{"id":7326,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/cursilho-de-cristandade-celebram-60-anos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"cursilho-de-cristandade-celebram-60-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cursilho-de-cristandade-celebram-60-anos\/","title":{"rendered":"Cursilho de Cristandade celebram 60 anos"},"content":{"rendered":"<p>Completam-se hoje 60 anos sobre o final do primeiro Cursilho de Cristandade da hist\u00f3ria. O evento teve lugar em Cala Figuera de Santiny\u00ed, Maiorca, entre 20 e 23 de Agosto de 1944. Nesta ocasi\u00e3o, apresentamos o testemunho de Salvador Escribano Hern\u00e1ndez, participante no primeiro cursilho.  \u201cAlgumas palavras pr\u00e9vias: Quando, por iniciativa de Eduardo Bonn\u00edn e am\u00e1vel convite de Francisco Oliver, ambos destacados dirigentes de Palma de Maiorca e de minha terra natal \u2013 Felanitx \u2013, respectivamente, assisti a esse \u201ccursilho\u201d do chal\u00e9 de Cala Figuera Santiny\u00ed, em Agosto de 1944, juntamente com mais treze jovens, nunca imaginei \u2013 nem ningu\u00e9m podia imaginar \u2013 a imprevis\u00edvel resson\u00e2ncia que essa singular experi\u00eancia teria no Mundo, os milh\u00f5es de pessoas que, a partir da\u00ed, viveriam uma experi\u00eancia semelhante que viria a transformar radicalmente as suas vidas, e menos ainda que passados sessenta anos, eu estaria aqui, perante v\u00f3s, esquadrinhando os empoeirados arquivos da minha oxidada mem\u00f3ria, procurando encontrar algo daquela viv\u00eancia \u00edntima que possa partilhar convosco. H\u00e1-de ser importante, j\u00e1 que amigos meus de pa\u00edses distantes e agora da minha pr\u00f3pria diocese, me pedem que vos fale do que foi o Cursilho de Cala Figuera. N\u00e3o creio ser a pessoa mais indicada. Mas sendo dos poucos que sobrevivem e n\u00e3o tendo voc\u00eas \u00e0 m\u00e3o mais ningu\u00e9m nem melhor, n\u00e3o vos resta, nem me resta a mim, outra solu\u00e7\u00e3o. Alguns pormenores esva\u00edram-se, perderam-se algures com o passar e o peso dos anos. Outros conservam-se, a\u00ed est\u00e3o, intactos; tenho-os claros na pr\u00f3pria alma como se tivessem acontecido ontem. \u00c9 destas, das recorda\u00e7\u00f5es que perduram e se mant\u00eam frescas que vos falarei. Assim sendo, e se n\u00e3o me levam a mal, gostaria de come\u00e7ar por falar um pouco de mim, da minha pequena hist\u00f3ria; talvez assim possais ter uma ideia mais clara e real daquilo que o Cursilho de Cala Figuera foi e significou para um desses catorze jovenzinhos que, sem o saber, assistiu ao seu encontro com a Hist\u00f3ria, naquele 20 de Agosto de 1944. A minha pequena hist\u00f3ria Provenho duma fam\u00edlia modesta e n\u00e3o numerosa, cujas ra\u00edzes se perdem na Prov\u00edncia de Salamanca, ali por Castela a Velha. Obrigados pelas circunst\u00e2ncias, os meus pais, rec\u00e9m casados, emigraram para Felanitx em 1921, cidade em que o meu progenitor foi colocado em recompensa dos ferimentos sofridos ao participar na Guerra del Riff, no norte de \u00c1frica, quando Espanha tinha o protectorado de Marrocos. De meus av\u00f3s apenas sei que os paternos se chamavam Josefa Martinez e Salvador Escribano Hern\u00e1ndez, e os maternos Bonif\u00e1cia Martin e Romualdo Hern\u00e1ndez. Doutros familiares n\u00e3o resta mais que uma vaga recorda\u00e7\u00e3o. Meus pais: Antonio Escribano Martinez (1900-1977) e Valentina Hern\u00e1ndez Martin (1901-1982). Ele, um homem trabalhador e af\u00e1vel, de contrastante temperamento e nervos \u00e0 flor da pele. Ela, uma mulher pac\u00edfica, dona de casa, amiga de ajudar, sempre dependente dos filhos e das tarefas