{"id":85087,"date":"2017-11-30T15:09:00","date_gmt":"2017-11-30T15:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/11\/30\/voluntariado-e-para-ser-levado-muito-a-serio\/"},"modified":"2019-07-10T16:05:55","modified_gmt":"2019-07-10T15:05:55","slug":"voluntariado-e-para-ser-levado-muito-a-serio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/voluntariado-e-para-ser-levado-muito-a-serio\/","title":{"rendered":"Voluntariado \u00e9 para ser levado muito a s\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><em>A frase \u00e9 de Catarina Dias que agora gere o programa de voluntariado no Gabinete de Desenvolvimento do Aluno, da Faculdade de Economia e Gest\u00e3o, da Universidade Nova de Lisboa. Antes e depois foi para o terreno em experi\u00eancias de voluntario e doa\u00e7\u00e3o aos outros em Benguela, Angola, entre 2010 e 2012. J\u00e1 este ano fez uma pausa na vida profissional e esteve dois meses em Atenas ao servi\u00e7o dos requerentes de asilo, migrantes for\u00e7ados. A servir os refugiados porque &#8220;um volunt\u00e1rio \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 atento aquilo que se passa \u00e0 sua volta&#8221;. Uma entrevista realizada no \u00e2mbito do Dia Internacional do Voluntariado que se assinala no pr\u00f3ximo dia 5 de dezembro.<\/em> <!--more--><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright \" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/arquivo\/netimages\/noticia\/catarinadias.jpg\" width=\"497\" height=\"497\" \/>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Vamos come\u00e7ar pelo seu in\u00edcio, quando percebeu a primeira vontade de fazer voluntariado. Consegue identificar?<\/em><\/p>\n<p><em>Catarina Dias (CD) \u2013 <\/em>Sou volunt\u00e1ria desde muito cedo porque comecei como animadora dos grupos de jovens do Campo Grande (Lisboa), fazia parte dos grupos desde os 14 anos, e fui animadora volunt\u00e1ria durante 10 anos. Desde ent\u00e3o sempre tive um prazer enorme em trabalhar de gra\u00e7a, digamos assim.<\/p>\n<p>Para mim ser volunt\u00e1rio n\u00e3o basta ter um cora\u00e7\u00e3o muito grande ou muito boa-vontade \u00e9 preciso forma\u00e7\u00e3o, investir compet\u00eancias, levar t\u00e3o a s\u00e9rio como se fosse um trabalho. Porque as responsabilidades e o que se pretende fazer tamb\u00e9m ser\u00e1 muito s\u00e9rio. Na minha opini\u00e3o \u00e9 preciso ser algo que se leva muito a s\u00e9rio, que se investe.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O volunt\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um voluntarista?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013<\/em> N\u00e3o. Um volunt\u00e1rio \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 atento aquilo que se passa \u00e0 sua volta, que deixasse sensibilizar, deixasse tocar por essa realidade e que se recusa a n\u00e3o fazer nada, a ser indiferente. F\u00e1-lo de gra\u00e7a, tem muitas outras recompensas mas n\u00e3o tem a recompensa monet\u00e1ria.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Um trabalho gratuito, como referiu, que coloca no centro a pessoa?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, tamb\u00e9m h\u00e1 pessoas que fazem voluntariado na \u00e1rea do ambiente e dos animais\u2026<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ou em tarefas burocr\u00e1ticas\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Exatamente.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas no seu caso especifico tinha de ser com pessoas?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Eu gosto de estar no meio das pessoas, com as pessoas e trabalhar para as pessoas que apresentam alguma vulnerabilidade ou vivem uma situa\u00e7\u00e3o muito complicada e muito dif\u00edcil da sua vida e onde acho que faz sentido que possa ser \u00fatil. Onde me sinta mais \u00fatil tamb\u00e9m. O meu voluntariado tem sido todo com pessoas. Sou assistente social.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sempre com esta componente crist\u00e3?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, eu venho de uma fam\u00edlia que \u00e9 metade agn\u00f3stica e metade ateia\u2026<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que \u00e9 um grande desafio?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, digo sempre que a minha fam\u00edlia \u00e9 das que mais me ajudam a ser crist\u00e3s e cat\u00f3lica. Como s\u00e3o pessoas, os meus irm\u00e3os e os meus pais, n\u00e3o ligam muito a estas coisas, t\u00eam uma ideia um bocadinho dura da Igreja Cat\u00f3lica e j\u00e1 que me assumo como Crist\u00e3 Cat\u00f3lica, que seja coerente.