{"id":853,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-ministerio-da-reconciliacao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-ministerio-da-reconciliacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-ministerio-da-reconciliacao\/","title":{"rendered":"O Minist\u00e9rio da Reconcilia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Instru\u00e7\u00e3o Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa <!--more--> No in\u00edcio do novo mil\u00e9nio  1. O Jubileu do segundo mil\u00e9nio, que acab\u00e1mos de celebrar, foi um tempo muito especial de gra\u00e7a, de alegria e de renova\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3, orientado para uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Como diz o Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II, logo no come\u00e7o da Carta Apost\u00f3lica Novo millenio ineunte, que nos apresenta as grandes linhas program\u00e1ticas para a Igreja Universal no in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio, &#8220;\u00e9 imposs\u00edvel medir o sucesso de gra\u00e7a que, ao longo do ano, tocou as consci\u00eancias. Mas certamente um \u2018rio de \u00e1gua viva\u2019, o mesmo que jorra incessantemente do &#8220;trono de Deus e do Cordeiro&#8221; (Ap. 22, 1), inundou a Igreja&#8221; (n.\u00ba 1).  Ao longo do Jubileu, toda a Igreja foi conduzida a um encontro mais vivo com Jesus Cristo. O grande legado que ele nos deixa \u00e9 a &#8220;contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo&#8221; (NMI 15).  O desafio que agora se coloca \u00e0 Igreja, que retoma a sua actividade normal enraizada no espa\u00e7o e no tempo, \u00e9 dar continuidade a esse tempo de gra\u00e7a com o olhar sempre mais intensamente fixo no rosto do Senhor, que Ela contempla e tem por miss\u00e3o anunciar pela palavra e pela for\u00e7a do testemunho (cf. NMI 16). Se o Jubileu trouxe \u00e0 Igreja um novo vigor resultante do encontro e da renova\u00e7\u00e3o em Cristo, o p\u00f3s-Jubileu \u00e9 um desafio a seguir em frente, com esperan\u00e7a, na fidelidade \u00c0quele que &#8220;\u00e9 o mesmo ontem, hoje e sempre&#8221; (He 13, 8) e que nos ofereceu a garantia de nos assistir at\u00e9 ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).  O programa para o terceiro mil\u00e9nio \u00e9 o programa de sempre, &#8220;expresso no Evangelho e na Tradi\u00e7\u00e3o viva. Concentra-se, em \u00faltima an\u00e1lise, no pr\u00f3prio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para n\u2019Ele viver a vida trinit\u00e1ria e com Ele transformar a hist\u00f3ria at\u00e9 \u00e0 sua plenitude na Jerusal\u00e9m celeste&#8221; (NMI 29). Mas, tendo em conta os novos tempos e culturas, &#8220;\u00e9 necess\u00e1rio traduzi-lo em orienta\u00e7\u00f5es pastorais ajustadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de cada comunidade&#8221; (NMI 29).  Uma das prioridades apontadas pelo Santo Padre para o relan\u00e7amento pastoral, no seguimento da experi\u00eancia do Grande Jubileu, \u00e9 o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, cuja pr\u00e1tica se deve propor com &#8220;uma renovada coragem pastoral (&#8230;) de forma persuasiva e eficaz&#8221; (NMI 37).  O caminho de convers\u00e3o conduz ao sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, principal meio para realizar na vida dos fi\u00e9is a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a Igreja. Este sacramento restabelece a vida espiritual do Baptismo e conduz a uma maior fidelidade ao projecto de Jesus Cristo.  \u00c9 nossa inten\u00e7\u00e3o, com esta Instru\u00e7\u00e3o Pastoral, ajudar a esclarecer o lugar e o significado do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o na vida crist\u00e3 de modo que a sua celebra\u00e7\u00e3o incentive a uma maior convers\u00e3o \u00e0 vida dos filhos de Deus.  Convers\u00e3o e virtude da Penit\u00eancia  2. Para acolher o Evangelho e entrar no Reino de Deus, \u00e9 necess\u00e1rio arrepender-se e converter-se: &#8220;arrependei-vos e convertei-vos para que os vossos pecados sejam apagados&#8221; (Act. 3, 19). A convers\u00e3o ou metanoia \u00e9 uma mudan\u00e7a profunda que atinge a forma de pensar e de agir, os crit\u00e9rios e as atitudes. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas uma transforma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e terap\u00eautica. \u00c9 deixar os nossos caminhos para seguir o caminho que Deus nos prop\u00f5e em Jesus Cristo. \u00c9 acolher e aderir \u00e0 vida nova que Deus nos oferece atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo que transforma o cora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e renova a face da terra.  Corresponder ao chamamento de Deus, tornar-se disc\u00edpulos de Jesus Cristo e viver segundo o Esp\u00edrito Santo \u00e9 um processo de transforma\u00e7\u00e3o que exige esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o ao longo de toda a vida. Encontra, na verdade, a resist\u00eancia da nossa natureza humana, ferida pelo pecado original, com tend\u00eancias para o ego\u00edsmo, vaidade, orgulho, dom\u00ednio, sensualidade e outros impulsos desordenados. Sem penit\u00eancia, isto \u00e9, sem ren\u00fancia a estas tenta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podemos viver o Evangelho do Reino.  