{"id":7865,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/maria-amelia-carvalheira-a-pintura-das-imagens\/"},"modified":"2019-07-11T15:27:41","modified_gmt":"2019-07-11T14:27:41","slug":"maria-amelia-carvalheira-a-pintura-das-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/maria-amelia-carvalheira-a-pintura-das-imagens\/","title":{"rendered":"Maria Am\u00e9lia Carvalheira &#8211; A pintura das imagens"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>No ano em que se comemora o Centen\u00e1rio de Maria Am\u00e9lia Carvalheira pode afirmar-se que a sua obra ainda n\u00e3o \u00e9 reconhecida pela grande maioria dos crist\u00e3os portugueses, por falta de divulga\u00e7\u00e3o. Conforme se pode constatar nos escaparates das livrarias e das casas de artigos religiosos, e nos respectivos mostru\u00e1rios de artigos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel obter edi\u00e7\u00f5es de postais ou de pagelas com reprodu\u00e7\u00f5es das imagens realizadas pela escultora.<\/p>\n<p>Esta lacuna, \u00e9 tanto ou mais injusta quanto a qualidade da obra religiosa da artista portuguesa ultrapassa largamente a das imagens que s\u00e3o produzidas por autores estrangeiros sem gosto ou qualifica\u00e7\u00e3o, mas que, sendo editados aos milhares, inundam o nosso mercado com produtos menores que pouco podem contribuir para elevar o n\u00edvel cultural e religiosos dos fi\u00e9is. Maria Am\u00e9lia Carvalheira dedicou a sua vida \u00e0 arte sacra, uma express\u00e3o art\u00edstica orientada para a transcend\u00eancia e que, sendo pessoal, se faz comunit\u00e1ria; devemos entender e apreciar a arte da escultora como uma express\u00e3o de f\u00e9, na importante fun\u00e7\u00e3o de ser media\u00e7\u00e3o para o culto. Se a arte contempor\u00e2nea afirma a sua liberdade e autonomia em rela\u00e7\u00e3o a finalidades e a fun\u00e7\u00f5es, a arte que se prop\u00f5e como media\u00e7\u00e3o religiosa, como aquela a que a artista a quem prestamos homenagem se dedicou por voca\u00e7\u00e3o, obriga-se a refer\u00eancias formais e simb\u00f3licas que devem ser identificadoras de sentidos.<\/p>\n<p>A arte de Carvalheira inseriu-se, com coer\u00eancia, na tradi\u00e7\u00e3o da arte crist\u00e3 ao n\u00edvel dos conte\u00fado teol\u00f3gicos e da representa\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica. No dom\u00ednio da pintura das imagens, a artista actualizou os processos e os modelos tradicionais, mantendo-se fiel \u00e0 simbologia das cores. Introduziu inova\u00e7\u00f5es crom\u00e1ticas em iconografias de invoca\u00e7\u00f5es marianas recentes, nomeadamente nas excelentes representa\u00e7\u00f5es monocrom\u00e1ticas do Cora\u00e7\u00e3o Imaculado de Maria e de Nossa Senhora de F\u00e1tima, e em algumas pe\u00e7as de excep\u00e7\u00e3o. Deve destacar-se, entre todas, uma imagem bel\u00edssima de S.Jo\u00e3o de Deus que, sendo t\u00e3o original na forma como na policromia, foi justamente distinguida com um Pr\u00e9mio Manuel Pereira de Escultura, numa exposi\u00e7\u00e3o de Artes Pl\u00e1sticas, em 1949.<\/p>\n<p>Na obra de Carvalheira, a pintura das imagens restringiu-se \u00e0 policromia das formas e dos volumes. No entanto, e como iremos ver, o estilo da policromia adoptado pela escultora e a op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que a informa, influenciaram a qualidade comunicativa das pr\u00f3prias imagens diferenciando-as no conjunto da vasta obra realizada. Uma constante na obra da artista \u00e9 a humanidade das suas representa\u00e7\u00f5es. A cor que reveste as figuras torna-as menos naturalistas e mais densas e pesadas do que as executadas na pedra, o que, por antinomia, parece acentuar a interioridade e a for\u00e7a do mist\u00e9rio que as habita. A densidade humana e espiritual das imagens representadas, torna mais expl\u00edcito o sentido essencial da arte religiosa crist\u00e3, na sua refer\u00eancia ao mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o. O processo criativo da escultora revela uma forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica inicial mais tarde influenciada por valores da est\u00e9tica modernista do seu Mestre, o escultor Barata Feio.