{"id":80889,"date":"2017-02-03T17:16:00","date_gmt":"2017-02-03T17:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/02\/03\/derrubar-tabus-na-investigacao-historica-sobre-fatima\/"},"modified":"2017-02-03T17:16:00","modified_gmt":"2017-02-03T17:16:00","slug":"derrubar-tabus-na-investigacao-historica-sobre-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/derrubar-tabus-na-investigacao-historica-sobre-fatima\/","title":{"rendered":"Derrubar tabus na investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Marco Daniel Duarte \u00e9 desde dezembro de 2013 o diretor do Servi\u00e7o de Estudos e Difus\u00e3o do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, contactando diretamente com as fontes prim\u00e1rias que permitiram apresentar \u00e0 Igreja e \u00e0 sociedade os acontecimentos vividos na Cova da Iria e arredores, em 1917. Um s\u00e9culo depois, F\u00e1tima continua ser vista com desconfian\u00e7a por alguns ambientes acad\u00e9micos, representando ainda um campo em aberto para as investiga\u00e7\u00f5es das mais diversas \u00e1reas do saber. <!--more--> <\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &#8211; A Cova da Iria &eacute; um espa&ccedil;o que transformou a hist&oacute;ria da Igreja Cat&oacute;lica em Portugal e tamb&eacute;m um pouco por todo o mundo. Como &eacute; que ao longo deste s&eacute;culo de F&aacute;tima se chegou a definir a hist&oacute;ria daquilo que tr&ecirc;s pequenas crian&ccedil;as viveram aqui, entre maio e outubro de 1917?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>Marco Daniel Duarte (MDD)<\/em> &#8211; &Eacute; mesmo em 1917 que essa hist&oacute;ria come&ccedil;a a ser contada. Podemos dizer que as fontes prim&aacute;rias que temos s&atilde;o desse ano.<\/p>\n<p> \tH&aacute; diferentes tipologias de fontes. As primeiras s&atilde;o os registos escritos do testemunho de tr&ecirc;s crian&ccedil;as. Tenho defendido, em rela&ccedil;&atilde;o a F&aacute;tima, que seja observado, analisado e estudado como qualquer fen&oacute;meno da hist&oacute;ria, e que sejam tidos em conta todos os tipos de testemunhos, de fontes.<\/p>\n<p> \tEm primeiro lugar, a oralidade, aquilo que passa daquelas crian&ccedil;as para os seus primeiros interlocutores. Depois, o registo que esses interlocutores fazem dessa mem&oacute;ria que lhes &eacute; passada, desses testemunhos; em seguida, as outras fontes que podemos chamar complementares, mas que ao olharmos para tr&aacute;s &#8211; e j&aacute; s&atilde;o 100 anos de hist&oacute;ria &#8211; podem ser consideradas prim&aacute;rias, que s&atilde;o as fontes jornal&iacute;sticas.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Quando &eacute; que se come&ccedil;am a ter as primeiras not&iacute;cias sobre F&aacute;tima?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Logo a partir de agosto de 1917, estamos no &acirc;mago do que &eacute; o acontecimento de F&aacute;tima, sabemos que circula a not&iacute;cia em todo o pa&iacute;s, em todos os jornais se sabe que h&aacute; um fen&oacute;meno extraordin&aacute;rio aqui na Cova da Iria, esse fen&oacute;meno &eacute; palp&aacute;vel, porque se percebe que h&aacute; pessoas que v&ecirc;m a este lugar, atra&iacute;das por uma mensagem que entendem ser digna de cr&eacute;dito. Ali&aacute;s, se n&oacute;s quisermos dizer desta forma, a Igreja quando afirma que as apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima s&atilde;o dignas de cr&eacute;dito, diz claramente que aquelas tr&ecirc;s crian&ccedil;as s&atilde;o dignas de serem acreditadas. Esta &eacute; a primeira fonte de F&aacute;tima, a partir daqui temos interrogat&oacute;rios, todas as reflex&otilde;es que s&atilde;o feitas, os depoimentos, servem para se atestar a credibilidade do testemunho daquelas tr&ecirc;s crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Muitas publica&ccedil;&otilde;es questionam F&aacute;tima e defendem a ideia de uma &ldquo;constru&ccedil;&atilde;o&rdquo; das apari&ccedil;&otilde;es. Essa ideia deriva dos primeiros relatos jornal&iacute;sticos?