{"id":83917,"date":"2017-09-26T15:45:00","date_gmt":"2017-09-26T15:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/09\/26\/homilia-de-d-jose-ornelas-bispo-de-setubal-na-missa-exequial-de-d-manuel-martins\/"},"modified":"2017-09-26T15:45:00","modified_gmt":"2017-09-26T15:45:00","slug":"homilia-de-d-jose-ornelas-bispo-de-setubal-na-missa-exequial-de-d-manuel-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jose-ornelas-bispo-de-setubal-na-missa-exequial-de-d-manuel-martins\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jos\u00e9 Ornelas, bispo de Set\u00fabal, na Missa exequial de D. Manuel Martins"},"content":{"rendered":"<p> \tHoje reunimo-nos neste emblem&aacute;tico mosteiro de Le&ccedil;a do Balio, testemunha hist&oacute;rica da vida e das vicissitudes do nosso povo e da f&eacute; que o tem guiado ao longo dos s&eacute;culos, para restituir &agrave; terra que o viu nascer, o corpo de um homem e um bispo que conclui, no meio de n&oacute;s, um percurso de vida que marcou os &uacute;ltimos dec&eacute;nios da hist&oacute;ria recente do nosso pa&iacute;s e da Igreja que aqui tem profundas ra&iacute;zes.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Encontramo-nos aqui sobretudo representantes dos muitos mais que gostariam de se ter juntado a n&oacute;s das dioceses que mais beneficiaram da vida do Senhor D. Manuel Martins: a Diocese do Porto onde ele nasceu, se desenvolveu, formou e come&ccedil;ou o seu servi&ccedil;o &agrave; Igreja, e a Diocese de Set&uacute;bal, da qual foi o primeiro bispo e onde floresceu e deu abundante fruto o seu cuidado de pastor e o seu sonho de uma sociedade fraterna e solid&aacute;ria, especialmente atenta aos seus elementos mais fr&aacute;geis.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As leituras da Palavra de Deus que acabamos de proclamar iluminam bem o percurso de vida do homem e do Bispo D. Manuel. Ele foi algu&eacute;m que entendeu, antes de mais, que Deus &eacute; um Pastor cuidadoso do seu rebanho, como nos diz o salmo de hoje. Um Pastor que conduz os seus com sabedoria e cuidado, que est&aacute; pr&oacute;ximo e conhece individualmente cada uma das suas ovelhas, dando especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;quelas que s&atilde;o mais d&eacute;beis. Um pastor que n&atilde;o se poupa para dar confian&ccedil;a e vida &agrave;queles que re&uacute;ne e orienta, libertando-os da mis&eacute;ria, do medo e da morte.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O pr&oacute;prio D. Manuel se sentiu assim tratado, chamado e conduzido por Deus e dele aprendeu a cuidar a dedicar-se aos outros como cuidador sens&iacute;vel e misericordioso para com o seu povo. Assim se encheu de gosto e preocupa&ccedil;&atilde;o de estar perto daqueles a quem foi enviado, de defend&ecirc;-los de quantos os manipulam e exploram, de encher-se de &quot;com-paix&atilde;o&quot; pelas suas dores e feridas, perseguindo, sem descanso, o sonho de um mundo de justi&ccedil;a, de fraternidade e de paz. Entendeu que foi para isso que o Bom Pastor o chamou, como fez com Mois&eacute;s, o libertador das opress&otilde;es, com os profetas e as vozes inconformadas da humanidade e da Igreja, que denunciaram a injusti&ccedil;a e proclamaram a liberta&ccedil;&atilde;o e a dignidade em nome de Deus Criador e Pai de todos e cada um dos seus filhos e filhas sobre esta terra.