Por isso Jesus, na continua\u00e7\u00e3o dos profetas, e designadamente de Jo\u00e3o Baptista, proclama a penit\u00eancia como condi\u00e7\u00e3o para acolher o Reino de Deus. Este \u00e9 o caminho que nos prop\u00f5e para nos libertar da escravid\u00e3o do pecado e nos introduzir na Sua luz admir\u00e1vel (cf. CP 1).  A Penit\u00eancia apresenta-se, assim, como um caminho que nos renova interiormente, em ordem a alcan\u00e7armos a plena estatura da vida crist\u00e3. Compreenderemos este aspecto positivo da convers\u00e3o ao considerar a transforma\u00e7\u00e3o que se operou na vida daqueles que encontraram Jesus Cristo e acolheram o Seu Evangelho: os ap\u00f3stolos, Zaqueu, a pecadora arrependida, a Samaritana, etc. Assim, nas palavras e nos gestos de Jesus, bem como nos frutos de convers\u00e3o daqueles que n\u2019Ele acreditaram, descobrimos o apelo \u00e0 penit\u00eancia como um resumo da miss\u00e3o de Jesus. Se n\u00e3o nos convertermos, n\u00e3o pertenceremos ao Reino de Deus.  Voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade e sentido do pecado  3. A convers\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 resposta ao apelo de Deus, \u00e0 Alian\u00e7a que Ele deseja estabelecer connosco. Para nos voltarmos para Deus e aderirmos ao Seu projecto \u00e9 necess\u00e1rio conhecer Deus e a voca\u00e7\u00e3o que Ele nos prop\u00f5e. A convers\u00e3o crist\u00e3 arranca da escuta da Palavra de Deus.  Aqui se situam as dificuldades de muitos fi\u00e9is. N\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia de pecado porque n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o suficiente para entender a dignidade e a responsabilidade da forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O pecado \u00e9 uma infidelidade \u00e0 Alian\u00e7a a que Deus nos chamou. A sua gravidade ecoa na consci\u00eancia de quem sente o apelo de Deus \u00e0 santidade. Deste modo para entender a necessidade e a import\u00e2ncia da convers\u00e3o devemos partir da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ligada ao Baptismo. Em confronto com o projecto que vem do Baptismo, da Confirma\u00e7\u00e3o e da Eucaristia, descobrimos mais facilmente as nossas infidelidades e a necessidade de perd\u00e3o e de convers\u00e3o. Perante a bondade e a miseric\u00f3rdia de Deus tomamos consci\u00eancia das nossas falhas.  Pelos sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 somos introduzidos na comunh\u00e3o com Deus e na comunh\u00e3o dos Santos. Este dom gratuito de Deus \u00e9 um chamamento que espera pela nossa correspond\u00eancia na vida crist\u00e3 adulta e empenhada, alicer\u00e7ada na palavra de Deus, conduzida pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, orientada para o amor de Deus e do pr\u00f3ximo e para o testemunho da f\u00e9 na Igreja e no mundo. \u00c9 neste esfor\u00e7o por corresponder \u00e0 santidade do Baptismo que tomamos consci\u00eancia das nossas resist\u00eancias e fragilidades e descobrimos a necessidade de lutar contra as for\u00e7as do mal enraizadas no cora\u00e7\u00e3o de todos: &#8220;A voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade mergulha as suas ra\u00edzes no Baptismo e volta a ser proposta pelos v\u00e1rios sacramentos, sobretudo pelo da Eucaristia: revestidos de Jesus Cristo e impregnados do Seu Esp\u00edrito os crist\u00e3os s\u00e3o &#8220;santos&#8221; e, por isso, s\u00e3o habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na santidade de todo o seu operar. O ap\u00f3stolo Paulo n\u00e3o se cansa de advertir todos os crist\u00e3os para que vivam &#8220;como conv\u00e9m a santos&#8221; (Ef. 5, 3) (ChL. 16).  Renova\u00e7\u00e3o do sacramento da Penit\u00eancia  4. O sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, express\u00e3o da sacramentalidade salv\u00edfica da Igreja, \u00e9 o principal meio eclesial para se abrir \u00e0 convers\u00e3o e chegar \u00e0 virtude da Penit\u00eancia. Por isso todo o esfor\u00e7o pastoral de renova\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3, passa, necessariamente, pela renova\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o pastoral da celebra\u00e7\u00e3o deste sacramento. O II S\u00ednodo Especial dos Bispos para a Europa apresentou-o como fonte de salva\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o, de liberdade e nova esperan\u00e7a (cf. MFS 5).  