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tem de estar muito certa das raz\u00f5es da sua f\u00e9.<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Praticar, acima de tudo. Para eles n\u00e3o basta s\u00f3 a pessoa ter um palavreado muito bonito, \u00e9 mais importante praticar do que falar muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Isso tem-na desafiado ao longo da sua vida crist\u00e3, procurar motivos para a sua f\u00e9 e a\u00e7\u00f5es concretas?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sou crist\u00e3, sou cat\u00f3lica tamb\u00e9m porque cresci na fraternidade Mission\u00e1ria Verbum Dei que me apresentou Deus e deu oportunidade de crescer na rela\u00e7\u00e3o com Deus. Sou Crist\u00e3 Cat\u00f3lica pela experi\u00eancia de viver, de me sentir acompanhada. Nunca me senti sozinha, por muito que tenha muitas rela\u00e7\u00f5es \u00e0 minha volta, por ter a experi\u00eancia que h\u00e1 algu\u00e9m que me conduz e desafia tamb\u00e9m. Por isso, com muitas ou poucas raz\u00f5es o mais importante \u00e9 a experi\u00eancia afetiva. Da f\u00e9 afetiva e tamb\u00e9m de ter, ao mesmo tempo, na minha vida, sentido que valia a pena acreditar num Deus como o pai de Jesus.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sente que o voluntariado de cariz cat\u00f3lico \u00e9 diferente do voluntariado, por exemplo, do voluntariado no Gabinete de Desenvolvimento do Aluno onde trabalha agora na Faculdade de Economia e Gest\u00e3o, da Universidade Nova de Lisboa?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>O programa do voluntariado &#8211; primeiro n\u00e3o tem nenhuma conota\u00e7\u00e3o nem religiosa, nem pol\u00edtica. Depois tem outra caracter\u00edstica muito interessante, as pessoas quando se candidatam \u00e9 voluntariamente, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma obrigatoriedade e cada um vai com a sua motiva\u00e7\u00e3o pessoal, que n\u00e3o \u00e9 melhor, nem pior do que outras. Isso \u00e9 importante. Nunca sabemos como experi\u00eancia o que \u00e9 que marca a pessoa e por muito que \u00e0s vezes os alunos procurem o programa que \u00e9 bonito ter no CV que se fez voluntariado e, agora, as empresas supostamente valorizam imenso, a verdade \u00e9 que se disponibilizam. Nunca se sabe o que da experi\u00eancia fica e o que vai marcar aquele aluno ou aluna, e nunca se sabe se mais tarde d\u00e1 uma volta na vida, se abre a outras realidades e orienta a sua carreira profissional n\u00e3o para o topo dos topos, mas para colocar-se ao servi\u00e7o dos outros atrav\u00e9s de gest\u00e3o, de economia&#8230;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E mais sens\u00edvel \u00e0 necessidade dos outros?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, por isso n\u00e3o h\u00e1 umas motiva\u00e7\u00f5es mais certas ou erradas. Cada um tem a sua e o que sinto, se olhar para a minha vida, faz toda a diferen\u00e7a fazer voluntariado tendo uma componente espiritual e cat\u00f3lica e crist\u00e3. Nas situa\u00e7\u00f5es em que estive, faz toda a diferen\u00e7a sentir-me enviada n\u00e3o s\u00f3 por uma organiza\u00e7\u00e3o, mas por outro, por Deus. Nas horas dif\u00edceis a quem a pessoa se agarra \u00e9 \u00e0 f\u00e9. Nunca fui sozinha, mas a verdade \u00e9 que faz toda a diferen\u00e7a na forma de olhar os outros, ter tido clareza para perceber qual era o meu papel nestas situa\u00e7\u00f5es. Haver um outro que envia, n\u00e3o vou s\u00f3 por mim e pelas minhas for\u00e7as e pelo que acho interessante. H\u00e1 uma companhia que \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estava a trabalhar quando se despediu para partir em miss\u00e3o com os Leigos para o Desenvolvimento, uma organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o-governamental para o desenvolvimento. O que a motivou a mudar de vida?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Quando estava a fazer a forma\u00e7\u00e3o com os Leigos, de sensivelmente 9 meses, e estava a trabalhar na Miseric\u00f3rdia de Lisboa, pedi uma licen\u00e7a sem vencimento e percebi que n\u00e3o iam dar, e confirmou-se. Foi em 2009\/10 era uma altura de crise e a pol\u00edtica era essa mas, na altura, na fiquei muito chateada, como queria tanto ir. E ter a confirma\u00e7\u00e3o que os Leigos me tinham selecionado para ir, n\u00e3o me custou de todo despedir-me. Senti que o caminho era por ali. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que arrisquei nesta miss\u00e3o porque n\u00e3o estava satisfeita com a forma de ser Assistente Social naquele s\u00edtio espec\u00edfico, n\u00e3o era a minha pele, ser assistente social era outra coisa diferente, n\u00e3o era daqueles moldes. N\u00e3o foi assim t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da forma\u00e7\u00e3o em Portugal \u00e0 miss\u00e3o no terreno em Angola<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Esteve durante dois anos como volunt\u00e1ria em Benguela com os Leigos para o Desenvolvimento. A forma\u00e7\u00e3o de nove meses \u00e9 fundamental para que o volunt\u00e1rio possa partir mais consciente do que vai encontrar e da transforma\u00e7\u00e3o que vai sentir?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 longa, mas \u00e9 um caminho para que cada um possa discernir se a miss\u00e3o \u00e9 para si, qual \u00e9 a sua motiva\u00e7\u00e3o, se \u00e9 para \u00c1frica que querem ir, se \u00e9 com a organiza\u00e7\u00e3o que querem estar, porque tem uma forma de estar muito pr\u00f3pria, como qualquer uma, e se de facto Deus o chama a ir por ali. A miss\u00e3o pode n\u00e3o ser fora de casa, fora do pa\u00eds. Este tempo \u00e9 fundamental para as pessoas perceberem isso. Tamb\u00e9m \u00e9 muito rico em que as pessoas se conhecem a si pr\u00f3prios. Alguns t\u00eam mais experi\u00eancia outros menos mas todos abrem-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com Deus e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 Deus e alimentar esta rela\u00e7\u00e3o. Os volunt\u00e1rios ganham muitas ferramentas a n\u00edvel do discernimento espiritual, comunit\u00e1rio, da tomada de decis\u00f5es. Aprofundam uma parte de rela\u00e7\u00e3o com os outros, conhecem-se a si e aos outros, e de constru\u00e7\u00e3o da comunidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma parte final que s\u00e3o os projetos dos Leigos &#8211; organiza\u00e7\u00e3o, princ\u00edpios, valores \u2013 e depois h\u00e1 uma outra dos projetos, o que \u00e9 que fazem exatamente. O mais importante n\u00e3o \u00e9 que a pessoa tenha aprendido muitas t\u00e9cnicas ou que saibam gerir projetos ou coordenar. O mais importante \u00e9 que consiga discernir concretamente se \u00e9 com esta organiza\u00e7\u00e3o e se a sua miss\u00e3o \u00e9 por aqui que quer fazer esta miss\u00e3o que \u00e9 um ano em \u00c1frica no meio das pessoas, com as pessoas, a trabalhar para as pessoas e com elas e em comunidade. Um ano a viver com pessoas que n\u00e3o s\u00e3o da nossa fam\u00edlia\u2026 S\u00f3 no fim \u00e9 que se sabe com quem vamos e muitas vezes nem partilhamos o caminho ao longo do ano, porque existem tr\u00eas n\u00facleos dos Leigos a n\u00edvel nacional. \u00c9 preciso muito prepara\u00e7\u00e3o e disponibilidade. N\u00e3o s\u00f3 para perceber os caminhos internos mas tamb\u00e9m para abrir-me, acolher, aceitar o outro como \u00e9 e aprender a vivermos bem nas nossas diferen\u00e7as e naquilo que nos une.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Em 2010 sentiu que era o momento de partir em miss\u00e3o. Inicialmente ia por um ano e decidiu ficar dois\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013<\/em> Estava dispon\u00edvel e na altura sentia que fazia todo o sentido, sentia-me chamada a fazer e viver isto. Era um salto completamente no escuro. Mas como n\u00e3o saltava sozinha, fazia sentido faz\u00ea-lo e arriscar. N\u00e3o fui com tempo limitado e fiquei dois anos, porque no primeiro ano os volunt\u00e1rios no terreno tamb\u00e9m fazem um discernimento se \u00e9 para continuar ou n\u00e3o. Tamb\u00e9m fazemos exerc\u00edcios espirituais para decidir se \u00e9 para continuar, se faz sentido continuar e porqu\u00ea. Na altura percebi que Deus me chamava a continuar e que a miss\u00e3o em Benguela n\u00e3o estava terminada.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que fez em Benguela?