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; D. Manuel entendeu muito bem a radicalidade dos crit&eacute;rios de Jesus, o Mestre que ele aprendeu a seguir, que denuncia, no Evangelho que acab&aacute;mos de escutar, uma religi&atilde;o desenraizada das dores e esperan&ccedil;as dos homens. Por isso ergueu a voz em den&uacute;ncia das atitudes, pol&iacute;ticas e economias que se esquecem dos milh&otilde;es de pessoas &ndash; sobretudo dos mais fr&aacute;geis e indefesos &ndash; que t&ecirc;m fome e n&atilde;o encontram quem os ajude na busca de comer; t&ecirc;m frios que ningu&eacute;m cobre, s&atilde;o emigrantes e refugiados e encontram muros de rejei&ccedil;&atilde;o e de preconceitos &agrave; sua frente; est&atilde;o sem trabalho e deparam com pessoas e sistemas que os exploram ou tornam imposs&iacute;vel a dignidade de poderem sustentar-se e prover &agrave;s necessidades das suas fam&iacute;lias; erram e n&atilde;o experimentam abra&ccedil;os de reconcilia&ccedil;&atilde;o e reabilita&ccedil;&atilde;o, mas apenas dedos apontados e sistemas prisionais vingativos. Por isso D. Manuel deu voz de indigna&ccedil;&atilde;o, como fez o seu Mestre, para chamar &quot;malditos&quot; e destinados ao fracasso, aqueles que exploram ou se demitem de denunciar e reverter as situa&ccedil;&otilde;es de injusti&ccedil;a e de explora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &Eacute; &agrave; luz do mesmo Mestre e Senhor que a palavra e a exist&ecirc;ncia de D. Manuel proclamam que &quot;passamos da morte &agrave; vida, porque amamos&quot;, como nos diz S&atilde;o Jo&atilde;o, na primeira leitura que escut&aacute;mos. Por isso ele se tornou um homem solidariamente criativo, para apoiar e cuidar dos que eram deixados &agrave; margem das grandes manobras econ&oacute;micas, para congregar pessoas de boa vontade e promover obras que servissem os que mais precisavam. Por isso se tornou homem de pontes e de di&aacute;logo, buscando consensos e colabora&ccedil;&otilde;es, para que, com todas as pessoas de boa vontade, possamos criar juntos um mundo mais humano e justo, onde sejamos mais cuidadores e menos predadores. Esta sua atitude deixou um estilo matricial na Diocese de Set&uacute;bal.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas, sobretudo, guiado pelo cora&ccedil;&atilde;o do Pastor que o chamou, ele tornou-se um pastor pr&oacute;ximo e cuidadoso dos seus presb&iacute;teros e di&aacute;conos, pronto a acudir aos que fraquejavam e a apoiar os que avan&ccedil;avam, guiando-os, com palavras e exemplo no servi&ccedil;o das suas comunidades. Por isso percorria as par&oacute;quias, institui&ccedil;&otilde;es e associa&ccedil;&otilde;es, promovendo encontro, conhecimento e media&ccedil;&atilde;o, para construir uma civiliza&ccedil;&atilde;o de respeito pelas diferen&ccedil;as e promotora de dignidade para todos.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E tudo isto Dom Manuel fez, pela sua absoluta convic&ccedil;&atilde;o no poder e amor de Deus revelado no Senhor Jesus, cujo chamamento escutou, a quem seguiu e imitou, como homem, como crente, como pastor e Bispo. A sua vida e, agora, a sua morte, s&atilde;o express&atilde;o de uma inabal&aacute;vel confian&ccedil;a no seu Senhor a quem se entregara, num relacionamento alimentado diariamente numa ora&ccedil;&atilde;o de comunh&atilde;o com a fonte da vida e do minist&eacute;rio que desempenhou.