Ao falar de recupera\u00e7\u00e3o, reconhecemos que, apesar da riqueza oferecida pela renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da sua celebra\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1tica deste sacramento tem sofrido profundas altera\u00e7\u00f5es que denunciam, mesmo, uma certa crise. S\u00e3o m\u00faltiplas as causas deste fen\u00f3meno: a perda do sentido do pecado, sobretudo do pecado grave, aquela desobedi\u00eancia \u00e0 vontade e ao projecto de Deus, que nos afasta da viv\u00eancia da alian\u00e7a com ele; o desvanecer-se da consci\u00eancia do poder sacramental da Igreja, enquanto mediadora da gra\u00e7a; o enfraquecimento da experi\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o, radicada na medita\u00e7\u00e3o da palavra de Deus, enquanto experi\u00eancia de intimidade com o Senhor; o div\u00f3rcio entre a f\u00e9 professada e a vida vivida como manifesta\u00e7\u00e3o de fidelidade, etc. Devemos reconhecer, al\u00e9m disso, que a forma de celebrar o sacramento nem sempre deixa transparecer a sua riqueza. Frequentemente apresenta a imagem de um col\u00f3quio individual sem contexto lit\u00fargico celebrativo nem dimens\u00e3o comunit\u00e1ria. Ou ent\u00e3o centrado predominantemente no momento da confiss\u00e3o e da absolvi\u00e7\u00e3o sem a devida preocupa\u00e7\u00e3o pelo itiner\u00e1rio pr\u00e9vio de penit\u00eancia nem da maior fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 a que o sacramento conduz. Tudo isto nos leva \u00e0 consci\u00eancia de que a renova\u00e7\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o deste sacramento \u00e9 indeslig\u00e1vel de uma intensa evangeliza\u00e7\u00e3o que leve \u00e0 redescoberta do Baptismo.  Na Carta Apost\u00f3lica sobre a prepara\u00e7\u00e3o para o Jubileu, bem como na Bula da sua proclama\u00e7\u00e3o, o Santo Padre refere o contexto adequado para entender o lugar deste sacramento. Ele pressup\u00f5e um itiner\u00e1rio de convers\u00e3o e orienta para uma vida crist\u00e3 mais intensa. Corresponde, portanto, a um percurso de fortalecimento da vida nova do Baptismo, que se traduz no combate contra as tend\u00eancias do pecado em ordem a uma maior fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3.  O sacramento da Penit\u00eancia num itiner\u00e1rio de convers\u00e3o  5. O sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento culminante de um processo que vai amadurecendo gradual e progressivamente. Pressup\u00f5e alguns passos pr\u00e9vios: forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia para reconhecer as infidelidades ao projecto de Deus; arrependimento pelas faltas cometidas; e vontade sincera de dar um rumo novo \u00e0 exist\u00eancia. O sacramento como dom de Deus precisa de ser preparado por um itiner\u00e1rio pessoal de convers\u00e3o e deve conduzir a uma vida mais fiel \u00e0 santidade crist\u00e3. Esta \u00e9 uma dimens\u00e3o fundamental do sacramento que se julga j\u00e1 adquirida mas que, na realidade, n\u00e3o penetrou ainda suficientemente na mentalidade dos fi\u00e9is e na pr\u00e1tica pastoral.  A Carta Apost\u00f3lica Tertio millennio adveniente lembrava esta dimens\u00e3o ao afirmar: &#8220;o caminho de aut\u00eantica convers\u00e3o, que compreende, seja um aspecto &#8220;negativo&#8221; com a liberta\u00e7\u00e3o do pecado, seja um aspecto &#8220;positivo&#8221; com a escolha do bem (&#8230;) \u00e9 o contexto adequado para a descoberta e a intensa celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da Penit\u00eancia no seu significado mais profundo&#8221; (n.\u00ba 50). Esta perspectiva decorre do Evangelho, como vimos, e est\u00e1 de acordo com a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja. S\u00e3o Tom\u00e1s afirmava que \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7ar o perd\u00e3o dos pecados s\u00f3 pelo rito, se n\u00e3o se alcan\u00e7a a penit\u00eancia como atitude.  Penit\u00eancia adquire assim, na perspectiva b\u00edblica e eclesial, um sentido positivo e estimulante de passagem das trevas \u00e0 luz. Renunciamos ao pecado para alcan\u00e7ar a liberdade de filhos de Deus. No entanto, esta passagem do pecado \u00e0 santidade do Baptismo \u00e9 custosa e exigente. N\u00e3o se alcan\u00e7a sem sacrif\u00edcio e esfor\u00e7o, &#8220;sem jejum e ora\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo a linguagem do Evangelho. O pecado \u00e9 sempre uma tenta\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel a que estamos inclinados e apegados. Renunciar ao ego\u00edsmo, \u00e0 vaidade, \u00e0 sensualidade, \u00e0 mentira ou a outras inclina\u00e7\u00f5es pecaminosas para aderir ao projecto de Deus, \u00e9 empreender o caminho dif\u00edcil para a liberdade, para a bondade e para a beleza.  Deste modo, n\u00e3o podemos entender e viver o sacramento como um momento isolado. \u00c9 igualmente importante para preparar o &#8220;antes&#8221; e o &#8220;depois&#8221; do sacramento. Na pr\u00e1tica pastoral n\u00e3o basta programar os dias e as horas das confiss\u00f5es. Devemos igualmente pensar e propor itiner\u00e1rios de penit\u00eancia que preparem e d\u00eaem continua\u00e7\u00e3o ao sacramento.  Caminhos para a renova\u00e7\u00e3o pastoral do sacramento da Penit\u00eancia  6. A renova\u00e7\u00e3o pastoral deste sacramento alcan\u00e7a-se, portanto, no contexto geral de um processo de evangeliza\u00e7\u00e3o. A sua pr\u00f3pria identidade como sacramento de cura, que recupera e fortalece a gra\u00e7a do Baptismo, associa-o \u00e0 pastoral da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que tem em vista formar fi\u00e9is adultos e respons\u00e1veis. De facto, para alcan\u00e7ar o sentido de pecado e dispor-se a percorrer o caminho da convers\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel ter consci\u00eancia do projecto de Alian\u00e7a de Deus e saber discernir entre o caminho do Senhor e os outros caminhos. A raiz da crise deste sacramento encontra-se, em grande parte, na deficiente forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3, designadamente na forma\u00e7\u00e3o moral.  