{"id":72550,"date":"2015-06-09T11:13:00","date_gmt":"2015-06-09T11:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2015\/06\/09\/comunidades-portuguesas-moldam-identidade-da-nacao\/"},"modified":"2015-06-09T11:13:00","modified_gmt":"2015-06-09T11:13:00","slug":"comunidades-portuguesas-moldam-identidade-da-nacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/comunidades-portuguesas-moldam-identidade-da-nacao\/","title":{"rendered":"Comunidades portuguesas moldam identidade da Na\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O secret\u00e1rio de Estado das Comunidades, Jos\u00e9 Ces\u00e1rio, concedeu uma entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA a respeito do Dia de Portugal, na qual sublinha a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de emigrantes e lusodescendentes em todo o mundo como fator identit\u00e1rio e como ativo para o pa\u00eds, a todos os n\u00edveis. O respons\u00e1vel elogia ainda o trabalho desenvolvido pelas miss\u00f5es cat\u00f3licas e por todo o movimento associativo na di\u00e1spora. <!--more--> <\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &#8211; H&aacute; milh&otilde;es de portugueses e lusodescendentes nos cinco continentes, um sentimento de portugalidade espalhado pelo mundo. At&eacute; que ponto &eacute; que isso marca a a&ccedil;&atilde;o governativa?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>Jos&eacute; Ces&aacute;rio (JC)<\/em> &#8211; A verdade &eacute; que Portugal &eacute; um pa&iacute;s de comunidade. De acordo com as estat&iacute;sticas que resultam dos dados dos nossos consulados, temos referenciados 2,3 milh&otilde;es de pessoas nascidas em Portugal espalhadas pelo mundo; temos de somar todos aqueles que t&ecirc;m nacionalidade portuguesa, o que se aproximar&aacute; dos 5 milh&otilde;es, no total. Evidentemente, h&aacute; as liga&ccedil;&otilde;es que eles t&ecirc;m com muitos outros lusodescendentes que, n&atilde;o tendo a nacionalidade, s&atilde;o pessoas de origem portuguesa.<\/p>\n<p> \tPortugal vale no mundo, em termos humanos, n&atilde;o por aqueles que est&atilde;o c&aacute;, mas pelo conjunto de pessoas que est&atilde;o espalhadas por praticamente todos os pa&iacute;ses, haver&aacute; muito poucos exce&ccedil;&otilde;es &#8211; n&atilde;o temos ningu&eacute;m referenciado na Coreia do Norte. Isto d&aacute; ao pa&iacute;s uma dimens&atilde;o extraordin&aacute;ria, uma mais-valia, mas evidentemente causa tamb&eacute;m muitas preocupa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> \t&Eacute; inquestion&aacute;vel que se tem de ver do ponto de vista positivo: esta presen&ccedil;a no mundo &eacute; um ativo pol&iacute;tico, cultural, econ&oacute;mico, diplom&aacute;tico, social. &Eacute; um ativo que tem de ser avaliado sob todos os prismas e tem de ser, tanto quanto poss&iacute;vel, trabalhado numa &oacute;tica de aproxima&ccedil;&atilde;o, eu diria de proximidade permanente entre todos os que aqui est&atilde;o &#8211; os poderes p&uacute;blicos, tamb&eacute;m a esfera privada &#8211; e os que est&atilde;o l&aacute;.<\/p>\n<p> \tEu devo dizer, pessoalmente, que &eacute; uma experi&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria ter podido ao longo destes anos &#8211; mais ou menos 15, de rela&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;xima -, tentar servir da melhor maneira poss&iacute;vel esta gente nos diversos lugares por onde passei. &Eacute; surpreendente, &eacute; extraordin&aacute;ria esta presen&ccedil;a no mundo e a sua rela&ccedil;&atilde;o com o pa&iacute;s de origem.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Quais s&atilde;o os principais eixos dessa pol&iacute;tica de proximidade com as comunidades?