{"id":825,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-dinamica-da-festa-em-situacao-de-e-imigracao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-dinamica-da-festa-em-situacao-de-e-imigracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-dinamica-da-festa-em-situacao-de-e-imigracao\/","title":{"rendered":"A Din\u00e2mica da festa em situa\u00e7\u00e3o de e\/imigra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Policarpo Lopes, Professor da UAL <!--more--> A festa \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o central do universo cultural dos indiv\u00edduos e forma\u00e7\u00f5es sociais em qualquer \u00e1rea socio-cultural. A sua morfologia apresenta necessariamente uma pluriformidade multifacetada, mas a sua din\u00e2mica est\u00e1 marcada, por um lado, pelo encontro, pelo ajuntamento, pela mem\u00f3ria e celebra\u00e7\u00e3o duma temporalidade fundadora e, por outro lado, pela auto-representa\u00e7\u00e3o e teatraliza\u00e7\u00e3o da vida quotidiana, articulando mito, rito e exalta\u00e7\u00e3o colectiva. O que significa que ela \u00e9 indissoci\u00e1vel da quotidianeidade dos indiv\u00edduos e grupos sociais. Na situa\u00e7\u00e3o de e\/imigra\u00e7\u00e3o, ela emerge no duplo espa\u00e7o tempo-tempo que estrutura a vida quotidiana dos indiv\u00edduos, ou seja no pa\u00eds de resid\u00eancia e trabalho e na terra de origem. Nos pa\u00edses de resid\u00eancia, os primo-migrantes assim como as gera\u00e7\u00f5es nascidas da e na imigra\u00e7\u00e3o s\u00e3o invadidas pela din\u00e2mica da festa : por ocasi\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o dos acontecimentos e ritos de passagem (nascimento, adolesc\u00eancia e casamento), em momentos que o imagin\u00e1rio colectivo associa \u00e0 transi\u00e7\u00e3o dos ciclos agr\u00e1rios e c\u00f3smicos como o S. Martinho, os Santos populares bem como no Natal e na P\u00e1scoa. Mas \u00e9 em torno do 13 de Maio, que a festa irrompe duma forma vulc\u00e2nica, em quase todas as comunidades migrantes. Com rituais de peregrina\u00e7\u00e3o realizados em santu\u00e1rios marianos nas diferentes regi\u00f5es, num ambiente de grande exuber\u00e2ncia e de exalta\u00e7\u00e3o colectiva, reactivando os grandes suportes existenciais e institucionais da sua identidade (m\u00fasica, gastronomia, sociabilidades) reactualizam os acontecimentos fundadores de F\u00e1tima, que progressivamente se tornou o \u201cTotem\u201d de Portugal e dos portugueses migrantes. Nestas festas participam n\u00e3o s\u00f3 v\u00e1rias dezenas de milhares de portugueses dispersos pela regi\u00e3o mas tamb\u00e9m um n\u00famero significativo de representantes das igrejas locais, frequentemente at\u00e9 ao mais alto n\u00edvel, n\u00e3o esquecendo os dignat\u00e1rios da Igreja de origem. No tempo de f\u00e9rias, a din\u00e2mica da festa entra em ebuli\u00e7\u00e3o um pouco por toda a parte nas diferentes regi\u00f5es e comunidades de Portugal. Para a primeira e segunda gera\u00e7\u00e3o a festa da comunidade de origem \u00e9 o factor de regula\u00e7\u00e3o do tempo vacante na terra natal. Os banhos aqu\u00e1ticos e as exposi\u00e7\u00f5es solares nas praias s\u00e3o organizados em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a na festa. Nela participam activamente n\u00e3o s\u00f3 nos ritos apolinianos e dionis\u00edacos mas tamb\u00e9m na prepara\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da festa. Para al\u00e9m da festa do Santo patrono da terra de origem, a presen\u00e7a dos imigrantes nas festas e romarias da regi\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia incontorn\u00e1vel e uma realidade de grande visibilidade. Por\u00e9m, a din\u00e2mica da festa no tempo vacante na terra de origem, est\u00e1 ainda associada \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos ritos de passagem que continuam a ser celebrados preferencialmente no quadro da comunidade de origem no seio da fam\u00edlia. A estes momentos festivos adiciona-se habitualmente a passagem, em fam\u00edlia ou em grupo, pelo