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Os Leigos est\u00e3o no Bairro da Gra\u00e7a, que \u00e9 um dos bairros perif\u00e9ricos da cidade de Benguela. Cada volunt\u00e1rio tem um projeto que se entrecruzam e o meu era coordenar um centro juvenil que tem v\u00e1rias val\u00eancias \u2013 biblioteca de leitura e de estudo, forma\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica, forma\u00e7\u00e3o em Ingl\u00eas. Tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o em que outros grupos do bairro re\u00fanem, por exemplo, grupo comunit\u00e1rio que era o projeto de outro companheiro de miss\u00e3o. Algumas aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o aconteciam em algumas salas do centro, tamb\u00e9m era um espa\u00e7o onde um grupo de mobiliza\u00e7\u00e3o juvenil em que convidam v\u00e1rios grupos do bairro para fazer atua\u00e7\u00f5es, teatro, poesia, dan\u00e7a. T\u00ednhamos uma atividade de cinema e, no fundo, tinha de capacitar a equipa a continuar como sempre sozinhos, sem a presen\u00e7a dos Leigos. O objetivo dos projetos dos Leigos \u00e9, no fundo, a capacita\u00e7\u00e3o de pessoas, a partir do que dizem que para eles \u00e9 importante. Por isso, faz-se um diagn\u00f3stico antes.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Nunca impor mas propor a partir da realidade que encontram?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>\u00c9 propor a partir do que as pessoas nos dizem e, nomeadamente, dos grupos comunit\u00e1rios. Uma das apostas dos Leigos \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de grupos comunit\u00e1rios, pessoas de diferentes \u00e1reas que vivem no bairro, seja das v\u00e1rias Igrejas, diretores de escolas. Grupos de mam\u00e3s que vendem naa pra\u00e7as, quem t\u00eam neg\u00f3cio no bairro. Ou seja, \u00e9 juntar os l\u00edderes e as for\u00e7as de influ\u00eancia no bairro conversar com eles sobre o que acham que \u00e9 importante, quais s\u00e3o as prioridades porque, infelizmente, os bairros em Angola t\u00eam muitas necessidades. Como qualquer bairro social, mas ali s\u00e3o todas urgentes, priorit\u00e1rias. \u00c9 preciso criar este esp\u00edrito nas pessoas, dizerem o que querem, quais s\u00e3o as suas prioridades e que \u00e9 poss\u00edvel fazer qualquer coisa com os recursos que t\u00eam.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ao mesmo tempo j\u00e1 se est\u00e1 a capacitar as pessoas? D\u00e1-lhes essa confian\u00e7a que elas s\u00e3o capazes.<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Exatamente, no fundo t\u00eam a experi\u00eancia que algu\u00e9m as ouve, \u00e9 muito importante, que se interessa pelo que dizem e que digam que \u00e9 verdadeiramente importante e n\u00e3o o que acham que os estrangeiros das organiza\u00e7\u00f5es querem ouvir. Acabam por ter a experi\u00eancia que \u00e9 poss\u00edvel fazer alguma coisa sem milh\u00f5es de d\u00f3lares e sem recursos megal\u00f3manos e \u00e9 poss\u00edvel transformarem o bairro, terem um papel positivo e fazer alguma coisa.<\/p>\n<p>Esta falta de valoriza\u00e7\u00e3o e de experi\u00eancia que as pessoas t\u00eam poder de transformar \u00e9 muito importante ou tem sido um dos aspetos mais marcantes da miss\u00e3o. As pessoas vivem numa realidade em que t\u00eam uma priva\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de bens materiais b\u00e1sicos mas tamb\u00e9m de sonhar, perceber que podem fazer alguma coisa, que t\u00eam recursos. N\u00e3o \u00e9 preciso ter imenso dinheiro para investir e t\u00eam de ser elas s\u00f3 agentes de mudan\u00e7a, n\u00e3o t\u00eam de ser os de fora. Muitas vezes est\u00e3o habituadas a que os de fora \u00e9 que saibam tudo e esta experi\u00eancia faz toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 H\u00e1 quem diga que o volunt\u00e1rio precisa de perceber que n\u00e3o vai mudar \u00c1frica mas \u00c1frica \u00e9 que o vai mudar. A Catarina rev\u00ea-se nesta frase?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Por um lado \u00e9 verdade que todos volunt\u00e1rios fazem estas miss\u00f5es com vontade de mudar alguma coisa porque sentem, como tamb\u00e9m senti, as injusti\u00e7as, as dificuldades. \u00c9 verdade que mexem muito por dentro. D\u00e1-se muito, mas recebe-se muito mais. Das duas partes h\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o, eu sinto que da minha \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p><em>AE \u2013Essa consci\u00eancia de uma mudan\u00e7a, naturalmente, acontece?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Tive maior consci\u00eancia da minha transforma\u00e7\u00e3o quando cheguei. O regresso tamb\u00e9m leva tempo. Vim com 32 anos: pensei vivi 30 anos em Portugal, n\u00e3o estou a voltar para uma coisa estranha. \u00c9 preciso um reajuste porque \u00e9 muito diferente viver com eletricidade ou \u00e1gua permanente. No s\u00edtio onde vivemos, que \u00e9 muito bom, \u00e9 uma casa que a Diocese de Benguela disponibiliza, \u00e9 uma casa senhorial, de dois andares, s\u00f3lida, muito boa para o contexto. Vivemos de uma forma muito simples, despojada e desprendida.