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JC<\/em> &#8211; N&oacute;s definimos j&aacute; h&aacute; muito tempo v&aacute;rias &aacute;reas em que nos movemos com maior intensidade, para poder garantir essa proximidade: um eixo muito ligado &agrave; l&iacute;ngua e &agrave; cultura; outro muito ligado &agrave; esfera administrativa, nomeadamente atrav&eacute;s da rede consular; um eixo que tem a ver com o acompanhamento dos fluxos migrat&oacute;rios, particularmente na &oacute;tica social, porque temos a&iacute; problem&aacute;ticas muito complexas; finalmente, a participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica e pol&iacute;tica, n&atilde;o apenas ligada &agrave; presen&ccedil;a &agrave;s esferas administrativas do pa&iacute;s onde est&atilde;o mas tamb&eacute;m a rela&ccedil;&atilde;o com o pa&iacute;s de origem, a dimens&atilde;o do associativismo que &eacute; muito importante para quem est&aacute; fora.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Historicamente, h&aacute; comunidades consolidadas em v&aacute;rios pa&iacute;ses e movimentos algo diferentes nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, em particular nos anos mais recentes, com alguma amargura na hora da sa&iacute;da. Como &eacute; que acompanha todo este processo?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JC<\/em> &#8211; Historicamente, os fluxos s&atilde;o muito claros: nos fins do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, essencialmente Brasil e outros pa&iacute;ses da Am&eacute;rica do Sul, particularmente a Argentina, um caso pouco analisado, mas muito interessante; tamb&eacute;m nesta altura, aparece muito a Am&eacute;rica do Norte, um fluxo com uma dimens&atilde;o enorme, e a presen&ccedil;a em &Aacute;frica que, naturalmente, tem muito a ver com a hist&oacute;ria das nossas antigas col&oacute;nias.<\/p>\n<p> \tA partir dos anos 50 do s&eacute;culo XX come&ccedil;a a haver uma inflex&atilde;o: o Brasil ainda tem muita dimens&atilde;o, tamb&eacute;m os Estados Unidos e o Canad&aacute;; nos anos 60 e 70, a emigra&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a ser predominantemente europeia, com a Fran&ccedil;a, o Luxemburgo e a Alemanha a despontar.<\/p>\n<p> \tNos &uacute;ltimos anos, surgem outros pa&iacute;ses, como a Su&iacute;&ccedil;a e a Espanha, que foi um epifen&oacute;meno de 20 anos que durou fundamentalmente at&eacute; 2007, e o Reino Unido, que hoje se destaca.<\/p>\n<p> \tH&aacute; carater&iacute;sticas sociol&oacute;gicas diferentes entre a emigra&ccedil;&atilde;o que t&iacute;nhamos at&eacute; h&aacute; meia d&uacute;zia de anos e a que temos hoje. Agora a emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; um fen&oacute;meno mais urbano e n&atilde;o rural. O emigrante proveniente de meios rurais estava mais predisposto ao sacrif&iacute;cio, para um trabalho mais intenso, mais duro; o emigrante de meios urbanos tem um n&iacute;vel de forma&ccedil;&atilde;o mais elevado, em regra, mas n&atilde;o quer dizer que em termos pr&aacute;ticos essa habilita&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica lhe sirva de muito ou que n&atilde;o v&aacute; fazer a mesma coisa que os pais e os av&oacute;s. Estamos a falar de realidades muito diferentes.<\/p>\n<p> \tCome&ccedil;amos a ter uma emigra&ccedil;&atilde;o por op&ccedil;&atilde;o, que &eacute; muito de quadros: como a Economia muda completamente, num quadro completamente globalizado, as empresas n&atilde;o olham para o mercado do seu pa&iacute;s, apenas. Olhar para o mercado global significa que o emprego j&aacute; corresponde a essas necessidades e &eacute; por isso que algu&eacute;m que entre numa dessas empresas &#8211; e n&atilde;o estou a falar apenas das grandes multinacionais &#8211; leva na sua cabe&ccedil;a um itiner&aacute;rio de vida que passa por v&aacute;rios pa&iacute;ses.