dom\u00e9sticas. A sua preocupa\u00e7\u00e3o foi criar-nos e fazer-nos felizes; foi ela quem cuidou de que n\u00e3o nos faltasse forma\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o religiosas. Fomos tr\u00eas irm\u00e3os: Pedro (1939-), o mais novo, Josefa (1931-1934), a do meio, falecida; e eu, Salvador, o mais velho dos tr\u00eas. O meu nome completo \u00e9 SALVADOR ESCRIBANO HERN\u00c1NDEZ, nascido a um de Setembro de 1929, na localidade de Felanitx, situada a Sul da Ilha, a 50 Kms de Palma de Maiorca, a 10 de Santiny\u00ed (Cala Figuera). A minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia decorreram de forma tranquila e feliz, por vezes sacudidas pelos sobressaltos da guerra civil (1936-1939), que, de vez em quando, interrompia a pacatez local. A partir dos doze anos costumava assistir aos Exerc\u00edcios Espirituais que, anualmente organizava, durante o Ver\u00e3o, D. Juan Vidal Olleres, assistente da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, associa\u00e7\u00e3o que reunia os jovens dos 12 aos 17 anos. E n\u00e3o muito depois, pouco antes de completar os 15, vivi o c\u00e9lebre Cursilho de Cala Figuera, de que vos falarei mais adiante. A minha adolesc\u00eancia chegou quando o colapso mundial ia avan\u00e7ado, e tamb\u00e9m o sentimos pela car\u00eancia de alimentos. T\u00ednhamos que comer do que havia: p\u00e3o de milho e o que distribu\u00edam no racionamento, que n\u00e3o era muito, e alguma coisa que meu pai conseguia comprar na \u201ccandonga\u201d.\t Entretanto as asas cresciam e fortaleciam-se como que a prepararem-se para levantar voo. Esse dia chegou aos 19 anos (1948), quando me mudei para Barcelona, com a inten\u00e7\u00e3o de me submeter \u00e0 \u201cRevalida\u201d, em que fiquei aprovado, juntamente com Paco Grimalt e Toni Binimelis. Aprovado na Revalida e com o desejo de fazer carreira, aliadas \u00e0 necessidade de viver por meus pr\u00f3prios meios, mudei-me para Madrid, tendo assim rompido com o incipiente v\u00ednculo aos Cursilhos. Afastei-me de Felanitx e separei-me dos meus pais que me deram uma modesta mesada de apoio e por conselho um \u201cn\u00e3o fa\u00e7as disparates e n\u00e3o o estragues\u201d. Minha M\u00e3e ficou com os olhos humedecidos.  O tempo passou e entrei na Academia, preparei-me e concorri aos Servi\u00e7os Alfandeg\u00e1rios, lugar que obtive em 1961 com coloca\u00e7\u00e3o em Port Bou. De vez em quando ia at\u00e9 Felanitx. Foi durante as f\u00e9rias de 1953 que conheci Maria Mesquita Perell\u00f3 com quem 8 anos depois me casaria (27 de Setembro de 1961). Tivemos dois  formosos rebentos, Ant\u00f3nio Miguel (1962-), que me deu dois netinhos ador\u00e1veis (Miqel \u00c1ngel e Marc) e Valentina Maria de los \u00c1ngeles, (1963-1997), falecida num acidente fatal. Em 1965 fui colocado na Inspec\u00e7\u00e3o de Muelles de Palma de Maiorca, onde permaneci at\u00e9 1992, ano em que decidi aposentar-me por motivos de sa\u00fade, depois de ter sofrido um enfarte. Com o passar dos anos vieram os achaques e tamb\u00e9m os de minha querida Maria que, ap\u00f3s uma dolorosa e prolongada doen\u00e7a, faleceu (14 de Mar\u00e7o de 2002). Depois da morte de Maria, j\u00e1 nada era igual. A minha vida perdeu sentido e raz\u00e3o de ser. Afundei-me numa terr\u00edvel depress\u00e3o, sentia-me morrer, queria morrer\u2026 Momentos verdadeiramente dif\u00edceis. \t A Eucaristia e a ora\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio do Cen\u00e1culo Mariano da Virgem da Paz, de Buenos Aires, foram suporte e b\u00e1lsamo para as minhas feridas. Muito recentemente, sem que me desse conta, a semente lan\u00e7ada no Cursilho de Cala Figuera