{"id":85053,"date":"2017-11-10T11:44:00","date_gmt":"2017-11-10T11:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/11\/10\/uma-aventura-no-bairro-6-de-maio\/"},"modified":"2019-09-04T16:15:23","modified_gmt":"2019-09-04T15:15:23","slug":"uma-aventura-no-bairro-6-de-maio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-aventura-no-bairro-6-de-maio\/","title":{"rendered":"Uma aventura no Bairro 6 de Maio"},"content":{"rendered":"<p><em>A hist\u00f3ria de Tom\u00e1s Cortes no Bairro 6 de Maio come\u00e7ou em 2014, pouco depois do in\u00edcio do semestre p\u00f3s-Ver\u00e3o, quando pela primeira vez ouviu falar do projeto &#8216;Maria Ajuda Seis de Maio&#8217;. Uma aventura que marcou a sua vida e o tornou, para sempre, vizinho da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria Santa Cruz\/Damaia.<\/em> <!--more--><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright \" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/arquivo\/netimages\/noticia\/tomas_cortes.jpg\" width=\"400\" height=\"284\" \/>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Sei que esteve no Bairro 6 de Maio, em Lisboa, a fazer uma experi\u00eancia de voluntariado. Como surgiu essa ideia?<\/em><\/p>\n<p><em>Tom\u00e1s Cortes (TC) \u2013 <\/em>A experi\u00eancia surgiu porque estou inserido no movimento Schoenstatt. Este projeto n\u00e3o nasce de mim, mas de outros jovens onde estava inclu\u00eddo. Depois de ouvir testemunhos de amigos interessei-me\u2026 Com as hist\u00f3rias e experi\u00eancias deles, cresceu, em mim, vontade de abra\u00e7ar o projeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como se chamava esse projeto?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Tinha o nome de \u00abMaria ajuda\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Um nome sugestivo. De que forma concretizavam esse projeto e \u00abMaria\u00bb foi ajudando o Bairro 6 de Maio?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Uma caracter\u00edstica do nosso movimento \u2013 e tamb\u00e9m de Maria &#8211; \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de ambientes familiares e onde as pessoas se sintam bem e acolhidas. A imagem feminina de Nossa Senhora \u00e9 exemplar. A nossa ideia tamb\u00e9m n\u00e3o passava por grandes projetos e ambi\u00e7\u00f5es. Apost\u00e1mos numa cultura de proximidade e de acolhimento. Acima de tudo quer\u00edamos dar tempo \u00e0s pessoas e faz\u00ea-las sentir bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Uma aten\u00e7\u00e3o permanente ao outro\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Aten\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o do outro. No fundo, era a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para que o outro se sinta bem e se possa desenvolver. Uma das carater\u00edsticas do bairro \u00e9 ser duro, de rua, com lixo, droga e crime. Apesar destas situa\u00e7\u00f5es havia boas pessoas. O espa\u00e7o era estragado, sujo e triste. Todavia, n\u00f3s \u2013 atrav\u00e9s do acolhimento \u2013 d\u00e1vamos alegria \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No espa\u00e7o estragado era dif\u00edcil encontrar lugares para momentos bons?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o espa\u00e7o influencia e tem um papel importante nas nossas viv\u00eancias. Uma crian\u00e7a que cres\u00e7a a ver pancada e traficantes\u2026 Talvez, isso n\u00e3o seja o melhor para o seu desenvolvimento. Apesar de termos tamb\u00e9m fam\u00edlias est\u00e1veis e felizes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O projeto \u00abMaria ajuda\u00bb, no Bairro 6 de Maio, consiste, essencialmente, na presen\u00e7a de universit\u00e1rios no local.<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Existe outra carater\u00edstica que est\u00e1 de m\u00e3o dada com o acolhimento que \u00e9 a presen\u00e7a constante. \u00c0s vezes perguntavam\u2026 Porque n\u00e3o fazem \u2013 como se faz noutros s\u00edtios \u2013 e d\u00e3o explica\u00e7\u00f5es duas ou tr\u00eas vezes por semana? N\u00f3s ach\u00e1vamos que a presen\u00e7a constante e a disponibilidade para estar em todos os momentos eram fundamentais.\u00a0 A presen\u00e7a constante abra\u00e7a toda a vida da pessoa e toda a sua din\u00e2mica.<\/p>\n<p>Quer\u00edamos que a nossa presen\u00e7a fosse sentida\u2026 Assim tornar\u00edamos mais forte o nosso impacto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E a vossa vida de estudante universit\u00e1rio mantinha-se no ritmo normal?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Cada participante do projeto fala por si\u2026 No meu caso, n\u00e3o tive problema algum. S\u00f3 tive de me adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o entre a vida acad\u00e9mica e as solicita\u00e7\u00f5es em torno das universidades ou reservar tempo livre para quem necessita?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Existem pessoas que se entregam muito \u00e0s atividades da faculdade. Mas sempre gostei destas atividades e sempre estive ligado a grupo de jovens. Nunca achei que fosse incompat\u00edvel. \u00c9 uma dimens\u00e3o da minha vida\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tamb\u00e9m ajudavam as pessoas no seu quotidiano?