{"id":824,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/religiosidade-em-portugal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"religiosidade-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/religiosidade-em-portugal\/","title":{"rendered":"Religiosidade em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Lages \u00e9 soci\u00f3logo e explica, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, a centralidade do fen\u00f3meno religioso na sociedade portuguesa <!--more--> Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 Qual o impacto da religiosidade popular na sociedade portuguesa? M\u00e1rio Lages \u2013 \u00c9 uma quest\u00e3o muito ampla porque est\u00e1 relacionada com a perman\u00eancia de aspectos culturais tradicionais, que sobrevivem, numa luta com outros muito mais modernos. Mas, como o povo portugu\u00eas tem uma longa liga\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, sobretudo os meios mais populares e alde\u00e3os, n\u00f3s temos a perman\u00eancia e a sobreviv\u00eancia de aspectos da religiosidade popular. Alguns t\u00eam vindo at\u00e9 a exprimir-se de uma forma muito particular nos \u00faltimos tempos, designadamente as peregrina\u00e7\u00f5es a F\u00e1tima, que neste \u00faltimo ano tiveram uma express\u00e3o muito vis\u00edvel.  AE \u2013 Como \u00e9 a conviv\u00eancia entre a Teologia e as Festas Populares? ML \u2013 Convivem mal. Convivem relativamente mal. Pelo menos durante algum tempo conviveram mal. Neste momento, por orienta\u00e7\u00f5es da Igreja, come\u00e7ou-se a dar import\u00e2ncia \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e piedade popular. Desde os anos 60, tenta-se a concilia\u00e7\u00e3o entre o que durante muito tempo foi considerado antag\u00f3nico. A Teologia tem um pensamento muito mais racional do que a religiosidade popular, optando pela via do simb\u00f3lico. Embora o essencial da religi\u00e3o crist\u00e3 esteja no simb\u00f3lico, a Teologia tentou racionalizar tudo o que \u00e9 de expressividade religiosa. Por isso houve, durante certos per\u00edodos, alguma conflitualidade latente, mesmo na actua\u00e7\u00e3o por parte dos pastores. Ela est\u00e1 a ser ultrapassada, dando mesmo maior import\u00e2ncia \u00e0quilo que releva da sensibilidade mais aut\u00eantica das pessoas mais simples, que n\u00e3o necessitam, muitas vezes, de racionalizar, mas precisam antes de as simbolizar&#8230;  AE \u2013 O aspecto simb\u00f3lico \u00e9, na religi\u00e3o popular, elemento fulcral? ML \u2013 Em toda a religi\u00e3o! A religi\u00e3o popular teve a virtude de ter guardado essa dimens\u00e3o mais profunda da religi\u00e3o que vai, precisamente, atrav\u00e9s do simb\u00f3lico. A religi\u00e3o s\u00f3 existe quando se considera o homem todo como sendo tomado pela ideia de Deus e pela viv\u00eancia em Deus, transformando a vida humana na rela\u00e7\u00e3o com a divindade, que nos toma e que nos possui. Isso ultrapassa, um pouco, a reflex\u00e3o teol\u00f3gica, o que n\u00e3o significa que a reflex\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o fa\u00e7a um apelo \u00e0 dimens\u00e3o simb\u00f3lica, que \u00e9 fulcral na teologia.  AE \u2013 A religi\u00e3o dos portugueses \u00e9 mais popular ou racional? ML \u2013 H\u00e1 de tudo! Sobretudo nas camadas menos instru\u00eddas, temos uma sensibilidade mais ligada ao tradicional e ao s\u00edmbolo. Por outro lado, os que tentam, para al\u00e9m desta viv\u00eancia, que \u00e9 profunda, acrescentar-lhe essa dimens\u00e3o da racionalidade, que obviamente n\u00e3o \u00e9 contradit\u00f3ria de tudo o mais.  AE \u2013 Que valor atribuir, hoje, \u00e0s constantes peregrina\u00e7\u00e3o dos mais jovens a Santu\u00e1rios? ML \u2013 O apelo do mist\u00e9rio \u00e9 sempre um apelo constante! A vida humana n\u00e3o se pode reduzir \u00e0s explica\u00e7\u00f5es de natureza cient\u00edfica, que n\u00e3o resolvem todas as quest\u00f5es da humanidade. Os jovens tamb\u00e9m est\u00e3o sens\u00edveis a isso: h\u00e1 uma d\u00e1diva muito profunda por parte dos jovens e, quando se tenta dar radicalmente a vida, tamb\u00e9m se confrontam com o mist\u00e9rio nas suas diferentes dimens\u00f5es e na sua totalidade  AE \u2013 Porque \u00e9 que grande parte das festas populares se realizam no Ver\u00e3o? ML \u2013 H\u00e1 as do Ver\u00e3o e as do Inverno. As do ver\u00e3o s\u00e3o vividas de forma mais vis\u00edvel, mais plena&#8230; As do Inverno t\u00eam caracter\u00edsticas um pouco diferentes. O Ver\u00e3o \u00e9 um tempo de exalta\u00e7\u00e3o da natureza e, por isso, \u00e9 natural que a expressividade religiosa se fa\u00e7a sobretudo no Ver\u00e3o. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o tanto em casa. H\u00e1 uma altern\u00e2ncia entre a vida dom\u00e9stica e a vida fora de casa, que se encontra em muitas civiliza\u00e7\u00f5es. No Ger\u00eas, concretamente, havia viv\u00eancias diferentes no Inverno e no Ver\u00e3o: as pessoas mudavam de lugar (no Ver\u00e3o na serra, no Inverno em zonas mais abrigadas). Esta altern\u00e2ncia &#8211; que come\u00e7a na Primavera &#8211; \u00e9 natural, existindo muito mais expressividade no Ver\u00e3o, onde se colocam as festas fundamentais. Por outro lado, e mais recentemente, a emigra\u00e7\u00e3o condicionou que algumas das festas que eram menos importantes come\u00e7assem a aparecer como manifesta\u00e7\u00e3o de uma viv\u00eancia onde o emigrante mostrava a sua mudan\u00e7a de estado social.  AE \u2013 Os aspectos profanos n\u00e3o monopolizam, hoje, os religiosos? ML \u2013 Os dois aspectos sempre existiram. Hoje, porventura, a dimens\u00e3o religiosa est\u00e1 mais colocada ao lado, mas \u00e9 importante que continue: \u00e9 necess\u00e1rio garantir o aspecto religioso na festividade, que \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de j\u00fabilo da comunidade. A mistura entre o religioso e profano \u00e9 um dado da vida.  AE \u2013 Pela religi\u00e3o popular, podemos dividir o Pa\u00eds entre Norte e Sul ou Litoral Interior? ML \u2013 N\u00e3o o podemos afirmar. O que temos s\u00e3o viv\u00eancias diferentes em fun\u00e7\u00e3o da modernidade das popula\u00e7\u00f5es. N\u00e3o faria uma distin\u00e7\u00e3o entre Norte e Sul: n\u00f3s encontramos no Sul express\u00f5es da religiosidade popular tal e qual como no Norte. Agora, as popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais pequenas, n\u00e3o t\u00eam tanta comunicabilidade, entre outros factores, que nos ajudam a perceber de forma diferente a religiosidade do Norte da do Sul. Basta ver, por exemplo, o c\u00e2ntico popular: o minhoto e o alentejano s\u00e3o completamente diferentes, que exprimem viv\u00eancias muito antigas. Quando ao interior e ao litoral, temos tamb\u00e9m que ter algum cuidado. \u00c9 evidente que as popula\u00e7\u00f5es mais recolhidas, com menos liga\u00e7\u00e3o com o exterior, t\u00eam uma viv\u00eancia diferente. A regi\u00e3o do litoral est\u00e1 mais modernizada, provocando uma compreens\u00e3o mais racional. Mas, para al\u00e9m das expressividade, temos que analisar com profundidade, temos que descobrir a matriz fundamental do simb\u00f3lico e da religiosidade. A\u00ed encontramos muitas semelhan\u00e7as.  AE \u2013 A religi\u00e3o popular est\u00e1 em crescimento ou em vias de extin\u00e7\u00e3o? ML \u2013 Na cultura n\u00f3s temos ciclos. Por vezes, certos movimentos parecem levar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da religiosidade popular, depois ela retoma&#8230; N\u00f3s estamos num ciclo em que a religiosidade popular est\u00e1 a vir ao de cima. Estou convencido que, nos pr\u00f3ximos tempos, a dimens\u00e3o do simb\u00f3lico vai ser mais agarrada por parte das popula\u00e7\u00f5es. Numa situa\u00e7\u00e3o em que tudo parecer ser igual e em que h\u00e1 tend\u00eancias para uniformizar a cultura, h\u00e1 uma forte necessidade das comunidades se identificarem. E essa identifica\u00e7\u00e3o faz-se, precisamente, atrav\u00e9s da revivesc\u00eancia das suas tradi\u00e7\u00f5es. E como as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o fundamentalmente ligada ao religioso, seja na concord\u00e2ncia ou na oposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural que tudo isso venha ao de cima. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Lages \u00e9 soci\u00f3logo e explica, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, a centralidade do fen\u00f3meno religioso na sociedade portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[168,207,292,303],"class_list":["post-824","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-diocese-da-guarda","tag-fatima","tag-religiosidade-popular","tag-santuarios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=824"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/824\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}