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Sim, se nos basearmos apenas nas fontes jornal&iacute;sticas. A historiografia que tem defendido que F&aacute;tima &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o &#8211; constru&ccedil;&atilde;o subjetiva das crian&ccedil;as, que decidiram inventar, ou porque foram sugestionadas -, essa historiografia assenta, normalmente, nas fontes jornal&iacute;sticas. E as fontes de 1917 s&atilde;o todas contra F&aacute;tima, n&atilde;o h&aacute; um jornal que fa&ccedil;a a apologia de F&aacute;tima.<\/p>\n<p> \tDesde logo, a imprensa cat&oacute;lica n&atilde;o se posiciona com F&aacute;tima, em 1917, porque &eacute; um fen&oacute;meno que ainda n&atilde;o est&aacute; dado como digno de cr&eacute;dito: a Igreja n&atilde;o se pronuncia, n&atilde;o sabe o que vai acontecer, n&atilde;o iniciou ainda os interrogat&oacute;rios oficiais, e por isso est&aacute; muito longe de dar as apari&ccedil;&otilde;es como dignas de cr&eacute;dito.<\/p>\n<p> \tToda a imprensa que fala de F&aacute;tima &eacute; uma imprensa que alinha pelo ide&aacute;rio daquilo que &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o da I Rep&uacute;blica em Portugal, que tem como programa muito claro, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; religi&atilde;o, afastar a ideia de Deus da vida quotidiana das pessoas. O Republicanismo portugu&ecirc;s, a ideia republicana, &eacute; eminentemente intelectualizada, os patriarcas da I Rep&uacute;blica beberam do positivismo que vem do s&eacute;culo das luzes, da revolu&ccedil;&atilde;o francesa. Temos uma elite intelectual a fazer pol&iacute;tica, nessa altura, muito instru&iacute;da.<\/p>\n<p> \tQuando os jornais d&atilde;o conta de que h&aacute; uma multid&atilde;o imensa a aproximar-se da Cova da Iria, as express&otilde;es, os t&iacute;tulos dos tabloides, dos jornais da &eacute;poca s&atilde;o, exatamente, &ldquo;como se pretende desvairar o povo&rdquo;, &ldquo;como se pretende enganar o povo&rdquo;. O que estava a acontecer em F&aacute;tima, de facto, era levar as pessoas ao arrepio do ide&aacute;rio pol&iacute;tico que est&aacute; em mente na segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo XX em Portugal.<\/p>\n<p> \tPortanto, ler F&aacute;tima a partir destas fontes leva, obviamente, &agrave; conclus&atilde;o de que F&aacute;tima &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o religiosa e de que h&aacute; uma interfer&ecirc;ncia da hierarquia junto daquelas crian&ccedil;as para virem dizer que a Senhora mais brilhante do que o sol est&aacute; a aparecer&hellip;<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A historiografia tem vindo a valorizar cada vez mais o contributo de pessoas que eram tidas como &lsquo;an&oacute;nimas&rsquo;, a sua hist&oacute;ria, retratos, objetos, e n&atilde;o s&oacute; dos documentos oficiais. Como &eacute; que o Santu&aacute;rio de F&aacute;tima preserva a mem&oacute;ria dos milhares de peregrinos que vieram at&eacute; aqui logo desde 1917 e todas as hist&oacute;rias que elas levaram daqui?