{"id":7795,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-barco-a-pesca-de-vitimas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-barco-a-pesca-de-vitimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-barco-a-pesca-de-vitimas\/","title":{"rendered":"Um barco \u00e0 pesca de v\u00edtimas"},"content":{"rendered":"<p>Da Rebeca da B\u00edblia temos o exemplo da mulher que ama o seu marido, Isaac, e procura proteger os seus filhos g\u00e9meos. No s\u00e9culo XXI outra Rebeca quer matar os filhos dos outros com uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica para que n\u00e3o nas\u00e7am. O acto de abortamento \u00e9, quase sempre, uma trag\u00e9dia pessoal, porque nenhuma mulher gr\u00e1vida decide destruir a outra vida que nela se desenvolve, &#8211; usando, por necessidade e confiadamente, uma parte do seu corpo -, sem um estremecimento de dor, de sofrimento e de culpa moral e porque a rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica entre m\u00e3e e filho \u00e9, desde o in\u00edcio da gravidez, muito forte e est\u00e1 para al\u00e9m de qualquer reflex\u00e3o intelectual. \u00c9 v\u00ednculo biol\u00f3gico, cuja for\u00e7a \u00e9 a da protec\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie no eco-sistema actual. A gravidez cruza, horizontalmente, todas as culturas, das mais primitivas \u00e0s mais elaboradas, est\u00e1 apoiada nos grandes mitos fundacionais e nas narrativas das religi\u00f5es mais antigas que sempre a consideram sagrada. Diariamente, um n\u00famero incont\u00e1vel de mulheres, corajosas e serenas, protegem a sua gravidez e colocam no mundo os novos seres que v\u00e3o manter sobre a Terra, em todas as latitudes e longitudes, esta esp\u00e9cie triunfante que \u00e9 o Homem. As diversas culturas, em especial as de predom\u00ednio masculino, sempre tentam tirar \u00e0 mulher a dignidade suprema de procriar e ser m\u00e3e, quer reduzindo-a a um papel passivo \u2013 a insensata e falsa teoria do hom\u00fanculo, que s\u00f3 o homem produzia e era colocado na mulher para nela se desenvolver \u2013 quer amontoando-as em harens para serem fecundadas pelos seus donos, quer engravidando-as por embuste ou viol\u00eancia. Estes comportamentos, embora n\u00e3o admitidos publicamente nas sociedades ditas desenvolvidas, continuam a estar na base do problema da chamada gravidez indesejada, ou seja, n\u00e3o desejada pela mulher. A Igreja Cat\u00f3lica entendeu e bem que a rela\u00e7\u00e3o humana que pode levar a uma gravidez \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de pessoas livres, iguais em direitos e em deveres, que declaram, livremente, perante Deus em que acreditam, que querem unir-se e permanecer fi\u00e9is uma a outra. Assumem, igualmente, uma paternidade respons\u00e1vel gerando os filhos que, em sua consci\u00eancia moral e recta, possam criar e educar com dignidade. Dito assim parece f\u00e1cil; na realidade concreta dos casais cat\u00f3licos \u00e9, muitas vezes, dif\u00edcil.  