{"id":7769,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/do-som-a-imagem-2\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"do-som-a-imagem-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-som-a-imagem-2\/","title":{"rendered":"\u00abDo Som \u00e0 Imagem\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Arte Sacra e Etnologia, em F\u00e1tima <!--more--> <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/FotografiaExposi\u00e7\u00e3o.jpg\" align=\"left\"> O Museu de Arte Sacra e Etnologia, dos Mission\u00e1rios da Consolata em F\u00e1tima, ir\u00e1 inaugurar, dia 2 de Outubro, a exposi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria:  \u00abDo Som \u00e0 Imagem\u00bb &#8211; Pintura de Eug\u00e9nia Tomaz. A mostra, composta por 18 obras da pintora, \u00e9 inspirada na vasta obra do compositor franc\u00eas Olivier Messiaen (1908 \u2013 1992) e tamb\u00e9m no recente livro de poemas de Jo\u00e3o Paulo II, intitulado Tr\u00edptico Romano. \u201cA rela\u00e7\u00e3o que existe entre uma obra e outra n\u00e3o deixa de ser surpreendente. Por isso, toda a sequ\u00eancia de imagens \u00e9 orientada segundo as ideias-chave de Tr\u00edptico Romano\u201d \u2013 revela Gon\u00e7alo Cardoso, do referido Museu. O interesse da pintora pela m\u00fasica de Olivier Messiaen deve-se, em primeiro lugar, ao facto de o compositor conjugar na sua obra o fen\u00f3meno som \/ cor.  Os temas que atribui \u00e0s suas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201cprofundamente po\u00e9ticos\u201d, prestando-se a tomar forma pela imagem. \u201cA m\u00fasica \u00e9 um perp\u00e9tuo di\u00e1logo entre o espa\u00e7o e o tempo, entre o som e a cor, di\u00e1logo que termina numa unifica\u00e7\u00e3o: o tempo \u00e9 um espa\u00e7o, o som \u00e9 uma cor, o espa\u00e7o \u00e9 um complexo de tempos sobrepostos, os complexos de sons existem simultaneamente como complexos de cores.\u201d A Exposi\u00e7\u00e3o ir\u00e1 estar patente ao p\u00fablico diariamente (excepto \u00e0 2\u00aa feira) at\u00e9 ao dia 2 de Janeiro com o seguinte hor\u00e1rio: 10h00 \u00e0s 19h00 (Outubro); 10h00 \u00e0s 17h00 (Novembro a Janeiro). Museu de Arte Sacra e Etnologia Rua Francisco Marto, 52 Apt. 5 2496-908 F\u00c1TIMA  Tel. 249 539 470 Fax 249 539 479  Email museuartesacra@consolata.pt   A exposi\u00e7\u00e3o segundo a autora O t\u00edtulo desta exposi\u00e7\u00e3o de pintura, Do Som \u00e0 Imagem, \u00e9 inspirado na vasta obra do Compositor franc\u00eas Olivier Messiaen (1908 \u2013 1992), e tamb\u00e9m no recente livro de poemas de Jo\u00e3o Paulo II, intitulado Tr\u00edptico Romano. A rela\u00e7\u00e3o que existe entre uma obra e outra n\u00e3o deixa de ser surpreendente. Por isso, toda a sequ\u00eancia de imagens \u00e9 orientada segundo as ideias-chave de Tr\u00edptico Romano. Olivier Messiaen nasceu em Avignon no ano de 1908, da poetisa C\u00e9cile Sauvage. Aos onze anos de idade entra para o Conservat\u00f3rio em Paris. \u00c9 nomeado em 1931, com apenas 23 anos, titular do \u00f3rg\u00e3o da Igreja da Sainte-Trinit\u00e9, em Paris. Este \u00f3rg\u00e3o foi adaptado \u00e0 especificidade da m\u00fasica de Messiaen. Em 1936 \u00e9 nomeado professor na escola normal de m\u00fasica e na Schola Cantorum, uma fun\u00e7\u00e3o que continua a exercer no Conservat\u00f3rio de Paris, depois de ter sido libertado do campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi de G\u00f6rlitz (como prisioneiro de guerra), em 1942. O meu interesse, como pintora, pela m\u00fasica de Olivier Messiaen deve-se, em primeiro lugar, ao facto de o compositor conjugar na sua obra o fen\u00f3meno