{"id":8389,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-projecto-educativo-do-padre-americo-2\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-projecto-educativo-do-padre-americo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-projecto-educativo-do-padre-americo-2\/","title":{"rendered":"O projecto educativo do Padre Am\u00e9rico"},"content":{"rendered":"<p>O ambiente na educa\u00e7\u00e3o do rapaz <!--more--> \u201cAs casas s\u00e3o deles, para eles, governadas por eles, logo que atinjam dentro delas a idade do discernimento\u201d  (Padre Am\u00e9rico \u2013 P\u00e3o dos Pobres, Vol. 4, pp. 310)  Os educadores, ao longo da Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o, nos mais diversos contextos, proclamaram nos seus discursos e interven\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, ideias, realizaram ac\u00e7\u00f5es, fizeram obras e publicaram textos de orienta\u00e7\u00e3o para os educandos em forma\u00e7\u00e3o. O padre Am\u00e9rico foi um desses educadores sublimes, ou ali\u00e1s, um pedagogo intuitivo e do fazer, uma \u2018voz inc\u00f3moda\u2019 no seu tempo, em prol dos necessitados e, especialmente, dos rapazes abandonados, marginalizados e carenciados. Dedicou parte da sua vida em transformar o \u2018lixo da rua\u2019, que recolhia, em \u2018homens v\u00e1lidos para a vida\u2019, atrav\u00e9s das armas que singelamente dispunha: o amor, o ambiente adequado e o sentido de fam\u00edlia em autogoverno. Como \u00e9 \u00f3bvio n\u00e3o irei falar do livro, pois, deixarei ao Professor Antoni J. Colom e a todos os leitores essa aprecia\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise, mas gostaria de partilhar algumas ideias que neste momento me afloram ao pensamento e que, no fundo, pretendem colocar o Padre Am\u00e9rico como um dos grandes educadores portugueses do s\u00e9culo XX (como afirmou E. Planchard) e as Casas do Gaiato como institui\u00e7\u00f5es especiais que t\u00eam contribu\u00eddo e, infelizmente, continuam a contribuir para acolher, educar e formar para a vida muitos rapazes que andam ao \u2018Deus-dar\u00e1\u2019, sem norte e, aqui (Casa do Gaiato do Tojal) encontram o sentido de vida, um lar e a dignidade para se integrarem na sociedade. Esta minha decis\u00e3o de n\u00e3o falar do livro segue aquela afirma\u00e7\u00e3o do Padre Am\u00e9rico (Doutrina, Vol. 3, p. 142) \u201c N\u00e3o h\u00e1 escritor que tenha o poder de convidar \u00e0 medita\u00e7\u00e3o. Tudo quanto sai do homem, enquanto homem, \u00e9 igual \u00e0 sua natureza. Aonde vamos ent\u00e3o buscar a raz\u00e3o deste fen\u00f3meno? Temos de ir \u00e0 Obra da Rua. \u00c0s Casas do Gaiato e sobre elas observar e meditar\u201d.  Esta tamb\u00e9m \u00e9 a minha proposta que todos os educadores observem e reflictam o que v\u00eam nestas Casas e na Obra da Rua.  \u00c9 bem verdade que os que nos dedicamos, como eu, a formar futuros educadores e professores, temos o costume de recorrer aos comp\u00eandios, aos livros para neles encontrarmos o guia das nossas ac\u00e7\u00f5es, mas devemos ter em conta uma das afirma\u00e7\u00f5es do Padre Am\u00e9rico: \u201cOra n\u00f3s temos por costume fazer comp\u00eandios e ensinar por eles; e o certo \u00e9 que tanto mais se erra quanto mais nos afastamos do natural\u201d. Para o Padre Am\u00e9rico, a arte de educar os rapazes n\u00e3o estava em dizer-lhes o que deviam fazer, ou como deviam fazer, mas em lev\u00e1-los ao ponto em que eles mesmos tomassem essas decis\u00f5es, isto \u00e9, adquirissem o sentido de responsabilidade e a confian\u00e7a nas suas possibilidades. Havia que educ\u00e1-los num ambiente estimulante, em fam\u00edlia, em liberdade, no valor da descoberta de si mesmo (no que tinham de bom, acreditar nas suas potencialidades), na promo\u00e7\u00e3o individual e na necessidade de cultivarem valores adequados a serem pessoas dignas e, assim p\u00f4s em marcha o seu projecto educativo. Tal como o P.e Edward J. Flanagan sabia que n\u00e3o h\u00e1 rapazes maus. Um rapaz pode ser menos bem dotado, mas em caso algum \u00e9 mau por natureza, nem veio ao mundo s\u00f3 para ser mau (ambientalismo pedag\u00f3gico). Ao transviar-se, a culpa ser\u00e1 do mau ambiente que o envolve, da educa\u00e7\u00e3o errada e dos maus exemplos que aprendeu. O Padre Am\u00e9rico e as Casas do Gaiato d\u00e3o essa chance ao rapaz, oferecendo-lhes amor e uma orienta\u00e7\u00e3o, pois um jovem feliz \u00e9 um rapaz bom. Tal como J.J.Rousseau incutia no rapaz que fizesse o contr\u00e1rio do usual para depois observar como sempre faziam o bem, tamb\u00e9m os educadores nas Casas t\u00eam essa inten\u00e7\u00e3o educativa e pedag\u00f3gica.  