{"id":80343,"date":"2017-01-20T18:18:00","date_gmt":"2017-01-20T18:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2017\/01\/20\/liberdade-religiosa-nao-e-apenas-questao-de-minorias\/"},"modified":"2017-01-20T18:18:00","modified_gmt":"2017-01-20T18:18:00","slug":"liberdade-religiosa-nao-e-apenas-questao-de-minorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/liberdade-religiosa-nao-e-apenas-questao-de-minorias\/","title":{"rendered":"Liberdade religiosa n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de minorias"},"content":{"rendered":"<p>O presidente da Comiss\u00e3o da Liberdade Religiosa, Jos\u00e9 Vera Jardim, fala \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA das prioridades deste organismo consultivo, do exemplo portugu\u00eas na \u00e1rea do di\u00e1logo entre comunidades crentes e das quest\u00f5es ligadas \u00e0 defesa do direito fundamental da liberdade de culto, assegurados em Portugal pela Lei da Liberdade Religiosa e a Concordata. <!--more--> <\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA &#8211; A presen&ccedil;a de muitas comunidades religiosas aquando da tomada de posse, h&aacute; quatro meses, mostrou que havia um desejo de que esta Comiss&atilde;o voltasse a ser uma refer&ecirc;ncia de di&aacute;logo?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>Jos&eacute; Vera Jardim (JVJ) &#8211;<\/em> Sim, sim. Ali&aacute;s, tamb&eacute;m na tomada de posse do senhor presidente da Rep&uacute;blica, anteriormente, foi poss&iacute;vel fazer uma ora&ccedil;&atilde;o em conjunto com as religi&otilde;es que representam o fundamental da sociologia religiosa em Portugal.<\/p>\n<p> \tA Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa esteve numa situa&ccedil;&atilde;o de esquecimento, ap&oacute;s a presid&ecirc;ncia do dr. M&aacute;rio Soares, pelo que houve e h&aacute; um tempo de esperan&ccedil;a, para que a comiss&atilde;o possa ter um di&aacute;logo aberto, cont&iacute;nuo e pr&oacute;ximo com as confiss&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p> \tParticipamos em eventos especiais, de todas as Igrejas, incluindo, obviamente, a Igreja Cat&oacute;lica. Eu n&atilde;o entendo a comiss&atilde;o como uma comiss&atilde;o de defesa das confiss&otilde;es minorit&aacute;rias, mas como uma comiss&atilde;o que est&aacute; aqui para defender a liberdade religiosa em geral. Por isso, por exemplo, participei numa organiza&ccedil;&atilde;o da Funda&ccedil;&atilde;o Ajuda &agrave; Igreja que Sofre, com muito gosto.<\/p>\n<p> \tFazemos o poss&iacute;vel por manter esta proximidade e, por outro lado, apresentamos &agrave; ministra da Justi&ccedil;a a ideia de fazer, pelo menos uma vez por ano, uma reuni&atilde;o com todas as Igrejas radicadas e outras que tenham import&acirc;ncia no espetro religioso em Portugal, al&eacute;m, naturalmente, da Igreja Cat&oacute;lica, que tem outro estatuto, para an&aacute;lise da situa&ccedil;&atilde;o da liberdade religiosa. Tentamos ainda fazer renascer o pr&eacute;mio da Liberdade Religiosa e convidar personalidades estrangeiras, professores, deputados.<\/p>\n<p> \tA Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa tem limita&ccedil;&otilde;es de meios, mas tamb&eacute;m &eacute; da sua miss&atilde;o estatut&aacute;ria o estudo da situa&ccedil;&atilde;o das religi&otilde;es em Portugal e a aprecia&ccedil;&atilde;o da liberdade religiosa. Penso que &eacute; muito positiva, n&atilde;o temos, felizmente, problemas graves de restri&ccedil;&atilde;o de liberdade religiosa, mas temos de estar sempre atentos aos direitos fundamentais.