som \/ cor. Os temas que atribui \u00e0s suas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o profundamente po\u00e9ticos, prestando-se a tomar forma pela imagem. \u201cA m\u00fasica \u00e9 um perp\u00e9tuo di\u00e1logo entre o espa\u00e7o e o tempo, entre o som e a cor, di\u00e1logo que termina numa unifica\u00e7\u00e3o: o tempo \u00e9 um espa\u00e7o, o som \u00e9 uma cor, o espa\u00e7o \u00e9 um complexo de tempos sobrepostos, os complexos de sons existem simultaneamente como complexos de cores. O m\u00fasico que pensa, v\u00ea, entende, fala, por meio destas no\u00e7\u00f5es fundamentais, pode em certa medida, aproximar-se da transcend\u00eancia.\u201d  Messiaen foi sempre um \u201ccat\u00f3lico de f\u00e9 convicta, assumida e inabal\u00e1vel\u201d apesar de ter nascido de pais n\u00e3o crentes e de ter vivido \u201cnuma sociedade de envolvente agnosticismo\u201d. Deve-se \u00e0 genialidade do seu talento art\u00edstico esta aproxima\u00e7\u00e3o aos mist\u00e9rios da F\u00e9 Crist\u00e3. O compositor trabalhou muitos temas com base nos sons da natureza (sobretudo o canto dos p\u00e1ssaros, que ele considerava como a visibilidade dos anjos na terra). Inspirou-se tamb\u00e9m em muitos temas b\u00edblicos, com especial prefer\u00eancia pela vis\u00e3o escatol\u00f3gica do Apocalipse. \u201c O Apocalipse descreve a Cidade Santa com uma profus\u00e3o de cores, tema ideal para o m\u00fasico colorista, que usou os instrumentos espec\u00edficos (&#8230;) para pintar a policromia apocal\u00edptica\u201d . Um dos \u201cdramas\u201d de Olivier Messiaen era precisamente a dificuldade em fazer entender a exist\u00eancia de cores na sua m\u00fasica. Esta rela\u00e7\u00e3o som \/ cor \u00e9 ainda considerada um fen\u00f3meno pouco comum e de dif\u00edcil compreens\u00e3o. \u201c&#8230;ouvindo os sons, eu vejo intelectualmente as cores. Digo-o ao p\u00fablico, repito-o \u00e0 cr\u00edtica, expliquei aos meus alunos, mas ningu\u00e9m me acredita (&#8230;) os ouvintes compreendiam mas n\u00e3o viam nada\u201d.  Por este motivo o compositor privilegia os sentidos do ouvido e da vis\u00e3o. Abre, neste sentido, possibilidades a uma liga\u00e7\u00e3o futura entre a sua m\u00fasica e a pintura. \u201cN\u00e3o se trata apenas de uma codifica\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos (&#8230;) mas de uma transfer\u00eancia ps\u00edquica de sensa\u00e7\u00f5es: Messiaen ouve sons e percebe cores. \u00c9 como se fosse dotado de um transformador mental da banda de frequ\u00eancias ac\u00fasticas no espectro de frequ\u00eancias \u00f3pticas\u201d.  Ao escutar e captar a profundidade teol\u00f3gica e religiosa dos temas de Messiaen podemos levantar a quest\u00e3o da experi\u00eancia m\u00edstica na vida do compositor.  \u201cA antropologia teol\u00f3gica distingue, neste \u00e2mbito, tr\u00eas formas de percep\u00e7\u00e3o ou \u201cvis\u00e3o\u201d: a vis\u00e3o dos sentidos, ou seja, a percep\u00e7\u00e3o externa corp\u00f3rea; a percep\u00e7\u00e3o interior; e a vis\u00e3o espiritual (Visio sensibilis, imaginativa, intellectualis).