{"id":8251,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-coerencia-do-testemunho-e-a-ousadia-de-proclamar-a-verdade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-coerencia-do-testemunho-e-a-ousadia-de-proclamar-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-coerencia-do-testemunho-e-a-ousadia-de-proclamar-a-verdade\/","title":{"rendered":"A coer\u00eancia do testemunho e a ousadia de proclamar a verdade"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista de D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, ao jornal \u00abVoz Portucalense\u00bb <!--more--> <i>Voz Portucalense \u2013 O Congresso Eucar\u00edstico, em Guadalajara, marca o in\u00edcio do Ano da Eucaristia, assim declarado pelo Santo Padre. Considera que este Congresso v\u00e1 trazer novidades significativas de teor lit\u00fargico-pastoral? D. Jos\u00e9 Policarpo \u2013 <\/i>O objectivo de um Congresso Eucar\u00edstico n\u00e3o \u00e9 decidir sobre aspectos concretos de car\u00e1cter lit\u00fargico-pastoral, mas contribuir para o aprofundamento da envolv\u00eancia eucar\u00edstica de toda a exist\u00eancia crist\u00e3.  <i>VP \u2013 Certamente que visita muitas Par\u00f3quias e celebra a Eucaristia com essas comunidades. Que an\u00e1lise faz de tudo o que vai vendo, desde o modo de preparar as Celebra\u00e7\u00f5es, como s\u00e3o vividas e participadas, at\u00e9 ao modo disciplinar. Como andam a estrutura\u00e7\u00e3o e a din\u00e2mica eucar\u00edsticas? D.JP \u2013 <\/i>Na maior parte das par\u00f3quias do Patriarcado nota-se influ\u00eancia da escola lit\u00fargica que o Semin\u00e1rio dos Olivais tem sido desde os tempos de Mons. Pereira dos Reis, que foi Reitor do Semin\u00e1rio. Nota-se, em geral, uma forte express\u00e3o comunit\u00e1ria na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia.  A qualidade da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica depende do conjunto da forma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 que a ac\u00e7\u00e3o pastoral proporciona. A sua qualidade decide-se muito antes, na catequese e na forma\u00e7\u00e3o em geral, do sentido geral da sacramentalidade como caminho de vida. Mas a forma\u00e7\u00e3o lit\u00fargica propriamente dita tem de ser um esfor\u00e7o cont\u00ednuo, sobretudo dos intervenientes na ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica: os sacerdotes, cuja qualidade de presid\u00eancia pode decidir da qualidade da celebra\u00e7\u00e3o; a m\u00fasica que se canta e como se canta (a m\u00fasica apresenta-se, frequentemente, n\u00e3o como forma de ora\u00e7\u00e3o, mas como factor de dispers\u00e3o); os leitores, ponto fraco das nossas celebra\u00e7\u00f5es; a harmonia e a beleza dos espa\u00e7os, das ornamenta\u00e7\u00f5es e dos ritmos.  H\u00e1 um elemento decisivo, que nem sempre \u00e9 trabalhado: o sentido da linguagem simb\u00f3lica e a densidade expressiva dos s\u00edmbolos. A moda de certos ofert\u00f3rios, em que se inventam s\u00edmbolos, \u00e9 sinal preocupante. Os s\u00edmbolos n\u00e3o significativos da densidade do mist\u00e9rio, s\u00e3o fruto da superficialidade e correm o risco de arrastar a ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica para a banalidade.  <i>VP \u2013 Quais foram os grandes resultados ou conclus\u00f5es extra\u00eddas do Encontro da CCEE, realizado h\u00e1 dias, relativamente \u00e0s posi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s face \u00e0 Europa? Como v\u00e3o cooperar entre si as diversas religi\u00f5es, igrejas e institui\u00e7\u00f5es para erradicar o fundamentalismo e o terrorismo e aprofundar o Tratado Constitucional? D.JP \u2013 <\/i>N\u00e3o estive na \u00faltima reuni\u00e3o da CCEE em Leeds, Inglaterra, mas as preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o conhecidas.  Este Tratado Constitucional tem a l\u00f3gica irrevers\u00edvel de uma Uni\u00e3o Econ\u00f3mico-Pol\u00edtica que para se manter, tem de afirmar progressivamente o peso da Uni\u00e3o sobre os Estados. Mas \u00e9 fr\u00e1gil a dimens\u00e3o cultural dessa Uni\u00e3o. Muito marcada pelo culto do indiv\u00edduo e da liberdade individual, tem a preocupa\u00e7\u00e3o de se destacar daqueles elementos que marcaram decididamente a cultura europeia.  