{"id":85226,"date":"2017-12-25T11:30:00","date_gmt":"2017-12-25T11:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/12\/25\/homilia-do-bispo-de-setubal-na-missa-do-dia-de-natal\/"},"modified":"2019-07-04T10:13:31","modified_gmt":"2019-07-04T09:13:31","slug":"homilia-do-bispo-de-setubal-na-missa-do-dia-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-setubal-na-missa-do-dia-de-natal\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Set\u00fabal na Missa do Dia de Natal"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright \" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/arquivo\/netimages\/noticia\/jose_ornelas.jpg\" width=\"404\" height=\"287\" \/>\u00abEstamos a celebrar uma das festas mais importantes para os crist\u00e3os que, juntamente com a P\u00e1scoa, exprime o conte\u00fado essencial da nossa f\u00e9. E o centro desta celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 que Deus se fez presente entre n\u00f3s no seu Filho Jesus, em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a\u00a0<strong>alegre not\u00edcia<\/strong>\u00a0com que come\u00e7ava a primeira leitura:\u00a0<em>\u201cComo s\u00e3o belos sobre os montes os p\u00e9s do mensageiro que anuncia a paz, que proclama a salva\u00e7\u00e3o e diz a Si\u00e3o: \u00abO teu Deus reina\u00bb\u201d.\u00a0<\/em>Esta alegre not\u00edcia n\u00e3o soa, por\u00e9m, num contexto social id\u00edlico, em que as pessoas estariam bem e celebrariam triunfos e abund\u00e2ncia. Pelo contr\u00e1rio, surgiu numa situa\u00e7\u00e3o de guerra, destrui\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 mis\u00e9ria e ao sofrimento, \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e ao des\u00e2nimo. \u00c9 nesse contexto que o profeta fala da fidelidade de Deus que n\u00e3o abandona o seu povo e que vem ao seu encontro sobretudo nas horas mais dram\u00e1ticas da sua hist\u00f3ria. Ele \u00e9 um Deus fiel e nunca deixa cair aqueles que ama, tornando poss\u00edvel a reconstru\u00e7\u00e3o da vida, da fam\u00edlia, dos relacionamentos, do pa\u00eds, da esperan\u00e7a num futuro melhor.<\/p>\n<p>Esta \u00e9\u00a0<strong>a primeira mensagem do Natal<\/strong>, tamb\u00e9m para n\u00f3s hoje. Mesmo que sintamos o peso da vida, de situa\u00e7\u00f5es periclitantes de sa\u00fade, de rela\u00e7\u00f5es conflituosas, de consequ\u00eancias dram\u00e1ticas como as dos inc\u00eandios deste ver\u00e3o ou dos dramas de guerras, injusti\u00e7as, pobreza e refugiados sem eira nem beira, que assolam a humanidade\u2026 mesmo no meio de tudo isto, a palavra do profeta vem alentar a esperan\u00e7a, fazer levantar o olhar e dizer-nos: N\u00e3o desistas, n\u00e3o te sintas s\u00f3, o teu Deus n\u00e3o est\u00e1 longe e olha-te com carinho, dando-te a certeza de que \u00e9 poss\u00edvel, com a for\u00e7a do seu Esp\u00edrito, levantar-se dos abismos da viol\u00eancia, do sofrimento e da morte. Esta palavra entrou no cora\u00e7\u00e3o de muita gente. E foram esses que realizaram os sonhos de Deus: reconstru\u00edram vidas, aplanaram dificuldades, abriram novas estradas de liberdade, de solidariedade, de futuro. A Palavra de Deus n\u00e3o faz o trabalho por n\u00f3s, mas torna-nos capazes de realiz\u00e1-lo. Sim; existem milagres, mesmo que alguns teimem em n\u00e3o os ver! E realizam-se no cora\u00e7\u00e3o dos homens e mulheres que se deixam contagiar pela Palavra poderosa e carinhosa de Deus. O Natal \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o e a proposta desses milagres.<\/p>\n<p>A segunda palavra de boas novas, prov\u00e9m hoje da Carta aos Hebreus e diz-nos que Deus n\u00e3o ficou apenas a olhar, a encorajar e a motivar as nossas lutas e sonhos, mas<strong>\u00a0veio tomar pessoalmente parte na vida da humanidade<\/strong>:\u00a0<em>\u201cMuitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Mas, nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos por seu Filho\u201d<\/em>. Essa palavra, que movia os profetas e os construtores da humanidade, tomou forma humana\u00a0<em>\u201ctornou-se carne\u201d<\/em>\u00a0e\u00a0<em>\u201cveio habitar entre n\u00f3s\u201d<\/em>. Tornou-se, segundo a palavra da profecia,\u00a0<em>\u201cEmanuel\u201d<\/em>, que quer dizer:\u00a0<em>\u201cDeus connosco\u201d<\/em>. Assumiu as nossas dores e as nossas debilidades, mas igualmente as nossas capacidades, os nossos sonhos, os nossos esfor\u00e7os de bem, de comunh\u00e3o, de justi\u00e7a, de paz. N\u00e3o deixou de ser o Filho de Deus e portador da for\u00e7a renovadora do seu Esp\u00edrito, mas tornou-se igualmente um Filho desta terra e desta humanidade, nascido de uma mulher chamada Maria, inserido na hist\u00f3ria humana, com lugar e tempo bem determinados. E, a partir da\u00ed, a hist\u00f3ria humana conheceu novos horizontes.<\/p>\n<p>A terceira palavra deste dia, centra-se naquilo de mais espec\u00edfico tem o Natal, como mem\u00f3ria atualizadora da vinda de Deus para o meio de n\u00f3s: a forma como essa vinda se processa.