Foi nesse contexto de amor pedag\u00f3gico, que ele respeitou a inf\u00e2ncia e a juventude e pedia aos educadores que n\u00e3o se apressassem em julg\u00e1-la bem ou mal \u2018Deixai a natureza agir durante muito tempo\u2026\u2019 O tempo necess\u00e1rio para serem homens dignos e v\u00e1lidos pessoal e socialmente, pois, tal como E. Kant, \u2018O homem s\u00f3 pode tornar-se homem pela educa\u00e7\u00e3o\u2019, isto \u00e9 \u2018aprendendo a fazer\u2019 (P.e Am\u00e9rico, Doutrina, 3.\u00ba Vol. p. 171-175). O ponto de partida do seu m\u00e9todo, tal como em S. Jo\u00e3o Bosco, est\u00e1 na ilimitada confian\u00e7a nos rapazes e em encontrar neles o ponto receptivo para o bem: \u201cVoc\u00eas podem fazer o que quiserem, para mim, basta que n\u00e3o fa\u00e7am o mal\u2019. \u00c9 que o amor e o ambiente em fam\u00edlia eram e s\u00e3o o melhor ingrediente desse m\u00e9todo e a forma \u00e9 a alegria interior que os rapazes manifestam no quotidiano. O projecto educativo do Padre Am\u00e9rico foi e \u00e9 uma estrat\u00e9gia de educa\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o de rapazes, caracterizando-se pela realiza\u00e7\u00e3o de um plano de trabalho, cujos objectivos s\u00e3o fazer de cada um deles um homem, capacitando-os para a vida \u2013 adapta\u00e7\u00e3o pessoal e social. S\u00e3o as actividades previamente determinadas nas Casas do Gaiato, que t\u00eam essa intencionalidade de concretizar a miss\u00e3o de educar, e os educadores de orientarem voluntariamente os procedimentos e a motiva\u00e7\u00e3o de cada \u2018gaiato\u2019. De facto, o projecto educativo do padre Am\u00e9rico foi e \u00e9 ainda o processo de abrir o caminho para um futuro melhor nos rapazes que entram nestas comunidades em fam\u00edlia.  Todos n\u00f3s nos interrogamos como \u00e9 esse projecto de transforma\u00e7\u00e3o pelo ambiente, pelo amor e pela liberdade respons\u00e1vel, de fazer de um rapaz carenciado e com grandes d\u00e9fices num homem v\u00e1lido, digno e competente. O projecto educativo de cada Casa do Gaiato, apesar de cada uma delas ter a sua cultura pr\u00f3pria de forma\u00e7\u00e3o, est\u00e1 subjacente aos ideais da Obra da Rua e plasmado em cada Casa no somat\u00f3rio de todos os projectos de vida de cada um dos rapazes que nelas vivem. A sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 o de fazer que o \u2018aprender\u2019 seja activo, que os saberes e as habilidades sejam as necess\u00e1rias para a sua inser\u00e7\u00e3o na sociedade.  Na verdade, o Padre Am\u00e9rico prop\u00f5e, depois de se aproximar, ver, observar, sentir e intervir na realidade onde se encontravam esses seres necessitados, ansiosos de afecto, de confian\u00e7a, de liberdade e de saber, um programa, princ\u00edpios educativos que integram: a inten\u00e7\u00e3o (acolhimento em fam\u00edlia), a prepara\u00e7\u00e3o (educar para a vida) e a execu\u00e7\u00e3o e a aprecia\u00e7\u00e3o das actividades que realizam (o que s\u00e3o capazes de fazer, capacita\u00e7\u00e3o do aprendido). Trata-se de um projecto com sentido de e para a vida. Estes gaiatos iniciados na realidade concreta por eles pr\u00f3prios parecem dizer-nos que a finalidade do projecto educativo \u00e9 o viver para viver, viver para conviver e viver para descobrir (\u2018deixar os rapazes aprenderem e os educadores aprenderem com eles\u2019). A pedagogia do Padre Am\u00e9rico e das Casas do Gaiato n\u00e3o \u00e9 confessional, a sua doutrina educativa tem objectivos cat\u00f3licos, da\u00ed ser uma pedagogia cat\u00f3lica (situada e activa) apoiada em factores fundamentais e fundamentantes, factores condicionantes e construtivos na mudan\u00e7a pessoal e social do rapaz. Contudo, destacamos tr\u00eas princ\u00edpios metodol\u00f3gicos b\u00e1sicos: a.)