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; &Eacute; exatamente essa a cr&iacute;tica que eu deixo &agrave; historiografia que tem sido feita sobre F&aacute;tima. Por um lado, se n&oacute;s temos hoje nas c&aacute;tedras universit&aacute;rias uma revolu&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica &agrave; volta da hist&oacute;ria, do fazer hist&oacute;ria, porque &eacute; preciso cruzar todas as fontes. Para F&aacute;tima, essas fontes n&atilde;o t&ecirc;m sido cruzadas, n&atilde;o se d&aacute; conta da import&acirc;ncia do laicado inicial, por exemplo, que est&aacute; por estudar. N&atilde;o sabemos o nome da maior parte das pessoas que vieram aqui, mas h&aacute; nomes que n&oacute;s conhecemos.<\/p>\n<p> \tNo dia 13 de outubro de 1917, estavam na Cova da Iria 70 mil pessoas, pelo menos &#8211; h&aacute; jornais que d&atilde;o muito mais. No m&ecirc;s de agosto, estavam 5 mil pessoas, e este n&uacute;mero cruza fontes anticlericais e fontes do interior da Igreja. Como &eacute; que n&oacute;s chegamos &agrave; chamada pequena hist&oacute;ria, que nos ajuda a entender o fen&oacute;meno?<\/p>\n<p> \tDou um exemplo, uma figura muito interessante, chamada Gilberto Fernandes dos Santos. Vem a F&aacute;tima e, no dia 13 de outubro de 1917, est&aacute; a distribuir pagelas, nas quais o t&iacute;tulo que se d&aacute; &agrave; Virgem de F&aacute;tima &eacute; &lsquo;Nossa Senhora da Paz&rsquo; (Regina Pacis, ora pro nobis). Sabemos que isto &eacute; uma influ&ecirc;ncia da introdu&ccedil;&atilde;o deste t&iacute;tulo na ladainha lauretana, que tinha sido pedida em maio pelo Papa Bento XV, estamos na I Guerra Mundial. Estas pessoas que v&ecirc;m a F&aacute;tima, v&ecirc;m claramente &agrave; procura da Senhora que lhes traz a paz, portanto, h&aacute; claramente esta inten&ccedil;&atilde;o junto delas.<\/p>\n<p> \tEu gostaria de sublinhar o papel desta pessoa [Gilberto Fernandes dos Santos] junto dos cl&eacute;rigos da altura. O Gilberto Fernandes dos Santos desespera para ter respostas, por exemplo, de Manuel Nunes Formig&atilde;o, que &eacute;, numa determinada linha da historiografia, acusado de ser o construtor, o inventor de F&aacute;tima, porque passa por Lurdes e tem um desejo enorme de fazer uma &lsquo;Lurdes portuguesa&rsquo;.<\/p>\n<p> \tManuel Nunes Formig&atilde;o n&atilde;o responde ao Gilberto Fernandes dos Santos, &agrave;s v&aacute;rias perguntas que ele lhe faz. O bispo de Leiria [D. Jos&eacute; Alves Correia da Silva] tenta deixar muitas respostas por dar, precisamente porque ainda n&atilde;o se pode pronunciar sobre F&aacute;tima. H&aacute; uma press&atilde;o muito clara junto da hierarquia para que esta se pronuncie. Os presb&iacute;teros est&atilde;o nesse momento a analisar os interrogat&oacute;rios, t&ecirc;m muita dificuldade em dar respostas concretas.<\/p>\n<p> \tGilberto Fernandes dos Santos vai encomendar a imagem de Nossa Senhora de F&aacute;tima para o lugar. Encomendar uma imagem &eacute; constituir um polo muito forte para dar resposta &agrave;queles que v&ecirc;m &agrave; Cova da Iria. Pretende saber se a imagem deve ter um ter&ccedil;o ou um ros&aacute;rio e manda muitas cartas ao padre Formig&atilde;o a pedir esclarecimentos, mas o padre Formig&atilde;o furta-se a dar essas respostas. O mesmo acontece com o bispo.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>MDD &#8211;<\/em> Este laicado que est&aacute; presente aqui &#8211; muitas dessas pessoas dizem ter visto o milagre do sol, outras dizem que n&atilde;o se aperceberam dele, outras simplesmente que o tempo mudou e deixou de chover -, todas estas rea&ccedil;&otilde;es podemos tir&aacute;-las das diversas fontes, temos &eacute; de analis&aacute;-las com o mesmo crit&eacute;rio que analisamos todas as outras, com o mesmo olhar cr&iacute;tico que nos leva depois ao cruzamento das informa&ccedil;&otilde;es e a saber aquilo que aconteceu efetivamente aqui em F&aacute;tima. Sabendo tamb&eacute;m que a mesma fonte &eacute; analisada com olhar diferente, dependendo da subjetividade de quem analisa. Hoje ser&iacute;amos ing&eacute;nuos ao pensar que a hist&oacute;ria &eacute; uma ci&ecirc;ncia que vive do positivismo.