Santu\u00e1rio de F\u00e1tima. A peregrina\u00e7\u00e3o anivers\u00e1ria de Agosto continua marcada pela presen\u00e7a massiva de imigrantes. No contexto de obsolesc\u00eancia do religioso provocado pela seculariza\u00e7\u00e3o e laiciza\u00e7\u00e3o e de desafei\u00e7\u00e3o generalizada pelo universo simb\u00f3lico da igreja, os rituais apolinianos formalizados pela l\u00f3gica do religioso institu\u00eddo perderam peso e influ\u00eancia na maneira de viver a festa pelas classes populares em favor dos rituais dionis\u00edacos. Mas, tanto uns como os outros na sua matriz original est\u00e3o profundamente marcados pelo sagrado e pela sacralidade. \u00c9 na conjun\u00e7\u00e3o dos rituais desta dupla natureza que se recria a vida, se renova a ordem e se refaz o la\u00e7o social. Efectivamente, a festa enquanto institui\u00e7\u00e3o central do imagin\u00e1rio colectivo assume uma multifuncionalidade. No contexto de expatria\u00e7\u00e3o &#8211; desloca\u00e7\u00e3o\/impatria\u00e7\u00e3o no seio dos fluxos migrat\u00f3rios sobressai a fun\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o e reactiva\u00e7\u00e3o do processo de reconstru\u00e7\u00e3o da identidade dos indiv\u00edduos profundamente destruturada pela situa\u00e7\u00e3o de imigra\u00e7\u00e3o. Como elementos estruturantes deste processo salientamos: a refunda\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social nas suas diferentes malhas (fam\u00edlia, grupo, comunidade local, regional e nacional). Atrav\u00e9s do encontro num contexto de efervesc\u00eancia colectiva os individuos refazem e vivem rela\u00e7\u00f5es e interac\u00e7\u00f5es alternativas \u00e0s que vivem no dia a dia marcadas pelo constrangimento, pela despersonaliza\u00e7\u00e3o, pela atomiza\u00e7\u00e3o e pelo n\u00e3o-reconhecimento social; a revivesc\u00eancia dos recursos e suportes simb\u00f3licos de identidade e perten\u00e7a, tanto de car\u00e1cter religioso como de natureza dionis\u00edaca. Esta reactiva\u00e7\u00e3o dos dispositivos existenciais e institucionais de identidade e perten\u00e7a na presen\u00e7a dos outros semelhantes com a mesma linhagem e dos outros diferentes n\u00e3o s\u00f3 validam a cren\u00e7a mas tamb\u00e9m reactivam a consci\u00eancia de pr\u00f3pria identidade e perten\u00e7a. Se nos pa\u00edses de imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 mais expl\u00edcita a reactiva\u00e7\u00e3o dos grandes suportes existencias e institucionais da auto-imagem e perten\u00e7a, na terra de origem verifica-se mais um mergulhar nas origens ou a descoberta pelas novas gera\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias ra\u00edzes. No contexto de mundializa\u00e7\u00e3o, onde o peso da utopia da homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural pilotado pelo capital financeiro \u00e9 irresist\u00edvel, o direito \u00e0 diferen\u00e7a, \u00e0 singularidade, ao enraizamento, ao calor emocional retoma um grande vigor e funciona muitas vezes como contra-utopia. A festa em toda a sua complexidade aparece-nos, pois, como um dispositivo exponencial para responder a esta exig\u00eancia cada vez mais intensa de reflex\u00e3o identit\u00e1ria. At\u00e9 h\u00e1 pouco, o reflexo identit\u00e1rio era a arma do pobre, hoje, est\u00e1 a generalizar-se um pouco por toda a parte. Importa saber revaloriz\u00e1-lo numa perspectiva cultural e pastoral. A fixac\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria parece-nos, pois, o grande desafio \u00e0 capacidade de inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 dos agentes culturais mas tamb\u00e9m pastorais.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Policarpo Lopes, Professor da UAL<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[206,207,211,251,267,275,303],"class_list":["post-825","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-familia","tag-fatima","tag-ferias","tag-marianos","tag-natal","tag-pascoa","tag-santuarios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/825\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}