<\/p>\n<p>O cunho pessoal da disc\u00edpula parece revelar-se precisamente nas suas terracotas e na respectiva policromia, em pe\u00e7as que fazendo coexistir uma certa ingenuidade popular com valores cl\u00e1ssicos e eruditos, remetem para a tradi\u00e7\u00e3o dos barristas portugueses. As formas simples e hier\u00e1ticas das imagens de Carvalheira, aproximam-se do despojamento expressivo que sempre caracterizou a arte sacra portuguesa. Esta particularidade deve-se, tamb\u00e9m, \u00e0 interioridade das express\u00f5es e \u00e0 imobilidade dos volumes, o que \u00e9 refor\u00e7ado pela pintura na sua aparente pobreza atrav\u00e9s de uma cor s\u00f3bria, sem contrastes nem varia\u00e7\u00f5es. Os tons quentes acentuavam a presen\u00e7a do barro cozido e o parentesco visual deste com a madeira, um material mais nobre com grandes tradi\u00e7\u00f5es no imagin\u00e1rio religioso nacional.<\/p>\n<p>Alguns exemplos de imagens de Maria Helena Carvalheira s\u00e3o decididamente mais pr\u00f3ximos do gosto popular, como se pode ver nos pres\u00e9pios de maiores ou menores dimens\u00f5es, nos quais o colorido \u00e9 muito mais intenso e variado, e onde a express\u00e3o de ternura \u00e9 mais expl\u00edcita. As grandes e as pequenas imagens modeladas em barro e policromadas foram as mais procuradas pela comunidades, revelando-se mais adequadas \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de ser media\u00e7\u00e3o para a ora\u00e7\u00e3o das pessoas e das comunidades, do que as pe\u00e7as esculpidas na pedra, apesar da densidade espiritual destas n\u00e3o ser menor. A paleta utilizada pela artista resumiu-se \u00e0 persist\u00eancia dos ocres, dos vermelhos e dos castanhos, pontuados por alguns verdes e azuis, predominantemente escuros.<\/p>\n<p>As patines comportam-se como uma velatura temporal das imagens, conferindo-lhes a dist\u00e2ncia que \u00e9 pr\u00f3pria dos \u00edcones. Conclui-se que a op\u00e7\u00e3o da artista pela integra\u00e7\u00e3o da cor na escultura correspondeu a uma op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e simb\u00f3lica, visto o estilo da pintura intervir na express\u00e3o das pr\u00f3prias imagens, eliminando, atrav\u00e9s da cor e das patines sombrias, a proximidade das figuras com a representa\u00e7\u00e3o naturalista e com um decorativismo redutor. Esta intencionalidade caracterizou a preciosa contribui\u00e7\u00e3o de Maria Am\u00e9lia Carvalheira na actualiza\u00e7\u00e3o da imagem religiosa em Portugal. Uma contribui\u00e7\u00e3o que foi corajosa e que continua a ser relevante, por constituir uma contra-corrente de qualidade num contexto eclesial pouco informado e pouco exigente.<\/p>\n<p>Tendo surgido em correspond\u00eancia ao seu tempo e como express\u00e3o renovada da f\u00e9, a obra da escultora faz parte do patrim\u00f3nio crist\u00e3o portugu\u00eas, pelo que deve ser conhecida, conservada e divulgada, para que se mantenha viva e actuante. Em\u00edlia Nadal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[119,207,249,285,289],"class_list":["post-7865","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-arte-sacra","tag-fatima","tag-maria-amelia-carvalheira","tag-patrimonio","tag-presepios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7865"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7865\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}