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Ant&oacute;nio Guterres, novo secret&aacute;rio-geral da ONU, disse sentir orgulho porque em Portugal n&atilde;o se procuram ganhar votos com o &oacute;dio. Sente que h&aacute; um &ldquo;modelo portugu&ecirc;s&rdquo; de conviv&ecirc;ncia entre a sociedade e as religi&otilde;es que pode inspirar outras na&ccedil;&otilde;es, neste momento de alguma tens&atilde;o na Europa?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ<\/em> &#8211; O modelo portugu&ecirc;s tem sido reconhecido, a nossa Lei da Liberdade Religiosa, como exemplar. H&aacute; pa&iacute;ses que n&atilde;o t&ecirc;m lei, mas nos pa&iacute;ses de sistema mais parecido com o nosso, do sul da Europa &#8211; descontando a Fran&ccedil;a, que &eacute; uma experi&ecirc;ncia muito especial, de laicidade muito dura, digamos -, a regulamenta&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o dos acordos entre Estado e Igrejas faz-se atrav&eacute;s de acordos, sobretudo. Em Portugal, fizemo-lo atrav&eacute;s de duas coisas: a Concordata com a Santa S&eacute;, para a Igreja Cat&oacute;lica, e a Lei da Liberdade Religiosa, que &eacute; aplic&aacute;vel a todos os outros.<\/p>\n<p> \tTodas as Igrejas t&ecirc;m os mesmos direitos, n&atilde;o precisam de acordos com o Estado. Temos sentido da parte dos nossos colegas espanh&oacute;is que eles acham que o nosso sistema &eacute; mais operacional, mais justo, at&eacute;, porque a Lei da Liberdade Religiosa se aplica a todos por igual.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Portugal tem aberto as suas portas aos refugiados e os novos fluxos migrat&oacute;rios t&ecirc;m um impacto nos movimentos religiosos. Isso vai implicar uma aten&ccedil;&atilde;o particular?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ &#8211;<\/em> Bem, espero que n&atilde;o. &Eacute; evidente que isto depende da capacidade de integra&ccedil;&atilde;o que o pa&iacute;s tenha. Eu estou sempre em contacto com o minist&eacute;rio, participei ali&aacute;s num grande col&oacute;quio sobre a mat&eacute;ria da integra&ccedil;&atilde;o, porque a liberdade religiosa &eacute; uma parte importante de uma boa integra&ccedil;&atilde;o na sociedade.<\/p>\n<p> \tA pluralidade religiosa deu-se em Portugal, sobretudo, a partir do 25 de Abril, com a chegada de pessoas das antigas col&oacute;nias, como se chamava, e da imigra&ccedil;&atilde;o vinda do Leste europeu. Isso &eacute; um fen&oacute;meno que se tem dado na Europa, com mais ou menos intensidade, nalguns pa&iacute;ses com uma grande predomin&acirc;ncia das comunidades isl&acirc;micas.<\/p>\n<p> \tAs rela&ccedil;&otilde;es entre o Estado e as religi&otilde;es, bem como entre as v&aacute;rias religi&otilde;es, vivem-se, em Portugal, num clima de entendimento m&uacute;tuo, de coopera&ccedil;&atilde;o, poder&iacute;amos chamar-lhe quase de ecumenismo geral, de compreens&atilde;o, de toler&acirc;ncia. Mas tamb&eacute;m tem falhas, n&atilde;o h&aacute; nenhum pa&iacute;s que n&atilde;o tenha falhas.<\/p>\n<p> \tTudo faremos para que esse clima se mantenha, independentemente da chegada de novos imigrantes. O que &eacute; preciso &eacute; saber integrar bem essas pessoas e a integra&ccedil;&atilde;o passa n&atilde;o s&oacute; pela conviv&ecirc;ncia religiosa saud&aacute;vel, com toler&acirc;ncia, m&uacute;tuo respeito, mas tamb&eacute;m por outras coisas: a parte social &eacute; muito importante.