{"id":746,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/abstinencia-quaresmal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"abstinencia-quaresmal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abstinencia-quaresmal\/","title":{"rendered":"Abstin\u00eancia quaresmal?"},"content":{"rendered":"<p>Catarina Lopes &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Evangeliza\u00e7\u00e3o e Culturas <!--more--> Abstin\u00eancia quaresmal?  &#8211; Quantas vezes comem por dia? &#8211; Uma. &#8211; Quando comem carne? &#8211; Durante o choro (celebra\u00e7\u00e3o festiva pela morte de algu\u00e9m) &#8211; Ent\u00e3o j\u00e1 fazem abstin\u00eancia! A abstin\u00eancia significa mudar de vida, contribuir para a qualidade da vida na tabanca.  Missa na tabanca de Curene Aproxima-se timidamente do professor, passos pequenos e lentos, olhos cabisbaixos, entregando-lhe uma moeda de 100 CFA (corresponde a 15 c\u00eantimos), baixinho diz-lhe ao ouvido: Misti caneta (Quero uma caneta). O professor tira do arm\u00e1rio da escola uma; o pequeno guarda-a como se de um tesouro se tratasse. A aquisi\u00e7\u00e3o de caneta, l\u00e1pis, borracha ou caderno constitui um bem precioso, de tal modo que as crian\u00e7as, por vezes, embrulham os cadernos em papel de jornal para os proteger. Como n\u00e3o deixam de ser crian\u00e7as como tantas outras, as folhas est\u00e3o dobradas, pintadas de p\u00f3 e n\u00f3doas, desleixes e brincadeiras pr\u00f3prios da idade. Entre as aulas e os recreios improvisados permanentemente, \u00e9-lhes exigido que ajudem na bolanha, no cultivo da terra: se for menina acrescenta-se-lhe o cuidado da casa. \u00c9 por isso que a taxa de analfabetismo e de desist\u00eancia escolar (sobretudo na 3\u00aa e 4\u00aa classes) sejam mais acentuadas no sexo feminino. Mas \u00e9 \u00f3bvio que quatro paredes e um tecto de zinco n\u00e3o fazem de uma casa uma escola; um caderno e um l\u00e1pis n\u00e3o faz da pessoa que o possui estudante; o dom\u00ednio dos livros n\u00e3o faz do indiv\u00edduo um professor. Quando se pensa em ajudar em \u00c1frica, o procedimento passa por uma listagem de materiais, sua consequente aquisi\u00e7\u00e3o e apoio econ\u00f3mico. No entanto, e no caso da Guin\u00e9-Bissau, o que se tem verificado \u00e9 que a d\u00e1diva imediata e gratuita traz consigo mais problemas e depend\u00eancias, chegando a atrapalhar qualquer possibilidade de desenvolvimento. Assim, a ajuda constitui sempre um pau de dois gumes: por um lado, necessita-se dela; por outro, a sua m\u00e1 gest\u00e3o pode trazer mais malef\u00edcios do que potencialidades.  Afastadas da pra\u00e7a (da cidade), as escolas de tabanca sofrem as privacidades do interior. O isolamento geogr\u00e1fico, social e cultural excluem as popula\u00e7\u00f5es do conhecimento, da vida. Conscientes das suas dificuldades (econ\u00f3micas, geogr\u00e1ficas \u2013 para chegar ao liceu muitos jovens andam uma a duas horas a p\u00e9), as comunidades solicitaram o apoio das Miss\u00f5es, as quais em colabora\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o Guineense, regulamentaram a sua actividade educativa atrav\u00e9s de regimes de auto-gest\u00e3o, procurando proporcionar a educa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica das crian\u00e7as em idade escolar, privilegiando as crian\u00e7as do interior, e fazer com que a educa\u00e7\u00e3o seja uma responsabilidade de todos. Criaram-se comit\u00e9s de tabanca, de pais\/encarregados de educa\u00e7\u00e3o, de alunos e professores de modo a que todos reflictam sobre a auto-subsist\u00eancia da escola, as dificuldades e sucessos na aprendizagem dos alunos, a forma\u00e7\u00e3o complementar dos professores. Suplantando a instabilidade pol\u00edtica do pa\u00eds, as escolas comunit\u00e1rias possuem um fundo \u2013 obtido atrav\u00e9s da venda de produtos agr\u00edcolas, produzidos nas hortas da escola e da comunidade e do pagamento da propina e da matr\u00edcula trimestral. Este dinheiro permite o pagamento de um subs\u00eddio aos professores, garantindo-lhes a sua subsist\u00eancia e, simultaneamente, evitando que fa\u00e7am greves, bem como para necessidades materiais da escola.  