Deste modo, a renova\u00e7\u00e3o pastoral do sacramento da Penit\u00eancia alcan\u00e7a-se, a longo prazo, com uma catequese s\u00f3lida, atenta a todas as dimens\u00f5es da vida crist\u00e3. Referimo-nos tanto \u00e0 catequese de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, que acompanha a celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, como \u00e0 catequese de jovens e adultos que, apesar de terem recebido os referidos sacramentos, n\u00e3o foram verdadeiramente iniciados no conhecimento e na pr\u00e1tica da vida crist\u00e3.  Al\u00e9m desta prepara\u00e7\u00e3o geral, torna-se igualmente importante uma prepara\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e pr\u00f3xima para celebrar frutuosamente este sacramento. Neste sentido precisamos de valorizar o itiner\u00e1rio penitencial da Quaresma para convocar e dispor as comunidades a viver a convers\u00e3o que conduz \u00e0 vida nova da P\u00e1scoa.  Em ordem \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o imediata para a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento \u00e9 oportuno proporcionar aos fi\u00e9is celebra\u00e7\u00f5es penitenciais em que possam ser confrontados com a Palavra de Deus e orientados no exame de consci\u00eancia adaptado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que vivem.  A renova\u00e7\u00e3o pastoral do sacramento da Penit\u00eancia est\u00e1 ligada ao conjunto da vida crist\u00e3. N\u00e3o se esgota, portanto, nestes v\u00e1rios n\u00edveis de prepara\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. \u00c9 fruto tamb\u00e9m do zelo pastoral quotidiano que faz refer\u00eancias oportunas a este sacramento e ajuda os fi\u00e9is a descobrir a sua rela\u00e7\u00e3o profunda com as expectativas e problemas das pessoas do nosso tempo.  Resposta da Igreja a problemas do homem contempor\u00e2neo  7. Como j\u00e1 referimos o sacramento da Penit\u00eancia pode ter um papel fundamental na recupera\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a do homem europeu contempor\u00e2neo.  Verifica-se, de facto, nas pessoas da \u00e9poca actual, um sentimento de insatisfa\u00e7\u00e3o e de vazio, um desejo de regenerar a exist\u00eancia e de refazer a vida. A abund\u00e2ncia de bens e as comodidades materiais n\u00e3o resolvem os conflitos interiores e exteriores, n\u00e3o alcan\u00e7am a paz e o sentido da vida. Sintomas de vazio e de inquieta\u00e7\u00e3o interior podemos encontr\u00e1-los em muitos factos: o recurso frequente a especialistas de felicidade que anunciam poderes ocultos para resolver problemas pessoais; a ades\u00e3o a seitas que garantem rem\u00e9dio para todos os males e cura para as diversas doen\u00e7as; a onda de melancolia e de depress\u00e3o que leva muita gente a consultar psic\u00f3logos.  Face a estes sintomas as pessoas t\u00eam a tend\u00eancia a procurar solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e exteriores quando o caminho \u00e9 a mudan\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o que se alcan\u00e7a com o esfor\u00e7o da convers\u00e3o. O itiner\u00e1rio de penit\u00eancia que leva \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho mais seguro para reconstruir a vida segundo o projecto de Jesus Cristo e orientar no crescimento da vida espiritual e humana.  Corresponde, portanto, a experi\u00eancias e anseios humanos das pessoas. Mas o sacramento vai muito al\u00e9m do desejo humano de dar um rumo diferente \u00e0 vida. \u00c9 o dom do Pai de Miseric\u00f3rdia que perdoa as infidelidades de seus filhos e recome\u00e7a uma Alian\u00e7a de amor connosco. Para aqueles que se afastaram gravemente do amor de Deus e t\u00eam consci\u00eancia disso, o sacramento \u00e9 o momento do perd\u00e3o e de um novo recome\u00e7o. &#8220;Aqueles, por\u00e9m, que, fazendo todos os dias a experi\u00eancia da sua fraqueza, caem em pecados veniais recebem, pela repetida celebra\u00e7\u00e3o da penit\u00eancia, for\u00e7as para poderem chegar \u00e0 plena liberdade dos filhos de Deus&#8221; (CP 7).  O sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, quando bem preparado e celebrado, produz frutos abundantes que respondem a muitos problemas actuais: ajuda a tomar consci\u00eancia cada vez mais profunda do ideal crist\u00e3o e a reconhecer as infidelidades de cada um; d\u00e1 refer\u00eancias e crit\u00e9rios evang\u00e9licos; aprofunda a confian\u00e7a na miseric\u00f3rdia de Deus sempre maior que as nossas infidelidades. O sacramento cura e restaura a vida espiritual, ajuda a encontrar a paz e conduz a um recome\u00e7o na fidelidade \u00e0 comunh\u00e3o com Deus e com os outros. Este aspecto positivo leva naturalmente \u00e0 regenera\u00e7\u00e3o pessoal e social e vai de encontro ao desejo que muita gente sente de dar um rumo novo \u00e0 vida.  