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Portugal tem h&aacute; 20 anos uma presen&ccedil;a institucional das v&aacute;rias religi&otilde;es na televis&atilde;o p&uacute;blica, atrav&eacute;s do programa &lsquo;F&eacute; dos Homens&rsquo;, agora tamb&eacute;m na r&aacute;dio. &Eacute; importante dar voz &agrave;s religi&otilde;es perante um clima de crescente desconfian&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ <\/em>&#8211; &Eacute; &oacute;bvio. O &oacute;dio e o medo v&ecirc;m muitas vezes do desconhecimento. Esse &oacute;dio, infelizmente, grassa em muitos pa&iacute;ses do mundo e tamb&eacute;m da Europa, &eacute; usado por movimentos xen&oacute;fobos, como todos sabemos, radicais. Assenta muito no desconhecimento, no conhecimento inexato, na inverdade ou mesmo na mentira aberta.<\/p>\n<p> \tO contacto, o di&aacute;logo, tudo o que possamos fazer nesse sentido, &eacute; o melhor m&eacute;todo que temos para combater esse &oacute;dio. Tem sido dito por todos os respons&aacute;veis governamentais que n&atilde;o estamos livres de acontecer em Portugal alguma coisa e n&atilde;o &eacute; disso que se trata. N&atilde;o temos aqui um muro a separar-nos do resto do mundo. O que temos de fazer &eacute; o nosso trabalho, de respeito m&uacute;tuo, de toler&acirc;ncia, de compreens&atilde;o do outro, para lutar contra o medo e o &oacute;dio.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A exist&ecirc;ncia de uma Concordata com a Santa S&eacute; belisca de alguma forma a igualdade entre as religi&otilde;es, aos olhos do Estado portugu&ecirc;s?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ &#8211;<\/em> N&atilde;o. Eu tenho a minha opini&atilde;o, que j&aacute; exprimi &#8211; ali&aacute;s v&aacute;rias figuras da Igreja Cat&oacute;lica mostraram uma opini&atilde;o parecida -, e penso que a solu&ccedil;&atilde;o ideal teria sido que a Lei da Liberdade Religiosa se aplicasse a todas as confiss&otilde;es, incluindo a Igreja Cat&oacute;lica, e que as confiss&otilde;es pudessem ter acordos sobre mat&eacute;rias pontuais.<\/p>\n<p> \tDou dois exemplos: a Igreja Cat&oacute;lica tem o casamento como um sacramento, com todas as consequ&ecirc;ncias que disso adv&eacute;m; tem um patrim&oacute;nio que necessita de negocia&ccedil;&atilde;o constante. O patrim&oacute;nio da Igreja confunde-se muitas vezes com o patrim&oacute;nio do pa&iacute;s &#8211; conventos, igrejas, s&eacute;s, etc.<\/p>\n<p> \tSe n&oacute;s compararmos a Lei da Liberdade Religiosa com a Concordata, as diferen&ccedil;as n&atilde;o s&atilde;o assim t&atilde;o grandes. A terminologia, a linguagem, &eacute; pr&oacute;pria dos acordos internacionais que a Igreja Cat&oacute;lica celebra, mas se formos ver os direitos e a situa&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica das confiss&otilde;es, sobretudo das radicadas, n&atilde;o &eacute; muito diferente. Naturalmente, a posi&ccedil;&atilde;o da Igreja Cat&oacute;lica em Portugal &eacute; dominante, as confiss&otilde;es minorit&aacute;rias n&atilde;o negam isso e devo dizer que n&atilde;o temos tido posi&ccedil;&otilde;es a dizer que se sentiam mal por haver uma Concordata.<\/p>\n<p> \tA minha posi&ccedil;&atilde;o &eacute; tomada a t&iacute;tulo pessoal, n&atilde;o como presidente da comiss&atilde;o: preferia que tivesse havido uma lei para todos e depois se fizessem acordos com a Igreja Cat&oacute;lica sobre v&aacute;rias mat&eacute;rias. As isen&ccedil;&otilde;es fiscais s&atilde;o exatamente iguais, o ensino da religi&atilde;o tamb&eacute;m &#8211; quando se justifique &#8211; em condi&ccedil;&otilde;es de igualdade. &Eacute; evidente que, como se costuma dizer, &eacute; preciso tratar por igual aquilo que &eacute; igual, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel tratar por igual aquilo que &eacute; profundamente desigual.<\/p>\n<p> \tEu n&atilde;o tenho nada contra a exist&ecirc;ncia da Concordata e a prova &eacute; que estive na cerim&oacute;nia (18.05.2004), em visita a sua santidade o Papa [Jo&atilde;o Paulo II], na altura com o senhor primeiro-ministro, Dur&atilde;o Barroso, aquando da assinatura da Concordata. Estive presente, aceitei o convite. Foi assim e agora n&atilde;o se trata de revogar a Concordata.