{"id":748,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/branco-no-preto-experiencia-de-aculturacao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"branco-no-preto-experiencia-de-aculturacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/branco-no-preto-experiencia-de-aculturacao\/","title":{"rendered":"Branco no preto: experi\u00eancia de acultura\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ana Teresa Forjaz &#8211; Instituto de Solidariedade e Coopera\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria  <!--more--> Branco no preto: experi\u00eancia de acultura\u00e7\u00e3o Fins de Julho de 2002, um avi\u00e3o leva-me para \u00c1frica, mais precisamente para a Guin\u00e9-Bissau. A mim e a outros cinco volunt\u00e1rio do ISU (Instituto de Solidariedade e Coopera\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria), com quem preparei um projecto de voluntariado para a coopera\u00e7\u00e3o, com a dura\u00e7\u00e3o de dois meses. A expectativa era grande e apesar de toda a forma\u00e7\u00e3o recebida e prepara\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 diferen\u00e7a de culturas, o choque cultural n\u00e3o deixa de l\u00e1 estar. Sensa\u00e7\u00f5es estranhas percorreram a nossa estadia, pois se em Portugal um africano \u00e9 algu\u00e9m diferente, em \u00c1frica a diferen\u00e7a reside no europeu. E constantemente somos lembrados dessa diferen\u00e7a, justamente. Recordo-me de ter passeado pela primeira vez em Bula, vila que nos acolheu, e de uma crian\u00e7a ter gritado \u201cBranco, branco!\u201d quando nos viu passar \u00e0 beira da estrada. Felizmente estava com o Pedro, que n\u00e3o era novato nestas lides, e muito naturalmente respondeu \u00e0 crian\u00e7a \u201cPreto, preto!\u201d. E ali se desmistificou a diferen\u00e7a da nossa cor.  Durante o projecto necessit\u00e1mos de nos deslocar v\u00e1rias vezes a Bissau. O percurso era feito atrav\u00e9s da rede local de transportes p\u00fablicos, isto \u00e9, uma \u201ccandonga\u201d (carrinha ou cami\u00e3o de caixa aberta) at\u00e9 Jo\u00e3o Landim, a canoa para atravessar o rio Mansoa, e outra candonga para Bissau. As pessoas estranhavam n\u00f3s irmos l\u00e1 atr\u00e1s no meio dos passageiros todos, em vez de pagarmos mais caro e apanharmos um carro privado ou irmos no lugar da frente. Mas sempre fomos acarinhados, e prontamente nos indicavam onde t\u00ednhamos que p\u00f4r as mochilas, quanto e quando t\u00ednhamos que pagar, certificando-se que n\u00e3o pag\u00e1vamos mais do que o pre\u00e7o normal, e nos indicavam onde dev\u00edamos sair. A no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o que traz\u00edamos de Lisboa foi rapidamente substitu\u00edda por uma bem mais estreita e onde cabe sempre mais um. Por vezes era exageradamente estreita e recordo-me daquela viagem em que num autocarro de 17 lugares viaj\u00e1vamos cerca de 50 pessoas, uns por cima dos outros, ao colo. Numa situa\u00e7\u00e3o destas, ou se ri ou se chora. Consegui rir, houve quem n\u00e3o. Mas o dia-a-dia era passado em Bula, para uns, entre a casa e as aulas aos professores, e para outros, na biblioteca, a organizar livros e a dar forma\u00e7\u00e3o aos bibliotec\u00e1rios. Todos os dias pass\u00e1vamos no mercado a comprar p\u00e3o e algo mais para o almo\u00e7o ou jantar. Lembro-me que procur\u00e1vamos n\u00e3o exibir a quantidade de comida que compr\u00e1vamos, pois t\u00ednhamos consci\u00eancia que fam\u00edlia nenhuma comprava seis p\u00e3es todos os dias, como n\u00f3s o faz\u00edamos. Nestas idas era frequente encontrarmos os professores a quem d\u00e1vamos aulas, que orgulhosamente nos cumprimentavam, ou acompanhavam-nos em parte do trajecto. Pelo caminho \u00edamos conversando, comparando viv\u00eancias e a no\u00e7\u00e3o que temos das coisas que nos rodeiam. Por vezes, e segundo o costume guineense, passavam \u00e0 tardinha pela nossa casa e ali fic\u00e1vamos a conversar \u00e0 porta de casa, e mesmo que nada houvesse para dizer, a companhia \u00e9 coisa importante, nem que seja para ver em conjunto, quem passa na estrada.  Nos \u00faltimos dias destes dois meses ricos em trabalho, amizades e acultura\u00e7\u00e3o, recordo-me que um grupo de crian\u00e7as avistou-nos com as nossas m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas. Hist\u00e9ricos de alegria, correram para n\u00f3s, pedindo que lhes tir\u00e1ssemos uma fotografia. Mas ao inv\u00e9s do habitual \u201cBranco, branco!\u201d desta vez, um deles gritou \u201cBranco, preto, branco, preto\u201d e senti-me aceite, no meio da diferen\u00e7a. Ana Teresa Forjaz Instituto de Solidariedade e Coopera\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria (ONGD portuguesa <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Teresa Forjaz &#8211; Instituto de Solidariedade e Coopera\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,154,206,219,314,329],"class_list":["post-748","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-crianca","tag-familia","tag-guine-bissau","tag-solidariedade","tag-voluntariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/748\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}