{"id":7867,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/maria-amelia-carvalheira\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"maria-amelia-carvalheira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/maria-amelia-carvalheira\/","title":{"rendered":"Maria Am\u00e9lia Carvalheira"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o tive a honra de conhecer pessoalmente Maria Am\u00e9lia Carvalheira, mas o Prof. Barata Feyo, meu Mestre na ent\u00e3o Escola Superior de Belas Artes do Porto, que a admirava, teve oportunidade de a ela se referir como \u201cuma mulher de fibra\u201d, com uma grande capacidade de trabalho&#8230; e inteligente. Falava aos seus alunos muitas vezes, elogiando algumas das pe\u00e7as realizadas por Carvalheira, durante o tempo em que com ele contactou. Nota-se em grande parte da sua obra, especialmente nas figuras de maior dimens\u00e3o, a influ\u00eancia e a admira\u00e7\u00e3o pelo Mestre. Talvez seja por tudo isto que eu me encontro aqui a render-lhe a minha homenagem nesta ocorr\u00eancia do seu centen\u00e1rio. Quest\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es que ganham fraternidade pela transmiss\u00e3o de saberes com mestres comuns. Julgo terem todos os artistas pl\u00e1sticos representado a figura de Cristo. A hist\u00f3ria das suas v\u00e1rias figura\u00e7\u00f5es est\u00e1 a\u00ed para contar como cada \u00e9poca, cada conjuntura, cada mentalidade ou cada sensibilidade olhou o centro do mist\u00e9rio, a grandeza de Deus comunicada pela excepcional humanidade. Essas figura\u00e7\u00f5es cr\u00edsticas s\u00e3o sempre confiss\u00f5es mentais, doutrin\u00e1rias e pessoais, fruto de uma escolha ou resultado de uma rejei\u00e7\u00e3o. Gosto do Cristo de Dali. \u00c9 extraordin\u00e1rio como a obra, se colocada no espa\u00e7o da Igreja, inverte a rela\u00e7\u00e3o de significado herdado: N\u00c3O NOS \u00c9 SUPERIOR. Olhamos Cristo de cima para baixo, domin\u00e1mo-lO, envolvemos o nosso olhar em diferente perspectiva. O seu Cristo em descend\u00eancia ser\u00e1 um modo de \u201ccorporizar\u201d a ideia de S. Jo\u00e3o da Cruz? \u00c9 evidente que cada pessoa deve rea-lizar o seu pr\u00f3prio caminho, mas todos n\u00f3s bebemos sempre em qualquer fonte. Picasso, para a sua Guernica, talvez se tenha inspirado no c\u00e9lebre quadro de Goya \u201cOs fuzilamentos do 3 de Maio de 1808\u201d.  Na not\u00e1vel obra de M. Carvalheira tamb\u00e9m existem sombras das fontes. No entanto adivinha-se na sua execu\u00e7\u00e3o a consequ\u00eancia de um sil\u00eancio de f\u00e9 amadurecida e acolhedora das formas da tradi\u00e7\u00e3o. Em tantos anos de trabalho foi criando a sua express\u00e3o pr\u00f3pria e nessa express\u00e3o art\u00edstica ela viveu s\u00f3 \u201cnum mundo\u201d, criando esculturas de grande seriedade, sempre atenta a verdades do reino intemporal. O seu estilo agradou \u00e0 hierarquia e obteve um grande volume de encomendas. Se tudo o que entra nas nossas igrejas deve ser digno do culto, que enorme responsabilidade tem o artista, actualmente&#8230;   Quanto poss\u00edvel tamb\u00e9m a obra deve ser mistag\u00f3gica e iniciar para uma aproxima\u00e7\u00e3o ao verdadeiro mist\u00e9rio, p\u00f4r no caminho da rela\u00e7\u00e3o com o transcendente e n\u00e3o obrigar a ficar no objecto. Lamentavelmente, h\u00e1 representa\u00e7\u00f5es de santos, nas nossas igrejas, que distraem do essencial. A falta de forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 leva a que muita gente entre numa igreja e v\u00e1 direitinha ao santo preferido, sem atender ao sacr\u00e1rio. Este tipo de piedade enfraquece a dignidade da liturgia crist\u00e3 e n\u00e3o deve ser favorecida. Segundo Matisse, o artista tem de ajudar a criar um espa\u00e7o religioso. Colaborar com as comunidades crist\u00e3s requer humildade de quem serve, como em qualquer outro minist\u00e9rio. A ousadia da criatividade, dentro desta atitude de servi\u00e7o \u00e9 um bem enorme para todo o povo de Deus. Para M. A. Carvalheira a figura de Maria, M\u00e3e de Jesus \u2013 sob as invoca\u00e7\u00f5es de Senhora de F\u00e1tima, Senhora das Dores, Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, Senhora de Set\u00fabal, Cora\u00e7\u00e3o de Maria etc. etc. \u2013 ocupa um lugar de honra nas suas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e consegue, em certas pe\u00e7as, n\u00e3o se repetir, o que \u00e9 dif\u00edcil dada a insist\u00eancia do tema. Usa nestas formas umas express\u00f5es de liberdade bastante positivas.  Os variados pres\u00e9pios que criou, indo de encontro ao gosto popular, simplificam as formas, imprimindo um colorido de naturalismo aos gestos e posi\u00e7\u00f5es das figuras. Particularmente conseguido o inclinar de Maria para o Menino, nas figuras do Pres\u00e9pio da Igreja de Nossa Senhora de F\u00e1tima, em Lisboa, ou na curiosidade do anjo, debru\u00e7ado para espreitar o Menino acabado de nascer, ou ainda na centralidade do Menino num baixo-relevo, no qual todos os olhares se dirigem para o Divino Infante. Quase todos os modelos das suas pe\u00e7as de grande porte t\u00eam um \u201car\u201d cl\u00e1ssico, equilibrado, s\u00f3brio e respeitando o material definitivo \u2013 a pedra. O barro cozido ajudou-a a disciplinar o estilo, a dominar os volumes, partindo, com mais \u00e0-vontade para as pe\u00e7as de outra escala e que denotariam fei\u00e7\u00e3o de modernidade. Haveria muito mais a referir, como a sua obra medalh\u00edstica (15 pe\u00e7as), mas n\u00e3o tenho presente a sua produ\u00e7\u00e3o, nem pretendo parecer uma cr\u00edtica de arte que nunca fui. Apenas, na singeleza das palavras, me associo, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do seu nascimento, a esta figura singular do nosso meio art\u00edstico. Termino, dizendo o seguinte, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 artista M. Am\u00e9lia Carvalheira que estamos a homenagear: o tempo se encarregar\u00e1 de confirmar a autenticidade espiritual da sua obra e de avaliar a capacidade para comunicar um Mist\u00e9rio que transcende os tempos, na efemeridade das formas.  Irene Vilar Escultora<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o tive a honra de conhecer pessoalmente Maria Am\u00e9lia Carvalheira, mas o Prof. Barata Feyo, meu Mestre na ent\u00e3o Escola Superior de Belas Artes do Porto, que a admirava, teve oportunidade de a ela se referir como \u201cuma mulher de fibra\u201d, com uma grande capacidade de trabalho&#8230; e inteligente. Falava aos seus alunos muitas vezes, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[181,187,207,246,249,289],"class_list":["post-7867","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-setubal","tag-diocese-do-porto","tag-fatima","tag-liturgia","tag-maria-amelia-carvalheira","tag-presepios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7867"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7867\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}