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No regresso h\u00e1 um embate com a realidade que j\u00e1 n\u00e3o estava habituada?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Quando cheguei lembro-me que n\u00e3o era autom\u00e1tico tirar \u00e1gua da torneira, vivi dois anos a ferver \u00e1gua porque n\u00e3o era suficientemente tratada para beber \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2017: Voluntariado em Atenas, na Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 em Portugal que perspetiva voltar a sair como fez rumo \u00e0 Gr\u00e9cia?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Voltei em 2012 e estive dois meses em Atenas com a Plataforma de Apoio aos Refugiados este ano, de julho a setembro. Por um lado, candidatei-me a este voluntariado porque me toca muito a realidade dos requerentes de asilo, das migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, dos refugiados. O volunt\u00e1rio, como dizia, n\u00e3o consegue ser indiferente e tem experi\u00eancia que fazer alguma coisa \u00e9 importante por muito que \u00e0s vezes possa ser pequena, pode ser s\u00f3 divulgar a realidade e not\u00edcias verdadeiras. Pode alertar outras pessoas para a consci\u00eancia do que se passa. E isso \u00e9 muito importante, \u00e0s vezes vivemos adormecidos demais. Senti necessidade de fazer alguma coisa e de sair em miss\u00e3o, deslocar-me, e estar na realidade que as pessoas vivem. Antes juntei-me ao Graal em Portugal (movimento internacional de mulheres) e organizamo-nos para receber uma fam\u00edlia do Iraque, senti o desejo e a intui\u00e7\u00e3o que podia ser \u00fatil na Gr\u00e9cia. Estive em Atenas com a Plataforma de Apoio aos Refugiados n\u00e3o s\u00f3 a coordenar os volunt\u00e1rios mas tamb\u00e9m no que fosse preciso. Tamb\u00e9m tive a sorte de trabalhar para um patr\u00e3o que me permitiu fazer isto, pedi uma licen\u00e7a sem vencimento porque achava que ir tr\u00eas semanas, gastar as minhas f\u00e9rias n\u00e3o fazia muito sentido. Era chegar quase, n\u00e3o me aperceber de nada e vir embora. Como giro um programa de voluntariado, tamb\u00e9m fazia sentido. Foi duro, mas foi muito bom.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cinco anos entre o voluntariado em Angola e a Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013. Nestes cincos anos o que foi sentindo na sua vida, que resson\u00e2ncias teve da experi\u00eancia em Benguela?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>A mudan\u00e7a que ocorre \u00e9 imposs\u00edvel apagar e ningu\u00e9m vem igual, porque viver numa realidade que n\u00e3o se pode comprar ganha a consci\u00eancia clara que quando se muda de continente muda-se mesmo de continente. Quando se vive numa situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, muitas delas, e de pobreza extrema \u00e9 imposs\u00edvel voltar e fazer uma vida igual \u00e1 que se tinha antes.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Em que \u00e9 que sentiu isso concretamente?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Para j\u00e1 \u00e9 impens\u00e1vel ter uma carreira profissional e esquecer que sou volunt\u00e1ria. \u00c9 impens\u00e1vel. Depois \u00e9 impens\u00e1vel gastar dinheiro num iPhone, por exemplo, n\u00e3o porque n\u00e3o goste, acho espetacular, mas investir tanto dinheiro num telefone custa-me\u2026<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A medida do dinheiro tem outra medida?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, tenho uma capacidade de desenrascar e viver com pouco que n\u00e3o tinha. Agora, de repente, n\u00e3o vou viver como vivi com os meus companheiros angolanos, nem pensar, porque gostava que sa\u00edssem dessas situa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma hist\u00f3ria de um volunt\u00e1rio dos Leigos \u00e9 mesmo gr\u00e1fica; ele foi em miss\u00e3o para Timor e quando chegou via que as pessoas andavam descal\u00e7as e ele come\u00e7ou a andar descal\u00e7o, mas e eles disseram \u201cN\u00e3o fa\u00e7as isso porque me ofendes. N\u00e3o ando descal\u00e7o porque quero. Ando descal\u00e7o porque n\u00e3o tenho capacidade para ter sapatos, mas quem me dera ter um par de sapatos\u201d.