u00e7a, encantamento e catimb\u00f3: Culto celebrado pelos povos ind\u00edgenas para a cura de doen\u00e7as e comunica\u00e7\u00e3o com os antepassados. H\u00e1 esses nomes, dependendo da regi\u00e3o do Brasil. Preto-velho: Termo que designa um tipo de entidade caracter\u00edstica dos cultos de umbanda. Representam os esp\u00edritos de negros escravos que se notabilizaram pela sua humildade, sabedoria e magia.  Reisados: Tamb\u00e9m chamados de Folia de Reis, esta manifesta\u00e7\u00e3o cultural e religiosa homenageia o nascimento do Menino-Deus, sendo realizada entre 23 de Dezembro a 6 de Janeiro em todo o Brasil. Santos negros: S\u00e3o Benedito, Santo Ant\u00f3nio de Carteger\u00f3, S\u00e3o Martinho de Porres, Santa Ifig\u00e9nia. Tambor de mina: Religi\u00e3o criada a partir de elementos ind\u00edgenas da pajelan\u00e7a, cristianismo e uma tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira. Surgiu em S\u00e3o Lu\u00eds, capital do Maranh\u00e3o, expandiu-se pelo Par\u00e1, Amazonas, outros estados do Norte e para as capitais que receberam grande n\u00famero de migrantes do Norte, como Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo.  Xang\u00f4: Orix\u00e1 relacionado com o fogo, o raio, o trov\u00e3o.  Ialorix\u00e1: zeladora dos orix\u00e1s, mais conhecida como m\u00e3e-de-santo. Iorubas: Um dos povos da Nig\u00e9ria que foram trazidos como escravos para o Brasil.  <i>Paulo Pereira Lima, in \u201cAl\u00e9m-Mar\u201d, n\u00ba 532<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A missa que se celebra no princ\u00edpio de Dezembro numa igreja da Ba\u00eda homenageia simultaneamente Santa B\u00e1rbara e Ians\u00e3. Entre o Natal e os Reis, no Norte, no Nordeste, em Minas Gerais ou em S. Paulo, folias que misturam elementos crist\u00e3os, africanos e ind\u00edgenas conferem uma anima\u00e7\u00e3o especial \u00e0 adora\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio. 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