{"id":8345,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/santo-agostinho-na-cultura-portuguesa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"santo-agostinho-na-cultura-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santo-agostinho-na-cultura-portuguesa\/","title":{"rendered":"Santo Agostinho na cultura portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>A incid\u00eancia de Santo Agostinho na cultura portuguesa, sendo mais do que incid\u00eancia, constitui uma presen\u00e7a multimoda, tanto por refer\u00eancia \u00e0 Igreja, como por refer\u00eancia fora do quadro eclesial. A sua participa\u00e7\u00e3o pessoal na pol\u00e9mica do presb\u00edtero bracarense Paulo Or\u00f3sio com o seu compatr\u00edcio Prisciliano, por causa da liberdade e da gra\u00e7a, da f\u00e9 e da gnose, das igrejas regionais e da catolicidade da Igreja, quase fez de Santo Agostinho um compatr\u00edcio nosso e, com efeito, o seu nome aparece sempre como actor no cen\u00e1rio da Patrologia Lusitana do s\u00e9culo V, a pretexto das iniciativas em que Paulo Or\u00f3sio o envolveu contra Or\u00edgenes e contra Prisciliano. Or\u00f3sio pagou em g\u00e9neros, vindo a ser tamb\u00e9m envolvido por Agostinho na formula\u00e7\u00e3o da doutrina da Providen-cialismo e na apologia a Igreja como o Novo Imp\u00e9rio erecto sobre as ru\u00ednas do velho Imp\u00e9rio romano, temporal. Agostinho definiu a tese providencialista, que demonstrou no De Civitate Dei mas queria uma dedu\u00e7\u00e3o factol\u00f3gica, quer dizer, uma prova de que a hist\u00f3ria caminharia no sentido da Cidade Divina. Em Or\u00f3sio achou o colaborador que assumiu o encargo, redigindo uma obra not\u00e1vel, lida nas Escolas durante a Idade M\u00e9dia (onde era conhecida por Maesta Mundi, Mol\u00e9stia do Mundo) e ainda hoje, com o seu t\u00edtulo ort\u00f3nimo &#8211; Os Sete Livros de Hist\u00f3ria contra os Pag\u00e3os, h\u00e1 pouco tempo finalmente editado em l\u00edngua portuguesa. H\u00e1 por esse mundo al\u00e9m int\u00e9rpretes que defendem a regra de que as edi\u00e7\u00f5es do Cidade de Deus conviria inclu\u00edssem, no fim, o tratado de Or\u00f3sio&#8230; Mestre do Ocidente, que tamb\u00e9m foi assumido como Mestre do Oriente, Santo Agostinho \u00e9, na nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural, Fonte e Mestre. Foi o autor patr\u00edstico mais lido e mais seguido durante a Idade M\u00e9dia e o Renas-cimento, e de tal modo respeitado que, escritos houve que por ele influenciados, mas de outros autores, lhe foram atribu\u00eddos, de onde a necessidade de a exegese liter\u00e1ria distinguir, nessa vast\u00edssima literatura \u2013 dogm\u00e1tica, eclesiol\u00f3gica, m\u00edstica, pneuma-tol\u00f3gica, antropol\u00f3gica \u2013 um augustinia-nismo simult\u00e2neo do augustinismo, distinguindo o pr\u00f3prio de Agostinho do pr\u00f3prio de escritores espirituais que o seguiram e o imitaram, tal como ainda hoje.  Quem ler com olhos de ver o Santo Agostinho segundo Teixeira de Pascoaes, h\u00e1-de observar como, na ess\u00eancia, Pascoaes recria para si mesmo, e em fun\u00e7\u00e3o da sua alma, o Confiss\u00f5es de Agostinho, que foi e continua sendo, de Agostinho, o texto mais lido, porque assume a realidade \u00edntima da natureza humana, que dobra \u00e0 humildade gritante do publicano em contraste com a soberba do farisa\u00edsmo. No que a Pascoaes se refere, digamos at\u00e9 que o seu Santo Agostinho \u00e9 duplo: o mesmo Agostinho, e Pascoaes entregue a uma aut\u00f3psia atrav\u00e9s do espelho de Agostinho. De facto, todos n\u00f3s aprendemos nele. De modo directo ou indirecto todos bebemos em Agostinho, at\u00e9 mesmo aquelas pessoas que, nunca o tendo lido, mas achando pensamentos dele avulsos, os registam em suas agendas e di\u00e1rios. Num invent\u00e1rio que tivemos o gosto de por conta e risco elaborar (Santo Agostinho na Cultura Portuguesa. Contributo Bibliogr\u00e1fico, Lisboa, 2000) regist\u00e1mos mais de novecentos t\u00edtulos, quer de edi\u00e7\u00f5es e manuscritos da obra do Hiponense, quer de estudos e de biografias e hagiografias que lhe foram dedicadas desde os alvores do portugu\u00eas medievo at\u00e9 aos nossos dias. Ele aparece nas \u00e1reas de saber mais inesperadas: na teologia mon\u00e1stica, na filosofia escol\u00e1stica, na ascese e na m\u00edstica e