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 t\u00e3o gr\u00e1fico. Claro que gasto conforme o que me parece razo\u00e1vel para satisfazer as minhas necessidades b\u00e1sicas, mas custa-me muito gastar naquilo que aos meus olhos n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para satisfazer uma necessidade. N\u00e3o preciso ter um iPhone para estar ligada com as pessoas, existem muitos telem\u00f3veis no mercado.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A adequa\u00e7\u00e3o de comportamento vem de Benguela e depois quis concretizar, por uma quest\u00e3o de coer\u00eancia, em Portugal?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Sim, \u00e9 verdade, \u00e9 dar muito mais valor aquilo que para n\u00f3s faz parte do nosso dia-a-dia e \u00e9 t\u00e3o autom\u00e1tico que nem nos apercebemos. Por exemplo, valorizei a m\u00e1quina de lavar roupa como nunca na vida, era das coisas que mais sentia falta em Benguela. Ter eletricidade permanente, ter comida no frigorifico conservada. N\u00e3o ter que estar a alterar a vida toda porque \u00e9 preciso ir ao mercado e s\u00f3 se pode fazer refei\u00e7\u00f5es para aquele dia, para aquela hora, porque quando n\u00e3o se tem eletricidade n\u00e3o d\u00e1 para conservar. Dar valor \u00e0 \u00e1gua, ter na torneira e beber sem filtrar. Uma s\u00e9rie de coisas que s\u00e3o autom\u00e1ticas. Ter transportes p\u00fablicos diversos. Depois a pessoa acaba por relativizar uma s\u00e9rie de coisas, o autocarro, o metro estar atrasado cinco minutos\u2026<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando regressou de Benguela o que fez concretamente. A n\u00edvel profissional tinha alguma coordenada a seguir?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Na altura percebi que a \u00e1rea da coopera\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento podiam ser um casamento que me agradaria muito pelo servi\u00e7o social. Comecei a ser volunt\u00e1ria e depois fui contratada para um projeto, tamb\u00e9m em Angola. Continuei a ir a Angola, ainda que a base fosse em Lisboa. Ia por temporadas e estive em Benguela e no Luena (Moxico) e trabalhei durante dois anos num projeto de forma\u00e7\u00e3o de agentes de desenvolvimento comunit\u00e1rio, tamb\u00e9m muito interessante. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ter fundos para estes projetos e n\u00e3o est\u00e1vamos \u00e0 espera de ter fundos, \u00e9ramos uma equipa pequenina e tivemos de organizar a nossa vida.<\/p>\n<p>A seguir fui para Inglaterra tentar a minha sorte e sentir que precisa de investir muito mais, estudar, e conhecer na pr\u00e1tica. No terreno participamos bastante na constru\u00e7\u00e3o e nas candidaturas que os leigos mandam para financiadores externos. Trabalhar para o Graal deu-me a consci\u00eancia do trabalho que se tem a procurar financiamento, a fazer candidaturas. A perceber que o trabalho que queremos fazer n\u00e3o \u00e9 a justificar o financiamento mas o financiamento justifica o trabalho.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Esteve dois anos ligada ao Graal. Como surge o projeto de ir dois meses para a Gr\u00e9cia, como aparece na sua vida?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>O meu despertar para as migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, para os requerentes de asilo e refugiados at\u00e9 surge em Londres. Estive 18 meses (entre 2015-2017) fazia voluntariado para ganhar experi\u00eancia na \u00e1rea das ONGD e fazia voluntariado \u00e0 noite, \u00e9 uma cidade extremamente cara. Um amigo falou-me do Servi\u00e7os Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS) em Londres. Achei interessante e candidatei-me porque queria continuar a fazer voluntariado e fui conhecer. Eles acharam muito interessante o facto de ter sido assistente social porque o meu papel, ainda que fosse uma vez por semana o dia inteiro, era fazer as entrevistas iniciais a quem recorria \u00e0 JRS e tamb\u00e9m ter estado noutros contextos e contactos com culturas diferentes. E o facto de ter estado em Benguela com os Leigos (para o Desenvolvimento) no sentido de ter tido uma abertura muito maior.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Visualizando Atenas, visualizando o que viveu l\u00e1 durante dois meses. Que hist\u00f3ria, situa\u00e7\u00e3o mexeu mais consigo ou ao ponto de pensar ainda bem que estou aqui?