A revitaliza\u00e7\u00e3o do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, vivida na plena integridade da doutrina conciliar, \u00e9 cada vez mais urgente se se quer avan\u00e7ar no caminho da nova evangeliza\u00e7\u00e3o da Europa. Pelo sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, bem celebrado e praticado, passa o renovado encontro do crist\u00e3o com a gra\u00e7a redentora de Jesus Cristo.  Momentos do Sacramento  8. A celebra\u00e7\u00e3o da penit\u00eancia integra alguns elementos que podem entender-se como momentos do processo de renova\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3 (cf. CP 6).  a) Antes de mais, a convers\u00e3o interior ou &#8220;metanoia&#8221; isto \u00e9, &#8220;a mudan\u00e7a interior do homem todo, pela qual ele come\u00e7a a pensar, a julgar e a dispor a sua vida, impelido pela santidade e caridade de Deus (\u2026). \u00c9 desta contri\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o que depende a verdade da penit\u00eancia&#8221; (CP 6).  Este primeiro passo indispens\u00e1vel torna-se hoje dif\u00edcil de dar. O apelo \u00e0 convers\u00e3o desperta um eco muito d\u00e9bil nas pessoas da \u00e9poca actual. Dilu\u00edram-se o sentido de pecado e a consci\u00eancia de culpa. As pessoas sentem-se bem como s\u00e3o. Instalam-se na sua mediocridade. As falhas morais explicam-se por motivos psicol\u00f3gicos ou sociol\u00f3gicos. Experimentam s\u00e9rias dificuldades em fazer um exame de consci\u00eancia que tenha como refer\u00eancia a globalidade da moral crist\u00e3.  Assim, para se dispor \u00e0 convers\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar pela forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia que permita discernir entre o caminho do Evangelho e o caminho do mal. \u00c9 urgente uma catequese cuidada sobre os dez mandamentos.  b) A confiss\u00e3o dos pecados \u00e9 outro elemento que faz parte essencial do sacramento. Segundo o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, &#8220;mesmo do ponto de vista humano, a confiss\u00e3o dos pecados liberta-nos e facilita a nossa reconcilia\u00e7\u00e3o com os outros&#8221; (CIC 1455). Quando cada penitente assume o seu pecado como infidelidade pessoal e recorre com confian\u00e7a e humildade ao perd\u00e3o de Deus, alcan\u00e7a a reconcilia\u00e7\u00e3o e disp\u00f5e-se ele pr\u00f3prio a ser embaixador da reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e0 sua volta.  Al\u00e9m de ser o sinal sacramental da reconcilia\u00e7\u00e3o, a confiss\u00e3o das pr\u00f3prias culpas corresponde tamb\u00e9m ao anseio humano de ser escutado, compreendido e ajudado na procura de um rumo novo para a vida.  Deste modo, compreenderemos a import\u00e2ncia que a Igreja reconhece a este elemento do sacramento: &#8220;A confiss\u00e3o individual e \u00edntegra e a absolvi\u00e7\u00e3o constituem o \u00fanico modo ordin\u00e1rio pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja&#8221; (CDC, can. 960; CP 31). Hoje, numa sociedade massificada e individualista, torna-se muito necess\u00e1rio este atendimento pessoal em que o ministro da Penit\u00eancia manifesta a miseric\u00f3rdia do Pai e o acolhimento materno da Igreja.  A confiss\u00e3o individual dos pecados graves \u00e9 sempre exigida para a validade do sacramento, mesmo quando, a teor do can. 961, \u00a7 1\u00ba e 2\u00ba, se pode dar a absolvi\u00e7\u00e3o geral sem a confiss\u00e3o pessoal dos pr\u00f3prios pecados naquele momento.  c) A satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 o terceiro elemento integrante que leva \u00e0 repara\u00e7\u00e3o do mal cometido e prop\u00f5e um rem\u00e9dio de acordo com a doen\u00e7a. Projecta-se para o futuro, para um novo rumo a seguir, numa maior fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O confessor deve, nesse sentido, propor caminhos, gestos ou ac\u00e7\u00f5es que correspondam \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do penitente e o ajudem na configura\u00e7\u00e3o com Jesus Cristo: ora\u00e7\u00e3o, donativos, obras de miseric\u00f3rdia, servi\u00e7os concretos a prestar ao pr\u00f3ximo, e sobretudo a aceita\u00e7\u00e3o da cruz da vida (cf. CIC 1460).  d) Finalmente, a absolvi\u00e7\u00e3o \u2013 pela qual o ministro da Igreja, em nome de Deus, Pai de miseric\u00f3rdia, concede o perd\u00e3o dos pecados, alcan\u00e7ado pelo mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo \u2013 restabelece a vida nova no Esp\u00edrito.  A absolvi\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento culminante do itiner\u00e1rio penitencial e conduz \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus, com a Igreja e com o pr\u00f3ximo (Mt. 5, 24). Deve, por isso, manifestar-se numa vida reconstru\u00edda, em harmonia interior e exterior com Deus e com os outros.  