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Seria desej&aacute;vel criar um canal de comunica&ccedil;&atilde;o entre a Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa e a Comiss&atilde;o Parit&aacute;ria da Concordata, por exemplo?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ<\/em> &#8211; A Comiss&atilde;o Parit&aacute;ria trata de assuntos muito espec&iacute;ficos, de execu&ccedil;&atilde;o da Concordata.<\/p>\n<p> \tEu uso um canal, mais informal: h&aacute; dois representantes da Igreja Cat&oacute;lica na Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa. E tenho contacto direto com o senhor cardeal-patriarca, mas por vezes nem o uso, pe&ccedil;o a um dos representantes que pergunte ao cardeal-patriarca se acha que a comiss&atilde;o deveria intervir, ou se seria &uacute;til.<\/p>\n<p> \tQuando achamos que h&aacute; restri&ccedil;&otilde;es &agrave; liberdade religiosa, seja de que religi&atilde;o for, incluindo a Igreja Cat&oacute;lica, temos o dever de atuar, &eacute; assim que eu entendo a miss&atilde;o da Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa. As confiss&otilde;es minorit&aacute;rias, naturalmente, poder&atilde;o ter mais queixas, de instala&ccedil;&atilde;o, por exemplo: s&atilde;o pequenas comunidades que se querem instalar e os vizinhos dizem que n&atilde;o querem. J&aacute; foram a tribunal, tamb&eacute;m, pessoas que n&atilde;o querem trabalhar nos dias festivos das suas confiss&otilde;es e t&ecirc;m problemas, que j&aacute; foram resolvidos, pelo menos alguns.<\/p>\n<p> \tAs confiss&otilde;es minorit&aacute;rias t&ecirc;m este canal, da comiss&atilde;o. Podem recorrer ao provedor de Justi&ccedil;a, tamb&eacute;m, aos tribunais, como t&ecirc;m recorrido. A Igreja Cat&oacute;lica tem esse canal, da Comiss&atilde;o Parit&aacute;ria, para resolver qualquer problema da execu&ccedil;&atilde;o da Concordata, mas isso n&atilde;o exclui que a Comiss&atilde;o da Liberdade Religiosa, repito, quando houver restri&ccedil;&otilde;es que julgue inadequadas ao exerc&iacute;cio da liberdade religiosa, tamb&eacute;m por cat&oacute;licos, possa atuar. E deva.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O debate p&uacute;blico ainda parece muito marcado por modelos e debates sobre a rela&ccedil;&atilde;o Igreja-Estado marcado por um passado de confronta&ccedil;&atilde;o e crispa&ccedil;&atilde;o. O s&eacute;culo XXI exige uma nova abordagem?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ<\/em> &#8211; Sim. Eu disse na tomada de posse da comiss&atilde;o que n&atilde;o tenho uma agenda de laicidade. A laicidade &eacute; um valor do Estado, da sociedade portuguesa, mas eu n&atilde;o tenho uma agenda laicista. A minha agenda &eacute; a da n&atilde;o-discrimina&ccedil;&atilde;o, &eacute; uma coisa diferente. N&atilde;o discriminar entre Igrejas precisamente para contribuir para o bom ambiente de conviv&ecirc;ncia entre religi&otilde;es.<\/p>\n<p> \tNoutros pa&iacute;ses h&aacute; experi&ecirc;ncias diferentes, mais de separa&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o t&ecirc;m aquilo que n&oacute;s temos, que &eacute; o princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o entre o Estado e as Igrejas. Elas est&atilde;o no mundo social, quer queiramos, quer n&atilde;o, e o problema da liberdade religiosa n&atilde;o &eacute; um problema do foro interno de cada um: &eacute; tamb&eacute;m um problema de presen&ccedil;a social das Igrejas. Portanto, temos de respeitar isso e as Igrejas tamb&eacute;m t&ecirc;m de respeitar o princ&iacute;pio da separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \tH&aacute; coisas que podem ser aperfei&ccedil;oadas nesta mat&eacute;ria, como &eacute; &oacute;bvio. H&aacute; problemas culturais que n&atilde;o devem ser tratados de forma menos cuidada.