tamb\u00e9m, na pol\u00edtica como fonte para o que se tem designado por augustinismo pol\u00edtico, peculiar ao nosso pensamento organi-zativo do Estado, sobretudo nos s\u00e9culos XVI e XVII. Na ordem da Teologia ele veio a ser argumento, de modo especial na fami-gerada quest\u00e3o dos aux\u00edlios que op\u00f4s tomistas e n\u00e3o-tomistas, mas que foi causa para a defini\u00e7\u00e3o de uma doutrina de origem portuguesa (devida a Pedro da Fonseca e a Lu\u00eds de Molina) a da Ci\u00eancia M\u00e9dia, ou doutrina conciliadora da Presci\u00eancia, da Provid\u00eancia e da Liberdade. O que viria a achar complexos res\u00edduos no posterior Jansenismo, em que os comentadores ortodoxos ousavam demonstrar um Jans\u00e9nio vencido perante um Agostinho vitorioso.  Nem mesmo o secularizante s\u00e9culo XVIII, com o deslumbramento do Iluminis-mo, ofuscou o brilho do F\u00e9nix de \u00c1frica, lido e comentado por leigos, alguns deles sem v\u00ednculo eclesial, mas que no pensamento de Agostinho acharam bons motivos de reflex\u00e3o e, sobretudo, \u00fateis argumentos em favor da deca\u00edda condi\u00e7\u00e3o humana. Por desfavor das pol\u00edticas de instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica em alguns pa\u00edses europeus, os magist\u00e9rios de alguns doutores (Duns Escoto, Tom\u00e1s de Aquino&#8230;) foram como que interditos mas as doutrinas de Agostinho permaneceram, mesmo nas politizantes aulas de uma ex\u00f3tica Teologia Racional, ou Teodiceia. A continuidade da lectio augustiniana permitiu, nos meados do vig\u00e9simo s\u00e9culo, e na \u00f3rbita da Antropologia\/Filosofia\/Teologia, um renovamento que se tem denominado neo-augustinismo, que se iniciou no Semin\u00e1rio de Coimbra, pelo Padre Augusto Amado e se continuou na Faculdade de Letras, mediante o magist\u00e9rio de D. Manuel da Trindade Salgueiro.  Ambos formaram disc\u00edpulos e, hoje em dia, embora se assista a um segundo renovamento, esp\u00e9cie de segundo neo-augustinismo (muito patente em in\u00fameras teses universit\u00e1rias o dos meados do vig\u00e9simo s\u00e9culo permanece ainda, at\u00e9 por causa do influxo do Confiss\u00f5es no romance de pendor existencial. A voga augustiniana foi tal que ela passou a componente de um dos principais romances de Francisco Costa, onde aparece num quase debate com o idealismo Ambos formaram disc\u00edpulos e, hoje em dia, embora se assista a um segundo renovamento, esp\u00e9cie de segundo neo-augustinismo (muito patente em in\u00fameras teses universit\u00e1rias) o dos (\u00e0 Hegel) germ\u00e2nico.  No caso do pensamento filos\u00f3fico raro podemos cindir Filosofia de Teologia, predominando o ideal (utopia?) do Klimax ou escada ascensional Como se verifica no \u00f3bvio augustinismo de Leonardo Coimbra, a vera filosofia quer a teoria (vis\u00e3o), o crer espera o ver, e, por fim, os saberes s\u00f3 valem enquanto ordenados \u00e0 Sabedoria, que n\u00e3o \u00e9 um saber particular disto ou daquilo, mas dom e fruto. N\u00e3o obstante, importa sublinhar que raro o pensamento de Agostinho nos \u00e9 dado puro. Na interconex\u00e3o das doutrinas e dos magist\u00e9rios, h\u00e1 sempre uma tend\u00eancia que designamos por eclectismo espiritualista, em que Santo Agostinho, Santo Anselmo e S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino se entrosam uns nos outros, numa ascese de fundamenta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia na cren\u00e7a, ou da vis\u00e3o beat\u00edfica na f\u00e9: credo ut intelligam ou, no dito de Agostinho (Serm\u00f5es, 43, 7) entender para crer e crer para entender. O racionalismo pode instituir-se como advers\u00e1rio da Revela\u00e7\u00e3o, mas, como vimos em Agostinho, a Raz\u00e3o nunca \u00e9 advers\u00e1ria da F\u00e9. Ambas s\u00e3o, alfim, dons criacionais do mesmo Criador. E, neste aspecto, Agostinho \u00e9 muito mais nosso contempor\u00e2neo do que v\u00e1rios outros que, sendo do nosso tempo, n\u00e3o s\u00e3o nossos contempor\u00e2neos.  Pinharanda Gomes <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A incid\u00eancia de Santo Agostinho na cultura portuguesa, sendo mais do que incid\u00eancia, constitui uma presen\u00e7a multimoda, tanto por refer\u00eancia \u00e0 Igreja, como por refer\u00eancia fora do quadro eclesial. 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