O que permanece \u00e9 um naturalismo horizontal, uma esp\u00e9cie de laicismo n\u00e3o afirmado, que se apresenta como a \u00fanica matriz leg\u00edtima da cultura europeia. As express\u00f5es mais graves desta orienta\u00e7\u00e3o cultural, que aparecem eivadas de um \u201canti\u201d influ\u00eancia da religi\u00e3o e das Igrejas na vida da sociedade, s\u00e3o: a destrui\u00e7\u00e3o do conceito de fam\u00edlia, concebida como comunidade de amor e de vida, assente na fecundidade do amor de um homem e de uma mulher; o desrespeito do car\u00e1cter sagrado da vida humana, sobre a qual a sociedade pretende ter poder de vida ou de morte, sobretudo no seu in\u00edcio e no seu fim; o modelo de felicidade a proporcionar pelo desenvolvimento, materialista e marcado pelo consumismo.  At\u00e9 aqui as Igrejas apoiam o processo de Uni\u00e3o Europeia, porque se reconhecem nos grandes valores que a inspiraram: a constru\u00e7\u00e3o da paz e da justi\u00e7a, constru\u00edda atrav\u00e9s da solidariedade e respeito m\u00fatuo pelos povos. Mas as Igrejas sabem que v\u00e3o estar em confronto inevit\u00e1vel com aqueles sintomas que minam a dignidade das pessoas e o car\u00e1cter transcendente da vida. O caminho a seguir \u00e9 o da interven\u00e7\u00e3o sincera e coerente no pr\u00f3prio processo de \u201cmuta\u00e7\u00e3o cultural\u201d.  As Igrejas n\u00e3o t\u00eam hoje outro poder que n\u00e3o seja a coer\u00eancia do testemunho e a ousadia de proclamar a verdade. O di\u00e1logo ecum\u00e9nico \u00e9 importante para este situar-se positivo, embora cr\u00edtico, das Igrejas no processo da Uni\u00e3o Europeia. Penso que o di\u00e1logo inter-religioso \u00e9, neste momento e para esse efeito, de pouca influ\u00eancia.  Uma coisa \u00e9 certa: na medida em que outras religi\u00f5es, tais como o Islamismo, tiverem express\u00e3o significativa na Uni\u00e3o, a contesta\u00e7\u00e3o desse horizontalismo cultural ser\u00e1, certamente, mais veemente, podendo tornar-se violento. A Uni\u00e3o Europeia s\u00f3 subsistir\u00e1 se aprofundar uma nova cultura da unidade, que ter\u00e1 de enraizar na tradi\u00e7\u00e3o cultural dos pa\u00edses que a integram.  <i>VP \u2013 Pode adiantar-nos j\u00e1 em que vai consistir o novo regulamento para a ced\u00eancia dos templos para fins musicais e outros?  D.JP \u2013 <\/i>N\u00e3o h\u00e1 nenhum novo regulamento em vista. Essa \u00e9 mais uma \u201cfalsa quest\u00e3o\u201d inventada n\u00e3o sei por quem. Considero que a linha que temos seguido \u00e9 correcta, baseada nas normas feitas pela pr\u00f3pria Santa S\u00e9, e que procura conciliar desejos leg\u00edtimos: o da Igreja de salvaguardar o car\u00e1cter sagrado dos templos, n\u00e3o deixando deslizar a opini\u00e3o p\u00fablica para uma considera\u00e7\u00e3o apenas cultural do seu sentido e da sua utiliza\u00e7\u00e3o; mas tamb\u00e9m reconhecer o valor espiritual e pastoral da express\u00e3o art\u00edstica, tamb\u00e9m ela linguagem do sagrado; o respeito pela comunidade que celebra a f\u00e9 naquele templo.  Isso sup\u00f5e que cada iniciativa e cada programa precisam de ser avaliados e aprovados pela autoridade da Igreja, a \u00fanica que conta, mesmo nos templos que, por serem monumentos nacionais, s\u00e3o propriedade do Estado, mas cuja gest\u00e3o de uso \u00e9 da estrita responsabilidade da Igreja.  <i>VP \u2013 Devido \u00e0 actual crise instalada na Igreja de Lefebvre, separada de Roma por cisma, consta que v\u00e1rios dos seus padres admitem e pretendem reentrar na Igreja Cat\u00f3lica? Primeiro, de que modo faz a leitura desta crise e, segundo, acha positivo e favor\u00e1vel o eventual di\u00e1logo com a Santa S\u00e9? D.JP \u2013 <\/i>Em qualquer atitude cism\u00e1tica, o principal caminho a percorrer \u00e9 o da reconstru\u00e7\u00e3o da unidade e da comunh\u00e3o. A Igreja \u00e9 acolhedora para percorrer, com todos os que o desejarem, esse caminho da comunh\u00e3o.  As diferen\u00e7as leg\u00edtimas s\u00e3o apenas aquelas que n\u00e3o comprometem a unidade e possam caber no \u00e2mbito da grande pluralidade existente hoje na Igreja Cat\u00f3lica.  <i>VP \u2013 Soube-se, por dados apresentados, que os pedidos de declara\u00e7\u00e3o de nulidade matrimonial t\u00eam aumentado bastante o que preocupa fortemente a Igreja. O que aconselha, para al\u00e9m de uma melhor prepara\u00e7\u00e3o em vista ao matrim\u00f3nio (namoro e noivado), de modo a que altere a situa\u00e7\u00e3o? D.JP \u2013 <\/i>A leviandade na celebra\u00e7\u00e3o do matrim\u00f3nio pode, de facto, aumentar o n\u00famero de casamentos cat\u00f3licos feridos de nulidade. O pedido de an\u00e1lise e declara\u00e7\u00e3o dessa nulidade \u00e9, para os cat\u00f3licos, o \u00fanico caminho para se poder celebrar um segundo casamento can\u00f3nico.  Compete aos nossos Tribunais Eclesi\u00e1sticos analisar esses processos e \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o nossa apetrech\u00e1-los de modo a serem mais r\u00e1pidos no proferir das senten\u00e7as, mas n\u00e3o caiamos na expectativa simplista de que todos os casamentos can\u00f3nicos desfeitos podem ser declarados nulos. Isso constitui um problema pastoral dif\u00edcil, pois os crist\u00e3os que, porventura por infidelidade, ca\u00edram nessa situa\u00e7\u00e3o, continuam a ser filhos da Igreja. Na nossa \u00faltima Carta Pastoral sobre a Fam\u00edlia demos orienta\u00e7\u00f5es sobre este problema. Mas como linha fundamental permanece a necessidade de uma mais s\u00e9ria prepara\u00e7\u00e3o para o matrim\u00f3nio.  <i>VP \u2013 \u201cO C\u00f3digo da Vinci\u201d era um livro, segundo os meios faziam constar, \u00abmuito\/o mais esperado\u00bb e parece estar a ter grande procura e interesse. Para que ningu\u00e9m se sinta enganado e iludido, ajude-nos por favor a abrir horizontes perante essa obra&#8230; D.JP \u2013 <\/i>Trata-se de um romance policial. Sempre aceit\u00e1mos uma certa liberdade da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica perante o fen\u00f3meno religioso. Mas tanto n\u00e3o, pois lan\u00e7a a confus\u00e3o entre o que seria leg\u00edtima fantasia art\u00edstica e o que pretensamente se apresenta como fruto de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.  Em geral, o autor alinha numa perspectiva bem conhecida: tirar ao cristianismo toda a densidade da f\u00e9 e do mist\u00e9rio e transformar Cristo e o Evangelho num fen\u00f3meno natural, enquadr\u00e1vel nos par\u00e2metros da natureza humana. A nega\u00e7\u00e3o da divindade de Cristo, e a destrui\u00e7\u00e3o da credibilidade da Igreja no seu mist\u00e9rio, n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que s\u00e3o tentados.  Neste livro h\u00e1 de tudo: o bem urdido de um romance policial; a utiliza\u00e7\u00e3o do secretismo de certas sociedades secretas; banalidades, como referir o \u201cOpus Dei\u201d como o \u201cmau da fita\u201d ou referir a rela\u00e7\u00e3o amorosa de Cristo com Madalena, v\u00e1rias vezes ousada pela arte; inexactid\u00f5es pretensamente cient\u00edficas, como situar os 4 Evangelhos como inven\u00e7\u00e3o de Constantino ou na maneira de referir os manuscritos de \u201cQum-ran\u201d, ou a adultera\u00e7\u00e3o da lenda do Santo Graal.  O desejo, confessado desde o in\u00edcio, de fazer do livro um hino \u00e0 mulher, de valoriza\u00e7\u00e3o do \u201cfeminino\u201d na vida e na hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 conseguido, \u00e9 mesmo banalizado. Em quem n\u00e3o tiver forma\u00e7\u00e3o profunda, que lhe permita ser cr\u00edtica, sobre os assuntos abordados, o livro poder\u00e1 gerar confus\u00f5es. Mas mesmo a\u00ed tem o valor que se lhe der. O debate que ele j\u00e1 suscitou, sobretudo na sua p\u00e1tria de origem, poder\u00e1 ser positivo.  <i>VP \u2013 Que acontecimentos eclesiais considera mais significativos e marcantes num passado recente e no presente, a que os Media n\u00e3o tenham dado o devido destaque e import\u00e2ncia?  D.JP \u2013 <\/i>Respondo com um exemplo: uma not\u00edcia no Jornal \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d sobre a presen\u00e7a de religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima e pretensas reac\u00e7\u00f5es do Vaticano, que n\u00e3o existiram nem poderiam existir naqueles termos, foi assunto abundante em todos os notici\u00e1rios. Por essa altura foi ratificado pela Assembleia da Rep\u00fablica, por uma vasta maioria, o novo texto concordat\u00e1rio, e isso n\u00e3o foi not\u00edcia.  <i>Entrevista conduzida por Andr\u00e9 Rubim Rangel, Voz Portucalense<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de D. 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