<\/p>\n<p> \tH&aacute; muito quem critique que na inaugura&ccedil;&atilde;o de um monumento v&aacute; o padre cat&oacute;lico e o benza. Bem, se o povo da aldeia, da vila, da cidade, n&atilde;o se op&otilde;e a isso, eu n&atilde;o vejo&hellip; N&atilde;o me agrada muito, acho que nem sequer &eacute; positivo para a Igreja Cat&oacute;lica, mas &eacute; uma opini&atilde;o minha.<\/p>\n<p> \tS&atilde;o os tais problemas de cultura que &agrave;s vezes constituem uma agenda muito medi&aacute;tica: est&aacute; o bispo e n&atilde;o est&atilde;o os outros, e por isto e por aquilo&hellip; Julgo que n&atilde;o &eacute; positivo para a Igreja Cat&oacute;lica ser olhada, sobretudo nos tempos que correm, como sendo beneficiada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras confiss&otilde;es, n&atilde;o ganha nada com isso.<\/p>\n<p> \tO fundamental &eacute; que h&aacute; um princ&iacute;pio de separa&ccedil;&atilde;o, o Estado n&atilde;o tem uma religi&atilde;o oficial, isso &eacute; vis&iacute;vel. Na educa&ccedil;&atilde;o, a Educa&ccedil;&atilde;o Moral e Religiosa s&oacute; &eacute; organizada quando os pais o pedirem &#8211; e isso foi bom, porque antigamente os pais tinham de fazer uma declara&ccedil;&atilde;o ao contr&aacute;rio. S&atilde;o caminhos que se v&atilde;o fazendo e eu penso que todos t&ecirc;m colaborado nesta distens&atilde;o.<\/p>\n<p> \t&Eacute; natural que aqui e acol&aacute; aflore um discurso que pretendia ser mais igualit&aacute;rio, entre aspas, ou at&eacute; mesmo pessoas que n&atilde;o concordam que o Estado tenha o princ&iacute;pio de coopera&ccedil;&atilde;o com as confiss&otilde;es religiosas. Mas eu penso que sim, que &eacute; favor&aacute;vel.<\/p>\n<p> \tN&oacute;s temos sido causticados, ultimamente, com muitas quest&otilde;es, que t&ecirc;m sido levados aos tribunais, ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, sobre os s&iacute;mbolos religiosos, os crucifixos, os v&eacute;us isl&acirc;micos, as burcas. S&atilde;o problemas que temos de tratar com pin&ccedil;as, porque muitas vezes s&atilde;o problemas de identidade das pessoas, que nem sempre t&ecirc;m a ver diretamente com a religi&atilde;o &#8211; n&atilde;o me refiro ao crucifixo -, como o usar ou n&atilde;o um v&eacute;u. Eu j&aacute; sou velho o suficiente para me lembrar que antigamente em Portugal as mulheres que viviam no campo usavam um len&ccedil;o na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> \tEu penso que, nalguns pa&iacute;ses, se tem exagerado muito. Claro que h&aacute; mat&eacute;rias relacionadas com a seguran&ccedil;a, o que &eacute; diferente, como no caso da burca ou do v&eacute;u isl&acirc;mico integral, que levantam quest&otilde;es s&eacute;rias. N&oacute;s nem sabemos quem l&aacute; est&aacute;, o que &eacute; que leva, quem &eacute;, etc. Al&eacute;m disso, vivemos numa sociedade aberta, onde temos o direito de ver a face das pessoas. Mas isso n&atilde;o &eacute; um problema religioso, tem a ver com a convivialidade das pessoas na mesma comunidade.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute; particularmente sens&iacute;vel &agrave;s mat&eacute;rias de financiamento e de isen&ccedil;&otilde;es relativas &agrave;s comunidades religiosas. Prev&ecirc; mudan&ccedil;as, por exemplo, no regime do IVA?