Jesus Ressuscitado confia \u00e0 Igreja o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o  9. Jesus Cristo, que ao longo da Sua vida terrena manifestou, por v\u00e1rios gestos e sinais, que vinha perdoar os pecados e realizar a reconcilia\u00e7\u00e3o dos homens e de todas as criaturas com Deus, ap\u00f3s a Ressurrei\u00e7\u00e3o confiou aos seus continuadores a mesma obra da Reconcilia\u00e7\u00e3o: &#8220;Recebei o Esp\u00edrito Santo. \u00c0queles a quem perdoardes os pecados ficar\u00e3o perdoados, \u00e0queles a quem os retiverdes ficar\u00e3o retidos&#8221; (Jo. 20, 22-23). \u00c9 o primeiro dom da Ressurrei\u00e7\u00e3o oferecido na tarde da P\u00e1scoa, para que os ap\u00f3stolos e os seus sucessores pudessem comunicar a todos os fi\u00e9is a vida nova do Esp\u00edrito. &#8220;Esta \u00e9 uma das mais maravilhosas novidades evang\u00e9licas!&#8221; (RP 29).  Como acontece na celebra\u00e7\u00e3o dos outros sacramentos, tamb\u00e9m o dom da Reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 concedido pela media\u00e7\u00e3o da Igreja atrav\u00e9s do minist\u00e9rio ordenado. &#8220;O sacerdote, ministro da penit\u00eancia, age in &#8220;persona Christi&#8221; e como irm\u00e3o (\u2026) e m\u00e9dico que cura e conforta&#8221; (cf. RP 29). O ministro do sacramento, confere, assim, visibilidade sacramental \u00e0 obra de reconcilia\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.  &#8220;Trata-se, sem d\u00favida, do minist\u00e9rio mais dif\u00edcil e delicado, do mais cansativo e exigente; mas tamb\u00e9m de um dos mais belos e consoladores minist\u00e9rios do sacerdote&#8221; (RP 29). Permite-lhe, na verdade, conhecer o \u00edntimo das pessoas, ouvir de cada uma as suas fraquezas e quedas, cuidar pessoalmente das que est\u00e3o feridas e doentes, orientar no esfor\u00e7o de recupera\u00e7\u00e3o e comunicar o perd\u00e3o de Deus (cf. RP 29).  Compreendemos, portanto, como a prepara\u00e7\u00e3o e a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o devam ocupar um lugar importante na miss\u00e3o dos pastores da Igreja. Pede-lhes que cuidem seriamente da sua pr\u00f3pria prepara\u00e7\u00e3o humana, teol\u00f3gica e espiritual necess\u00e1ria para o exerc\u00edcio eficaz deste m\u00fanus. E igualmente que prestem a aten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 devida prepara\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, \u00e0 dimens\u00e3o celebrativa do sacramento e a fixar em cada Igreja tempos destinados \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do sacramento (cf.RP n.\u00ba 29 e 32). Deste modo se poder\u00e3o superar algumas dificuldades e objec\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de celebrar este sacramento.  Dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e social da reconcilia\u00e7\u00e3o  10. A reconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o se reduz ao foro \u00edntimo e pessoal. Com efeito, a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 indissoci\u00e1vel da reconcilia\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo (Mt. 5, 24) e da reconcilia\u00e7\u00e3o com a comunidade (LG 11).  Esta dimens\u00e3o comunit\u00e1ria \u00e9 referida nas par\u00e1bolas da miseric\u00f3rdia em que o Pai do pr\u00f3digo n\u00e3o apenas oferece o perd\u00e3o, mas deseja que todos participem da alegria e da festa. N\u00e3o apenas acolhe o filho pr\u00f3digo mas reintegra-o plenamente na dignidade de filho e na rela\u00e7\u00e3o familiar.  A reconcilia\u00e7\u00e3o cria, na verdade, uma situa\u00e7\u00e3o nova, uma forma nova de viver a rela\u00e7\u00e3o com Deus e com o semelhante, consigo mesmo e com a vida: &#8220;Se algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo \u00e9 uma nova criatura. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221; (2 Cor. 5, 18-19). A reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus reflecte-se, portanto, na reconcilia\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e social, na supera\u00e7\u00e3o dos conflitos e das divis\u00f5es t\u00e3o frequentes na vida familiar e social.  Deste modo, aqueles que s\u00e3o reconciliados devem por sua vez tornar-se reconciliadores. \u00c9 um papel de grande import\u00e2ncia que hoje se pede \u00e0 Igreja: tornar-se embaixadora da reconcilia\u00e7\u00e3o numa sociedade em conflito. Vivemos, de facto, numa sociedade que experimenta dolorosamente o rompimento do tecido social: &#8220;talvez, como nunca na sua hist\u00f3ria a humanidade \u00e9 todos os dias profundamente ferida e dilacerada pela conflituosidade&#8221; (ChL 6). Assim compreendemos o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o que o sacramento confia \u00e0queles que o celebram: com Cristo reconciliar todas as coisas, construindo a paz e o entendimento numa sociedade atravessada por conflitos e divis\u00f5es. Situado neste contexto de convers\u00e3o permanente, o sacramento da Penit\u00eancia e Reconcilia\u00e7\u00e3o deixar\u00e1 de ser uma celebra\u00e7\u00e3o reduzida ao \u00edntimo e desligada da vida, para se tornar caminho de reconstru\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia crist\u00e3, numa maior fidelidade ao projecto de Jesus Cristo.  