{"id":749,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/voluntariado-guineense\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"voluntariado-guineense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/voluntariado-guineense\/","title":{"rendered":"Voluntariado guineense"},"content":{"rendered":"<p>Miguel de Barros &#8211; Tiniguena (ONGD guineense) <!--more--> Voluntariado guineense H\u00e1 oito anos, participei numa visita de estudos ao sul da Guin\u00e9-Bissau, concretamente ao Rio Grande de Buba e a Lagoa de Cufada. \u00c9ramos uma dezena e meia de adolescentes guineenses, de diferentes escolas secund\u00e1rias da capital, Bissau, que queriam aproveitar para entrar na aventura de conhecer algo desafiador e diferente. A experi\u00eancia foi contagiante de tal maneira que, depois de uma semana, foi-nos dif\u00edcil o regresso. Eram manchas de florestas sagradas, com v\u00e1rios tipos de animais, lagoa com \u00e1gua mansa; uma paisagem invej\u00e1vel com bando de aves \u00e0 volta, \u201ctabancas\u201d com casas cobertas de palha e gente acolhedora. Mas havia crian\u00e7as que caminhavam vinte a trinta quil\u00f3metros para ir a escola, as quais nem tinham paredes e tectos, pois, eram debaixo das mangueiras; os professores faziam um tremendo esfor\u00e7o para explicar a mat\u00e9ria na l\u00edngua da etnia local, depois em crioulo e por \u00faltimo em portugu\u00eas, sem nenhum manual. As crian\u00e7as iam para escola sem comer e depois das aulas, tinham que ir para as \u201cbolanhas\u201d ajudar os pais na lavoura; as raparigas eram poucas, na medida em que ficavam em casa a aprender tarefas dom\u00e9sticas. No final da visita, o choque foi t\u00e3o terr\u00edvel que ficamos surpreendidos, tendo em conta a riqueza natural, cultural e a pobreza intelectual a coabitarem no mesmo local. Question\u00e1vamo-nos uns aos outros, sem saber a resposta. No mesmo pa\u00eds, os nossos colegas vivem e convivem com estas dificuldades, enquanto que n\u00f3s \u00edamos para a escola limpos e bonitos de carros, com os nossos livrinhos, t\u00ednhamos tempo para brincar e passear?!\u2026  Contudo, fizemos v\u00e1rias ac\u00e7\u00f5es de sensibiliza\u00e7\u00e3o no regresso a Bissau, nas nossas escolas, r\u00e1dios, televis\u00e3o e depois tivemos a honra de receber em nossas casas os nossos colegas e amigos que t\u00ednhamos conhecido no interior do pa\u00eds, durante uma semana. No final, realiz\u00e1mos campanhas de angaria\u00e7\u00e3o de fundos, que serviu para a constru\u00e7\u00e3o de uma escola de ensino prim\u00e1rio, numa das localidades visitadas. Sentimo-nos t\u00e3o realizados e orgulhosos!  Mas a verdade ser\u00e1 dizer que neste momento, o diagn\u00f3stico do ensino guineense revela que o sistema est\u00e1 gravemente doente! O analfabetismo est\u00e1 na ordem de 63 %. O n\u00edvel acad\u00e9mico dos professores tamb\u00e9m \u00e9 uma das preocupa\u00e7\u00f5es, sendo 40,48% sem forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica (n\u00e3o t\u00eam diplomas). A classe docente \u00e9 sin\u00f3nimo de pobreza e desprezo, chegando ao ponto de ficar seis meses sem receber o magro sal\u00e1rio que oscila entre 12 mil e 15 mil Fcfa (entre 18 e 24 \u20ac), motivando paralisa\u00e7\u00f5es constantes das aulas durante v\u00e1rios. Em Bissau, h\u00e1 uma prolifera\u00e7\u00e3o de escolas privadas, institu\u00eddas pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, depois da liberaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas sem poder de fiscaliza\u00e7\u00e3o deste, acabando