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; As abordagens mais cr&iacute;ticas de F&aacute;tima t&ecirc;m apresentado documenta&ccedil;&atilde;o nova?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Normalmente, n&atilde;o. O Santu&aacute;rio, ao longo de todo este tempo, procurou ter consigo o registo e reunir as diversas fontes sobre F&aacute;tima. E quando falamos de fontes, estamos a fala das chamadas fontes escritas, mas tamb&eacute;m das fontes materiais: um objeto que tenha pertencido aos videntes, &agrave; casa onde nasceram, tamb&eacute;m ajuda a entender a hist&oacute;ria de F&aacute;tima; as primeiras ofertas dos peregrinos &agrave; Virgem de F&aacute;tima, as ofertas que continuam a chegar, as mensagens da guerra colonial&hellip;<\/p>\n<p> \tEstamos habituados a ouvir que F&aacute;tima e o Estado Novo s&atilde;o legitimadores um do outro. Nada de mais errado para os anos 60 e 70, F&aacute;tima &eacute; nesta altura um altar, se quisermos, que mostra a toda a gente a grande fragilidade do Estado Novo, que era a quest&atilde;o do Ultramar: &eacute; aqui que as m&atilde;es dos soldados, as noivas dos soldados, as filhas dos soldados v&ecirc;m chorar os que morrem na guerra. &Eacute; aqui que os soldados, quando regressam, v&ecirc;m agradecer &agrave; Virgem de F&aacute;tima o facto de terem sa&iacute;do de uma guerra que n&atilde;o entendem, que acham injusta.<\/p>\n<p> \tH&aacute; um protesto coletivo aqui em F&aacute;tima que precisa de ser analisado a partir das fotografias que temos dessa data, onde podemos ver os soldados na passadeira, de joelhos ou a arrastar-se. S&atilde;o fotografias violentas, ainda aos olhos contempor&acirc;neos. E tamb&eacute;m a partir das mensagens, guardadas nos nossos arquivos, que chegam de escolas, nessa altura a fazer campanhas de ora&ccedil;&atilde;o para que a guerra termine; de mulheres que escrevem &agrave; Virgem de F&aacute;tima. At&eacute; &agrave; data, n&atilde;o tivemos nenhum investigador interessado neste tipo de fonte.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; E porque &eacute; que isso acontece?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; N&atilde;o h&aacute; investigadores interessados neste tipo de fontes porque as conclus&otilde;es que se tiram, ao analis&aacute;-las, v&atilde;o certamente p&ocirc;r em causa uma determinada linha historiogr&aacute;fica que tem sido vendida, para usar uma express&atilde;o menos bonita, sobre F&aacute;tima.<\/p>\n<p> \tMais uma vez, estamos perante a rea&ccedil;&atilde;o de leigos, do laicado em F&aacute;tima. Tamb&eacute;m &eacute; muito comum dizer-se que a F&aacute;tima s&oacute; v&ecirc;m aqueles que n&atilde;o t&ecirc;m nada a perder, que as elites sociais n&atilde;o est&atilde;o c&aacute;. Analisando as fontes desde a primeira hora, no entanto, encontramos elites ligadas a uma aristocracia que v&ecirc; em F&aacute;tima, obviamente, uma forma de reabilitar a ideia mon&aacute;rquica n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida; tamb&eacute;m uma elite burguesa, que inclui m&eacute;dicos, advogados, pessoas que t&ecirc;m estabelecimentos comerciais, est&aacute; a atuar em F&aacute;tima desde a primeira hora.