Enriquecer o contexto lit\u00fargico e pastoral do Sacramento  11. Alguns elementos celebrativos e pastorais do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o precisam de ser valorizados em ordem a criar um contexto lit\u00fargico e eclesial para a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento.  O encontro pessoal entre o penitente e o confessor \u00e9 um desses elementos a que se deve prestar aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 atrav\u00e9s do acolhimento, do di\u00e1logo, da exorta\u00e7\u00e3o, dos gestos e da absolvi\u00e7\u00e3o do confessor que o encontro com Jesus Cristo adquire forma vis\u00edvel e aud\u00edvel. Para favorecer este encontro \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer em cada comunidade horas e dias determinados para a celebra\u00e7\u00e3o da Penit\u00eancia.  Considerem os sacerdotes a celebra\u00e7\u00e3o deste sacramento como momento importante do seu minist\u00e9rio pastoral. Ao esperar e acolher os penitentes revestem a imagem do Pai do pr\u00f3digo que acolhe com bondade e miseric\u00f3rdia e reconcilia com Deus e com a Igreja.  Como v\u00e1rias vezes foi lembrado nesta Instru\u00e7\u00e3o Pastoral, a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 o cume de um processo de evangeliza\u00e7\u00e3o e de convers\u00e3o. Assim n\u00e3o basta estabelecer horas e dias para as confiss\u00f5es. \u00c9 igualmente necess\u00e1rio formar a consci\u00eancia dos fi\u00e9is, despertar o sentido do pecado e orientar na convers\u00e3o crist\u00e3. Procurem, portanto, os pastores oferecer uma catequese s\u00e9ria sobre a moral crist\u00e3 bem como sobre a Penit\u00eancia e a Eucaristia. A quadra lit\u00fargica da Quaresma, mais indicada para a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento, deve tamb\u00e9m ser valorizada como tempo de aprofundamento da f\u00e9.  Em ordem a desenvolver o sentido da convers\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel proporcionar aos fi\u00e9is celebra\u00e7\u00f5es penitenciais n\u00e3o sacramentais em que, atrav\u00e9s da escuta da Palavra de Deus, da ora\u00e7\u00e3o e dos ritos, possam alcan\u00e7ar uma vis\u00e3o mais profunda do caminho de Jesus Cristo e tomar consci\u00eancia das infidelidades ao projecto da Alian\u00e7a com Deus.  Formas de celebrar o Sacramento  12. Durante s\u00e9culos a \u00fanica forma de celebrar o sacramento era a confiss\u00e3o e a absolvi\u00e7\u00e3o individual. Actualmente, seguindo as orienta\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II, o Ritual da Penit\u00eancia apresenta, al\u00e9m desta, outras duas formas. Cada uma real\u00e7a alguns aspectos do sacramento e permite adaptar a sua celebra\u00e7\u00e3o a circunst\u00e2ncias pastorais concretas.  A primeira forma \u2013 a confiss\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 penitente \u2013 continua a ser a normal e valoriza aspectos importantes: o di\u00e1logo, a orienta\u00e7\u00e3o de acordo com a situa\u00e7\u00e3o, a decis\u00e3o e o empenhamento pessoais (cf. RP 32). O di\u00e1logo pessoal com o confessor permite, de facto, prestar aten\u00e7\u00e3o e ajuda mais personalizada.  A segunda forma realiza-se numa celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria mas a confiss\u00e3o e a absolvi\u00e7\u00e3o s\u00e3o individuais. Tem maior abund\u00e2ncia da Palavra de Deus atrav\u00e9s de leituras b\u00edblicas e da homilia que podem aprofundar o conhecimento do projecto de Deus e a consci\u00eancia de pecado. Por outro lado &#8220;evidencia melhor o car\u00e1cter eclesial de convers\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221; (RP 32). Ser\u00e1 certamente enriquecedor para os fi\u00e9is oferecer-lhes esta forma de celebra\u00e7\u00e3o nos tempos lit\u00fargicos fortes garantindo a presen\u00e7a de confessores suficientes.  A terceira forma \u2013 a reconcilia\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria com absolvi\u00e7\u00e3o geral \u2013 n\u00e3o pode ser adoptada sen\u00e3o &#8220;em caso de grave necessidade&#8221; regulado pelo C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico (c\u00e2nones 961-963), como j\u00e1 foi referido atr\u00e1s. Quando se derem estas circunst\u00e2ncias deve cuidar-se que a celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria conduza \u00e0 descoberta das infidelidades pessoais e desperte a vontade de convers\u00e3o, procurando assim que o recurso \u00e0 terceira forma d\u00ea os frutos espirituais que se esperam do sacramento.  Os crit\u00e9rios para estabelecer a qual das formas de celebra\u00e7\u00e3o recorrer n\u00e3o poder\u00e3o ser ditados por motivos subjectivos ou conjunturais mas pelo desejo de conseguir o verdadeiro bem espiritual dos fi\u00e9is.  13. Como o C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico (can. 961, \u00a72) d\u00e1 ao Bispo Diocesano a compet\u00eancia para avaliar da &#8220;necessidade grave&#8221; que justifique a absolvi\u00e7\u00e3o geral sem confiss\u00e3o individual dos pecados, sujeitando o seu discernimento aos crit\u00e9rios acordados pela Confer\u00eancia Episcopal, para dar cumprimento ao previsto no referido can. 961, \u00a72, determinamos quanto segue.  