Na zona de Mansoa, das 8 escolas comunit\u00e1rias, apenas 2 situam-se junto a estrada, as restantes exigem que se v\u00e1 pequenos caminhos de dif\u00edcil (quase imposs\u00edvel) acesso durante a \u00e9poca das chuvas. Alguns professores vivem nas pr\u00f3prias aldeias, em casas constru\u00eddas pela comunidade e com o apoio da Miss\u00e3o, pois as dist\u00e2ncias revelam-se contraproducentes durante a semana. A escola mais distante do centro da cidade fica a 30 Km, sendo a mais pr\u00f3xima a 10 Km. Para al\u00e9m da dist\u00e2ncia, os professores confrontam-se com outros problemas: o da l\u00edngua. A popula\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de n\u00e3o falar o portugu\u00eas, n\u00e3o domina o pr\u00f3prio crioulo, o que dificulta novamente o acesso \u00e0s letras e aos n\u00fameros. A tend\u00eancia neste quadro \u00e9 de os jovens migrarem para o mundo ocidental mais pr\u00f3ximo: a cidade de Mansoa ou, j\u00e1 mais longe, Bissau. \u00c9 nesta confus\u00e3o entre o tradicional e o moderno, entre a falta de estabilidade pol\u00edtica do pa\u00eds e a uma descren\u00e7a da pr\u00f3pria esperan\u00e7a que a quest\u00e3o se coloca: para qu\u00ea estudar? Para muitos, a escola \u00e9 uma realidade long\u00ednqua, j\u00e1 que as fam\u00edlias numerosas n\u00e3o conseguem suportar as despesas. Assim entre rapazes e raparigas d\u00e1-se primazia aos primeiros; entre rapazes, geralmente o mais fraco fisicamente estuda; o mais forte ajuda nos trabalhos agr\u00edcolas.  Mas n\u00e3o s\u00f3 de pouco carece a Guin\u00e9, \u00e0s vezes a aus\u00eancia imp\u00f5e-se com excessiva naturalidade, dificultando o ensino. Por incr\u00edvel que possa parecer, n\u00e3o existe ard\u00f3sia no territ\u00f3rio, logo n\u00e3o existem quadros, sua aquisi\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser feita no estrangeiro. Pode-se sempre improvisar, inventar metodologias de trabalho, pois djito tem qui tem (tem de haver jeito, tudo se resolve). Mas o giz gasta-se mais facilmente, a legibilidade dos primeiros contactos com as letras e os n\u00fameros dificultados, acentuando o des\u00e2nimo das m\u00e3os habituadas ao arado, a pilar o arroz. A lista de necessidades \u00e9 infind\u00e1vel, a filosofia de trabalho n\u00e3o visa a d\u00e1diva gratuita, pois a pr\u00e1tica no terreno revela que a participa\u00e7\u00e3o da comunidade na obten\u00e7\u00e3o dos fundos produz mais frutos a m\u00e9dio e longo prazos. Os conflitos de Junho de 1998 e de 22 de Novembro de 2000 aniquilaram substancialmente a esperan\u00e7a, a cren\u00e7a em melhores dias. Aqui o carpe diem (aproveita o dia) \u00e9 deturpado, vive-se cada dia porque o amanh\u00e3 pode n\u00e3o ser dia.   Catarina Lopes  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catarina Lopes &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Evangeliza\u00e7\u00e3o e Culturas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[101,154,168,193,206,219,261,91],"class_list":["post-746","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-africa","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-educacao","tag-familia","tag-guine-bissau","tag-missoes","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/746\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}