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>JC<\/em> &#8211; Tamb&eacute;m n&atilde;o podemos esquecer o que se passou no Oriente, determinando que l&aacute; tivessem ficado at&eacute; hoje comunidades lusodescendentes de grande dimens&atilde;o e com uma liga&ccedil;&atilde;o espiritual, cultural muito intensa a Portugal. Este &eacute; o quadro em que nos movemos, quando analisamos de um modo geral, quantitativa e qualitativamente, a nossa presen&ccedil;a no mundo.<\/p>\n<p> \tEsta realidade &eacute; muito diversificada, multifacetada e n&atilde;o deixa de ser complexa para quem quer desenvolver as tais pol&iacute;ticas de proximidade.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A Igreja Cat&oacute;lica foi criando uma rede pr&oacute;pria junto das comunidades e mant&eacute;m um conjunto de miss&otilde;es portuguesas. Como &eacute; que o Governo articular a sua a&ccedil;&atilde;o com esta presen&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JC<\/em> &#8211; Diria que &eacute; para n&oacute;s das entidades absolutamente fundamentais neste di&aacute;logo, nesta rela&ccedil;&atilde;o. Atrav&eacute;s da Obra Cat&oacute;lica Portuguesa de Migra&ccedil;&otilde;es, temos desenvolvido v&aacute;rias a&ccedil;&otilde;es e parcerias, desde o apoio aos presos portugueses que est&atilde;o no Peru &#8211; 68, neste momento &#8211; at&eacute; ao acompanhamento de pessoas que ficam desempregadas ou em situa&ccedil;&otilde;es de explora&ccedil;&atilde;o, como tem acontecido na Su&iacute;&ccedil;a, na Alemanha, em v&aacute;rios pontos do mundo.<\/p>\n<p> \tEssa rela&ccedil;&atilde;o faz-se diretamente com a Obra Cat&oacute;lica e pontualmente com as miss&otilde;es. H&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de muita proximidade entre estas e realidades com hist&oacute;ria, no contexto da solidariedade social, realidades muito portuguesas: as miseric&oacute;rdias, as sociedades de benefic&ecirc;ncia. S&atilde;o institui&ccedil;&otilde;es indispens&aacute;veis sob o ponto de vista da rela&ccedil;&atilde;o com p&uacute;blicos espec&iacute;ficos que t&ecirc;m problem&aacute;ticas sociais.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o me esque&ccedil;o de que uma grande parte do trabalho que temos desenvolvido no dom&iacute;nio do aconselhamento a quem quer emigrar &#8211; nestes quatro anos realizamos uma campanha destinada a transmitir informa&ccedil;&atilde;o, lan&ccedil;ar alertas &#8211; decorreu muito em articula&ccedil;&atilde;o com algumas miss&otilde;es, com a Obra Cat&oacute;lica. Esta organiza&ccedil;&atilde;o que a Igreja Cat&oacute;lica tem, a n&iacute;vel das comunidades, &eacute; absolutamente insubstitu&iacute;vel, &eacute; talvez a grande rede das nossas comunidades.<\/p>\n<p> \tAtualmente h&aacute; outra que tamb&eacute;m tem de ser considerada, embora seja muito menos conhecida em Portugal, que &eacute; a rede das Academias do Bacalhau.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; H&aacute; um desejo assumido a ajudar alguns dos nossos emigrantes a voltar ao pa&iacute;s, al&eacute;m de todos os lusodescendentes que se pretendam instalar em Portugal. Como &eacute; que o Governo espera que este processo se venha a desenrolar?