por funcionar como escolas comerciais. Contudo, a popula\u00e7\u00e3o, consciente dessa dura realidade, come\u00e7ou a organizar com apoio de algumas ONGs Escolas Populares, existindo actualmente 360. Segunda a representa\u00e7\u00e3o da UNICEF em Bissau, no ano transacto, 53% de crian\u00e7as com idade para a prim\u00e1ria, frequentavam essas escolas, sem qualquer financiamento do governo e, 88% delas passaram de ano, apresentando mais 20% da taxa de sucesso do que registada nas escola p\u00fablicas estatais. Os pais desembolsam entre 1000 e 2000 Fcfa (equivalente a 1,5 a 3 \u20ac) o que serve para pagar os professores (na sua maioria jovens que conclu\u00edram o liceu) um sal\u00e1rio que oscila entre os 25 mil e 35 mil Fcfa (entre 38 e 53 \u20ac).  Depois daquela experi\u00eancia \u00fanica, a Tiniguena (organiza\u00e7\u00e3o guineense que promove anualmente estas visitas de estudo) continuou e continua a proporcionar \u00e0s crian\u00e7as de v\u00e1rias sensibilidades a conhecerem as realidades do seu pa\u00eds, incutindo-lhes a import\u00e2ncia da gest\u00e3o dos recursos naturais e humanos como uma op\u00e7\u00e3o dur\u00e1vel e sustent\u00e1vel Hoje em dia, investir na Guin\u00e9-Bissau, ou melhor, ter um projecto de constru\u00e7\u00e3o e a longo prazo no contexto que a Guin\u00e9-Bissau atravessa, como o sector de ensino exige, \u00e9 uma prova e coragem c\u00edvica, paix\u00e3o, determina\u00e7\u00e3o e de aposta no futuro e \u00e9 preciso ter e saber a arte de o fazer! E, a Tiniguena recorre ao seu programa de Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento, atrav\u00e9s da vertente Ambiental, para nos permitir conhecer, amar e proteger a Guin\u00e9-Bissau.  Transversalmente, qualquer ac\u00e7\u00e3o educativa \u00e9 marcada por m\u00e9todos de trabalho em equipa, pela multiculturalidade, pela igualdade entre os sexos (aplicando, quando necess\u00e1rio, discrimina\u00e7\u00e3o positiva), pela toler\u00e2ncia \u00e0 ambiguidade, pelo valor da diferen\u00e7a e do alternativo atrav\u00e9s de interc\u00e2mbio de grupos de adolescentes e jovens rurais-urbanos, no \u00e2mbito da visita de estudos, local privilegiado de encontro de culturas, tradi\u00e7\u00f5es e modernidades que coadunam com a cultura guineense. Em termos pr\u00e1ticos, a ac\u00e7\u00e3o tem de reflectir todos estes valores, sendo estes que d\u00e3o consist\u00eancia aos projectos no futuro, atrav\u00e9s da Gera\u00e7\u00e3o Nova da Tiniguena-GNT (grupo de jovens volunt\u00e1rios que participaram nas visitas de estudo da Tiniguena) e \u00e0s mudan\u00e7as procuradas na sociedade em que se v\u00e3o atingindo pela Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento, para os direitos humanos, para a cidadania e respeito pelo ambiente. Em termos conclusivos, as forma\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbios realizados contribu\u00edram para refor\u00e7ar as compet\u00eancias de sucessivas gera\u00e7\u00f5es de alunos, futuros quadros do pa\u00eds, em termos de capacidade operativa da organiza\u00e7\u00e3o, sobretudo depois do conflito pol\u00edtico-militar de Junho de 98-99.  Miguel de BARROS Tiniguena (ONGD guineense) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel de Barros &#8211; Tiniguena (ONGD guineense)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[154,189,193,219,329],"class_list":["post-749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-crianca","tag-direitos-humanos","tag-educacao","tag-guine-bissau","tag-voluntariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}