come\u00e7ou a palpitar, a dar sinais de vida. Tinha estado adormecida durante quase sessenta anos, \u00e0 espera de germinar, de dar os frutos desejados. O milagre ainda n\u00e3o tinha acontecido\u2026 \u201calgo\u201d (que agora sei que foi \u201cAlgu\u00e9m\u201d) animou-me a escrever umas quantas linhas na Internet, sem destinat\u00e1rio concreto. Depois de infrut\u00edferas tentativas, algu\u00e9m respondeu \u00e0 minha lac\u00f3nica nota; a sua resposta espont\u00e2nea, fraternal e de sincero interesse em conhecer-me, surpreendeu-me; sabia o meu nome, sabia de mim, de Cala Figuera, de Eduardo. Emocionei-me at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas, quase me comovi. N\u00e3o conseguia acreditar que um acontecimento que eu tinha praticamente esquecido, ocorrido quase h\u00e1 60 anos, num solit\u00e1rio e rec\u00f4ndito chal\u00e9, tivesse atingido tamanha dimens\u00e3o.  Sem o saber, o meu desconhecido interlocutor e os seus cada vez mais frequentes emails iam-me infundindo e dando \u00e2nimo, fazendo-me voltar \u00e0 vida e despertavam a semente. Aos seus emails seguiram-se outros emails, e logo outros e outros, de outros tantos cursilhistas internautas que generosa e fraternalmente tamb\u00e9m queriam saber de mim, de n\u00f3s, de Cala Figuera\u2026 A semente finalmente despontou e enraizou na pr\u00f3pria alma. Consumava-se o milagre. \u00c9 esta a raz\u00e3o, meus amigos, porque me atrevi a escrever, a falar-vos n\u00e3o s\u00f3 do que foi o Cursilho de Cala Figuera, mas tamb\u00e9m do milagre que produziu em mim, n\u00e3o precisamente no momento em que o vivi, mas 60 anos depois. O Senhor foi misericordioso e providente: gra\u00e7as ao facto daquela semente ter brotado, crescido e frutificado em abund\u00e2ncia o pesadelo ficou para tr\u00e1s; voltei para Ele; a minha vida tem sentido; Maria, Valentina e eu estamos em paz; tenho o meu filho e os meus netinhos; coisas ainda a fazer; experi\u00eancias a viver; entranh\u00e1veis la\u00e7os de amizade que se multiplicam rapidamente por todo o mundo. Tudo indiscut\u00edvel express\u00e3o do amor que Deus nos tem. Pude reencontrar-me comigo mesmo, com Deus e com o meu pr\u00f3ximo e, muito especialmente com o homem que, com o cora\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ou a semente no meu cora\u00e7\u00e3o, Eduardo Bonn\u00edn Aguill\u00f3, com quem, para al\u00e9m disso, como se tudo isto ainda fosse pouco, fa\u00e7o reuni\u00e3o de Grupo todas as quintas-feiras, \u00e0s seis da tarde em ponto. Posso desejar mais?&#8230; Obrigado Senhor! Dou-te muitas gra\u00e7as por Eduardo e por todos os muitos e bons amigos com quem me permites partilhar diariamente. Obrigado pela sua solid\u00e1ria e fraternal amizade que me devolveu a F\u00e9, a confian\u00e7a no Homem meu irm\u00e3o e o desejo de viver. Esta foi, queridos amigos, em poucas palavras, a minha pequena hist\u00f3ria, o que foi e o que \u00e9 a minha vida: encontros e desencontros, alegrias e tristezas e toda a esp\u00e9cie de vicissitudes entraram no meu alforge, onde, gra\u00e7as a Deus e ao Cursilho de Cala Figuera, ainda h\u00e1 espa\u00e7o, e muito, para o entusiasmo, a entrega e o esp\u00edrito de caridade.  Palma de Maiorca, Espanha, 20 de Agosto de 2004. De colores! Salvador Escribano Hern\u00e1ndez (Tradu\u00e7\u00e3o de Gaspar da Silva, MCC da Diocese de Santar\u00e9m, Portugal)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Completam-se hoje 60 anos sobre o final do primeiro Cursilho de Cristandade da hist\u00f3ria. O evento teve lugar em Cala Figuera de Santiny\u00ed, Maiorca, entre 20 e 23 de Agosto de 1944. 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