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando morreu, t&iacute;nhamos acabado de ler, na celebra&ccedil;&atilde;o dominical, a express&atilde;o de Paulo que dizia: &quot;para mim, viver &eacute; Cristo, e morrer um lucro&quot;. Hoje, o nosso Bispo, tamb&eacute;m parte, livre de todas as canseiras e preocupa&ccedil;&otilde;es, ao encontro do Senhor que seguiu e serviu ao longo da sua peregrina&ccedil;&atilde;o na terra. N&atilde;o deixa riquezas, a n&atilde;o ser o bem que fez a tanta gente, as dores que aliviou, as esperan&ccedil;as que criou, a f&eacute; que testemunhou, com a palavra e com a vida. Assim partiu ao encontro do seu e nosso Senhor, que um dia o chamou a segui-lo no servi&ccedil;o do seu povo e que hoje renova o seu chamamento dizendo: servo e disc&iacute;pulo fiel, segue-me tamb&eacute;m na minha morte e na minha ressurrei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na nossa Igreja de Set&uacute;bal, aqui representada por muitos dos seus fieis e pela maioria do seu clero, agradecemos a Deus, que nos enviou este homem, Dom Manuel, como primeiro Bispo, que marcou o nosso caminho de servi&ccedil;o ao Evangelho no cuidado do povo de Deus.<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agradecemos &agrave; fam&iacute;lia onde ele nasceu e cresceu bebendo, com o leite materno, os elementos fundamentais do amor, do cuidado humano e terno, da solidariedade sem c&aacute;lculos econ&oacute;micos; fam&iacute;lia que lhe proporcionou, nestes &uacute;ltimos anos, o apoio que requeria a sua idade avan&ccedil;ada. Bem hajam!<\/p>\n<p> \t&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agradecemos &agrave; Diocese do Porto, onde ele cresceu na consci&ecirc;ncia adulta da f&eacute; e do servi&ccedil;o humilde e fraterno, que cria comunh&atilde;o de irm&atilde;os e irm&atilde;s, conscientes do amor universal e personalizado do Pai do C&eacute;u; Igreja onde, no seguimento de outras vozes prof&eacute;ticas como a de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes, aprendeu a erguer-se para denunciar injusti&ccedil;as e apontar caminhos. Agradecemos a Deus e a todos pelo dom precioso, aqui nascido e que floresceu em Set&uacute;bal, deixando Igreja em Portugal uma preciosa heran&ccedil;a de humanismo, de fraternidade, de coragem e de f&eacute;. Que o seu exemplo seja semente de uma Igreja viva, fraterna, misericordiosa e mission&aacute;ria!<\/p>\n<p> \t&emsp;<\/p>\n<p> \tObrigado, caro D. Manuel,<\/p>\n<p> \tnosso Bispo, nosso irm&atilde;o e companheiro<\/p>\n<p> \tna peregrina&ccedil;&atilde;o desta terra<\/p>\n<p> \te no caminho da humanidade<\/p>\n<p> \tem dire&ccedil;&atilde;o &agrave; plenitude da vida junto do Senhor ressuscitado.<\/p>\n<p> \tBendito seja Deus que o enviou a n&oacute;s, como primeiro Bispo,<\/p>\n<p> \tcolocando uma figura t&atilde;o inspiradora<\/p>\n<p> \tnas origens da nossa Igreja de Set&uacute;bal.<\/p>\n<p> \tQue o Bom Pastor o receba nos seus bra&ccedil;os de miseric&oacute;rdia<\/p>\n<p> \te nos fa&ccedil;a cuidar e fazer crescer<\/p>\n<p> \tas sementes de Evangelho que voc&ecirc; foi lan&ccedil;ando<\/p>\n<p> \tnas terras fecundas de Set&uacute;bal,<\/p>\n<p> \tna nossa Igreja, no nosso pa&iacute;s e no mundo.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \tLe&ccedil;a do Balio, 26 de setembro de 2017<br \/> \t<em>D. Jos&eacute; Ornelas, bispo de Set&uacute;bal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje reunimo-nos neste emblem&aacute;tico mosteiro de Le&ccedil;a do Balio, testemunha hist&oacute;rica da vida e das vicissitudes do nosso povo e da f&eacute; que o tem guiado ao longo dos s&eacute;culos, para restituir &agrave; terra que o viu nascer, o corpo de um homem e um bispo que conclui, no meio de n&oacute;s, um percurso de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[181,187,191,291,314],"class_list":["post-83917","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-setubal","tag-diocese-do-porto","tag-economia","tag-refugiados","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83917\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}