<\/p>\n<p> \tTodas estas fontes foram guardadas pelo Santu&aacute;rio de F&aacute;tima e as que n&atilde;o s&atilde;o custodiadas pelo nosso arquivo est&atilde;o referenciadas desde h&aacute; muito tempo. Mesmo os documentos que n&atilde;o est&atilde;o aqui foram referenciados por aqueles que n&oacute;s consideramos os primeiros estudiosos de F&aacute;tima e foram &agrave; procura de saber onde existiam arquivos sobre a ideia de F&aacute;tima. Esses arquivos est&atilde;o espalhados por todo o mundo, desde logo nos lugares da geografia de L&uacute;cia, que passa por diferentes lugares em Portugal, sabemos que vive na Galiza, ainda como religiosa de Santa Doroteia, e depois entra no Carmelo de Santa Teresa, de Coimbra. S&oacute; a documenta&ccedil;&atilde;o relacionada com a Irm&atilde; L&uacute;cia passa dos 10 mil escritos; as cartas s&atilde;o 9 mil e tal, as que conhecemos, e cada carta tem um peda&ccedil;o de F&aacute;tima, que deve ser analisado, contextualizado. Al&eacute;m disto, h&aacute; os arquivos das religiosas de Santa Doroteia, os da Santa S&eacute;, com documenta&ccedil;&atilde;o muito importante, logo a partir dos anos 20, sobre F&aacute;tima. Tamb&eacute;m o arquivo das religiosas Reparadoras de Nossa Senhora de F&aacute;tima, fundadas pelo c&oacute;nego Formig&atilde;o.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; H&aacute; quem valorize muito as contradi&ccedil;&otilde;es que existem nas v&aacute;rias fontes sobre F&aacute;tima&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Nada melhor para conhecer com cientificidade e profundidade o que aconteceu em F&aacute;tima do que regressar &agrave;s fontes. Mesmo que elas sejam contradit&oacute;rias ao serem analisadas segundo as ferramentas de cada &eacute;poca. H&aacute; um exemplo t&iacute;pico, no qual normalmente se pega para desacreditar F&aacute;tima: nos interrogat&oacute;rios de 1917, a saia de Nossa Senhora ora &eacute; mais curta, ora mais comprida, conforme o interrogador ou at&eacute; a testemunha que est&aacute; a ser interrogada. Enfim, a mesma problem&aacute;tica se coloca hoje para os Evangelhos da Paix&atilde;o, por exemplo, sobrepondo as narrativas que a Igreja entende como as fontes mais pr&oacute;ximas do acontecimento.<\/p>\n<p> \tO que &eacute; que temos de fazer? Colocar as fontes no seu universo primevo e perceber como &eacute; que elas nos chegam, a subjetividade que est&aacute; em quem escreve e em quem diz. Isso deve ser assumido.<\/p>\n<p> \tO Santu&aacute;rio teve o des&iacute;gnio de transcrever esta documenta&ccedil;&atilde;o e coloc&aacute;-la ao servi&ccedil;o da comunidade cient&iacute;fica. Nos anos 90, aparecem pela primeira vez os interrogat&oacute;rios, transcritos, acess&iacute;veis a todos os investigadores; em seguida, surge o inqu&eacute;rito ligado ao processo que h&aacute; de levar ao decreto de 1930, em que o bispo de Leiria diz que as apari&ccedil;&otilde;es s&atilde;o dignas de cr&eacute;dito. A partir da&iacute;, o Santu&aacute;rio publicou &#8211; j&aacute; vamos com 16 tomos &#8211; uma s&eacute;rie de documenta&ccedil;&atilde;o, cuja tipologia passa por fontes jornal&iacute;sticas, depoimentos, entrevistas, interrogat&oacute;rios, testemunhos diversos, material fotogr&aacute;fico e iconogr&aacute;fico, de variados arquivos. Pelo menos at&eacute; 1930, tudo o que conhecemos est&aacute; ali publicado. A maioria dos investigadores cita os dois primeiros volumes e ignora todos os outros.