1. A forma normal de obter o perd\u00e3o dos pecados graves e a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e com a Igreja \u00e9 a absolvi\u00e7\u00e3o com a confiss\u00e3o individual e \u00edntegra dos pr\u00f3prios pecados (cf. can. 960 e CP 31). Esta exig\u00eancia mant\u00e9m-se mesmo quando se d\u00e1 a absolvi\u00e7\u00e3o geral, segundo as normas do C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico.  2. A Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa julga n\u00e3o existirem nas Dioceses de Portugal situa\u00e7\u00f5es habituais previs\u00edveis em que se verifiquem os elementos referidos no C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico como originando a &#8220;necessidade grave&#8221; para a absolvi\u00e7\u00e3o geral sem confiss\u00e3o pr\u00e9via.  3. Na eventualidade de surgirem situa\u00e7\u00f5es excepcionais, o Bispo Diocesano providenciar\u00e1 para que tanto os presb\u00edteros como os fi\u00e9is procedam correctamente.  Existe uma necessidade grave quando se verificarem cumulativamente as seguintes condi\u00e7\u00f5es: falta de sacerdotes suficientes para que, dado o n\u00famero de penitentes, cada fiel possa ser ouvido dentro de tempo razo\u00e1vel e, sem culpa pr\u00f3pria, seja obrigado a permanecer, durante muito tempo, privado da gra\u00e7a sacramental e da sagrada comunh\u00e3o; n\u00e3o se considera, por\u00e9m, existir necessidade suficiente quando n\u00e3o possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande aflu\u00eancia de penitentes, como pode suceder nalguma grande festividade ou peregrina\u00e7\u00e3o (CDC, can. 961 \u00a7 1, n.\u00ba 2; CP 31).  14. Para obviar a discrep\u00e2ncias f\u00e1ceis e a interpreta\u00e7\u00f5es subjectivas, umas e outras prejudiciais e negativas em mat\u00e9ria de tal import\u00e2ncia e delicadeza, \u00e9 conveniente que se promovam nas dioceses encontros de sacerdotes para reflectirem em comum estas orienta\u00e7\u00f5es e para promover o modo de agir que exprima, favore\u00e7a e testemunhe a unidade e a comunh\u00e3o no presbit\u00e9rio.  De igual, esclare\u00e7am-se as comunidades crist\u00e3s sobre o sentido deste procedimento excepcional e a doutrina da Igreja sobre o sacramento da Penit\u00eancia e sua celebra\u00e7\u00e3o.  Conclus\u00e3o  15. A santidade \u00e9 dom de Deus oferecido a cada baptizado. \u00c9 a &#8220;medida alta da vida crist\u00e3 ordin\u00e1ria&#8221; (NMI 31) e &#8220;o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral&#8221; (NMI 30).  Os percursos da santidade s\u00e3o pessoais e adequados \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de cada um. Sendo diversos, todos convergem para a descoberta de Cristo como &#8220;mysterium pietatis, no qual Deus mostra o seu cora\u00e7\u00e3o compassivo e nos reconcilia plenamente consigo&#8221; (NMI 37). A Penit\u00eancia e o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o s\u00e3o meios privilegiados para a experi\u00eancia renovadora desse encontro.  A Quaresma, tempo lit\u00fargico de prepara\u00e7\u00e3o para a viv\u00eancia do Mist\u00e9rio Pascal, \u00e9 tempo particularmente favor\u00e1vel de convers\u00e3o. Ao inici\u00e1-la, queremos oferecer aos crist\u00e3os portugueses esta Instru\u00e7\u00e3o Pastoral, esperando que os ajude a redescobrir a Penit\u00eancia e o Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o como elementos indispens\u00e1veis para a peregrina\u00e7\u00e3o em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade, meta de toda a vida crist\u00e3.  Lisboa, 28 de Fevereiro de 2001 (Quarta-feira de Cinzas)     SIGLAS  CDC C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico, 1983. ChL JO\u00c3O PAULO II, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-Sinodal Christifideles laici, 1988.  CIC Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1997; tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, Coimbra, 1999. CP Ritual Romano \u2013 Celebra\u00e7\u00e3o da Penit\u00eancia, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o; tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, Coimbra, 1997.  LG CONC\u00cdLIO VATICANO II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica Lumen Gentium, 1964.  MFS Mensagem final da II Assembleia Especial do S\u00ednodo dos Bispos para a Europa, 22 de Outubro de 1999, n.\u00ba 5.  NMI JO\u00c3O PAULO II, Carta Apost\u00f3lica Novo millennio ineunte, 2001.  RP JO\u00c3O PAULO II, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-Sinodal Reconcilia\u00e7\u00e3o e Penit\u00eancia na miss\u00e3o actual da Igreja, 1984. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instru\u00e7\u00e3o Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[127,144,147,174,188,203,237,257,268,275,91,294,311],"class_list":["post-853","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-diocese-de-coimbra","tag-direito-canonico","tag-europa","tag-joao-paulo-ii","tag-metanoia","tag-nova-evangelizacao","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-sacramentos","tag-sinodo-dos-bispos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/853\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}