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ<\/em> &#8211; Alerto para isso h&aacute; muito tempo. A isen&ccedil;&atilde;o do IVA est&aacute; presente na Lei da Liberdade Religiosa por uma raz&atilde;o muito simples: sab&iacute;amos que existia para a Igreja Cat&oacute;lica. Mas isso foi inclu&iacute;do com a consci&ecirc;ncia de que &eacute; uma mat&eacute;ria que, cedo ou tarde, vai ser posta em quest&atilde;o e j&aacute; o tem sido no Parlamento Europeu.<\/p>\n<p> \t&Eacute; uma mat&eacute;ria dif&iacute;cil, mas podemos ser confrontados com ela. A Lei da Liberdade Religiosa prev&ecirc; a chamada consigna&ccedil;&atilde;o fiscal e eu esperava, sinceramente, que esta tivesse mais expans&atilde;o. As Igrejas preferem manter a isen&ccedil;&atilde;o do IVA. Vamos ver o que o futuro nos reserva, a consigna&ccedil;&atilde;o est&aacute; l&aacute; e pode, a meu ver, servir, at&eacute; com retoques, &eacute; quest&atilde;o de fazer os c&aacute;lculos, como j&aacute; foi feito noutros pa&iacute;ses para deixar de haver subsidia&ccedil;&atilde;o indireta do Estado, se viermos a ter problemas com as autoridades europeias.<\/p>\n<p> \tOutra quest&atilde;o &eacute; a do IMI: a isen&ccedil;&atilde;o dos edif&iacute;cios com fins religiosos existe em toda a Europa, que eu conhe&ccedil;a. Isso n&atilde;o me parece problem&aacute;tico.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A Comiss&atilde;o pretende alargar o debate sobre o fen&oacute;meno religioso tamb&eacute;m a quem n&atilde;o pertencer a qualquer comunidade crente?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JVJ<\/em> &#8211; Sim, at&eacute; com pessoas antirreligiosas, porque a liberdade religiosa n&atilde;o &eacute; apenas para os religiosos, &eacute; tamb&eacute;m para os que n&atilde;o t&ecirc;m religi&atilde;o. &Eacute; evidente que n&atilde;o vamos fazer dos nossos col&oacute;quios manifesta&ccedil;&otilde;es antirreligiosas, porque estar&iacute;amos a negar a nossa raz&atilde;o de existir.<\/p>\n<p> \tA Comiss&atilde;o n&atilde;o tem, por si, meios para fazer grandes investiga&ccedil;&otilde;es, mas hoje, nas universidades portuguesas, h&aacute; um interesse renovado por estas mat&eacute;rias, sob o aspeto hist&oacute;rico, filos&oacute;fico, teol&oacute;gico, sociol&oacute;gico. H&aacute; gabinetes de estudos que se ocupam destas mat&eacute;rias, a Universidade Cat&oacute;lica tem centros de estudos, v&aacute;rios, e n&atilde;o se ocupam apenas da religi&atilde;o cat&oacute;lica, mas do fen&oacute;meno religioso em geral. H&aacute; universidades que t&ecirc;m departamentos de Ci&ecirc;ncias das Religi&otilde;es.<\/p>\n<p> \tA Comiss&atilde;o deve p&ocirc;r estas pessoas em contacto, incentiv&aacute;-las. O pr&eacute;mio pode ser uma forma de incentivo, modesta. H&aacute; pouco demos conhecimento a v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es e investigadores uma iniciativa que nasceu na It&aacute;lia, com o objetivo de lan&ccedil;ar uma Academia Europeia de Estudos Religiosos, e entendemos assim a nossa miss&atilde;o: n&atilde;o &eacute; p&ocirc;r-nos aqui com tr&ecirc;s ou quatro pessoas a fazer estudos.<\/p>\n<p> \t<em style=\"text-align: -webkit-right;\">Entrevista conduzida por Oct&aacute;vio Carmo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente da Comiss\u00e3o da Liberdade Religiosa, Jos\u00e9 Vera Jardim, fala \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA das prioridades deste organismo consultivo, do exemplo portugu\u00eas na \u00e1rea do di\u00e1logo entre comunidades crentes e das quest\u00f5es ligadas \u00e0 defesa do direito fundamental da liberdade de culto, assegurados em Portugal pela Lei da Liberdade Religiosa e a Concordata.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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