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Todas as pessoas quem estive e tive o privil\u00e9gio de conhecer e tamb\u00e9m conversar e estar s\u00e3o todas hist\u00f3rias impressionantes. Ouvi uma de uma mulher paquistanesa que fugiu com uma filha porque o marido foi morto \u00e0 frente dela pela Al-Qaeda. S\u00e3o pessoas perseguidas e havia sempre este cuidado da PAR e JRS de n\u00e3o pronunciar o nome destas pessoas sem ser quando estamos com eles, quando estamos entre volunt\u00e1rios e n\u00e3o sabemos quem est\u00e1 a ouvir mesmo na Europa.<\/p>\n<p>Esta mulher impressionava-me sempre, porque vivia num pr\u00e9dio da JRS. Ela estava h\u00e1 dois anos \u00e0 espera de resposta do pedido de asilo. Tinha um alto cargo na Vodafone, estava a desenvolver o relacionamento entre Vodafone Gr\u00e9cia e Vodafone Paquist\u00e3o e vivia no abrigo, porque tinha medo de viver sozinha, \u00e9 uma pessoa com muita no\u00e7\u00e3o dos perigos e vive permanentemente em alerta. Apesar de tudo era muito alegre, simp\u00e1tica, super dispon\u00edvel, sempre bem-disposta e a filha era uma crian\u00e7a muito alegre, din\u00e2mica. Isto impressionava-me bastante. Ela por um lado estava muito agradecida por estar na Gr\u00e9cia, n\u00e3o tinha nenhum ponto, n\u00e3o era chegar \u00e0 Alemanha, ou \u00e0 Fran\u00e7a ou Noruega. J\u00e1 estava feliz por estar na Gr\u00e9cia. Sobretudo, quem era claramente perseguido se os pedidos viessem negados, e n\u00e3o eram s\u00edrios. Eles t\u00eam tr\u00eas vezes para recorrer do pedido negado, algumas das pessoas entram em desespero total. Muitas diziam \u201cprefiro morrer na Gr\u00e9cia, mato-me a mim e aos meus filhos, do que voltar\u201d. \u00c9 a pessoa tomar consci\u00eancia em que realidade as pessoas viviam e s\u00f3 o fantasma de terem de voltar preferem morrer num s\u00edtio estrangeiro. Voltar \u00e9 que n\u00e3o, \u00e9 ter consci\u00eancia do que viviam a partir da consci\u00eancia da vida das pessoas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ganhar confian\u00e7a. \u00c9 verdade que vimos de culturas muito diferentes e a troca cultural, a partilha cultural \u00e9 extraordin\u00e1ria. \u00c9 ver que se calhar n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes e h\u00e1 muitos pontos em comum e que humanidade pode viver muito bem uma com a outra vindo de culturas e religi\u00f5es diferentes. A maior parte das pessoas com quem estive era mu\u00e7ulmanas e muito abertas, muito pac\u00edficas. Havia o cuidado de n\u00e3o tentar catequisar ou evangelizar, de ambas as partes. Quando chegamos somos \u201cbriefados\u201d pela JRS para percebermos onde estamos e com \u00e9 que estamos, que cuidados devemos ter. E tamb\u00e9m perceber o nosso papel enquanto volunt\u00e1rios no abrigo e na vida do dia a dia. Ouve-se muita coisa que \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Papa coloca a t\u00f3nica central da mensagem para o Dia Mundial da Paz 2018 nos refugiados: \u00abMigrantes e Refugiados &#8211; Homens e mulheres em busca da paz\u00bb. Esteve no terreno, consegue perceber que se proponha mais uma vez olhar para este drama dos refugiados?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Penso que faz todo o sentido. \u00c9 verdade que h\u00e1 muitos mitos \u00e0 volta dos refugiados e migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada na Europa que \u00e9 muito importante desmistificar porque os requerentes de asilo que est\u00e3o a entrar na Europa s\u00e3o uma por\u00e7\u00e3o m\u00ednima dos que est\u00e3o a fugir opara a Jord\u00e2nia, para o L\u00edbano. Metade da popula\u00e7\u00e3o libanesa s\u00e3o refugiados e n\u00e3o um pa\u00eds assim t\u00e3o pequenino, \u00e9 um territ\u00f3rio consider\u00e1vel e vivem em condi\u00e7\u00f5es muito pior do que as nossas. O Papa ligar a quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas \u00e0 paz \u00e9 muito importante n\u00e3o s\u00f3 para chamar a aten\u00e7\u00e3o aos conflitos armados na S\u00edria, naquela zona, na Palestina tamb\u00e9m e olhar para outros que s\u00e3o conflitos antiqu\u00edssimos para os quais olhamos pouco, por exemplo na Rep\u00fablica Centro-Africana existe h\u00e1 d\u00e9cadas. Na Gr\u00e9cia encontrei muitos refugiados da Rep\u00fablica Centro-Africana, Congo.