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> T\u00ednhamos atividades planeadas e aquelas que surgiam na altura. T\u00ednhamos o ter\u00e7o semanal onde \u00edamos rezar a casa das pessoas e o apoio \u00e0 missa. Reuni\u00f5es com grupos de jovens e apoio nas explica\u00e7\u00f5es. Todavia, a chave de tudo isto eram os momentos que n\u00e3o estavam marcados. Muitas vezes deixava o estudo para uma hora depois e ia jogar futebol com eles ou brincar com a malta na rua. Atrav\u00e9s destes momentos, os la\u00e7os eram fortalecidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Havia tempo tamb\u00e9m para escutar as pessoas?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Claro. E um sinal evidente disso s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que ficam mesmo depois das pessoas sa\u00edrem do bairro. Mesmo n\u00e3o estando a viver no bairro fiquei ligado a algumas pessoas. Eu ajudei, mas as aquelas pessoas tamb\u00e9m me ajudaram a crescer atrav\u00e9s das suas experi\u00eancias. Essa partilha acontece, sobretudo nos momentos n\u00e3o planeados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Depois de um ano de experi\u00eancia no bairro, a imagem deste bairro transformou-se?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Sim. Claro. Quando fui para l\u00e1 nem fazia ideia o que era o Bairro 6 de Maio. Nem sabia que existia. Come\u00e7aram a dizer-me que era um bairro de lata e para ter cuidado. Inicialmente, assustei-me um bocadinho. Eram dimens\u00f5es que estavam presentes\u2026 N\u00e3o posso negar e dizer que aquilo era jardim no para\u00edso. Mas fiquei surpreendido com a outra dimens\u00e3o\u2026 A dimens\u00e3o de comunidade e fam\u00edlia que \u00e9 muito forte. Espantou-me ver como as pessoas, no meio daquela confus\u00e3o e dureza toda, serem exemplares. Perceber isso, foi fundamental para mudar a minha imagem do bairro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Com esta experi\u00eancia, aconteceu-lhe alguma transforma\u00e7\u00e3o interior?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Foi uma experi\u00eancia longa e rica. Acho que mudei. Fiquei com a perce\u00e7\u00e3o que \u00e9 fundamental ter tempo para os outros e tamb\u00e9m valorizar os outros. S\u00f3 assim percebemos quem s\u00e3o os outros. N\u00e3o se deve julgar logo as pessoas. Devemos eliminar essa tenta\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o conhecemos as viv\u00eancias anteriores das pessoas. Cheguei a presenciar viol\u00eancia entre mi\u00fados\u2026 E perguntava porqu\u00ea? Depois vinha a saber que o pai estava preso e a m\u00e3e lhe batia. Hist\u00f3rias familiares muito dif\u00edceis. Acho que me tornei mais humilde com estas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No meio daqueles ventos contr\u00e1rios\u2026 Ainda existem pessoas com caracter?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Verdade. No meio de tanta turbul\u00eancia via pessoas tranquilas e despostas a ouvir os outros. Naquele bairro, recebi muito das pessoas. Ajudaram-me a crescer. O ouvir alguns elogios tamb\u00e9m causa impacto em n\u00f3s. As irm\u00e3s tinham uma comunidade no bairro h\u00e1 40 anos e faziam um trabalho espetacular, mas de forma discreta.<\/p>\n<p>O trabalho das religiosas fez pensar no conceito de humildade e no perigo do orgulho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Essa via da escuta, do acolhimento e da partilha \u00e9 uma forma de lhes dar esperan\u00e7a? Atrav\u00e9s desse trabalho constr\u00f3i-se um mundo diferente?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> Acho que sim e sei que \u00e9 por a\u00ed. Essa \u00e9 a \u00fanica maneira de chegar \u00e0s pessoas e ter um di\u00e1logo com ganhos para os dois lados. Os programas dogm\u00e1ticos e materialistas n\u00e3o v\u00e3o ao encontro da pessoa. S\u00e3o ideias frias que muitas vezes n\u00e3o resultam. Acho que a via do desenvolvimento \u00e9 a via do di\u00e1logo e o amor criado entre as pessoas. A for\u00e7a para superar os problemas nasce das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Depois deste desafio\u2026 Outro est\u00e1 no horizonte.<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> \u00c9 verdade daqui a umas horas irei para Timor [A entrevista foi realizada em setembro]. Vou seis meses para o outro lado do mundo. Estou muito entusiasmado e com vontade de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que te leva a partir?<\/em><\/p>\n<p><em>TC \u2013<\/em> No bairro sabia ao que vinha\u2026 Para Timor, estou mais aberto e na perspetiva do encontro e conhecer novas realidades. A partilha \u00e9 essencial. Pretendo fomentar esta afinidade entre Portugal e Timor. Estive na \u00cdndia a estudar e conheci l\u00e1 uns seminaristas timorenses. Eles incentivaram muito\u2026 Diziam-me que os timorenses gostam muito dos portugueses. Nos emails trocados com uma religiosa de Timor, disse-lhe que pretendia ensinar portugu\u00eas, mas estou aberto para outras necessidades: grupos de jovens; catequese\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Expectativas pessoais para esta nova experi\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p><em>TC &#8211;<\/em> Talvez a dist\u00e2ncia criada entre o nosso quotidiano. Essa dist\u00e2ncia pode refletir um bocado sobre a nossa vida. \u00c9 uma forma de pensar sobre o nosso dia-a-dia e conhecer um novo mundo. Estou expectante\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em style=\"text-align: -webkit-right;\">Paulo Rocha<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Tom\u00e1s Cortes no Bairro 6 de Maio come\u00e7ou em 2014, pouco depois do in\u00edcio do semestre p\u00f3s-Ver\u00e3o, quando pela primeira vez ouviu falar do projeto &#8216;Maria Ajuda Seis de Maio&#8217;. 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