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Um dos escritos fundamentais, &lsquo;As Mem&oacute;rias&rsquo; da Irm&atilde; L&uacute;cia, teve uma edi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica publicada pela primeira vez. Que motivos levaram a esta publica&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Tal outras fontes que consideramos prim&aacute;rias, as Mem&oacute;rias estavam editadas naquilo que chamamos uma edi&ccedil;&atilde;o de divulga&ccedil;&atilde;o, popular, feita com intuito apolog&eacute;tico. A primeira edi&ccedil;&atilde;o &eacute; da responsabilidade de um homem important&iacute;ssimo em F&aacute;tima, padre Luis Kondor, quem tem como fun&ccedil;&atilde;o dentro da Igreja levar as pessoas a perceber a santidade dos Pastorinhos.<\/p>\n<p> \tO que o Santu&aacute;rio entendeu fazer foi colocar, a partir da documenta&ccedil;&atilde;o que L&uacute;cia escreve &#8211; n&atilde;o omitindo as hesita&ccedil;&otilde;es, rasuras, entrelinhados -, todas das informa&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para que o investigador possa, a partir dali, fazer hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> \tEsta &eacute;, sem d&uacute;vida, uma fonte prim&aacute;ria de F&aacute;tima. H&aacute; tamb&eacute;m, dentro de quem analisa o fen&oacute;meno, uma cis&atilde;o, que coloca uma F&aacute;tima primeira e uma F&aacute;tima segunda, constru&iacute;da pela irm&atilde; L&uacute;cia nos anos 40, sobre as suas Mem&oacute;rias. Aquilo que eu defendo &eacute; exatamente o contr&aacute;rio, as mem&oacute;rias s&atilde;o fonte prim&aacute;ria, porque s&atilde;o escritas por uma protagonista do fen&oacute;meno, devem ser analisadas criticamente, tal como as primeiras fontes o devem ser. Tamb&eacute;m se deve encontrar a subjetividade da autora, analisando no registo que o pr&oacute;prio registo nos merece, ao ser um registo memorialista. N&oacute;s sabemos que isso significa a interpreta&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno j&aacute; d&eacute;cadas depois, mas &eacute; uma fonte prim&aacute;ria para o estudo de F&aacute;tima.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O Santu&aacute;rio espera que todo este material inspire investiga&ccedil;&atilde;o mais especializada?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; H&aacute; especialistas de F&aacute;tima espalhados um pouco por todo o mundo, mas Portugal n&atilde;os os tem como deveria ter.<\/p>\n<p> \tF&aacute;tima tem sofrido com alguns tabus: em primeiro lugar, um tabu acad&eacute;mico, que fica muito mal &agrave;s academias, a nega&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia de um acontecimento hist&oacute;rico. &Eacute; como n&atilde;o querer estudar a I Guerra Mundial, mesmo que ela possa causar sofrimento; ou n&atilde;o gostarmos de determinada rainha da hist&oacute;ria de Portugal e, por isso, n&atilde;o a estudamos. N&atilde;o faz sentido. O que tem sentido &eacute; entender o fen&oacute;meno e estud&aacute;-lo.<\/p>\n<p> \tH&aacute; um requinte nas academias, todos n&oacute;s sabemos que &eacute; assim: quando n&atilde;o se estuda, n&atilde;o existe. F&aacute;tima tem sofrido com este tabu, n&atilde;o tem merecido a aten&ccedil;&atilde;o dos acad&eacute;micos, num posicionamento que, muitas das vezes, est&aacute; relacionado com isto: n&atilde;o vale a pena estudar, porque se se estudar, passa a existir.<\/p>\n<p> \tDepois, podemos dizer que F&aacute;tima aparece nas academias naquilo que n&atilde;o coloca dificuldade, do ponto de vista religioso &#8211; porque tamb&eacute;m n&atilde;o t&ecirc;m estudado o fen&oacute;meno religioso. A primeira ci&ecirc;ncia a levar F&aacute;tima para as universidades &eacute; a Geografia Humana: contam-se pessoas que v&ecirc;m, pessoas que saem, a&iacute; n&atilde;o h&aacute; dificuldades. Vemos tamb&eacute;m as ci&ecirc;ncias ligadas ao Turismo, mas falta a Sociologia, a Antropologia, inclusivamente a Teologia. &Eacute; muito mais f&aacute;cil encontrar pessoas interessadas pela Teologia que se pode fazer, a partir da mensagem de F&aacute;tima, no estrangeiro do que em Portugal.