\u00a0<strong>O sinal da mudan\u00e7a que o anjo d\u00e1 aos pastores<\/strong>\u00a0para reconhecerem o Salvador \u00e9 pouco solene e n\u00e3o tem nada de pomposo:<em>\u00a0\u201cEncontrareis um Menino rec\u00e9m-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura\u201d<\/em>. Fala de uma fam\u00edlia humilde, de um parto em condi\u00e7\u00f5es improvisadas e sem o conforto de uma verdadeira casa, de uma manjedoura como ber\u00e7o de um beb\u00e9\u2026 enfim, de uma fam\u00edlia de deslocados que brevemente passam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de exilados ou refugiados. N\u00e3o \u00e9 propriamente a entrada triunfal de quem \u00e9 anunciado como Salvador e Filho do Senhor do universo.<\/p>\n<p>Para\u00a0<strong>quem estiver habituado a medir o sucesso pelo luxo e os cachets<\/strong>\u00a0dos espet\u00e1culos ou das campanhas publicit\u00e1rias; quem avalia o poder pela capacidade destruidora dos ex\u00e9rcitos e das manobras intimidadoras das grandes pot\u00eancias; quem coloca como lema de vida \u201ceu em primeiro lugar\u201d ou \u201ca minha na\u00e7\u00e3o em primeiro lugar\u201d, como modo de trepar sobre a dignidade e os direitos dos outros; quem acha que os m\u00fasculos e a capacidade destruidora lhe d\u00e3o o direito de desfraldar a for\u00e7a bruta ou ficar simplesmente indiferente perante o sofrimento, as aspira\u00e7\u00f5es de vida, de justi\u00e7a, de amor dos mais fr\u00e1geis; quem se acha no direito de usar dos bens que s\u00e3o de todos para as suas manias de grandeza, de destruir a natureza e o futuro; quem pensa e figura o poder de Deus \u00e0 luz desses crit\u00e9rios; \u2026 para todos esses o pres\u00e9pio \u00e9 completamente insignificante e at\u00e9 perigoso, porque \u00e9 revolucion\u00e1rio e vai certamente levar as pessoas a sonhar com um mundo diferente, de rosto humano e sustentador de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o do Natal \u00e9\u00a0<strong>sinal humano do sonho de Deus para a humanidade<\/strong>. Um sonho que Ele vem sonhar connosco. Nasce beb\u00e9, que n\u00e3o pode sequer sobreviver se n\u00e3o tiver quem cuide dele. E a\u00ed come\u00e7a a mudan\u00e7a de mentalidade. Um projeto humano, um projeto divino n\u00e3o se pode impor. Oferece-se, para ser acolhido e cuidado. Nasce na ternura que suscita o vagido de uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida, que \u00e9 apelo a que algu\u00e9m a pegue ao colo, a alimente e a fa\u00e7a crescer. \u00c9 assim o projeto de Deus \u00e9 assim que come\u00e7am os projetos humanos.<\/p>\n<p>O Cuidador do Mundo, aquele que vem libertar-nos da radical fragilidade de seres humanos, que vem abrir horizontes para al\u00e9m deste maravilhoso, mas fr\u00e1gil planeta, nasce menino fr\u00e1gil e, na debilidade do seu vagido de beb\u00e9, ensina-nos a lei fundamental do projeto de Deus:\u00a0<strong>\u00e9 preciso acolher, acarinhar e cuidar das fragilidades!<\/strong>\u00a0Porque todos somos fr\u00e1geis, \u00e9 preciso cuidar uns dos outros, \u00e9 preciso cuidar sobretudo daqueles em que mais se manifesta a fragilidade: os que precisam de outros pela sua pequenez, insufici\u00eancia pessoal, idade avan\u00e7ada ou pobreza de meios; os que, pelos seus erros e passos mal andados comprometeram o seu futuro e o dos outros; os que foram deixados \u00e0 margem do progresso e buscam desesperadamente uma terra onde possam viver com dignidade e paz; aqueles que, pela fragilidade desta terra s\u00e3o v\u00edtimas de desastres naturais ou da inc\u00faria e insensatez humana, como os que foram dramaticamente afetados pelos inc\u00eandios do ver\u00e3o passado. Sem esse cuidado, a vida n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, o futuro fica comprometido, mesmo este planeta virar\u00e1 um deserto.<\/p>\n<p>Perante tudo isso,\u00a0<strong>o Natal \u00e9 um ato de coragem de Deus<\/strong>: n\u00e3o vira a cara para o lado, n\u00e3o se fecha na sua grandeza, mas envolve-se diretamente na transforma\u00e7\u00e3o deste mundo; deixar-se crescer nas m\u00e3os fr\u00e1geis dessa humanidade que, para ser salva, tem de aprender a cuidar de si pr\u00f3pria e a deixar-se cuidar por Ele.<\/p>\n<p>Que\u00a0<strong>a contempla\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio<\/strong>, na simplicidade dos meios, mas no aconchego da ternura e da solidariedade, nos ensine verdadeiramente a rejeitar a l\u00f3gica destrutiva dos predadores e a tornar-nos mutuamente acolhedores e cuidadores das fragilidades, para que seja poss\u00edvel um mundo mais justo, mais fraterno, onde possa germinar a justi\u00e7a a fraternidade e a paz.\u00bb<\/p>\n<p>D. Jos\u00e9 Ornelas<\/p>\n<p>[Nota: A Missa da Solenidade do Natal do Senhor presidida pelo bispo de Set\u00fabal na igreja de S\u00e3o Sim\u00e3o, em Azeit\u00e3o, foi transmitida pela RTP]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[181,267,291,314],"class_list":["post-85226","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-setubal","tag-natal","tag-refugiados","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85226"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85226\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}