<\/p>\n<p>Fazemos esfor\u00e7o por encontrar a paz na S\u00edria, No Iraque, na Palestina mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos outros conflitos que matam milhares de pessoas, fazem outros milhares emigrar e fugirem e para os quais temos pouca aten\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a paz n\u00e3o se constr\u00f3i s\u00f3 por decis\u00f5es governativas. Podemos fazer alguma coisa, pressionar os governos, e \u00e0s vezes as pessoas acham que ir para a rua n\u00e3o vale de nada mas n\u00e3o \u00e9 verdade. \u00c9 verdade que\u00a0 no meio do posicionamento europeu em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados, os \u00fanicos que salvam a dama \u00e9 a sociedade civil. Os governos europeus tirando o portugu\u00eas, o sueco e o espanhol fazem asneirada atr\u00e1s de asneirada porque t\u00eam medo. T\u00eam uma atitude muito protecionista. A Gr\u00e9cia que resolva o problema sozinha. A \u00fanica parte que faz alguma s\u00e3o as Igrejas e a sociedade civil. O papel do cidad\u00e3o \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os, os cat\u00f3licos n\u00e3o podemos deixar de nos preocuparmos com o nosso irm\u00e3o, seja de que religi\u00e3o for, venha de que pa\u00eds vier: precisa de ser ouvido, protegido, que as pessoas acreditem nele, que nos importemos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Um crist\u00e3o quando entende o nascimento de Jesus Cristo a mudan\u00e7a tem de acontecer naturalmente. A Catarina quando se encontra fisicamente, humanamente, com realidades t\u00e3o diferentes como Benguela, Atenas n\u00e3o consegue ficar indiferente. \u00c9 uma esp\u00e9cie de Advento, de nascimento, \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o radical da pessoa humana que n\u00e3o se pode ser indiferente a isso?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013 <\/em>Ser indiferente a isso seria n\u00e3o ser eu pr\u00f3pria. \u00c9 abrir-me \u00e0 novidade que para n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novo, o Natal ou o Advento, todos os anos acontece mas pode ser vivido como novidade. \u00c9 conhecer um Deus em realidades que n\u00e3o se encontraria de caras, no meio do encontro de religi\u00f5es, de pessoas que com resili\u00eancia e esperan\u00e7a arriscam a vida porque d\u00e3o valor \u00e0 sua vida, dos seus filhos e da sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os gregos sofrem imenso com a crise econ\u00f3mica, nunca pensei que a pobreza, a mis\u00e9ria humana tamb\u00e9m se v\u00ea num pa\u00eds europeu que est\u00e1 numa crise brutal \u00e9 dif\u00edcil sair e apesar de tudo s\u00e3o os \u00fanicos que se abrem a acolher o muito mais desgra\u00e7ados do que eles. Podiam fechar fronteiras mas abriram-nas, e os italianos tamb\u00e9m, mas \u00e9 engra\u00e7ado que s\u00e3o muito sens\u00edveis \u00e0s pessoas que v\u00eam. Ao mesmo tempo, s\u00e3o pessoas com um ar que parece que n\u00e3o querem saber, mas os gregos com quem falei havia sempre algu\u00e9m que tinha um irm\u00e3o nas ilhas a defender os refugiados, ou que trabalhava e que tinha recebido imensos refugiados.<\/p>\n<p>Mesmo em condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais optaram por abrir-se. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que como, a op\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia era dar dinheiro, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma do governo grego ter dinheiro e usar como quiser. Mas a verdade \u00e9 que abrem as portas e organizar estas pessoas dentro do seu territ\u00f3rio. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o complicada e clara de abertura.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 nessas circunst\u00e2ncias que encontra o melhor de si?<\/em><\/p>\n<p><em>CD \u2013<\/em> Tudo o que me desafia mais, que n\u00e3o \u00e9 control\u00e1vel, \u00e9 um salto no escuro de confian\u00e7a e de f\u00e9, \u00e9 onde me conhe\u00e7o melhor. Tanto melhor de mim como, \u00e0s vezes, o que n\u00e3o me agrada tanto. Acho que sim, \u00e9 onde salta o melhor de mim e s\u00e3o experi\u00eancias que ajudam a abrir a cabe\u00e7a, o cora\u00e7\u00e3o, aprender a perder para ganhar mais tarde. E ter o privil\u00e9gio de conhecer pessoas que n\u00e3o conheceria, se n\u00e3o tivesse o desejo de ser \u00fatil e p\u00f4r os talentos a render.<\/p>\n<p><em><span style=\"text-align: -webkit-right;\">L\u00edgia Silveira<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frase \u00e9 de Catarina Dias que agora gere o programa de voluntariado no Gabinete de Desenvolvimento do Aluno, da Faculdade de Economia e Gest\u00e3o, da Universidade Nova de Lisboa. Antes e depois foi para o terreno em experi\u00eancias de voluntario e doa\u00e7\u00e3o aos outros em Benguela, Angola, entre 2010 e 2012. 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