<\/p>\n<p> \tPenso que isto estar&aacute; a mudar, que o centen&aacute;rio das apari&ccedil;&otilde;es coloca uma barreira psicol&oacute;gica, um antes e um depois: h&aacute; um determinado tempo hist&oacute;rico que se fecha e deixa j&aacute; de ser o tempo da hist&oacute;ria do quotidiano, do presente, para passar a ser analisado pelas ci&ecirc;ncias que se ocupam do acontecimento em longa dura&ccedil;&atilde;o, se quisermos.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O que &eacute; que o Santu&aacute;rio est&aacute; a fazer para que isso aconte&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Est&aacute; a promover cursos para investigadores, apresentando as fontes sobre F&aacute;tima; est&aacute; a promover cursos n&atilde;o s&oacute; no Santu&aacute;rio mas tamb&eacute;m fora, para fazer a ponte com as universidades e com o mundo acad&eacute;mico. Sabemos que os divulgadores de F&aacute;tima estar&atilde;o sempre dispon&iacute;veis.<\/p>\n<p> \tNo Servi&ccedil;o de Estudos, a nossa grande preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; levar as pessoas a entender o fen&oacute;meno de F&aacute;tima, proporcionar o acesso &agrave;s fontes, mesmo sabendo que estamos a falar de uma realidade com 100 anos que ainda est&aacute; protegida, numa parte dessa diacronia, pelas leis dos arquivos.<\/p>\n<p> \tH&aacute; informa&ccedil;&atilde;o que ainda n&atilde;o est&aacute; dispon&iacute;vel, mas o reitor do Santu&aacute;rio h&aacute; muito pouco tempo despachou favoravelmente uma peti&ccedil;&atilde;o que o Servi&ccedil;o de Estudos lhe dirigiu, no sentido de libertar a documenta&ccedil;&atilde;o at&eacute; ao cinquenten&aacute;rio [1967]. Estamos a falar de milhares e milhares de documentos, no arquivo do Santu&aacute;rio de F&aacute;tima.<\/p>\n<p> \tEu penso que, a partir desta altura, teremos novas pessoas interessadas em estudar F&aacute;tima. Nunca chegar&atilde;o &agrave; conclus&atilde;o c&acirc;ndida a que se queria chegar desde o in&iacute;cio: se conseguimos encontrar uma fotografia que demonstre a apari&ccedil;&atilde;o. Isso n&atilde;o vamos conseguir encontrar, aquilo que encontramos &eacute; o posicionamento das figuras hist&oacute;ricas perante um fen&oacute;meno que mudou a Igreja em Portugal e mudou a Igreja no mundo.<\/p>\n<p> \tH&aacute; a&ccedil;&otilde;es pastorais que colocam F&aacute;tima como acontecimento central: as viagens da Virgem Peregrina, por exemplo. O Santu&aacute;rio tem muita informa&ccedil;&atilde;o sobre essas viagens, a partir dos anos 40: uma imagem branca percorre a Europa, em guerra, e est&aacute; ainda por saber qual &eacute; a rea&ccedil;&atilde;o de uma ideologia nazi, quando v&ecirc; passar esta imagem, a anunciar a paz; est&atilde;o por saber e por estudar os arquivos sobre os entraves &agrave; entrada da imagem branca nas fronteiras do comunismo.<\/p>\n<p> \tEst&aacute; por perceber ainda, por aprofundar, a dificuldade que os Papas tiveram com a pr&oacute;pria L&uacute;cia, que &eacute; uma mulher muito exigente. &Eacute; uma mulher que est&aacute; em Portugal, numa periferia da Europa, num ambiente completamente pr&eacute;-conciliar, uma religiosa dentro de v&aacute;rias hierarquias &#8211; a superiora da comunidade, a superiora geral, o bispo do lugar onde vive, o bispo de Leiria, o n&uacute;ncio apost&oacute;lico -, que mesmo assim consegue vencer tantas barreiras para chegar a Pio XII, de forma escrita.