\u201d  Ser\u00e1, talvez, neste sentido que Messiaen classifica os tr\u00eas tipos de m\u00fasica; a m\u00fasica lit\u00fargica, a m\u00fasica religiosa e a m\u00fasica colorida. As duas primeiras valem para o tempo \u201cconvocam os sentidos\u201d, sendo a m\u00fasica lit\u00fargica exclusivamente dependente do culto; ela celebra Deus na Igreja. A m\u00fasica religiosa atinge e une todos os tempos porque toca a mat\u00e9ria e o esp\u00edrito e faz percepcionar Deus em tudo. Por\u00e9m, a m\u00fasica colorida, refere-se \u201c\u00e0 contempla\u00e7\u00e3o real, \u00e0 vis\u00e3o beat\u00edfica depois da morte. (&#8230;) a m\u00fasica colorida produz o mesmo efeito dos vitrais e das ros\u00e1ceas da Idade M\u00e9dia: trazem-nos o deslumbramento\u201d . Deve-se a isto a \u201cestranheza\u201d dos sons de Messiaen. Ao tratar-se de uma percep\u00e7\u00e3o intelectual, e, portanto, pura, brilhante, essencial \u2013 sem caracter\u00edsticas discursivas ou narrativas -, ele tenta em simult\u00e2neo transmitir formas. \u201cFiel \u00e0 est\u00e9tica debussysta (&#8230;de Debussy, que Messiaen admira como um dos maiores coloristas musicais&#8230;) Messiaen usa o pentagrama como uma tela, onde as pinceladas sonoras modelam ao mesmo tempo contornos lineares e um espa\u00e7o colorido\u201d . \u00c9 precisamente aqui que entra a rela\u00e7\u00e3o com a minha pintura. Apesar desta liga\u00e7\u00e3o, que estabele\u00e7o, ser sobretudo intuitiva e imaginativa, assenta na profunda convic\u00e7\u00e3o de que o som necessita da imagem para se completar. Em Tr\u00edptico Romano, Jo\u00e3o Paulo II \u201cgrita\u201d esta realidade. \u201cInvoco-vos \u201cvidentes\u201d de todos os tempos. \/ A vis\u00e3o espera a imagem (&#8230;) \/ Desde que o Verbo se fez carne, a vis\u00e3o, \/ desde ent\u00e3o, espera.\u201d Na minha pintura tenho como objectivo uma certa aproxima\u00e7\u00e3o ao universo dos \u00cdcones. Penso que a linguagem musical de Olivier Messiaen est\u00e1 muito pr\u00f3xima dos c\u00f3digos de linguagem do \u00cdcones. \u201cAs formas e as cores do \u00cdcone n\u00e3o s\u00e3o subjectivas. Elas revelam as formas e as cores da cria\u00e7\u00e3o ideal, unidas pelo Criador; elas manifestam visivelmente a Gl\u00f3ria de Deus j\u00e1 presente neste mundo.\u201d  Poder\u00edamos ser levados a considerar que a dificuldade da m\u00fasica do compositor se deve ao facto de ser demasiado intelectual e, portanto, abstracta. O que acontece na realidade \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de imagens ao mais elevado n\u00edvel intelectual. \u201cNuma \u00e9poca em que triunfa a arte abstracta, Messiaen escreve m\u00fasica figurativa; (&#8230;) e, antes como depois do Conc\u00edlio Vaticano II, professa a consagra\u00e7\u00e3o do mundo a Deus!\u201d  Para o enriquecimento da sua linguagem musical Messiaen, n\u00e3o se limitou \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de uma \u00fanica cultura. Ele tem uma vis\u00e3o universal da realidade. \u201c&#8230; a palavra m\u00fasica deriva da express\u00e3o indo-europeia Men que designa os movimentos do esp\u00edrito\u201d Por isso ele vai buscar elementos aos ritmos provinciais hindus, \u00e0 m\u00e9trica grega, \u00e0 natureza, \u00e0 cosmologia e \u00e0 teoria da relatividade. A \u201cvis\u00e3o\u201d n\u00e3o pode ser remetida para o dom\u00ednio subjectivo e individual. Ela \u00e9 patrim\u00f3nio comum de todos n\u00f3s, e s\u00f3 se conhece partilhando. \u201cDeus \u00e9 totalmente diferente, mas Ele \u00e9 suficientemente poderoso para se nos revelar; pois criou as suas criaturas de modo a serem capazes de o \u201cver\u201d e amar.\u201d  Isto significa que com a Encarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus na hist\u00f3ria da humanidade, abriram-se possibilidades aos sentidos (corp\u00f3reos e espirituais) de modo a percepcionar e a fazer a experi\u00eancia de Deus nesta realidade vis\u00edvel em ordem \u00e0 Eternidade. \u00c9 esta a transcend\u00eancia da m\u00fasica em Messiaen.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Arte Sacra e Etnologia, em 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