Mas uma coisa \u00e9 certa e segura: nunca, em nenhuma circunst\u00e2ncia, o abortamento \u00e9 admitido para solu\u00e7\u00e3o de um problema do casal, seja ele qual for. Assim sendo, um barco, com uma \u201cm\u00e9dica\u201d ignorante e demag\u00f3gica, veio pescar em \u00e1guas erradas. As mulheres cat\u00f3licas que s\u00e3o a maioria silenciosa das mulheres portuguesas n\u00e3o s\u00e3o peixes para o anzol envenenado desta Rebeca e honram os seus compromissos de F\u00e9, gerando os seus filhos com alegria e muito amor. Eu sei que, em Portugal, h\u00e1 franjas da nossa popula\u00e7\u00e3o, em particular nas etnias de imigra\u00e7\u00e3o recente, onde todo o processo de procria\u00e7\u00e3o est\u00e1 perturbado. Promiscuidade sexual, gravidezes ocasionais muitas delas incestuosas, viola\u00e7\u00f5es violentas e brutais de mulheres pouco menos que escravizadas, prostitui\u00e7\u00e3o de adolescentes, fam\u00edlias disfuncionais ou patol\u00f3gicas, mis\u00e9ria por analfabetismo e aus\u00eancia de qualquer prepara\u00e7\u00e3o profissional, machismo desenfreado, no qual a mulher \u00e9 um objecto para usar e deitar fora, etc, etc. Quando neste lodo social emerge uma gravidez, que devia ser uma fonte de alegria e um grito de amor, ela vai ser desprezada como se fosse um fruto apodrecido desde a origem. Solu\u00e7\u00e3o: um abortamento limpo, higi\u00e9nico, imaculado, feito por pessoas competentes para matar beb\u00e9s, seja com p\u00edlula, seja com ferros bem esterilizados e em ass\u00e9pticas salas de partos hospitalares. N\u00f3s, os cat\u00f3licos, n\u00e3o podemos aceitar esta solu\u00e7\u00e3o final como a que foi preconizada para o povo escolhido por Iav\u00e9 para ser luz do Mundo. A miss\u00e3o que nos cabe \u00e9 a de apoiar cada mulher que, no seu desespero, vai decidir fazer-se abortar. Acolher esse desespero, analisar as causas, intervir sobre elas e sobre os seus efeitos, mobilizando os apoios de protec\u00e7\u00e3o social, de suporte das fam\u00edlias dif\u00edceis, de car\u00eancias de habita\u00e7\u00e3o e de trabalho e de interven\u00e7\u00e3o nos bairros problem\u00e1ticos, para que aquele abortamento e todos os outros n\u00e3o aconte\u00e7am e a mulher possa levar at\u00e9 ao fim a sua gravidez. Os cat\u00f3licos podem ser estes mediadores entre as dificuldades e as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, ao n\u00edvel paroquial \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 melhor um grupo de apoio \u00e0s gr\u00e1vidas em dificuldades do que uma equipa de futebol? \u2013 e mobilizando recursos das Juntas de Freguesias e das Autarquias, das Miseric\u00f3rdias, das Organiza\u00e7\u00f5es de Solidariedade Social. J\u00e1 h\u00e1 um banco alimentar contra a fome; porque n\u00e3o um banco social contra as causas de abortamento? Depois do referendo muitas iniciativas nasceram e est\u00e3o solidamente implantadas nos terrenos onde os riscos de abortamento s\u00e3o maiores. Tenho a certeza de que nenhuma mulher resolver\u00e1 fazer-se abortar se n\u00e3o estiver s\u00f3 nem abandonada pelo respons\u00e1vel da gravidez e puder encontrar quem a ou\u00e7a, quem a ajude e quem a ame como a um ser humano desesperado e lhe mostre uma luz azul no fundo do t\u00fanel. Nos casos mais dram\u00e1ticos, para os quais n\u00e3o h\u00e1 nenhuma solu\u00e7\u00e3o, diremos como Madre Teresa de Calcut\u00e1: se n\u00e3o podes criar esse filho deixa que ele nas\u00e7a e n\u00f3s o receberemos no amor de Cristo. Quanto ao barco que se v\u00e1, para \u00e1guas turvadas pela imund\u00edcie, porque l\u00e1 \u00e9 o seu lugar, n\u00e3o \u00e9 em Portugal.  Daniel Serr\u00e3o <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Rebeca da B\u00edblia temos o exemplo da mulher que ama o seu marido, Isaac, e procura proteger os seus filhos g\u00e9meos. No s\u00e9culo XXI outra Rebeca quer matar os filhos dos outros com uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica para que n\u00e3o nas\u00e7am. 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