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JC<\/em> &#8211; N&oacute;s estamos a trabalhar nalguns mecanismos que possam vir a facilitar esse regresso ou essa aproxima&ccedil;&atilde;o, de vinda de pessoas que nasceram l&aacute; fora. Ainda n&atilde;o est&atilde;o totalmente definidos, mas independentemente disso, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que esse fluxo n&atilde;o deixou de existir, &eacute; muito significativo: gente que sem vem fixar c&aacute; definitivamente ou tem vidas divididas entre os locais para onde foi, h&aacute; longos anos, e a sua terra de origem ou aquela que adotaram como sua, em Portugal.<\/p>\n<p> \tHouve uma coisa, sobretudo, que me encheu de j&uacute;bilo nos &uacute;ltimos anos: foi ver nascer em Portugal as primeiras associa&ccedil;&otilde;es de lusodescendentes. Pessoas que come&ccedil;aram a fixar-se c&aacute;, descobriram que Portugal n&atilde;o era o pa&iacute;s atrasado que se divulgou durante muito tempo, que &eacute; igual ou at&eacute; mais desenvolvido do que os pa&iacute;ses onde eles estavam. &Eacute; um pa&iacute;s com uma realidade econ&oacute;mica, cultural, seguro, muito interessante. Vieram uma vez, duas, tr&ecirc;s, quatro, trouxeram amigos, foram-se fixando por c&aacute;. &Eacute; uma realidade muito associada aos fluxos tur&iacute;sticos, s&atilde;o pessoas que &agrave; partida t&ecirc;m uma grande facilidade de rela&ccedil;&atilde;o com os que estavam no pa&iacute;s de onde vieram, s&atilde;o quadros muito interessantes para as empresas que se dedicam a essas atividades, para a &aacute;rea do imobili&aacute;rio. Muitas vezes o interlocutor &eacute; exatamente um lusodescendente.<\/p>\n<p> \tEste &eacute; um aspeto que me enche de satisfa&ccedil;&atilde;o e que &eacute; a prova de que Portugal &eacute; mesmo o centro claro de toda esta realidade humana que s&atilde;o as comunidades, a di&aacute;spora portuguesa. Esta mant&eacute;m uma rela&ccedil;&atilde;o muito intensa com o seu pais, que &agrave;s vezes &eacute; o dos seus av&oacute;s, dos seus bisav&oacute;s.<\/p>\n<p> \tDeixo uma nota final que vale a pena ter em considera&ccedil;&atilde;o e se prende com um facto muito recente. Na &uacute;ltima semana, a Assembleia da Rep&uacute;blica tomou uma decis&atilde;o muito importante, de modo a permitir que os netos de cidad&atilde;os nacionais com o m&iacute;nimo de la&ccedil;os com Portugal possam vir a adquirir a nacionalidade origin&aacute;ria, que nunca tiveram. Esta decis&atilde;o &eacute; das decis&otilde;es com maior alcance pol&iacute;tico e humano que j&aacute; alguma vez tivemos, que vai ao encontro de muitas comunidades, sobretudo de pa&iacute;ses da chamada imigra&ccedil;&atilde;o transoce&acirc;nica &#8211; Venezuela, Argentina, Brasil, EUA, &Aacute;frica do Sul &#8211; em que havia um fen&oacute;meno: as pessoas emigraram e os seus filhos nasceram l&aacute;, estavam longe dos consulados, pelo que nunca puderam tratar dos documentos e n&atilde;o adquiriram a nacionalidade; os netos dos emigrantes sofreram essa consequ&ecirc;ncia, que para os pais n&atilde;o era um problema, porque se sentem portugueses, &agrave;s vezes at&eacute; s&atilde;o c&aacute; propriet&aacute;rios, e n&atilde;o podiam ter a nacionalidade. &Eacute; uma decis&atilde;o que representa uma aproxima&ccedil;&atilde;o muito grande a essas comunidades e eu fico muito satisfeito por ver esse passo dado.<\/p>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<em><span style=\"text-align: -webkit-right;\">Oct&aacute;vio Carmo<\/span><\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O secret\u00e1rio de Estado das Comunidades, Jos\u00e9 Ces\u00e1rio, concedeu uma entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA a respeito do Dia de Portugal, na qual sublinha a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de emigrantes e lusodescendentes em todo o mundo como fator identit\u00e1rio e como ativo para o pa\u00eds, a todos os n\u00edveis. 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