<\/p>\n<p> \tF&aacute;tima passa a barreira da hist&oacute;ria local, da hist&oacute;ria regional, da hist&oacute;ria nacional e da hist&oacute;ria internacional logo em 1917: no in&iacute;cio de setembro desse ano, h&aacute; uma carta de um soldado em Fran&ccedil;a, que escreve ao pai de L&uacute;cia a perguntar o que se estava a passar na Cova da Iria.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Francisco vai tornar-se este ano o quarto Papa a visitar a Cova da Iria, durante o seu pontificado. Ainda faz sentido olhar para estas viagens numa l&oacute;gica de valida&ccedil;&atilde;o do acontecimento de F&aacute;tima?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MDD<\/em> &#8211; Eu penso que isso &eacute; extempor&acirc;neo e fora de prazo. Aquilo que interessa &eacute; analisar porque &eacute; que isto acontece e porque &eacute; que se traz para o debate ainda uma quest&atilde;o que est&aacute; completamente ultrapassada. O Papado valida F&aacute;tima desde muito cedo, em 1929 j&aacute; temos Pio XI, no Pontif&iacute;cio Col&eacute;gio Portugu&ecirc;s [Roma] a benzer uma imagem de Nossa Senhora de F&aacute;tima e a distribuir pagelas com a imagem aos alunos, na sede da Cristandade.<\/p>\n<p> \tAntes disso, j&aacute; tinha havido a presen&ccedil;a do n&uacute;ncio apost&oacute;lico em F&aacute;tima, mas se n&atilde;o quisermos recuar a esta d&eacute;cada de 20, pelo menos que se olhe para a&ccedil;&atilde;o de Pio XII, que foi considerado o Papa de F&aacute;tima. Ele n&atilde;o veio a F&aacute;tima porque Pio XII n&atilde;o sa&iacute;a do Vaticano, mas se uma das estrat&eacute;gias do Papa fosse sair em viagens apost&oacute;licas, teria vindo a F&aacute;tima. Em 1951, temos o Ano Santo extraordin&aacute;rio a encerrar em F&aacute;tima, temos v&aacute;rias mensagens do Papa Pio XII, temos a coroa&ccedil;&atilde;o da imagem, aqui na Cova da Iria, por um legado pontif&iacute;cio, o que quer dizer exatamente a mesma coisa, na l&oacute;gica de atua&ccedil;&atilde;o dos Papas.<\/p>\n<p> \tF&aacute;tima &eacute; a &uacute;nica apari&ccedil;&atilde;o, revela&ccedil;&atilde;o privada, se quisermos usar a linguagem da Teologia, que est&aacute; citada nos documentos do Conc&iacute;lio Vaticano II: no encerramento da terceira sess&atilde;o [21.11.<a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/paul-vi\/pt\/speeches\/1964\/documents\/hf_p-vi_spe_19641121_conclusions-iii-sessions.html\">1964<\/a>], o Papa Paulo VI envia a Rosa de Ouro a este santu&aacute;rio, o reconhecimento por parte da Santa S&eacute; que este &eacute; um lugar important&iacute;ssimo para o catolicismo.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o vejo necessidade de trazer para o debate atual que o Papa Francisco venha validar F&aacute;tima. O que &eacute; interessante perceber &eacute; que o Papa Francisco est&aacute; a servir para anular as raz&otilde;es com que um determinado n&uacute;mero de pessoas justificava o facto de n&atilde;o pertencer &agrave; Igreja. Esta vinda do Papa a F&aacute;tima &eacute; tamb&eacute;m para elas um sinal importante de que F&aacute;tima &eacute; um fen&oacute;meno a levar em conta.&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em style=\"text-align: -webkit-right;\">Entrevista conduzida por Oct&aacute;vio Carmo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco Daniel Duarte \u00e9 desde dezembro de 2013 o diretor do Servi\u00e7o de Estudos e Difus\u00e3o do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, contactando diretamente com as fontes prim\u00e1rias que permitiram apresentar \u00e0 Igreja e \u00e0 sociedade os acontecimentos vividos na Cova da Iria e arredores, em 1917. 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