- despertar as actividades dos rapazes, utilizando como meios educativos estimulantes o ambiente envolvente, a conviv\u00eancia comunit\u00e1ria em autogoverno, o di\u00e1logo, a amizade e a afectividade. b.)- promo\u00e7\u00e3o da auto-educa\u00e7\u00e3o e da auto-realiza\u00e7\u00e3o do rapaz como pessoa, colocando ao seu dispor os recursos adequados \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o pessoal, social e profissional \u2013 aprender a aprender na e para a vida. Cada gaiato esfor\u00e7a-se e aproveita as oportunidades, mas depende dele realizar e concretizar essa educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. c.)- a disciplina nasce da liberdade, do sentido da responsabilidade, da capacidade interior de cada rapaz. O ambiente envolvente f\u00edsico-natural e comunit\u00e1rio s\u00e3o o ingrediente terap\u00eautico. Os educadores, como bons \u2018jardineiros\u2019 no sentido de Santo Tom\u00e1s de Aquino, mant\u00eam-se num segundo plano, oferecendo e facilitando os meios adequados para que cada gaiato se fa\u00e7a homem. Padre Am\u00e9rico n\u00e3o foi um sistematizador, foi um intuitivo, um pr\u00e1tico do \u2018saber fazer\u2019, um construtor na pr\u00f3pria realidade educacional, conhecendo os rapazes e propondo-lhes metas para se valerem por eles pr\u00f3prios. Finalmente, lembro, pelo menos quatro ideias pedag\u00f3gicas de orienta\u00e7\u00e3o para os educadores de hoje e, certamente, para os de amanh\u00e3, que foram legadas pelo Padre Am\u00e9rico enquadradas na sua concep\u00e7\u00e3o socio-pedag\u00f3gica: 1.- O encontro directo do educador com os alunos, o di\u00e1logo com eles (pedagogia do encontro). Os caminhos n\u00e3o existem para olhar ou descrever, mas para caminhar, para fazer algo, j\u00e1 que o importante \u00e9 o aluno (rapaz) com ele pr\u00f3prio e com os \u2018outros\u2019 (pedagogia da alteridade); 2.- Em todas as ac\u00e7\u00f5es do P.e Am\u00e9rico e no Projecto Educativo das Casas e dos Lares do Gaiato a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa de Deus. O educador s\u00f3 consegue ter \u00eaxito no abrir-se e abrir os outros para o que \u00e9 criativo, isto \u00e9, quando lhe permite experimentar a sua simpatia\/empatia, quando oferece a sua confian\u00e7a de modo que o outro sinta que se pode educar, encontrar o \u2018caminho\u2019 (o projecto de vida). Se um professor s\u00f3 se encontra com os alunos em determinadas horas para instru\u00ed-los, sem conviver com eles em outras ocasi\u00f5es, sem partilhar com eles a multiplicidade dos dias, s\u00f3 excepcionalmente conseguir\u00e1 um efeito construtivo. 3.- A liberdade no sentido de independ\u00eancia, de autonomia (as Casas e os Lares t\u00eam o regime de \u2018portas abertas\u2019), o sentido da responsabilidade (disciplina interior livremente assumida), as rela\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia (pedagogia das rela\u00e7\u00f5es) e a alegria e felicidade (sensa\u00e7\u00e3o de estar bem, de equil\u00edbrio). Nunca os educadores devem desesperar de uma crian\u00e7a\/rapaz, mesmo quando parece fazer nenhum progresso ou ser lento e custoso a sua aprendizagem. O que nos deve desesperar \u00e9 quando as crian\u00e7as ou os alunos n\u00e3o recebem nenhuma oportunidade para viverem, para se educarem, terem uma fam\u00edlia e um destina e, principalmente serem felizes.  <i>Ernesto Candeias Martins<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ambiente na educa\u00e7\u00e3o do rapaz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[154,193,206,344],"class_list":["post-8389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-crianca","tag-educacao","tag-familia","tag-padre-americo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8389\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}